Na década de 1990, em plena Amsterdã, conhecida como a cidade do sexo, no contexto mais liberal e pós-moderno do mundo, meu amigo David Pierce não se envergonhou em cantar uma música como essa: “No sex before marriage!” (nada de sexo antes do casamento).

Evidentemente, o David não estava muito preocupado com sua popularidade ou reputação. De uma maneira criativa e divertida, ele passava sua mensagem nos lugares e para as platéias mais improváveis possíveis.

Isso é bem diferente do que eu vejo acontecendo hoje em dia.

Muitos pastores, líderes, conselheiros e mentores cristãos, provavelmente sentindo a pressão de uma cultura cada vez mais obcecada com o sexo, e/ou desejosos de comunicar uma mensagem que não soe como “castradora da alegria” estão passando um recado de liberação sexual que não é bíblico e nem saudável.

Como escrevi no texto Free Love Is Neither, a revolução sexual mentiu. O mundo pós-revolução pelo amor livre não é mais feliz nem mais saudável. Pelo contrário, o que presenciamos são índices cada vez maiores de DSTs, depressão, ansiedade, filhos ilegítimos e divórcios (mesmo depois de tanta tentativa antes de se casar, parece que os casais de hoje estão acertando muito menos do que aqueles que não fizeram tentativa alguma).

Vez por outra alguém vem conversar comigo sobre sexo e solta a clássica desculpa: “Mas a Bíblia não diz que deve-se esperar até o casamento!”

Não, a Bíblia não diz isso dessa maneira.

O que a Bíblia diz, de muitas maneiras e de forma inequivoca, é que o contexto onde o sexo é visto como uma bênção e dádiva de Deus é a relação entre um homem e sua mulher na aliança de casamento.

Todas as outras circunstâncias do relacionamento sexual que não se enquadram neste contexto são descritas, na Bíblia, como pecado.

Isso soa radical, careta, ultrapassado, repressivo, obscurantista?

Talvez.

Mas prefiro ficar com o conselho daquele que criou o sexo como algo bom, prazeiroso e construtivo, do que com todos os outros conselhos que já sabemos bem onde terminam.

“…no I’ll never be satisfied, untill it ends in tears…” (Living Colour)

O último disco da banda Metallica, lançado em 2008, chama-se Death Magnetic (algo como “morte magnética”). A capa e as artes no interior do encarte, retratam uma sepultura atraindo tudo à sua volta como se fosse um grande ímã. Parece que a banda está tentando nos lembrar a realidade da morte não apenas próxima, mas como algo que está atraindo lentamente a nossa vida. Em sua primeira carta aos cristãos de  Corinto, no capítulo 15, Paulo chama esta realidade de nossa mortalidade e corruptibilidade.

Num ensaio escrito para o livro What God Knows (O que Deus Sabe), entitulado Meeting the Cosmic God in the Existential Now (Encontrando o Deus Cósmico no Agora Existencial), o sociólogo cristão Tony Campolo trata da relação com um Deus que transcende o tempo. Abaixo estão alguns trechos do texto de Campolo:

Ao refletir sobre como o tempo é relativo ao movimento, quero declarar que acredito que Deus é capaz de experimentar o tempo na velocidade da luz. Para Deus, todo o tempo pode ser comprimido no que o teólogo Emil Brunner chamou de “o eterno agora.” Todas as coisas acontecem “agora” com Deus. Com Deus, mil anos são como um dia, e um dia é como mil anos (Salmo 90.4). O próprio nome de Deus implica esta realidade. O nome de Deus é “Eu Sou.” Deus nunca “era”, e Deus nunca “será”. Deus é sempre “agora”.

Jesus não foi apenas um homem que viveu, morreu e ressuscitou historicamente; Ele também é o Deus para quem todas as coisas estão no momento presente. É por isso que ele podia dizer aos fariseus: “Antes que Abraão existisse, eu sou” (João 8.58). Jesus não estava usando uma gramática pobre quando falou assim. Em vez disso, ele estava declarando sua divindade. Ele estava dizendo que o tempo antes que houvesse um Abraão é tempo presente para ele. Por causa de sua divindade, ele experimenta todos os eventos no tempo e na história, como se estivessem acontecendo para ele no presente.

Quando Jesus foi pendurado na cruz do Calvário cerca de dois mil anos atrás, sendo Deus, ele estava – e está – simultaneamente comigo aqui e agora. Agora mesmo, sou pego em seu eterno agora. Os séculos que me separam do sofrimento de Jesus no Gólgota são comprimidos, como se à velocidade da luz, de modo que do ponto de vista dele, ele está comigo neste exato momento. Isso significa que, agora, no sentido que Deus tem do tempo, enquanto ele está pendurado na cruz, ele é capaz de ter empatia por mim, e por meio de uma espécie de osmose espiritual, absorver em si todo o pecado e escuridão da minha vida.

Na cruz há dois mil anos, ele levou o castigo pelo meu pecado, mas agora mesmo, no seu eterno agora, ele é capaz de me alcançar daquela velha rude cruz. Como um ímã, ele pode tirar de mim todo o mal que faz parte do minha humanidade, como se fosse algumas limalhas de ferro.

Jesus, sendo Deus, pode purificar-nos hoje, porque ele é, nas palavras do teólogo existencialista dinamarquês, Søren Kierkegaard,”o eternamente crucificado.”

Toda vez que eu peco, naquele mesmo instante Jesus geme em agonia no Calvário. Mesmo enquanto peco hoje, ele experimenta a agonia de ingerir o meu pecado em si mesmo no seu eterno agora, pendurado com os braços abertos lá no madeiro. É por isso que diz em Hebreus 6.6 que, quando pecamos, estamos crucificando-o novamente. Em certo sentido, quando pecamos, o crucificamos agora mesmo.

Eu estava em uma faculdade cristã, que é uma das nossas cidadelas de pureza evangélica, conversando com um aluno que estava um pouco preocupado com o fato de que ele era evangélico, mas estava transando com duas garotas. Disse a ele: “Como você concilia tudo isso com ser cristão? “Ele disse:” Bem, eu acredito que Jesus cuidou de tudo isso há muito tempo e bem longe “. Eu disse: “A próxima vez que você estiver cometendo fornicação, espero que você possa ouvir Jesus gritando de dor no fundo. Porque naquele exato momento ele está simultaneamente com você, absorvendo em seu próprio corpo, o pecado que você está cometendo”.

Não é à toa que Paulo diz que não ousemos pecar para que a graça abunde (Romanos 6.1) pois, enquanto pecamos, dois mil anos atrás na cruz, Jesus atravessa o tempo e o espaço, e atrai os pecados em seu próprio corpo perfeito, como se fossem limalhas de ferro e ele um ímã.

Em 1 João 1.9 nos diz o seguinte: se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo. Ele perdoará os nossos pecados e nos purificará. A teologia Reformada baseia o perdão sobre o que ele fez lá atrás, no Calvário. Mas alguma coisa tem que acontecer agora! Você tem que se render na quietude de Cristo na cruz e deixar que ele o purifique. E não venha me dizer que você não precisa ser purificado.

A resposta para o magnetismo da morte é o magnetismo da cruz. A resposta para a sensação de presença e atração da morte, é a certeza da presença atrativa de Jesus. A resposta para a mortalidade e corruptibilidade de nosso corpo é a ressurreição.

A morte é mesmo um inimigo mortal de todos nós. Todavia mesmo a morte não tem a palavra final diante de Jesus, aquele que venceu a morte com sua ressurreição. Como expressou Tony Campolo, sendo Deus, Jesus não é apenas alguém que viveu no passado, mas que vive no eterno agora e que pode ser encontrado por todos o que o buscam hoje. Ele disse: “Eu sou a ressurreição e a vida. Aquele que crê em mim, ainda que morra, viverá.”

“A maior causa do ateísmo hoje são cristãos, que reconhecem com seus lábios e negam com seu estilo de vida. Isso é algo que um mundo incrédulo simplesmente acha inacreditável.”

Brennan Manning morreu ontem. Seu legado continuará através dos muitos livros que ele escreveu, sendo o mais conhecido deles “O Evangelho Maltrapilho”.

Li Manning pela primeira vez em 1998. Eu estava viajando com o diretor de uma publicadora cristã, visitando editoras cristãs nos EUA, em busca de livros para publicar em português. Numa pequena cidade (aprox. 800 habitantes) no interior do estado do Oregon, chamada Sisters (por causa das lindas montanhas “irmãs” cobertas de neve), fomos à Multinomah, que havia publicado The Ragamuffin Gospel. O diretor brasileiro não estava interessado no livro (um pena), mas eu sim. Meu interesse por Manning e The Ragamuffin Gospel veio através da música. Artistas como Rich Mullins e Michael W. Smith estavam falando muito bem do livro. A frase acima havia sido usada na introdução de uma música do dcTalk no album Jesus Freak. Eu queria muito ler esse livro. Então, na cara-de-pau, pedi um exemplar para mim. Foi um dos livros que marcou minha jornada como cristão.

Em 2005 quase encontrei com o Manning numa conferência na Califórnia. Ele cancelou a participação na última hora porque sua cidade havia sido devastada pelo furacão Katrina.

Franciscano, Manning foi provavelmente um dos autores católicos mais lidos no meio evangélico nos últimos anos. Seu último livro foi sua autobiografia, All Is Grace: A Ragamuffin Memoir (publicado no Brasil com o título “Deus o ama do jeito que você é”, pela Mundo Cristão).

Alguns de meus amigos reformados não gostam muito de Manning. Acham seus escritos cheios de misticismo e cheirando a “graça barata”. Alguns cristãos pós-modernos, de fato, usam Manning para justificar seus desvios e viver, de fato, uma graça barata. Manning, com seu grande coração, acolheria a ambos para um diálogo amigo. E, provavelmente, rejeitaria a ideia de que seus escritos sobre a graça sejam uma justificativa para continuar pecando.

Espero conhecê-lo naquele Dia.