2009
U2 trezentos e sessenta graus
Após muita espera, começou hoje a turnê 360° da banda irlandesa U2. Os dois primeiros shows (hoje e quinta-feira, dia 02/07) são em Barcelona. Na era do YouTube, Flicker e Twitter, já é possível ver imagens gravadas do show de hoje, além de conferir fotos e o setlist do show.



O setlist deste primeiro show inclui músicas de 8 discos da banda: foram 7 faixas do novo disco No Line on the Horizon (Breathe, No Line On The Horizon, Get On Your Boots, Magnificent, I Will Go Crazy If I Don’t Go Crazy Tonight, Unknown Caller e Moment of Surrender), 3 faixas de All That You Can’t Leave Behind (Beautiful Day, In A Little While e Walk On), 3 faixas de The Unforgettable Fire (The Unforgattable Fire, Pride e MLK), 3 faixas de The Joshua Tree (Still Haven’t Found What I’m Looking For, Where The Streets Have No Name e With Or Without You), 2 faixas de How to Dismantle an Atomic Bomb (Vertigo e City of Blinding Lights), 2 faixas de Achtung Baby (One e Ultra Violet), 1 faixa de War (Sunday Bloody Sunday) e 1 faixa de Rattle and Hum (Angel of Harlem). Por enquanto, nenhuma faixa de Boy, October, Zooropa e Pop. Será interessante acompanhar esse setlist no decorrer da turnê e ver quais músicas ficam e quais desaparecem dando lugar a outras. A banda de abertura foi ninguém menos que a fantástica Snow Patrol e a música que ficou tocando no PA anunciando a entrada da banda foi Space Oddity de David Bowie. A banda fez também um link com a estação espacial internacional e conversou ao vivo com os astronautas. Surreal. Considerada a turnê mais cara da carreira da banda (algo em torno de 100 milhões de dólares), há ainda não há nenhuma previsão de que ela passará por aqui. Informações completas sobre esta e outras turnês do U2 você encontra em U2Tour.
2009
A Marca do Cristão

Sábado passado li o último texto de Francis Schaeffer que faltava para completar minha leitura de todos os seus títulos disponíveis na língua portuguesa (tenho outros livros dele em inglês e espanhol e estou aguardando para pegar sua obra completa em inglês daqui alguns meses). Trata-se do breve texto A Marca do Cristão (Abba Press - Agosto/2008).
Prefaciado por Caio Fábio, o texto é simples e direto, de leitura fácil e rápida, no entanto é um dos melhores textos escritos por este grande filósofo cristão. Minhas únicas reclamações com relação a edição da Abba Press são a irritante insistência de colocar KJA (King James Atualizada) à frente de cada referência bíblica (bastava indicar uma única vez que a versão usada seria a KJA - como foi feito logo no início - mas até parece que os editores quiseram passar uma mensagem subliminar sobre o uso da KJA…) e as inserções no texto chamadas de “hipertextos” e “mensagem relâmpago”. A maioria delas são até que boas, mas deveriam ficar fora do texto corrido para não serem confundidas com o próprio texto de Schaeffer. Eu mesmo fiz um esforço tremendo para ignorar todas essas coisas e ler apenas o texto de Schaeffer. Depois retornei e li alguns hipertextos, etc.
De qualquer modo, para quem ainda não leu, fica aqui a dica de leitura deste pequeno texto de Francis Schaeffer, 25 anos depois de sua morte.
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“Nós não apenas cremos na existência da verdade, mas também cremos que nós temos a verdade - a verdade que podemos compartilhar no Século XX. Você pensa que nossos contemporâneos nos levarão a sério se nós não praticarmos a verdade na qual dizemos crer? Numa Era que não acredita que a verdade exista, você crê que nós teremos qualquer credibilidade se não praticarmos a verdade…?”
- Francis August Schaeffer (1912-1984)
2009
O Celeste Porvir
Nos últimos 20 anos tenho percebido uma tendência no evangelicalismo brasileiro no sentido de minimizar (ou até mesmo eliminar por completo) a mensagem da Volta de Cristo e da esperança da Igreja no mundo porvir. Os carismáticos e neo-pentecostais, com sua ênfase na prosperidade, saúde e uma vida em que a fé garante imunidade contra qualquer tipo de sofrimento, promovem o céu na terra e, evidentemente, conduzem as pessoas a ficarem bem confortáveis com a vida aqui mesmo, sem a necessidade de se pensar no além. Por outro lado, me parece que cada vez mais evangélicos mais tradicionais também estão deixando de lado a crença no Advento da Segunda Vinda, desta vez com a mensagem da missão integral (e eu apoio totalmente a missão integral), como se a Igreja fosse responsável por produzir o céu na terra através da ação social - e fica só nisso, eliminamos a pobreza, estabelecemos a paz por meio do politicamente correto, preservamos o planeta e todos ficam felizes para sempre aqui mesmo na terra.
Creio que tanto a postura escapista apontada por Antonio Gouvêa em seu trabalho usado como título desta postagem e que discorre sobre a inserção do protestantismo no Brasil - postura na qual eu cresci nas décadas de 1970-80 - como a posição de descaso atual (Quando foi a última vez que você ouviu um sermão sobre a Segunda Vinda? Falar sobre a Segunda Vinda em alguns círculos é correr o risco de ser taxado de retrógrado.) são erros que a Igreja comprometida com a mensagem de Jesus deve evitar. Foi pensando nisso que li o texto de A. W. Tozer com o título de O Mundo Vindouro, do qual transcrevo abaixo alguns parágrafos. Tozer escreveu isso há mais de 50 anos, mas suas palavras soam como se tivessem sido escritas hoje.
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Tem-se citado como defeito do cristianismo, que ele se preocupa mais com o mundo vindouro do que com o mundo que agora existe, e algumas almas tímidas se agitam procurando defender a fé cristã contra essa acusação, como a galinha defende os seus pintinhos das garras do gavião.
Tanto o ataque como a defesa são desperdiçados. Ninguém que sabe o que o Novo Testamento tem em vista, se aborrecerá com a acusação de que o cristianismo pertence a outro mundo. É claro que é assim, e é precisamente nisto que reside o seu poder.
Na última metade de século, o cristianismo foi abalado pelas críticas de certos filósofos sociais. Estes cavalheiros presumiram a bondade básica do presente sistema mundial. Com uns poucos melhoramentos aqui e ali, uma sociedade próspera, saudável e pacífica poderia ser estabelecida aqui mesmo, nesta terra, e fazê-lo, dizem eles, é todo o dever do homem.
Estes homens foram suficientemente observadores para ver que sua concepção de um mundo permanentemente pacífico era contrária aos ensinos do Novo Testamento; assim, muito naturalmente, muitos líderes cristãos influentes não foram bastante astutos para notar a contradição entre os ipse dixit de Cristo e as doutrinas dos sonhadores sociais e, aflitos com as acusações lançadas contra eles pelos pensadores do mundo unificado, abandonaram a sua posição cristã e correram atrás dos filósofos sociais, gritando: “Eu também, eu também”, num frenético esforço para provar que o mundo tinha entendido mal o cristianismo do princípio ao fim. É claro que, ao fazer isso, eles renunciaram a tudo que é único na fé cristã e adotaram um cristianismo enfraquecido, que é pouco mais do que um fantasma da fé uma vez por todas entregue aos santos.
Que ninguém peça desculpas pela vigorosa ênfase que o cristinismo dá à doutrina do mundo vindouro. É justamente aí que está a sua imensa superioridade às demais coisas dentro de toda a esfera do pensamento e da experiência dos homens. Quando Cristo ressurgiu da morte e ascendeu ao céu, estabeleceu para sempre três fatos, a saber, que este mundo está condenado à dissolução final, que o espírito humano subsiste além do túmulo e que existe realmente um mundo por vir.
A igreja está sendo constantemente tentada a aceitar este mundo como o seu lar, e às vezes ela dá ouvidos às adulações daqueles que desejam seduzi-la para os seus próprios fins. Mas, se for sábia, considerará que se acha no vale, entre as altaneiras montanhas da eternidade passada e eternidade futura. O passado se foi para sempre, e o presente vai passando veloz como a sombra no relógio de sol de Acaz. Mesmo que a terra continuasse a existir por um milhão de anos, nenhum de nós poderia estar aqui para desfrutá-la. Faremos bem em pensar no prolongado amanhã.
Todos nos dirigimos rumo ao mundo vindouro. Como é indescritivelmente maravilhoso saber que nós cristãos temos um de nossa espécie que foi na frente preparar um lugar para nós! Esse lugar será num mundo ordenado divinamente, acima e além da morte e da separação, onde não há nada que possa causar dano ou medo.
(do livro De Deus e o Homem por A. W. Tozer, Editora Mundo Cristão, 1981, páginas 106-108)
2009
Um dos meus CDs favoritos
Há 2o anos a banda cristã de rock White Heart lançava aquele que, na minha opinião, foi seu melhor trabalho (e possivelmente um dos melhores discos da música cristã contemporânea dos anos 80). Freedom, o sexto álbum da banda, foi lançado oficialmente em 06 de junho de 1989, sendo o terceiro trabalho com a formação que incluía Rick Florian (vocal), Gordon Kennedy (guitarra), Tommy Sims (baixo), Chris McHugh (bateria), além dos fundadores da banda Mark Gersmehl (teclado/vocal) e Billy Smiley (guitarra/teclado/vocais). A produção ficou por conta do magistral Brown Bannister, também responsável pelo clássico Lead Me On da Amy Grant (outro de meus favoritos).
A sonoridade de Freedom foi influenciada pelo disco The Joshua Tree do U2 (precisa dizer que este também está na minha lista de favoritos?), gravado dois anos antes, principalmente o baixo e guitarra nas músicas The River Will Flow, Let it Go e Sing Your Freedom. Várias faixas fizeram sucesso nas rádios cristãs, como Let the Kingdom Come, Invitation e Over Me. A letra de Power Tools já encontrou espaço em algumas reflexões feitas por mim no Projeto 242 nos últimos anos: “É melhor abrir os olhos / É melhor saber quem está fazendo todas as regras / Ele é um homem de Deus / Ou apenas um bebê com ferramentas poderosas?”
A primeira faixa do CD chama-se Bye Bye Babylon (letra traduzida abaixo):
Voltando na história à cidade poderosa
Coloco meus pés nas ruas da Babilônia
Ouro e glitter, torres espantosas
Está tudo dentro dos muros da Babilônia
Força e segurança, conforto e tranquilidade
O que poderia ser melhor do que viver na Babilônia?
Mas sua força era apenas uma ilusão
Agora a cidade descansa sob ruínas
Adeus, adeus Babilônia
Este monumento ao orgulho já era
Adeus, adeus Babilônia
Deus não era sua força e canção
Então adeus Babilônia
Viajando num foquete através do tempo e espaço
É o ano 2088
Eles estão escavando no pó do que nós fizemos
Agora as pessoas me estudam
Eu sou uma parte da história
Será que deixamos para eles outra Babilônia?
Há evidências de um avivamento espiritual
Ou deixamos uma terra de ídolos quebrados?
Adeus, adeus Babilônia
Nosso monumento é o Santo Deus?
Adeus, adeus Babilônia
Se Deus não for nossa força e canção
Então é adeus Babilônia
Numa época de tanta música descartável, Freedom ainda encontra espaço em meu iPod 20 anos depois.
2009
Pastores ou Personalidades?
O texto abaixo foi publicado no blog Out of Ur em fevereiro deste ano. Logo que o li, decidi fazer uma tradução livre do mesmo, mas acabei deixando-a esquecida na minha caixa de rascunhos. Creio que ele pode ser lido como um complemento para a reflexão anterior sobre o “espírito de pastor.”
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Pastores ou Personalidades?
Numa cultura obcecada com o ego, pastores trocaram a “morte do eu” pela auto-promoção
Penso que foi quando eu estava na faculdade que vi pela primeira vez o título de uma revista que resplandecentemente se chamava EGO, e era tão ousada que poderia ser chamada de EGO! Nutrido por uma teologia que extraia seus sucos da Bíblia e influenciado por gente como Agostinho, Lutero e Calvino, eu me distanciava de qualquer revista ou pessoa que se promovesse com a palavra “ego”. O ego, eu fui ensinado, tinha que morrer (Lucas 9:23) ou ser colocado à morte (Romanos 6). Na verdade, meus pastores frequentemente falavam da “mortificação” da carne (e do ego).
Minha criação, então, me colocou em alerta quando eu vi a revista chamada EGO e quando o sentimento fez seu ninho na famosa música de Whitney Houston “The Greatest Love of All“. Suas palavras nos dizem que “aprender a amar a si mesmo é o maior amor de todos.” Bem, sim, eu diria a mim mesmo, precisamos ter um amor próprio… mas como pode nosso “maior” amor ser dirigido a nós mesmos? A Geração “Me” criou o que Jean Twenge está agora chamando de Geração EU. Outros a chamam de iGen. Esse valor está em todos os lugares; é o ar que a GeraçãoEU respira; e tem feito investidas potentes na igreja.
Recentemente vi o site de uma igreja onde em vez de encontrar “Pastores” ou “Equipe de Trabalho” estava listado “Personalidades”. Um clique revelava as “personalidades” destas personalidades, ou pelo menos, as “personalidades” que essas pessoas queriam que outros vissem. Não me lembro de todos os detalhes, mas li coisas como o que eles comiam no café da manhã ou o que faziam quando não estavam em suas funções na igreja. E assim por diante, mas já tinha visto o suficiente, então cliquei sobre o X vermelho no canto da janela e fui sentar-me em uma poltrona e pensar um pouco.
Pensei sobre o modo como fui criado que me levou a ficar ofendido ou chocado por qualquer pastor que se deixasse ser apresentado desta maneira no site da igreja. Minha criação tinha me ensinado certas coisas sobre um pastor:
Primeiro, é um chamado sagrado ter sido arrancado do pecado para um lugar de não somente receber graça, mas também dispensá-la. A tarefa primária do pastor é “espalhar o Evangelho”. Como? Como um pastor de pessoas e como um pregador do Evangelho. Para ter certeza, o pastor aprende a espalhar o Evangelho a si mesmo também. O site poderia facilmente ter refletido isso. Mas não fez.
Segundo, ser um líder do povo de Deus neste mundo é um chamado nobre. As gerações anteriores criaram uma imagem de pastores focada na distância, separação, santidade e, algumas vezes ,extrapolaram a nobreza da imagem [pastoral]. Esta geração atual desfez a imagem e, no processo, se apaixonou com a “autenticidade” e o “eu sou igualzinho a você”. Eu duvido que o apóstolo Paulo tinha isso em mente quando ele enviou suas instruções aos presbíteros nas epístolas pastorais. Líderes lideram porque eles têm algo a dizer e mostrar aos outros.
Terceiro, requer-se um compromisso à reverência tanto diante de Deus como da tarefa pastoral. Talvez a maior necessidade da geração atual é a de modelos de santidade e reverência. Isto é, pastores que se calam diante do próprio Nome de Deus, que falam com reverência no sagrado da presença de Deus, e que falam de si mesmos e de sua tarefa com um senso de gratidão e espanto. Precisamos de mais gente como Eugene Peterson. Você pode pensar em outros [como ele].
Quarto, acima de tudo, pastores devem ser exemplos da mortificação do eu e da carne. Eles devem exibir auto-negação diária. O pastor se levanta diante de sua congregação como um todo: pastor, pai, marido, mentor, guia espiritual, irmão, amigo e companheiro cristão. Como um “companheiro” cristão o pastor deve ser um modelo para todos de uma vida de “morte do eu e morte da carne”. Muitos hoje em dia estão com medo de colocar os pastores em pedestais e elevá-los acima do sacerdócio de todos os crentes. Isso é compreensível, mas o extremo oposto não é nada melhor. Não podemos perder a expectativa de que o pastor deve ser realmente um bom exemplo do que significa viver corretamente diante de Deus.
Eu não me considero um antiquado; nem um fossilizado. Mas estou contente em dizer que pastores devem ser santos e reverentes e tão gratos pela graça de ser um pastor que eles nunca irão divulgar a si mesmos como a palavra “personalidade”, a qual não é nada mais do que a palavra “EU” vestida de um roupagem pós-moderna que eles aprenderam no divã de Freud. A melhor palavra para um pastor na internet ainda é “pastor”.
Por Scot McKnight, professor de Estudos Religiosos na North Park University.
2009
Espírito de Pastor
Me enviaram por e-mail o texto abaixo, escrito pelo Caio Fábio. Trata-se de uma boa reflexão e exortação sobre o tema do ministério pastoral. No Projeto 242 temos seguido por esse caminho de desmistificação de cargos e funções desde o início. Às vezes, aparece entre nós pessoas possessas por esse “espírito pastoral”, mas logo percebem que vieram ao lugar errado e partem em busca de outros pastos menos avisados.
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“Pastoreai o Rebanho de Deus que há entre vós, não por constrangimento, mas espontaneamente, como Deus quer; nem por sórdida ganância, mas de boa vontade; nem como dominadores dos que vos foram confiados, antes, tornando-vos modelos do rebanho.”
Na Primeira Carta de S. Pedro 5:2-3
Um depoimento e um conselho
Há uma coisa que deveria ser pejorativamente chamada de “espírito de pastor”, e essa tal coisa é uma casta existencial difícil de deixar a gente.
O fato é que há muita gente “possessa desse espírito”, o qual tira da pessoa a possibilidade de ser ela mesma, fazendo dela um clone psicológico de um modo de sentir completamente artificial, e sem espontaneidade humana com os outros e com a própria pessoa.
Eu só tinha 18 anos e meio, e era apenas um menino amante de Jesus. Pregava em toda parte. Não queria ser pastor e nem ordenado. Desejava apenas pregar, e pregava. Aos 21 anos, me ordenaram, mesmo sem que eu tenha aceitado as imposições da denominação para ordenar ministros.
Então, logo começaram a me chamar de “Reverendo”. Aquele garoto livre, agora, de súbito, da noite para o dia, era o “Reverendo Caio”. Aí o tratamento passa a mudar: O melhor lugar na casa, na mesa, na sala, no salão, no aniversário, no funeral, nas festas de casamento, nas bodas, etc. As pessoas começam a ver o “sacerdote”, o homem diferente dos homens, o santo, o ungido do Senhor, o anjo da igreja…; e também se percebe que as pessoas mudam com você; mas raramente se percebe que depois de um tempo, muito suave e lentamente, você também aceita a mudança que fizeram acerca de você. Ora, é aí que nasce o “espírito de pastor”!
Então, começa a transformação do ser humano numa figura totêmica, um totem erguido para a manutenção de tudo: Ele é santo pelos outros; é puro pelos demais; é quem não se diverte pelos que se divertem; é quem não fica doente para poder curar; é quem “estuda Deus” e “entende de Deus”, a fim de poder explicar; e é quem é exemplo para se fazer clones comunitários. Se ele não casa os que se casam, eles se ressentem e magoam. Se ele está viajando quando alguém morre, ele abandonou o moribundo. Se ele está de férias, a igreja pode esvaziar. Ou seja: sem ele, nada do que foi feito de fez ou se faz! Vivendo sob tais responsabilidades e honras, o indivíduo vai virando pajé e não sente. Ou, em muitas ocasiões, passa a gostar mesmo de ser essa figura totemizada para a “igreja”.
Ora, é nesta necessidade que o povo tem de ter “sacerdotes” e “figuras cultuadas”, que tanto os bem intencionados se corrompem entregando-se ao “espírito de pastor”; como também os lobos se aproveitam e tiram as carnes do rebanho.
De fato, os ministérios pastoral, episcopal, apostólico ou de qualquer outra natureza já carregam em si próprios o germe do poder desse imantamento espiritual. As pessoas olham para qualquer desses “seres” — “ungidos” formalmente para tais posições —, como “ungidos do Senhor”; aqueles contra os quais não se pode ter uma opinião, pois, em assim sendo, Deus mesmo punirá os “rebeldes”, ou “hereges”, ou “desviados”. Imagine quanto poder isto significa! Ali está um homem que é visto como “o homem de Deus” no meio dos demais homens “normais”, e, de tal projeção, pode nascer apenas o “pastor clerical”, como também pode vingar qualquer maluquice!
Eu tenho por certo que todos os modos de clericalismo são malignos em relação à saúde do indivíduo que carrega o peso cultural dessa “posição”.
E a comunidade também fica adoecida! Sim, porque enquanto ela vê o líder com tais olhos, ela não cresce; ao contrário, se infantiliza; e jamais aprende a andar com as próprias pernas.
Ora, o verdadeiro pastor cuida, não domina; ajuda, não controla; alimenta, não explora; só se faz notado em caso absolutamente necessário; e deixa a porta aberta, de tal modo que todos entram e saem e acham pastagem.
A analogia do Bom Pastor em João 10, todavia, é perfeita no seu todo apenas em relação a Jesus, e a mais ninguém. Isto porque em relação a Jesus todos nós somos apenas ovelhas do rebanho.
Porém, em relação a nenhum “outro pastor”, nós devemos ser “ovelhas do rebanho”; posto que ser ovelha de Jesus já nos põe na condição de só ouvir a voz de um homem se ela for de acordo com a Voz do Único Pastor; do contrário, a ordem de Jesus é para não “seguir a voz do estranho”, pois somos o Rebanho de Deus.
Portanto, o verdadeiro pastor de homens é apenas mais um do rebanho único, sendo somente uma ovelha que já se deixou ensinar um pouco mais pela voz do Único Pastor. É na Sua fidelidade e reconhecimento à Voz do Pastor que ele se qualifica para ser pastor entre ovelhas, pois, conforme Pedro, ele se torna “modelo do rebanho”.
Assim, é o caminho da ovelha seguindo o Pastor, o que a torna uma ovelha-pastor; visto que seu passo e obediência estabelecem referência para as demais.
O problema é que alguns “pastores” e clérigos pensam que são os “Jesuses” da comunidade; e, diferentemente de Jesus, transformam-se nos lobos que não amam as ovelhas, mas apenas os privilégios e poderes que delas “arrancam”.
E como agravante, a “igreja”, por ser pagã ainda em sua essência, precisa desses “pastores tiranos”, pois, como associam a “figura clerical” ao “representante de Deus”, sentem-se objeticamente mais seguras se têm um déspota dizendo o que fazer, o que não fazer, com quem casar ou não, e quem é quem.
“Não é assim entre vós!”— disse Jesus!
Foi por esta razão que Jesus tirou as roupas de cima e se cingiu de uma toalha e passou a lavar os pés dos discípulos. Sim, porque liderar é, sobretudo, poder lavar pés e servir em nudez.
Na realidade, além de tudo o que o gesto de Jesus ensina, nele também vemos o modelo existencial do significado da liderança: O líder serve em revelação de sua humanidade. E os liderados são servidos aceitando a humanidade de quem lidera servindo de modo humano. E Jesus disse a Pedro que ou seria assim, ou Pedro não teria parte com Ele!
Somente quando os líderes tiverem a coragem de fazer como Paulo e Barnabé, que rasgaram as roupas e expuseram sua nudez quando foram chamados de “deuses”, é que aqueles que crerem no que as lideranças disserem, não ficarão ainda mais adoecidos de idolatria.
Hoje se dá o contrário da experiência dos apóstolos: a maioria dos líderes faz todo o possível para passar por deuses; e, o povo, vai se ameninando na fé, apenas trocando de “pai-de-santo”, ou de pajé ou de sacerdote; porém existindo sob a escravidão da espiritualidade da idolatria; adorando e servindo a criatura, mesmo que se vistam de pastores, bispos ou apóstolos.
No Caminho nós temos buscado diante de Deus e conforme o Evangelho, quebrar todos esses paradigmas totêmicos. Sugiro que todos, em todo lugar, e com todo bom coração, assim o façam também, em nome de Jesus, o Bom Pastor!
por Caio Fábio
2009
Jesus quer salvar os cristãos
A editora Vida publicou o mais recente livro de Rob Bell, Jesus Quer Salvar os Cristãos. Este é o seu terceiro livro, sendo o primeiro Velvet Elvis (publicado no Brasil como Repintando a Igreja) e o segundo Sex God (que está no prelo pela própria editora Vida). Eu escutei o audiobook logo que o livro foi lançado e li a tradução em português essa semana. Este é, em minha opinião, o melhor livro de Rob Bell até agora (ele o escreveu em parceria com Don Golden, seu companheiro de ministério na igreja Mars Hill). Abaixo estão algumas frases sublinhadas por mim em minha leitura do livro:
Um cristão deveria sentir-se muito nervoso quando bandeira e Bíblia começam a se dar as mãos. Este não é um romance que queremos encorajar. (p. 21)
Os Dez Mandamentos são um novo modo de ser humano, um novo modo de viver e se mover no mundo, em aliança com o Deus que ouve o clamor dos oprimidos e os liberta. (p.40)
Deus não tem nada contra comer, beber e possuir coisas. Mas, quando essas coisas são adquiridas à custa da satisfação das necessidades básicas dos outros, aí sim, os discursos apaixonados dos profetas entram em ação. (p. 53)
Nossas lágrimas são sagradas. Regam o solo em torno dos nossos pés para que coisas novas possam brotar. (p. 61)
…é tão perigoso quando uma igreja se torna conhecida como contemporânea, descolada e moderna. O novo homem não é um modismo. (p 179)
Bom é participar de uma igreja que se reuniu e olhar à sua volta, pensando: “O que esse grupo de pessoas pode ter em comum?”. (p. 180)
A autoridade que a igreja exerce na cultura não procede do quanto está certa ou é legal ou barulhenta, nem do quanto está convencida de sua superioridade doutrinária. (p. 184)
Um ponto positivo é que este é o livro de Rob Bell que mais interage com as Escrituras, e isso é bom numa época que a Bíblia tem perdido centralidade nos diálogos emergentes. A interpretação que Bell faz da narrativa bíblica fica um pouco a desejar, no entanto, e, apesar de logo de início ele ter apresentado o livro como “um livro sobre um livro”, deixar Abraão de fora do plano de Deus para abençoar as nações é algo totalmente incompreensível para mim. Este não é um livro de panorama bíblico, muito embora, para quem não está familiarizado com a narrativa bíblica, servirá como uma introdução.
Seguindo a tendência pós-moderna de se esquivar do escândalo da cruz, ela não é vista em Jesus Quer Salvar Cristãos do ponto de vista da redenção por meio da morte substitutiva de Cristo, mas como demonstração de paz por meio do auto-sacrifício e não-violência (seria isso uma influência da teologia liberal de Crossan, dentre outros?).
Eu recomendo a leitura de Jesus Quer Salvar os Cristãos como um panorama sobre o coração de Deus com relação ao pobre e oprimido. Para quem quiser se aprofundar nesse tema recomendo a leitura de Cristãos Ricos Em Tempos de Fome de Ron Sider (Sinodal, 1984) e O Poder da Justiça de John Perkins (Editora Missão, 1990). Você vai ter que garimpar para encontrar estes livros, mas valerá a pena…
2009
Repensando a Oração
“If there are millions down on their knees, among the many can You still hear me?”
(se há milhões ajoelhados, dentre tantos ainda podes me ouvir?)
- Michael W. Smith
Recentemente eu estava falando com alguém sobre um texto que ambos lemos. O autor do texto dizia que se você orar pedindo a Deus para abrir as portas de emprego para você ou alguém que você conheça, sua oração é ilícita. Lembro-me que minha primeira sensação ao ler o texto foi sentir-me imaturo, culpado, inexperiente… pagão. Naquele mesmo dia um amigo próximo que estava desempregado havia me pedido orações e eu tinha orado justamente por isso, inclusive usando as mesmas palavras da “oração ilícita” daquele texto. Então fiquei pensando sobre isso e cheguei à conclusão de que, por mais que a intenção do autor tenha sido boa ao denunciar as relações de barganha com Deus e os clichês vazios da religiosidade popular, seu texto está equivocado neste ponto específico da oração.
Se eu estivesse desempregado e meu melhor amigo pudesse me ajudar a encontrar um emprego, indicando uma vaga para mim na empresa onde ele trabalha, será que eu seria sincero em meu relacionamento se não falasse a ele sobre minha necessidade de emprego? Será que ele ficaria feliz em saber que eu estava passando necessidade e não tinha contado nada a ele? Seria esse um relacionamento próximo, de amigos de verdade? Ou será que minha hesitação em contar minhas necessidades para ele poderia ser vista como uma expressão de orgulho de minha parte?
Estas são algumas das perguntas que vieram à minha mente ao refletir sobre aquele texto da “oração ilícita” por emprego. O tipo de relacionamento com Deus proposto no texto torna-se completamente superficial (por mais que a intenção do autor tenha sido exatamente o contrário) ao não envolver todas as áreas da minha vida - inclusive minhas necessidades pessoais.
Não pretendo de maneira alguma fazer aqui um tratado sobre oração (há muitos bons textos por aí) e nem acusar o autor do texto de heresia (não se trata de uma heresia, apenas de um equivoco ou “escorregão”). Esta reflexão é uma resposta a mim mesmo e, talvez, àqueles que como eu possam ter se sentido culpados por orar por coisas tão insignificantes como… emprego.
Reconheço que oração é verdadeiramente um mistério. Afinal, por que orar se Deus já sabe tudo a nosso respeito? Para mim, a oração só faz sentido no contexto de relacionamento. Me parece que foi isso que Jesus quis ensinar aos seus discípulos quando disse-lhes que eles deveriam iniciar suas orações com a certeza de que estariam se dirigindo a alguém que é Abba (Papai). Ou seja, pressupõe-se um relacionamento entre aquele que ora e Deus (que além de ser Pai, é também Santo e Soberano Rei). Orar é se relacionar com Deus que habita nas alturas (Pai nosso que estás nos céus!), mas que também habita no coração do contrito e quebrantado. Orar é expressar fé não somente em que Deus existe (o Deísmo crê assim também), mas que Ele recompensa aqueles que o buscam (Ele se comunica, responde e intervêm).
Com certeza há milhões de desempregados ao redor do mundo. Mas este fato de maneira alguma torna minha oração por emprego ilícita. Ao contrário, quando oro por emprego estou reconhecendo minha dependência de Deus para que eu possa encontrar um emprego e sustentar minha família. E creio que Deus recompensa minha fé, embora nem sempre eu receba o emprego que estou desejando ou no momento em que espero recebê-lo.
É verdade que não devemos ser como crianças mimadas e buscar a Deus somente por nossas necessidades físicas e materiais, todavia não há nada de ilícito em orar por elas. A oração modelo do Pai Nosso nos ensina a buscar o Reino em primeiro lugar, mas demonstra que Deus também se interessa em ouvir-nos sobre a nossa necessidade de subsistência diária (dá-nos hoje o nosso pão de cada dia) e também sobre nossa necessidade de proteção (livra-nos do mal). Seguindo o raciocínio daqueles cuja fé é interpretada à luz das calamidades (e não o contrário como eu acredito que deveria ser), nem sequer deveríamos orar pelo pão de cada dia, visto que bilhões de pessoas ao redor do mundo passam fome. Será que Jesus estava equivocado quando ensinou seus discípulos a orar assim? Talvez ele não soubesse que um dia haveria bilhões de famintos… Mas ainda que isso fosse verdade (não creio que seja), haviam muitos contemporâneos de Jesus famintos. Por quê, então, orar por pão numa época em que muitos passam fome? Por que orar por emprego numa época de desemprego crescente? Por que orar por cura quando há tantos doentes morrendo? Por que, simplesmente, orar?
Creio que a resposta só pode ser encontrada por aqueles que entendem que oração é relacionamento com Deus. Um Deus que é Pai e que tem prazer em ouvir Seus filhos - muito embora Ele já saiba de todas as suas necessidades.
Você precisa de emprego, provisão, sabedoria, cura, etc.? O conselho das Escrituras é: Não fique ansioso; mas em tudo, pela oração e súplica [de olhos abertos ou fechados, em voz alta ou em silêncio], e com ação de graças, apresente seus pedidos a Deus. E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará o seu coração e a sua mente em Cristo Jesus.
2009
Atitude

Uma atitude saudável é contagiante; mas não espere pegá-la de outros, seja você um disseminador.
Este mês estamos refletindo sobre o tema ATITUDE no Projeto 242. As reflexões são baseadas na carta de Paulo aos filipenses. Todos os domingos as 10:00 e 17:00 horas.
2009
Magnificent
Essa semana o U2 lançou o vídeo da música Magnificent, o segundo single do disco No Line on the Horizon (clique na imagem acima para assistir o vídeo). Filmado em Fez, no Marrocos, esse vídeo foi dirigido por Alex Courtes que também dirigiu o vídeo de Get On Your Boots. Enquanto Bono, Edge, Adam Clayton e Larry Mullen Jr. tocam no pátio de uma vila marroquina, lá fora as pessoas caminham pelas ruas em meio a prédios e casas que estão cobertos com gigantescas peças de tecido branco.
A cidade coberta de tecido branco pode ser uma referência aos artistas Christo e Jeanne-Claude e suas intervenções artísticas monumentais. O interessante é que Christo & Jeanne-Claude criam obras de arte cobrindo locais conhecidos, revelando a beleza justamente quando encobrem algo familiar. Isso me faz lembrar da frase de Michael Card que pergunta para Deus: Could it be, You make your presence known so often by your absence? (poderia ser que você torna sua presença conhecida frequentemente por meio de sua ausência?). Seria o mistério, o encoberto, justamente um dos meios de Deus se revelar (se descobrir) como Deus?
No vídeo do U2, o véu que cobre a cidade é agitado pelo vento, num movimento que faz pensar na presença do Espírito Santo no cotidiano da vida (o U2 gravou no Marrocos 17 anos atrás o vídeo para a música Mysterious Ways que diz que o Espírito se move de modo misterioso). Algumas pessoas passam pelas ruas totalmente apáticas a esse movimento, enquanto outras param e ficam olhando para cima (a própria banda olha para cima em determinado momento, como que se chamando a nossa atenção para onde devemos olhar).
De acordo com o Bono, Magnificent é sobre um casal se abraçando e tentando fazer de sua vida um ato de adoração. Durante o vídeo, alguns dançarinos aparecem, um deles é um homem que está mergulhado em sua dança e me fez pensar no texto bíblico que narra como o Rei Davi dançou com todas as suas forças diante do Magnífico.
Será interessante ver a performance dessa música durante a turnê que começa dia 30 de Junho em Barcelona e deve passar pelo Brasil em outubro de 2010…
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