Teologia da Missão Integral em Debate

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Nesta postagem, farei uma compilação das declarações, cartas, textos e reações ao recente debate sobre a Teologia da Missão Integral. O debate pode não ter acontecido ao vivo, mas acabou acontecendo de algum modo, no Face Book e outros canais. Meu interesse ao reunir as informações é que estudiosos (atuais e futuros) do tema em questão, encontrem facilmente essas informações e continuem com a conversação (ou debate) saudável que promova crescimento.

Este não é um tema estranho para mim. Em fevereiro de 2008, fiz neste blog, uma postagem intitulada De Ganhar Almas Para Missão Integral, onde narro de modo simples sobre como mudei minha visão missionária do conceito de “ganhar almas” para uma missão integral. CREIO e DEFENDO uma missão integral: todo Evangelho ao homem todo em todo mundo. Cumprir com essa missão tem sido meu anseio e esforço comunitário durante todos esses anos junto com a igreja onde sirvo. Todavia, quando se fala de Teologia da Missão Integral, é importante lembrar que trata-se de uma teologia ainda em sua primeira infância, portanto parece-me ingênuo acatar totalmente ou rejeitar prontamente uma teologia que carece ainda de muito estudo, discussão, questionamentos, discordâncias, avaliação. etc., para que possa amadurecer.

As discussões na rede começaram mesmo antes do programa Academia em Debate, dirigido pelo Dr. Augustus Nicodemus Lopes, ter sido disponibilizado ao público. Aparentemente, já havia no ar uma certa tensão em torno do tema da teologia da Missão Integral. Logo que o programa, com o termo “debate” no título foi ao ar, começaram as diversas reações. Seria praticamente impossível reproduzir tudo que foi postado e comentado entre os dias 20 e 23 de Maio no FB e Twitter, mas confiando que esse debate é enriquecedor para o amadurecimento dessa forma de pensar teologicamente, vale a pena continuar refletindo sobre os principais textos que surgiram nessa discussão.

Primeiro, segue abaixo a edição 37 do programa Academia em Debate que, como diz o texto no site, trata-se de um “programa de entrevistas da Chancelaria da Universidade, que aborda temas acadêmicos relacionando-os à teologia reformada de acordo com à confessionalidade da Universidade Presbiteriana Mackenzie.” Para quem não viu ao programa, sugiro assistir antes de continuar a leitura.

Reagindo ao programa, Jorge Barro, fundador e diretor da FTSA, uma faculdade que há mais de 20 anos divulga e ensina teologia pelo viés da Missão Integral, e atual presidente continental da Fraternidade Teológica, postou o seguinte:

“Gente, parece que está virando moda atacar a Missão Integral no Brasil. Assisti ao vídeo do programa “Academia em Debate”, o número 37, da TV Mackenzie, liderado por Augustus Nicodemus Lopes entrevistando Jonas Moreira Madureira e Filipe Costa Fontes, sobre Teologia de Missão Integral.
Ficou claro que tanto o Jonas como o Filipe pouco conhecem da Teologia Latino Americana e que em vários momentos um olhava para o outro demonstrando suas inseguranças. O Filipe chamou a FTL de “Fraternidades Teológicas Latino Americanas” (no plural). Demonstraram, os 3, que ainda estão no marco da discussão iniciada pelos norte-americanos (especialmente batistas do sul) sobre a prioridade do “pregar” em relação ao “demonstrar” o evangelho. Filipe inclusive cita Marcos 16:15 afirmando a prioridade de “pregar” o evangelho. O Filipe se espantaria se perguntasse ao próprio evangelista Marcos o que ele entende por evangelho e certamente perceberia que tal coisa não existe em Marcos.
Mas nem quero me ater aos detalhes do que eles falaram, pois isso seria infrutífero. Apenas citei esse exemplo acima para que alguém não tenha a tentação de dizer que estou sendo genérico.
O que quero comentar, brevemente, é a atitude (motivação?) de tal programa, o número 37.
Durante a entrevista Nicodemus fez a seguinte pergunta (que a meu ver, foi uma afirmação): “Por que as críticas a teologia de missão integral às vezes são recebidas até com rancor e ressentimento por parte dos evangélicos?”.
As pessoas maduras discutem ideias; as imaturas discutem pessoas. Como teria sido adequado e ético que nessa entrevista tivesse sido convidada alguma pessoa envolvida com o movimento da missão integral. Ao contrário, foram convidados dois professores do Andrew Jamper. Por que? Convide 3 professores contra as propostas de educação de Paulo Freire para “debater” sobre suas ideias. Isso se chama diálogo?
Note nessa foto que posto aqui, da proposta do próprio programa, duas coisas interessantes:
1. O nome do programa: “Academia em Debate”. Debate entre iguais é estéril e não estimula a imaginação e nem oportuniza o outro expor suas posições. Essa é uma das riquezas da Fraternidade Teológica Latino Americana, que estimula a sentar a mesa pessoas que discordam determinados assuntos, mas que concordam que Jesus é o Senhor e que as Escrituras são fonte de vida. Uma vez que a FTL foi mencionada nessa entrevista, aproveito para mostrar quais são suas finalidades:
- Promover a reflexão em torno do Evangelho e seu significado para o ser humano e a sociedade na América Latina. Com esta finalidade estimula o desenvolvimento de um pensamento evangélico atento aos desafios da vida no continente latino-americano. Para tal reflexão se aceita o caráter normativo da Bíblia como a palavra escrita de Deus, ouvindo, sob a direção do Espírito Santo, a mensagem bíblica em relação às ambiguidades da situação concreta.
- Constituir uma plataforma de diálogo entre pensadores que confessam a Jesus Cristo como Salvador e Senhor e que estejam dispostos a refletir à luz da Bíblia, a fim de comunicar o Evangelho em meio às culturas latino-americanas.
- Contribuir para a vida e missão das Igrejas Evangélicas no Brasil e na América Latina, sem pretender falar em nome delas e nem assumir a posição de seu porta-voz no Brasil (www.ftl.org.br).
2. “Comentários estão desabilitados para este vídeo”. Ou seja: falam o que pensam e não dão o direito de serem interpelados – é um NÃO ao diálogo. É isso? Tem certeza Nicodemus que são os teólogos da missão integral que recebem críticas com rancor e ressentimento?
Eu afirmo por mim, como também pela maioria dos irmãos e irmãs que se esforçam para que o evangelho de Jesus Cristo seja pregado e manifestado em palavras e ações, como Jesus (Lucas 14:19 – “Jesus de Nazaré… um profeta, poderoso em palavras e em obras diante de Deus e de todo o povo”) de modo integral, que:
- não sou marxista
- não sou contra a igreja
- prego o evangelho
- amo meu Senhor Jesus
- amo ensinar o povo de Deus para cumprir a missão de Deus no mundo
- não sou teólogo por causa da teologia, mas por causa da missão de Deus
- me esforço para ser encontrado fiel a Palavra de Deus
Fiquei me perguntando várias vezes: “Eles mencionam os teólogos da missão integral. De quem estão falando? Quem são essas pessoas? Quem eles têm em mente? Por que não dão nomes? Por que falam de modo genérico?”
Se vocês Augustus Nicodemus, Jonas Madureira e Filipe Fontes quiserem encontrar alguns destes teólogos/as e aproveitar para dialogar com eles/as, estão convidados para participar do Congresso Internacional de Missão Integral que será realizado pela Faculdade Teológica Sul Americana e Missão SIM, de 8 a 10 de agosto de 2014, aqui na cidade de Londrina (www.missaointegral.com.br).
Bênçãos para vocês três irmãos!
Jorge Barro, frater minor”

O pastor Ariovaldo Ramos também postou em seu perfil no Face Book, uma Carta Aberta respondendo ao Programa da seguinte forma:

Carta aberta ao programa “Academia em Debate”, do Centro Presbiteriano Andrew Jumper, de Pós-graduação, na Tv Mackenzie (digital experimental) apresentado pelo Rev. Doutor Augustus Nicodemus Gomes Lopes, na sua edição n° 37.
Raramente me presto a tecer considerações sobre as tentativas de análise à chamada Teologia da Missão Integral, feitas em território nacional, porque, na maioria das vezes, tais intentos são pautados pela ignorância, pela má fé, pela desonestidade intelectual, pela ausência de rigor acadêmico e pelo mero preconceito.
Desta feita, entretanto, por se tratar de interlocutor que merece audição, posto uma carta aberta ao programa “Academia em Debate”, do Centro Presbiteriano de Pós-graduação Andrew Jumper, apresentado pelo Rev. Doutor Augustus Nicodemus, que priva do respeito de todos os seus pares, entre os quais me incluo.
O programa convidou dois pastores e filósofos: Rev. Jonas Madureira e Rev. Filipe Fontes para tecerem comentários à TMI. Apesar de entender que os comentadores foram, possivelmente, traídos pela tempo escasso que lhes foi concedido, por força do limite natural ao veículo da comunicação; gostaria de tecer algumas impressões sobre o conteúdo das exposições.
Celebro a intenção do programa, porém, os comentários não manifestaram análise técnica, uma vez que as afirmações não foram sustentadas por referencial teórico, não deixando aos espectadores outra opção, senão, a de crerem na veracidade das falas, pela suposição de estarem diante de autoridades competentes, embora não tenha sido apresentada nenhuma credencial dos mesmos como estudiosos do tema em questão, o que não tolda a qualidade dos mesmos nas áreas em que tenham se especializado.
As colocações dos convidados não elucidaram o tema, suas críticas, de fato, por falta de rigor, mais pareceram meros ataques, e soaram como opiniões pessoais, acabando por correr o risco de ter prestado um desserviço ao debate teológico, sempre tão necessário, principalmente, neste momento da Igreja brasileira, tão vilipendiada por causa de maus exemplos, principalmente, midiáticos, e acossada por tantos ventos doutrinários.
À guisa de contribuição, como simpático ao conteúdo veiculado pelos teólogos proponentes dessa reflexão teológica, a TMI, dos quais destaco, por antigüidade, Renê Padilla, Pedro Arana e Samuel Escobar, faço as seguintes e próprias menções sobre as ênfases da TMI:
1- A TMI nasce das reflexões, principalmente, dos teólogos citados, nas décadas de 50 e de 60, e que foram apresentadas nos CLADEs, Congressos Latino-Americanos de Evangelização, realizados em Bogotá – Colômbia (1969), Huampani – Peru (1979), Quito – Equador (1992 e 2000), Tais reflexões foram iniciadas e propostas antes do que veio a ser conhecido como Teologia da Libertação (Gustavo Gutierrez, 1971), também latino-americana.
2- O que há de coincidente entre ambas teológicas latino-americanas é o fato de serem teologias da Práxis, isto é, reflexões teológicas sobre a ação da igreja, como propagadora do Evangelho, no cotidiano da sociedade em que está incrustada.
3- A ênfase da reflexão da TMI, sobre a prática da Igreja, voltada para o cotidiano, parte da proposição do Prof Padilla, de que a evangelização não desconsidera o contexto do evangelizando.
4- A proposição de Padilla se sustenta no declaração do Senhor Jesus, de que o Evangelho é do Reino (Mt 24.14; Lc 4.43), portanto, tendo como conteúdo as boas notícias da chegada de uma nova ordem mundial (Dn 2.44), manifesta pela Igreja, porém, só implantada na volta visível e triunfal do Cristo. Daí há pecado pessoal e pecado estrutural. E para ambos pecadores a Igreja propõe arrependimento.
5- Só será possível participar dessa nova ordem pelo novo nascimento, que é sempre pessoal, porém, graças às boas obras, que são a luminosidade da Igreja, a sociedade, em geral, será beneficiada, e levada a dar graças a Deus (Mt 5.16).
6- O chamado Pacto de Lausanne é fruto do Congresso Mundial de Evangelização realizado, em 1974, na cidade de Lausanne, na Suíça; graças ao trabalho de John Stott, reconhecido teólogo Anglicano, já falecido, que promoveu o encontro entre a teologia dos irmãos do Norte, com a contribuição missiológica da reflexão teológica latino-americana, denominada de TMI, e com as contribuições africanas e asiáticas, cujo resultado foi sintetizado na frase: “O Evangelho todo, para o homem todo, para todos os homens”.
Onde “o Evangelho todo” é compreendido como o poder de Deus para a Salvação de todo o que crê, assim como o poder de Deus para interferir na estrutura da sociedade, para dar sobrevida à humanidade, pela promoção da justiça. Como se pode verificar na irrupção da chamada modernidade, a era dos direitos humanos, iniludível fruto do cristianismo.
Onde “o homem todo” é a compreensão do ser humano como ser complexo, com potencial cognoscente, religioso, fabril, econômico, social, político, comunitário, lúdico, artístico – que a tudo afeta e por tudo é afetado – portanto, alcançado pelas boas notícias do Reino, quando os sinais da presença do Reino se manifestam nele, e em tudo o que o afeta e por ele é afetado.
Onde a proposição “todos os homens” compreende a totalidade das nações humanas, que devem ser alcançadas pelo anúncio do evangelho do Reino de Deus, tanto no âmbito pessoal-familiar, como no âmbito da organização sócio-política, e que serão julgadas por suas práticas no trato do ser humano, frente a forma como se organizaram, e construíram os relacionamentos internacionais e intersociais (Mt 25.31-46).
7- A TMI é Ortdoxa, sustentando os paradigmas histórico-bíblicos da fé protestante, porém, ampliando a compreensão missiológica da Igreja como agência da “Missio Dei”, uma vez que toda a iniciativa é do Altíssimo Deus Trino. Talvez, nessa compreensão, seja melhor intitular a reflexão de “A Teologia Com Missão Integral”.
8- A TCMI faz exegese histórico-gramatical; e sua hermenêutica parte da sacralidade, inerrância e infalibilidade da Bíblia, na busca pelo mais próximo possível do sentido original, porém, no afã de aplica-lo da forma mais compreensível, relevante e provocadora de transformação ao contemporâneo; sua abordagem fática serve-se da interdisciplinariedade, uma vez que, o que chamamos de realidade demanda muitos e distintos observadores para poder ser proposta como tal. E procuramos discerni-la para entender as perguntas a que devemos responder, nunca para nortear ou compor com o kerigma, a proclamação.
9- O referencial teórico da TCMI é a doutrina da presença (Lc 17.21) e da iminência do
Reino de Deus, onde o Reino é compreendido como o Governo do Ungido pela implantação da sua Justificação e Justiça. A Igreja, então, se vê, no cotidiano, como anunciadora da justificação, e sinalizadora da presença e do princípio do Governo do Ungido, pela busca por fazer manifesto e aplicado o conceito judaico-cristão de justiça.
10- A priorização do pobre não é vista como uma opção, mas, como demanda do Cristo, que apresentou a pregação do evangelho aos pobres como uma de suas credenciais messiânicas (Mt 11.5).
Sem mais, no anseio de colaborar com o debate teológico, que desejo, um dia, se instaure,
Ariovaldo Ramos

 Seguindo as duas reações críticas ao Programa, cada um dos participantes também postou em seus perfis no FB, respostas e esclarecimentos. Primeiro, o Dr. Augustos Nicodemos Lopes, dirigiu sua resposta à Carta Aberta do Ariovaldo Ramos:

Caro Pr. Ariovaldo Ramos,
Muito obrigado por sua resposta irênica, tranquila e respeitosa. Saiba que o respeito e a consideração são mútuos. Permita-me uma ou duas palavras à guisa de interação com sua “Carta Aberta”.
Primeira, com relação ao programa “Academia em Debate”, seu nome e seu formato. Já por mais de cinco anos apresento este programa, que durante este tempo tem tratado de diversos assuntos que considerei relevantes para a academia secular e cristã, como você poderá facilmente verificar por uma pesquisa no YouTube.
O nome “Academia em Debate” significa simplesmente que vamos conversar sobre temas que estão sendo debatidos na academia. O formato do programa sempre foi o de apresentar pontos de vista mediante o sistema de perguntas e respostas a pessoas convidadas, e não promover um programa com dois debatedores de posições opostas. O debate que queremos gerar é este que está acontecendo agora. Você publicou uma resposta pensada, respeitosa e estudada, o que dificilmente aconteceria num confronto de 30 minutos. Agora, os que estão clamando por “debate,” podem ler sua resposta e tirar suas próprias conclusões.
É assim que o debate acadêmico se processa, e não pela “briga de galos” em público, que acaba gerando mais calor do que luz e serve para satisfazer ao desejo de muitos que estão mais interessados na competição dos intelectos do que na consecução da verdade.
Dito isto, passo ao conteúdo de sua “Carta Aberta”. Qualquer pessoa que assistiu ao programa e leu sua carta com atenção verificará a concordância em muitos pontos: a sustentação das Escrituras como a Palavra de Deus, o desejo de obedecer ao Evangelho, a consciência de que cuidar dos pobres e promover a justiça faz parte do Evangelho, entre outros. Os pontos de controvérsia são relacionados ao referencial teórico da TMI e sua relação com a Teologia da Libertação – por sinal, você não tocou na “Carta Aberta” na questão do uso do marxismo, sim ou não, pela TMI, que é uma das críticas mais feitas ao movimento. Eu sei que numa “Carta Aberta” que visa responder rapidamente a uma situação, não houve tempo para dar uma resposta a estas indagações, especialmente àquela da relação da TMI com o marxismo. Quem sabe você escreverá sobre isto mais adiante.
O debate continua, de forma educada e acadêmica. Veja, por exemplo, o que escreveu Filipe Fontes e o Jonas Madureira em atenção à sua respeitosa “Carta Aberta”:
Filipe Fontes: http://goo.gl/D6mOrd
Jonas Madureira: http://goo.gl/cBntGs
Numa nota final, para mim “o Evangelho todo para o homem todo” encontra uma de suas melhores expressões na cosmovisão reformada, refletida nas conhecidas palavras de Abraham Kuyper, primeiro ministro da Holanda e pastor reformado, “Não há um único centímetro quadrado, em todos os domínios de nossa existência, sobre os quais Cristo, que é soberano sobre tudo, não clame: ‘É meu!’” Os seguidores desta linha abriram universidades, hospitais, escolas, abrigos e orfanatos, e se engajaram nas artes, ciência e academia – o “homem todo”, muito antes do surgimento da TMI.
Termino. Mais uma vez, obrigado pela resposta tranquila e que atendeu ao objetivo do programa, que é gerar debate acadêmico de bom nível.
Desejo-lhe um dia abençoado.
Em Cristo,
Augustus Nicodemus

Jonas Madureira também postou no FB a seguinte nota de esclarecimento, dirigida a seus críticos, muitos dos quais o acusaram levianamente, de não ter conhecimento do assunto e, portanto, ser uma pessoa desqualificada a tecer quaisquer comentários ou fazer questionamentos sobre a Teologia da Missão Integral. A nota do Jonas deixa claro que, longe de ser desqualificado, ele sabe muito bem do que está falando:

NOTA DE ESCLARECIMENTO SOBRE A MINHA PARTICIPAÇÃO NO PROGRAMA “ACADEMIA EM DEBATE”, EDIÇÃO n° 371.
1. Primeiro esclarecimento. Não foi da noite para o dia que eu comecei a ler sobre a TMI e, por conseguinte, a falar sobre as minhas impressões da TMI. Para efeitos formais, em 2010, tivemos a oportunidade de receber em nossa 7a. edição do Congresso Vida Nova de Teologia, em Águas de Lindóia, a presença do Dr. C. René Padilla, como carro-chefe da conferência (http://www.vidanova.com.br/congressoanterioressobre.asp?codigo=7). Naquela ocasião, tive a incrível oportunidade de apresentar, pela primeira vez, as minhas impressões da TMI para o próprio Dr. Padilla. A propósito, elas foram ditas e respectivamente ouvidas tanto por Dr. Padilla, que, como já foi dito, era um dos nossos palestrantes, como por Ariovaldo Ramos, que estava participando do congresso. O que é interessante é que tudo o que eu disse no programa “Academia em Debate” foi dito na palestra de 2010 (É claro que, na conferência de 2010, tive mais tempo para expor os meus argumentos com mais clareza!). Após a palestra, o Dr. Padilla me procurou e fez as suas ponderações e reações. Inclusive, disse para mim que o livro que eu usei para fundamentar a minha palestra (“Missão Integral: ensaios sobre o Reino e a igreja”) já não mais representava a sua atual perspectiva sobre a missão integral. Lembro-me, também, de ter recebido a crítica do Ariovaldo, que me disse: “Jonas, concordei com a primeira parte da sua palestra, mas a segunda parte revelou uma falta de leitura da bibliografia elementar da TMI! Também não concordei com a justaposição que você estabeleceu entre a TdL e a TMI”. Recordo-me bem que recebi essas críticas numa boa. Falamos de nos encontrar em algum dia para conversarmos sobre o assunto, mas esse dia ainda não chegou. Portanto, o que eu disse no programa “Academia em Debate” não é nenhuma novidade, antes é o que venho dizendo ao longo de cinco anos! O cômico de tudo isso é que a primeira vez que tornei pública as minhas impressões da TMI foi curiosamente na frente do Dr. Padilla e do Ariovaldo Ramos.
2. Segundo esclarecimento. Dr. Augustus Nicodemus, a quem muito admiro, fez-me um convite para falar sobre as minhas impressões sobre a TMI no programa “Academia em Debate”, um programa que ele vem fazendo ao longo de seis anos. O programa já tem um formato reconhecido tanto por aqueles que gostam como por aqueles que não gostam. O que fiz, e não me arrependo de forma alguma, foi aceitar ao convite que vinha, sobretudo, de um amigo. Até hoje nunca recebi um convite do Ariovaldo Ramos ou de qualquer outro teólogo ou instituição vinculada aos ideais da TMI para uma conversa ou até mesmo para um debate. Quero dizer, publicamente, que não me nego a aceitar ao convite para conversar ou debater sobre a TMI com quem quer que seja. Estou completamente aberto ao diálogo e ao debate, plenamente aberto para corrigir e rever, se preciso, as minhas possíveis imprecisões, contanto que seja em um ambiente irênico, de respeito, de cordialidade, de educação, de elegância, de honestidade intelectual e de tolerância. Sinceramente, não vejo problema nenhum em um programa midiático convidar apenas as pessoas que a produção do programa deseja trazer! Afinal, em nosso país, pelo menos por enquanto, ainda vivenciamos a prática da liberdade de expressão!
3. Terceiro esclarecimento. Apenas lamento a reação beligerante e intolerante de alguns defensores da TMI, inclusive alguns que me conhecem. É incrível, mas a beligerância, a rudeza e a falta de educação que mais tenho criticado em alguns reformados e evangélicos conservadores, eu pude ver também do lado dos evangélicos progressistas e defensores da TMI. Realmente, ainda não aprendemos a conversar… Foi enorme a quantidade de mensagens virulentas, indelicadas, grosseiras, que questionaram a minha dignidade como homem, marido, pastor e professor. É muito triste viver em um contexto que se diz cristão, mas cujo vínculo do amor é só um mero discurso que se desfaz como uma fumaça ao vento. Nessas horas, louvo a Deus pela bênção que ele me deu de ter vivido, pensado e estudado nos departamentos de filosofia da PUC-SP e da USP. Com pensadores ateus, agnósticos e católicos consegui travar inúmeros debates sem esse coitadismo, personalismo e pessoalismo tão presente entre os “intelectuais evangélicos”. Assim, me recuso veementemente a responder interações que sejam baixas e pequenas. Em contrapartida, terei um enorme prazer em interagir com as críticas que chegarem seguindo o padrão da decência. Em nenhum momento a minha intenção foi ofender ou ser desrespeitoso com os integrantes da TMI. Apenas critiquei ideias, pois acredito que ideias influenciam, sim, a Práxis. Se alguém se sentiu ofendido, peço perdão. De forma alguma desejei tirar a paz de seu coração.
“acima de tudo isto, porém, esteja o amor, que é o vínculo da perfeição” (Efésios 3.14)

O Filipe Costa também postou em seu FB, algumas considerações que, segundo ele, gostaria de ter feito durante a entrevista:

Ultimas palavras, por enquanto…
Tenho optado por não entrar em debates pela internet. Além da falta de tempo que assola a todos nós, me sinto incomodado pelo fato de que debates teológico-acadêmicos se transformam muito rapidamente em troca de acusações neste veículo. Lamentavelmente, já tenho visto isto acontecer neste debate também, embora não generalizadamente. A carta aberta escrita pelo Pr. Ariovaldo Ramos – a quem agradeço pela maneira tão gentil e fraterna com que escreveu – apresenta, por exemplo, um tom bem diferente.
Este post não é, definitivamente, uma mudança de postura. Não pretendo desenvolver um debate virtual. Não porque não seria agradável participar de uma conversa gentil, mas porque o tempo e esforço exigido, e as brigas que provoco sem querer me cansam em demasia para as atividades ministeriais. Se eu continuar entendendo ser relevante, publicarei sobre o assunto no futuro em algum lugar – é assim que concebo o debate acadêmico. Este post tem apenas o objetivo de fazer considerações que gostaria de ter feito no programa, mas que não pude fazer pela exiguidade de tempo e pelas limitações do veículo. Possivelmente serão minhas últimas no momento.
1) Há um esforço por relacionar a ideia de “Missão Integral” com uma teologia ortodoxa. Mas, na prática teólogos de várias tendências diferentes se apropriaram e fazem uso dela no Brasil atualmente; desde teólogos que defendem a inspiração, inerrância e infalibilidade da Bíblia, até aqueles que duvidam da possibilidade de qualquer conhecimento objetivo de Deus, reputando-o como autobiográfico, o que é próprio do liberalismo clássico. Por isso, creio que definir MI é hoje uma tarefa bastante difícil.
2) Esta apropriação por parte de tendências teológicas tão diferentes somente é possível pela falta de comprometimento radical da MI com uma tradição teológica de pensamento. Guilherme de Carvalho, no artigo intitulado A missão integral na encruzilhada: Reconsiderando a tensão no pensamento teológico de Lausanne, na obra Fé cristã e cultura contemporânea, publicada em 2009 pela Ultimato, já denunciou esse problema. Ao que parece, a MI parece ser uma postura prática que tem recebido conteúdo teológico a posteriori. Ou seja, ao invés de caminhar da teologia para a prática, promove um movimento inverso.
3) Embora carregue o adjetivo integral, a MI tem se mostrado pragmaticamente reducionista. Até mesmo alguns de seus proponentes no Brasil reconhecem isso, ao mesmo tempo em que procuram defender que esse reducionismo seria uma espécie de desvio. Para mim ele parece ser consequência natural de seu método dialético (apontado por Ricardo Gondim em sua tese de doutoramento publicada em 2010 pela Fonte editorial, com o título: Missão Integral: Em busca de uma identidade evangélica), sobretudo da escolha do materialismo histórico como parceira de diálogo.
4) Se a MI nasce marxista, eu não estou totalmente à vontade para afirmar. Se a MI é toda marxista, também não. Mas que há traços de marxismo em seu desenvolvimento e que o que temos recebido mais recentemente no Brasil e tem se tornado mais popular está marcado por tal influência, creio ser facilmente perceptível. Como eu afirmei no programa, vejo 4 relações entre as duas coisas:
a) Semelhança histórica: A MI surgiu no período de profundo florescimento do pensamento esquerdista na América Latina e foi desenvolvida no seio de movimentos e organizações que forjaram também perspectivas teológicas claramente comprometidas com um ideário materialista histórico, como a Teologia da Libertação. Por exemplo: FTL (Fraternidade Teológica Latino Americana) e ISAL (Igreja e Sociedade na América Latina).
b) Semelhança metodológica: Constantemente se ouve, atrelado à MI o discurso da necessidade de uma teologia regional, brasileira, tupiniquim, à parte da tradição teológica europeia-norte americana que recebemos. Esse discurso antitradicionalista de rompimento com a tradição é muito semelhante ao do próprio Marx, que nas Teses contra Feuerbach, incluídas depois na Ideologia Alemã, afirma que os filósofos apenas interpretaram o mundo de diferentes maneiras; enquanto o que importa é transformá-lo.
c) Semelhança terminológica: Proponentes da MI no Brasil costumam aplicar ao Novo Testamento, de maneira mais direta ao ministério de Cristo, termos academicamente cristalizados como marxistas, como alienação, revolução, ideologia, subversão, dentre outros.
d) Semelhança de ênfase conceitual: Não é incomum também encontrarmos em textos e falas dos proponentes mais conhecidos da MI no Brasil atualmente, uma ênfase nos impactos econômicos da obra de Cristo e de seu reino. Em algumas ocasiões a ideia de que o Reino produz transformações de cunho econômico é quase que uma constante exclusiva.
5) Embora eu não negue momentos de verdade no marxismo, ele é fundamentalmente antagônico ao cristianismo, enquanto cosmovisão. Primeiramente, por que é materialista. Isto é, ignora qualquer dimensão transcendente. Segundo, por que sendo materialista, reduz a dinâmica da vida humana às suas relações socioeconômicas, localizando nesse nível: criação, queda, e redenção. Correndo o risco de imprecisões: enquanto o cristianismo localiza a origem do homem em Deus, o marxismo a localiza na produção. Enquanto o cristianismo localiza a queda na quebra da relação do homem com Deus, o marxismo a localiza na opressão de um modelo econômico. Enquanto o cristianismo localiza a redenção na reconciliação com Deus por meio de Cristo, o marxismo a concebe como a instauração revolucionária de um modelo econômico. Qualquer tentativa de síntese do cristianismo com uma perspectiva tão religiosamente comprometida, dificilmente passa ilesa. É aqui que, na minha opinião, nasce o reducionismo.
6) Criticar um determinado paradigma não significa ignorar eventuais problemas que ele tenha levantado, nem mesmo eventuais contribuições que ele tenha a oferecer. Creio que a MI levanta um problema real: precisamos de uma concepção de missão que tenha um impacto mais abrangente. Creio também que a MI tem uma contribuição efetiva: chamar nossa atenção para a necessidade de considerar dentro dessa concepção de missão o papel social da igreja e a preocupação com o pobre – isto é legítimo. Mas, pela razão apresentada acima, não creio que ela poderá nos fornecer uma concepção efetivamente integral, pelo menos nos caminhos trilhados mais recentemente no Brasil.
7) Creio que nós, cristãos tradicionais, devemos ser não apenas reativos, mas também propositivos. Sendo assim, defendo que precisamos pensar numa alternativa para essa questão da missão da igreja e seu impacto cultural. Primeiramente, precisamos de uma perspectiva evangélica, ou seja, que considere a centralidade do evangelho na missão da igreja. Em segundo lugar, precisamos fazer isso dentro de um escopo teológico mais amplo. Precisamos da tradição! Por fim, precisamos de criatividade. Creio que não daremos respostas satisfatórias simplesmente reproduzindo modelos. Nossa realidade é muito específica, e requer que façamos um exercício criativo de aplicação dos princípios do evangelho e de uma tradição de pensamento. Minha sugestão é de que bons insights podem ser encontrados no neocalvinismo holandês – movimento liderado por Abraham Kuyper no fim do século XIX. Creio que ele conjuga bem tradição e aplicação criativa e pode ser muito útil enquanto inspiração pra nós.
8) Dentre as perguntas que recebi ontem, alguém mais prático me perguntou: você acha que uma igreja deve abrir uma creche? Segue a resposta:
Para mim, nenhuma igreja (comunidade local) deve sentir-se tão culpada por não ter aberto uma, quanto por não preparar bem seus membros no poder do Evangelho para viver a vida cristã de modo impactante em todas as esferas da vida. E nenhuma igreja deve sentir-se satisfeita simplesmente por ter uma, se esta não estiver a serviço de sua tarefa primeira: a de proclamação do evangelho de Cristo. Uma igreja deve fazer mais do que abrir uma creche. Ela deve fazer assistência social evidenciando por que faz e transformando o modo de fazer. Deve mais que abrir uma escola. Deve usar sua escola como meio de submeter a educação ao senhorio de Cristo. Deve mais que ter um grupo de teatro. Deve transformar o modo como a arte é feita e experimentada no lugar onde ela está inserida.
A todos os leitores, meu grande abraço.

Por último, a postagem do Guilherme de Carvalho, que escreveu cinco capítulos sobre a missão integral nos livros os livros “Cosmovisão Cristã e Transformação” e “Fé Cristã e Cultura Contemporânea”, ambos da Editora Ultimato:

Algumas pessoas ficaram chateadas porque eu disse em certo lugar que “a hermenêutica da Teologia de Missão Integral” é “furada”. E disseram que quem fala isso não entende de missão integral.
Mas tenho como sustentar meu argumento. Tenho pesquisado e escrito sobre Missão Integral há uns 10 anos. Escrevi críticas que foram aprovadas por Dom Robinson Cavalcanti (se alguém precisar de um imprimatur). Sou um DEFENSOR do conceito de missão integral.
No entanto, no discurso popular da TMI a ideia de empregar “Mediações Sócio-Analíticas” para interpretar e elaborar a teologia e a missão da igreja é amplamente praticada (embora frequentemente de forma tácita, quase inconsciente) de um modo que dissolve aspectos fundamentais da cosmovisão cristã e da fé evangélica, reintepretadas a partir de categorias seculares. Este é, “in a nutshell”, o problema hermenêutico da TMI.
Uma evidência disso é que muitos defensores da TMI que tenho encontrado por aí (não me refiro a líderes que admiro como o Ari ou o Valdir, mas ao “chão de fábrica” da “esquerda gospel”) adquirem sem perceber uma aversão a qualquer confessionalismo ou esforço por coerência teológica, confundindo isso com fundamentalismo “straight on”. Em níveis mais avançados, há os que confundem “teologia cristã” com “ciências da religião” com a maior naturalidade (duas coisas boas, mas que não podem ser confundidas). E é por isso também que a TdL, repudiada pela TMI no discurso oficial, é admirada no “chão de fábrica”, à “boca pequena”.
Escrevi uns 5 capítulos sobre o tema que nunca foram respondidos (nos livros “Cosmovisão Cristã e Transformação” e “Fé Cristã e Cultura Contemporânea”, ambos da Ultimato). Espero que meus críticos parem de reclamar de mim no facebook e leiam o que escrevi antes de escrever suas respostas. Mas não quero conflito gratuito; quero diálogo e ideias vivas. Quero aperfeiçoar minha análise também.
Mas a verdade é que boa parte dos meus críticos nunca leu nada que escrevi nem ouviu nossas palestras em L’Abri. Simplesmente não sabem do que estou falando.

Além das postagens acima, daqueles que considero os principais protagonistas do “debate”, vale a pena ler (e assistir) o que outros também escreveram e falaram sobre o assuntos durante aqueles dias:
- O texto do Igor Miguel, Missão Integral: ponderações à entrevista de Jonas Madureira e Filipe Fontes, publicado ainda no dia 20, antes do assunto ferver nas redes sociais.
- A opinião do Valdir Steuernagel publicada no site da Ultimato sob o título A “Missão Integral” nem é tão integral assim!
- O vídeo abaixo com o bate-papo entre o Marcos Botelho e Calebe Ribeiro intitulado Academia de Policia da Missão Integral em Debate!, comentando sobre o assunto. Digno de nota, é a observação feita pelo Marcos que “quando vai se debater sobre a teologia da prosperidade, ninguém chama um ‘teólogo’ ou alguém da teologia da prosperidade.” (um contraponto àqueles que acusaram o Programa Academia em Debate de falta de seriedade, por não ter trazido um teólogo da Missão Integral para o debate).

- A crítica Qual o principal problema da Teologia da Missão Integral? escrita pelo Gutierres Fernandes Siqueira para o blog Teologia Pentecostal.
- O vídeo da entrevista feita pelo Alex Fajardo com Regina Fernanda Sanches, autora do livro Teologia da Missão Integral: História e Método da Teologia Evangélica Latino-Americana (Editora Reflexão), sobre o método da Missão Integral.

Todas as postagens acima, assim com os textos dos blogs e bate-papos em vídeo, servem para, ao menos, entender essa discussão. A esperança, uma vez dado o pontapé inicial, é que debate continue, lidando com os questionamentos e críticas, e expandindo a discussão de maneira acadêmica e saudável.

Devagar É Melhor

Recentemente comprei um livro chamado Devagar, do jornalista canadense Carl Honore. Eu tenho flertado com um estilo de vida mais devagar por algum tempo. Cerca de 2-3 anos atrás comecei a perceber que estava indo rápido demais e tentando realizar muitas coisas ao mesmo tempo. Era como se eu fosse o personagem daquela canção do U2 “trying to throw your arms around the world” (tentado abraçar o mundo). Ao mesmo tempo, mudanças no escritório onde eu trabalhava aumentaram a pressão do trabalho a uma velocidade de quebrar o pescoço. Eu sabia que precisava fazer algo antes que terminasse louco ou perdesse minha vida ou minha família ou tudo isso ao mesmo tempo. A primeira coisa que decidi foi me rebelar contra os e-mails. Eu estava recebendo dezenas de e-mails todos os dias, então decidi que isso precisava mudar. Foi difícil a princípio (eu confesso, estava viciado) mas agora eu penso que aprendi como trabalhar melhor com e-mail, sem o sentimento de ser inundado por eles. Eu ainda tenho um longo caminho a seguir nessa e em outras áreas, mas estou perseverando. Comprar esse livro foi parte do desejo de fazer mudanças. Ao refletir sobre isso agora eu percebo como é fácil ser pego pela forte correnteza do mundo hoje que dita o modo como devemos viver nossas vidas, um estilo de vida que tem destruído tantas pessoas e inundado os consultórios psicológicos de pacientes. O fato é: mentiram para nós. A tecnologia prometeu melhorar nossas vidas mas acabou fazendo exatamente o contrário de sua promessa. Então em vez de re-avaliar nossas vidas para descobrir o que deu errado, nós continuamos em alta velocidade, projetando e criando nova tecnologia para consertar os problemas causados pela anterior. E não estou advogando o fim da tecnologia aqui, mas tentando refletir sobre como é fácil nos tornarmos escravos dela ao invés de governá-la. O desafio é esse: usar a tecnologia ao invés de ser usado por ela. Mas porque não queremos enfrentar o desafio e continuamos em alta velocidade, dirigindo a todo lugar que vamos e algumas vezes trabalhando e comendo no próprio carro, nós compramos esteiras elétricas para perder o peso e temos belas paisagens em nosso protetor de tela para nos lembrar de um mundo que estamos deixando de apreciar. Não seria mais fácil dar uma caminhada e apreciar a paisagem? “Smell the flowers while you can” (sinta o cheiro das flores enquanto você pode). Não é fácil nadar contra a correnteza. Sempre haverá forte resistência (seu pior inimigo é você mesmo). Mas bem-aventurados os que fazem isso. Eles terão uma vida melhor. Acredite em mim. Eu estou começando a encontrar minha vida novamente.

(publicado originalmente em 27/01/2006)

Switchfoot, música, fé e vocação

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Gosto de Switchfoot e considero Jon Foreman um dos mais talentosos compositores dos últimos 20 anos. Curiosamente, essa foi uma banda que cheguei a ouvir pela primeira vez, não por causa da música, nem das letras, mas por um de seus músicos. Quando soube que Jerome Fontamillas (cuja carreira musical eu acompanhava desde Mortal e Fold Zandura) estava tocando na banda, decidi escutá-la e fiquei impressionado com o que encontrei. Virei fã. O álbum The Beautiful Letdown (2004) me ajudou num período difícil de minha vida. Tenho todos os cds originais e estou aguardando ansiosamente o lançamento de Fading West em janeiro de 2014.

O texto abaixo foi divulgado essa semana no FB por um artista que acompanho (link do original aqui). Trata-se da resposta dada por Jon Foreman para a pergunta feita a ele se sua banda Switchfoot é uma “banda cristã”. Vale a pena a leitura e reflexão.

***

“Para ser honesto , esta questão me entristece, porque sinto que ela representa um problema muito maior do que simplesmente algumas músicas do Switchfoot. Na verdadeira forma socrática, deixe-me lhe fazer algumas perguntas: Lewis ou Tolkien mencionam Cristo em qualquer de suas séries de ficção? As sonatas de Bach são cristãs? O que é mais semelhante a Cristo, alimentar os pobres, fabricar móveis, limpar banheiros ou pintar um pôr do sol? Há um cisma entre o sagrado e o secular em todas as nossas mentes modernas.

A visão de que um pastor é mais “cristão” do que um treinador de um time de voleibol feminino é falha e herética. A posição que um líder de adoração é mais espiritual do que um zelador é condescendente e falha. Essas vocações e propósitos diferentes demonstram ainda mais a soberania de Deus.

Muitas canções são dignas de serem escritas. Switchfoot escreverá algumas; Keith Green, Bach e talvez você mesmo tenha escrito outras. Algumas dessas canções são sobre redenção, outras sobre o nascer do sol, outras sobre nada em particular: escritas pela simples alegria da música.

Nenhuma dessas músicas nasceu de novo, e nesse sentido, não existe tal coisa como música cristã. Não. Cristo não veio morrer por minhas músicas, ele veio por mim. Sim. Minhas músicas são uma parte da minha vida. Mas, julgando pelas Escrituras, só posso concluir que o nosso Deus está muito mais interessado em como trato os pobres, os quebrantados e os famintos, do que com os pronomes pessoais que eu uso quando canto. Sou crente. Muitas dessas músicas falam sobre essa crença. A obrigação de dizer isso ou fazer aquilo não soa como a gloriosa liberdade que Cristo morreu para me dar.

No entanto, tenho uma obrigação, uma dívida que não pode ser quitada por minhas decisões líricas. Minha vida será julgada por minha obediência, e não por minha capacidade de limitar as minhas letras nessa ou naquela caixa.

Todos temos vocações diferentes; Switchfoot está tentando obedecer ao que fomos chamados. Não estamos tentando ser Audio Adrenaline ou U2 ou POD ou Bach; estamos tentando ser Switchfoot. Uma canção que tem as palavras “Jesus Cristo” não é nem mais nem menos “cristã” do que uma instrumental (já ouvi muita gente dizer “Jesus Cristo” e não estavam falando sobre o seu redentor). Jesus não morreu por nenhuma de minhas músicas. Portanto, não há hierarquia de vida ou músicas ou ocupação, só há obediência. Temos um chamado para tomar a nossa cruz e seguir. Podemos ter certeza de que essas estradas serão diferentes para todos nós. Assim como você tem um corpo e cada parte tem uma função diferente, assim também, em Cristo nós, que somos muitos, formamos um só corpo e cada um de nós pertencemos uns aos outros. Por favor, seja lento em julgar “irmãos” que têm um chamado diferente.”

Foreman menciona a “caixa” cristã onde muitas pessoas querem ficar, e colocar os outros dentro. Concordo com Foreman que esta caixa é particularmente limitada quando se trata de arte. Então, saia e crie algo – algo belo, algo maravilhoso – e faça isso para a glória de Deus.

Lembrai-vos dos presos

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“Você já viu um homem sem língua falando?”, perguntou-me Anderson, enquanto ele abria sua boca para me mostrar o que havia restado de sua língua após um tiro de carabina no rosto. De fato, suas faces estavam marcadas por enormes cicatrizes. “Você pode orar por mim?”, ele perguntou. Com minhas mãos sobre seus ombros, ergui minha voz ao Céu e pedi que Deus revelasse a ele seu amor e o mantivesse seguro naquele lugar. Quando terminei de orar, notei que uma pequena fila havia se formado atrás dele. Outros homens também queriam oração.

Foi minha terceira visita à Penitenciária Marrey, na grande São Paulo. Marrey ficou conhecida em 2003 quando dois homens, num helicóptero roubado, tentaram facilitar a fuga de alguns prisioneiros. A tentativa fracassou, mas desde então ficou a sensação de que Marrey mantinha presos ligados ao PCC, considerado a maior facção criminosa do Brasil. Na verdade, conforme descobri na primeira vez em que estive lá, do lado de dentro da prisão, o comando está nas mãos de prisioneiros. Também fui informado que Marrey mantém preso um dos maiores assassinos em série da história brasileira. Se há lugares onde o pecado e pecadores abundam, Marrey é um deles.

Como uma tremenda demonstração de que não há portas fechadas para Deus, os líderes da prisão permitiram que o David Pierce, fundador na missão Steiger, pregasse do pátio, em vez de ficar restrito ao pequeno salão de cultos.

Enquanto David se preparava para falar, Ícaro se aproximou para me cumprimentar. Nós nos conhecemos em minha primeira visita quando orei por ele. Demos a ele também Rock Priest, a biografia do David Pierce. Perguntei-lhe se ele estava lendo. Ele disse que sim e passou a me contar alguns trechos do livro que havia gostado. Então falou que estava lendo devagar, porque não queria terminar logo, uma vez que não teria mais nada para ler depois.

O David começou a pregar e eu fiz o melhor que pude para interpretá-lo e ser ouvido sem o uso de um microfone. Aproximadamente 300 homens estavam ouvindo ao nosso redor, no pátio e nos três níveis acima de nós. A chuva caía enquanto o David pregava, e eu sentia que Deus estava lá, de modo tão real quanto aquela chuva. O David disse que o orgulho é o que nos afasta de Deus e que precisamos estar dispostos a nos humilhar e nos render para conhecer seu amor por nós.

A mensagem alcançou corações frios e duros. Quando o David fez o convite àqueles que queriam render suas vidas a Jesus, houve um momento de tensão, depois uma após outra, vimos muitas mãos levantadas. Após a oração do David, um dos prisioneiros que se converteu na prisão e agora serve como um pastor local convidou aqueles que responderam para se unirem a nós no salão de cultos. O lugar ficou lotado de homens fazendo perguntas ao David sobre sua vida e sua fé em Deus.

Um jovem perguntou-lhe o que o levava a pensar que presos como aqueles pudessem mudar de vida. “Eu não posso mudar minha vida, nem você pode mudar a sua”, respondeu o David, “mas o Espírito Santo pode nos mudar a fim de que nos tornemos as pessoas que Deus deseja.” As perguntas continuaram por quase uma hora, até às 16h, hora em que os presos precisam entrar para suas celas e permanecer lá até às 8 da manhã do dia seguinte.

Meu filho Lucas, de seis anos, estava orando por mim enquanto me preparava para a visita ao presídio. Ele me olhou com uma expressão preocupada e perguntou: “Por que você tem que ir lá?” E respondi que desejo compartilhar o amor de Deus com os presos. “Mas é perigoso lá, pai!”, ele insistiu. “Sim, eu sei, filho. Por isso preciso de suas orações”, respondi.

Não há como ir a um lugar assim sem oração. Entrar num presídio onde, depois de passar pelos vários níveis de segurança, portas e portões de ferro, você se encontra sozinho com centenas de presos, não é algo para quem confia em si mesmo. Estou plenamente consciente do perigo e coloco minha confiança somente em Deus para proteger minha vida e meus amigos ao entrarmos lá.

Meses atrás, minha esposa e eu estávamos conversando sobre como seria bom voltarmos a fazer visitas aos presos. Então, num domingo logo após o culto na igreja, um homem se aproximou de mim e se apresentou, dando-me seu cartão. Frank, um aposentado de 74 anos, perguntou-me se ele poderia dar o endereço de nossa igreja para alguns presos que ele estava visitando na Penitenciária Marrey. Respondi que sim, e mencionei que gostaria de ir com ele em algumas dessas visitas.

Na primeira vez em que fui, um preso convertido (que, segundo me disseram, era do PCC) fez a leitura de um texto bíblico. A passagem que ele escolheu foi Mateus 25: “Estive preso e você não foi me visitar.”

A razão pela qual desejo continuar visitando presos é que a sociedade, de um modo geral, e até mesmo a Igreja, infelizmente, considera-os como uma causa perdida, como criminosos que merecem apodrecer na cadeia. Mas eu creio que se a graça de Deus é abundante, então ela deve ser mesmo numa cadeia. Também desejo encorajar aqueles que se converteram na cadeia a continuar firmes em sua fé e a se preparar para que do lado de fora, quando forem liberados, possam continuar vivendo a nova vida que encontraram lá dentro. Finalmente, desejo continuar visitando presos porque creio que quando os visito, é a Jesus que estou visitando.

“Lembrem-se dos que estão na prisão, como se aprisionados com eles.” Hebreus 13.3

Os ricos sempre tereis convosco (versão beta)

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A relação do cristão com o dinheiro parece condenada a posições extremas. Conheço cristãos que pregam e ensinam que o dinheiro deve ser buscado como sinal da bênção e aprovação de Deus. Para eles, a vida do cristão verdadeiro e cheio de fé deve ser cada vez mais próspera financeiramente. A riqueza é motivo de celebração por parte de um povo que foi escolhido para ser “cabeça e não cauda” e, portanto, comer “o melhor desta terra”. Por outro lado, conheço cristão que abominam tal ideia, denunciando-a como uma distorção da Bíblia e consequência de uma Igreja contaminada pelo capitalismo materialista. Para estes, o dinheiro é a raiz de todo mal que existe no mundo, e a verdadeira espiritualidade só é possível por meio da pobreza voluntária. Ironicamente, apesar de suas críticas, boa parte deles não são exatamente o que poderia se chamar de pobres. Sob forte influência marxista, muitos destes cristãos passam a ideia de que tudo que precisamos para ter um mundo com mais igualdade social é uma redistribuição da riqueza.

Tony Campolo, introduzindo o capítulo How To Be Rich And Still Be A Christian (Como ser rico e ainda ser cristão) do seu livro Following Jesus Without Embarrassing God (Seguindo Jesus sem envergonhar Deus), contesta a ideia que diz que riqueza e pobreza é uma mera questão de distribuição da renda:

John Perkins, um líder [norte-americano] na criação de programas de desenvolvimento econômico para os pobres, sustenta a ideia de que não resolvemos os problemas associados a desigualdade econômica por meio de uma mera redistribuição da riqueza: “Mesmo se redistribuíssemos toda riqueza de maneira igual, dentro de alguns anos, os ricos teriam tudo de volta”, diz ele. Há uma evidência empírica sustentando essa declaração do John. Após a Segunda Guerra Mundial sob o Plano Marshall, cada cidadão da Alemanha recebeu o equivalente a cinquenta dólares. De certa forma, todo mundo na Alemanha tinha sido reduzido, o máximo possível, ao mesmo nível de riqueza/pobreza. Mas dentro de 10 anos, 90 por cento da riqueza da Alemanha estava concentrada nas mãos de 5 por cento da população. O ponto feito por John Perkins é que ser rico não é apenas ter dinheiro; é saber como “fazer” dinheiro. E o rico sempre sabe como fazer isso.

Se Campolo e Perkins estão certos (acredito que estão), talvez seja essa a razão pela qual a Bíblia assume o fato de que, ao menos nesta era, sempre haverá ricos e pobres, e conduz a uma ética onde os ricos sejam solidários e justos no trato para com os pobres.

Richard Foster, em seu livro Dinheiro, Sexo e Poder, apresenta esses temas como três tentações clássicas na vida e convoca os cristãos a considerarem as disciplinas da simplicidade, pureza e humildade, como uma maneira de resistir a elas. Ao tratar da questão do dinheiro, Foster reconhece que há uma face luminosa (o dinheiro como bênção) e outra sombria (o poder sedutor do dinheiro, onde o dinheiro assume a figura de uma potestade, um deus – Mamon).

A face luminosa é indicada também por Craig L. Bloomberg, professor de Novo Testamento do Seminário de Denver no Colorado, EUA, em seu livro Nem Riqueza Nem Pobreza:

As posses materiais são um bom dom de Deus dado para que seu povo as aprecie. Isso é deixado claro desde a criação do mundo material por Deus destinado para o bem, de seu desejo que todos tivessem acesso a pelo menos uma pequena parte de propriedade e do fato de que as posses materiais, na aliança de Deus com Israel, são uma bênção pela obediência. Ao longo do Antigo Testamento, Jó, Abraão, Davi, Salomão e diversas outras figuras demonstram que riqueza e santidade podem coexistir pelo menos por um tempo. A literatura proverbial oferece riquezas como recompensa pelo trabalho benéfico. O Novo Testamento, da mesma forma, reconhece um crescente número de cristãos prósperos ao longo da história primitiva do cristianismo que recebem as igrejas em suas casas, fazem viagens de negócio e financiam ministros itinerantes (incluindo Jesus e sua trupe original). A comunidade de discípulos não divide os próprios recursos materiais entre si para todos serem igualmente pobres, mas para não haver nenhum necessitado entre eles (At 4.34). Até mesmo nos cenários mais difíceis, os luxos que podem levar à perdição e ao demoníaco (Ap 17-18) estarão disponíveis para o povo redimido de Deus em uma era muito material por vir (Ap 21-22). (BLOOMBERG, p. 243-244)

Em O Homem e o Dinheiro, Jacques Ellul trata da “face sombria”, apontando para o caráter sagrado que o dinheiro adquire para as pessoas. Ele diz:

A manifestação do caráter sagrado que o homem atribui a seu dinheiro é, ainda, a potência espiritual desse Mamon. Não se trata aqui do fato de que haja ídolos travestidos simbolizando o dinheiro, mas muito simplesmente que, para o homem moderno, o dinheiro faz parte de seu “sagrado”. As relações de dinheiro são, nós o sabemos bem, as “coisas sérias” para o homem moderno; todo o resto – o amor, a justiça, a sabedoria, a vida – são palavras. Da mesma forma, o homem evita falar de dinheiro. Fala-se de negócios, mas quando, em uma salão, fazemos uma pergunta sobre o dinheiro, cometemos uma indiscrição insuportável, e é exatamente esse embaraço que exprime, na realidade, o sentimento do sagrado. Isso, para a burguesia. Na classe operária, encontramos o mesmo sentimento, mas sob um outro aspecto: é a convicção generalizada de que, se a questão do dinheiro for resolvida, todos os problemas do operário e do homem em geral serão da mesma forma resolvidos. E vermos também uma convicção de que tudo o que não servir para resolver isso, é apenas bobagem ou perda de tempo. O fato é que esse sagrado atribuído ao dinheiro pode, além do mais, se exprimir de várias outras formas – todavia ele existe no fundo de cada homem. (ELLUL, p. 81)


A capacidade para ser tanto bênção como altamente sedutor. É assim que a Bíblia apresenta o dinheiro. Talvez precisamente por este motivo, os cristãos são chamados para uma relação com o dinheiro que vai na direção oposta ao apego pelo mesmo e a busca desenfreada por riqueza. Foster diz que, “se levarmos o que a Bíblia ensina a sério, parece que uma das melhores coisas que podemos fazer com o dinheiro é dá-lo. A razão é óbvia: dar é uma das principais armas de que dispomos para vencer o deus Mamon.” (FOSTER, p. 83) Jacques Ellul pensa de maneira semelhante: “Temos indicações muito claras de que, na vida cristã, o dinheiro é ganho a fim de ser dado.” E é esta a conclusão de Bloomberg em sua obra sobre riqueza e pobreza nas Escrituras:

No fim, a vida toda de uma pessoa deve ser dedicada a Deus, mas uma área que particularmente indica o compromisso religioso envolve as finanças. Os patriarcas e reis ricos, mas bons, do Antigo Testamento são relatados, sem exceção, como tendo compartilhado generosamente com o pobre e necessitado. As leis do Antigo Testamento ordenavam dízimos e impostos para sustentar “trabalhadores religiosos em tempo integral” além de ajudar aos destituídos. Um dos refrãos mais frequentes da Torá, dos Salmos e dos profetas é a preocupação de Deus pela “viúva, órfão, forasteiro e pobre”, uma preocupação que devia levar o povo a evitar qualquer forma de exploração e buscar formas de suprir as necessidades genuínas do marginalizado e tratar as causas de sua miséria. No Novo Testamento, Lucas e Paulo impõem a caridade generosa, enquanto Jesus simplesmente pressupõe tal prática, mais notavelmente no Sermão do Monte (Mt. 6.1-4). Tiago e João concordam que aquele que está ciente das necessidades dos irmãos em Cristo e tem condições de ajudar mas falha em fazer algo, não pode ser salvo (Tg 2.14-17; 1 Jo 3.17s). Pedro e Paulo são particularmente consistentes em desafiar o sistema-greco romano de reciprocidade na doação e recebimento de ofertas. Ambos constroem sobre o comando de Jesus enraizado na teologia jubilar de emprestar (ou dar) “sem esperar nenhuma paga” (Lc 6.35). (BLOOMBERG, p 244,245)

Diante disso, acredito que, como cristãos precisamos cada vez mais resistir a sedução do Evangelho da Prosperidade tanto quanto as propostas simplistas que algumas ideologias tidas como libertadoras dão ao problema da desigualdade social. Ricos e pobres foram seguidores de Jesus. Embora ele não tenha mandado todos venderem seus bens e doarem aos pobres como condição sine qua non para que o seguissem, ele disse a todos que sem a morte para si mesmo, ninguém poderia ser seu discípulo.

O grande avivalista e fundador do metodismo, João Wesley, costumava dizer algo que acredito que deve ser um incentivo para todo cristão vivendo nesta presente Era como um servo de Cristo e mordomo de Deus:

“Ganhe tudo o que puder, economize tudo o que puder, doe tudo o que puder.”

Jacques Ellul, O Homem e o Dinheiro, Editora Palavra, 2008
Richard Foster, Dinheiro, Sexo e Poder, Mundo Cristão, 1988
Tony Campolo, Following Jesus Without Embarrassing God, Word Publishing 1997
Craig L. Bloomberg, Nem Pobreza Nem Riqueza, Editora Esperança, 2009

Por que Teo-logia?

livros
Comecei a ler livros de teologia logo após minha conversão, na década de 1980. Quando fui para o seminário, clássicos de teologia como o de Louis Berkhof não estavam disponíveis na língua portuguesa. Lembro-me de passar algum tempo na biblioteca, tentando ler os textos daquela obra em espanhol. Ao lado de Berkhof, o livro Palestras em Teologia Sistemática de Henry Clarence Thiessen aumentou meu interesse por estudar. Então, ainda nos anos ’80, veio As Institutas de João Calvino, mesmo que apenas no resumo feito por J. P. Wiles. Depois, ao longo dos anos (e décadas) vieram Dietrich Bonhoeffer, Francis Schaeffer, C.S. Lewis, Paul Tillich, George Ladd, Karl Barth, Hans Küng, Jürgen Moltmann, Wayne Grudem, N.T. Wright, D.A. Carson, Wolfhart Pannenberg, John Piper, Santo Agostinho, Hans Urs Von Balthasar, Miroslav Volf e tantos outros autores – alguns conservadores, outros liberais; a maioria deles protestantes, mas alguns católicos – que tem acompanhado essa paixão que tenho pela teologia e seus intérpretes. Obviamente que o fato de ler e estudar diferentes teólogos não significa que eu concorde com tudo o que eles escreveram ou as conclusões que chegaram acerca de Deus, sua natureza, seus propósitos, sua obra, etc. Meus pés permanecem firmes na tradição protestante-reformada-evangélica, na qual fui formado e que continua fazendo mais sentido e coerência intelectual (McGrath) para mim, na tentativa de interpretar a vida e seus mistérios.

Não é raro ouvir pessoas – algumas delas, líderes espirituais – questionarem o interesse pelo estudo teológico ou criticarem veementemente qualquer tentativa de se fazer teologia. Escolhi duas citações abaixo como lembrete e resposta a tais críticas e questionamentos. Dentre tantas frases que eu poderia ter escolhido, fiz questão de usar um teólogo latino-americano para a primeira citação:

“A reflexão teológica – inteligência da fé – surge espontânea e iniludivelmente naquele que crê, em todos aqueles que acolheram o dom da Palavra de Deus. A teologia é, com efeito, inerente à vida de fé que procura ser autêntica e plena… Em todo crente, mais ainda, em toda comunidade cristã, há pois um esboço de teologia, e esforço de inteligência de fé.”(1)

“Quem quer que pense e fale a respeito de Deus está fazendo teologia. Quem fala e pensa muito a respeito de Deus cria uma estrutura na qual Deus é enquadrado. Essa estrutura é sua teologia. É a lente por meio da qual o indivíduo lê a Bíblia, ouve sermões, ora a Deus, lê livros e reflete a respeito dele. Quando lê algo sobre Deus, lê o pensamento teológico de alguém e usa o que lê para ajustar a própria teologia, quer se dê conta disso, quer não. Portanto, não há fé sem teologia. Não há quem leia a Bíblia sem recorrer – consciente ou inconscientemente – a uma teologia que a interprete… A pergunta é: Como sabemos se nossa teologia, isto é, a visão que temos de Deus, é a correta?” (2)

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1. Gustavo Gutiérrez em Teologia da Libertação
2. Gerald R. McDermott em Grandes Teólogos: A síntese do pensamento teológico em 21 séculos de igreja