Devagar É Melhor

Recentemente comprei um livro chamado Devagar, do jornalista canadense Carl Honore. Eu tenho flertado com um estilo de vida mais devagar por algum tempo. Cerca de 2-3 anos atrás comecei a perceber que estava indo rápido demais e tentando realizar muitas coisas ao mesmo tempo. Era como se eu fosse o personagem daquela canção do U2 “trying to throw your arms around the world” (tentado abraçar o mundo). Ao mesmo tempo, mudanças no escritório onde eu trabalhava aumentaram a pressão do trabalho a uma velocidade de quebrar o pescoço. Eu sabia que precisava fazer algo antes que terminasse louco ou perdesse minha vida ou minha família ou tudo isso ao mesmo tempo. A primeira coisa que decidi foi me rebelar contra os e-mails. Eu estava recebendo dezenas de e-mails todos os dias, então decidi que isso precisava mudar. Foi difícil a princípio (eu confesso, estava viciado) mas agora eu penso que aprendi como trabalhar melhor com e-mail, sem o sentimento de ser inundado por eles. Eu ainda tenho um longo caminho a seguir nessa e em outras áreas, mas estou perseverando. Comprar esse livro foi parte do desejo de fazer mudanças. Ao refletir sobre isso agora eu percebo como é fácil ser pego pela forte correnteza do mundo hoje que dita o modo como devemos viver nossas vidas, um estilo de vida que tem destruído tantas pessoas e inundado os consultórios psicológicos de pacientes. O fato é: mentiram para nós. A tecnologia prometeu melhorar nossas vidas mas acabou fazendo exatamente o contrário de sua promessa. Então em vez de re-avaliar nossas vidas para descobrir o que deu errado, nós continuamos em alta velocidade, projetando e criando nova tecnologia para consertar os problemas causados pela anterior. E não estou advogando o fim da tecnologia aqui, mas tentando refletir sobre como é fácil nos tornarmos escravos dela ao invés de governá-la. O desafio é esse: usar a tecnologia ao invés de ser usado por ela. Mas porque não queremos enfrentar o desafio e continuamos em alta velocidade, dirigindo a todo lugar que vamos e algumas vezes trabalhando e comendo no próprio carro, nós compramos esteiras elétricas para perder o peso e temos belas paisagens em nosso protetor de tela para nos lembrar de um mundo que estamos deixando de apreciar. Não seria mais fácil dar uma caminhada e apreciar a paisagem? “Smell the flowers while you can” (sinta o cheiro das flores enquanto você pode). Não é fácil nadar contra a correnteza. Sempre haverá forte resistência (seu pior inimigo é você mesmo). Mas bem-aventurados os que fazem isso. Eles terão uma vida melhor. Acredite em mim. Eu estou começando a encontrar minha vida novamente.

(publicado originalmente em 27/01/2006)

Switchfoot, música, fé e vocação

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Gosto de Switchfoot e considero Jon Foreman um dos mais talentosos compositores dos últimos 20 anos. Curiosamente, essa foi uma banda que cheguei a ouvir pela primeira vez, não por causa da música, nem das letras, mas por um de seus músicos. Quando soube que Jerome Fontamillas (cuja carreira musical eu acompanhava desde Mortal e Fold Zandura) estava tocando na banda, decidi escutá-la e fiquei impressionado com o que encontrei. Virei fã. O álbum The Beautiful Letdown (2004) me ajudou num período difícil de minha vida. Tenho todos os cds originais e estou aguardando ansiosamente o lançamento de Fading West em janeiro de 2014.

O texto abaixo foi divulgado essa semana no FB por um artista que acompanho (link do original aqui). Trata-se da resposta dada por Jon Foreman para a pergunta feita a ele se sua banda Switchfoot é uma “banda cristã”. Vale a pena a leitura e reflexão.

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“Para ser honesto , esta questão me entristece, porque sinto que ela representa um problema muito maior do que simplesmente algumas músicas do Switchfoot. Na verdadeira forma socrática, deixe-me lhe fazer algumas perguntas: Lewis ou Tolkien mencionam Cristo em qualquer de suas séries de ficção? As sonatas de Bach são cristãs? O que é mais semelhante a Cristo, alimentar os pobres, fabricar móveis, limpar banheiros ou pintar um pôr do sol? Há um cisma entre o sagrado e o secular em todas as nossas mentes modernas.

A visão de que um pastor é mais “cristão” do que um treinador de um time de voleibol feminino é falha e herética. A posição que um líder de adoração é mais espiritual do que um zelador é condescendente e falha. Essas vocações e propósitos diferentes demonstram ainda mais a soberania de Deus.

Muitas canções são dignas de serem escritas. Switchfoot escreverá algumas; Keith Green, Bach e talvez você mesmo tenha escrito outras. Algumas dessas canções são sobre redenção, outras sobre o nascer do sol, outras sobre nada em particular: escritas pela simples alegria da música.

Nenhuma dessas músicas nasceu de novo, e nesse sentido, não existe tal coisa como música cristã. Não. Cristo não veio morrer por minhas músicas, ele veio por mim. Sim. Minhas músicas são uma parte da minha vida. Mas, julgando pelas Escrituras, só posso concluir que o nosso Deus está muito mais interessado em como trato os pobres, os quebrantados e os famintos, do que com os pronomes pessoais que eu uso quando canto. Sou crente. Muitas dessas músicas falam sobre essa crença. A obrigação de dizer isso ou fazer aquilo não soa como a gloriosa liberdade que Cristo morreu para me dar.

No entanto, tenho uma obrigação, uma dívida que não pode ser quitada por minhas decisões líricas. Minha vida será julgada por minha obediência, e não por minha capacidade de limitar as minhas letras nessa ou naquela caixa.

Todos temos vocações diferentes; Switchfoot está tentando obedecer ao que fomos chamados. Não estamos tentando ser Audio Adrenaline ou U2 ou POD ou Bach; estamos tentando ser Switchfoot. Uma canção que tem as palavras “Jesus Cristo” não é nem mais nem menos “cristã” do que uma instrumental (já ouvi muita gente dizer “Jesus Cristo” e não estavam falando sobre o seu redentor). Jesus não morreu por nenhuma de minhas músicas. Portanto, não há hierarquia de vida ou músicas ou ocupação, só há obediência. Temos um chamado para tomar a nossa cruz e seguir. Podemos ter certeza de que essas estradas serão diferentes para todos nós. Assim como você tem um corpo e cada parte tem uma função diferente, assim também, em Cristo nós, que somos muitos, formamos um só corpo e cada um de nós pertencemos uns aos outros. Por favor, seja lento em julgar “irmãos” que têm um chamado diferente.”

Foreman menciona a “caixa” cristã onde muitas pessoas querem ficar, e colocar os outros dentro. Concordo com Foreman que esta caixa é particularmente limitada quando se trata de arte. Então, saia e crie algo – algo belo, algo maravilhoso – e faça isso para a glória de Deus.

Lembrai-vos dos presos

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“Você já viu um homem sem língua falando?”, perguntou-me Anderson, enquanto ele abria sua boca para me mostrar o que havia restado de sua língua após um tiro de carabina no rosto. De fato, suas faces estavam marcadas por enormes cicatrizes. “Você pode orar por mim?”, ele perguntou. Com minhas mãos sobre seus ombros, ergui minha voz ao Céu e pedi que Deus revelasse a ele seu amor e o mantivesse seguro naquele lugar. Quando terminei de orar, notei que uma pequena fila havia se formado atrás dele. Outros homens também queriam oração.

Foi minha terceira visita à Penitenciária Marrey, na grande São Paulo. Marrey ficou conhecida em 2003 quando dois homens, num helicóptero roubado, tentaram facilitar a fuga de alguns prisioneiros. A tentativa fracassou, mas desde então ficou a sensação de que Marrey mantinha presos ligados ao PCC, considerado a maior facção criminosa do Brasil. Na verdade, conforme descobri na primeira vez em que estive lá, do lado de dentro da prisão, o comando está nas mãos de prisioneiros. Também fui informado que Marrey mantém preso um dos maiores assassinos em série da história brasileira. Se há lugares onde o pecado e pecadores abundam, Marrey é um deles.

Como uma tremenda demonstração de que não há portas fechadas para Deus, os líderes da prisão permitiram que o David Pierce, fundador na missão Steiger, pregasse do pátio, em vez de ficar restrito ao pequeno salão de cultos.

Enquanto David se preparava para falar, Ícaro se aproximou para me cumprimentar. Nós nos conhecemos em minha primeira visita quando orei por ele. Demos a ele também Rock Priest, a biografia do David Pierce. Perguntei-lhe se ele estava lendo. Ele disse que sim e passou a me contar alguns trechos do livro que havia gostado. Então falou que estava lendo devagar, porque não queria terminar logo, uma vez que não teria mais nada para ler depois.

O David começou a pregar e eu fiz o melhor que pude para interpretá-lo e ser ouvido sem o uso de um microfone. Aproximadamente 300 homens estavam ouvindo ao nosso redor, no pátio e nos três níveis acima de nós. A chuva caía enquanto o David pregava, e eu sentia que Deus estava lá, de modo tão real quanto aquela chuva. O David disse que o orgulho é o que nos afasta de Deus e que precisamos estar dispostos a nos humilhar e nos render para conhecer seu amor por nós.

A mensagem alcançou corações frios e duros. Quando o David fez o convite àqueles que queriam render suas vidas a Jesus, houve um momento de tensão, depois uma após outra, vimos muitas mãos levantadas. Após a oração do David, um dos prisioneiros que se converteu na prisão e agora serve como um pastor local convidou aqueles que responderam para se unirem a nós no salão de cultos. O lugar ficou lotado de homens fazendo perguntas ao David sobre sua vida e sua fé em Deus.

Um jovem perguntou-lhe o que o levava a pensar que presos como aqueles pudessem mudar de vida. “Eu não posso mudar minha vida, nem você pode mudar a sua”, respondeu o David, “mas o Espírito Santo pode nos mudar a fim de que nos tornemos as pessoas que Deus deseja.” As perguntas continuaram por quase uma hora, até às 16h, hora em que os presos precisam entrar para suas celas e permanecer lá até às 8 da manhã do dia seguinte.

Meu filho Lucas, de seis anos, estava orando por mim enquanto me preparava para a visita ao presídio. Ele me olhou com uma expressão preocupada e perguntou: “Por que você tem que ir lá?” E respondi que desejo compartilhar o amor de Deus com os presos. “Mas é perigoso lá, pai!”, ele insistiu. “Sim, eu sei, filho. Por isso preciso de suas orações”, respondi.

Não há como ir a um lugar assim sem oração. Entrar num presídio onde, depois de passar pelos vários níveis de segurança, portas e portões de ferro, você se encontra sozinho com centenas de presos, não é algo para quem confia em si mesmo. Estou plenamente consciente do perigo e coloco minha confiança somente em Deus para proteger minha vida e meus amigos ao entrarmos lá.

Meses atrás, minha esposa e eu estávamos conversando sobre como seria bom voltarmos a fazer visitas aos presos. Então, num domingo logo após o culto na igreja, um homem se aproximou de mim e se apresentou, dando-me seu cartão. Frank, um aposentado de 74 anos, perguntou-me se ele poderia dar o endereço de nossa igreja para alguns presos que ele estava visitando na Penitenciária Marrey. Respondi que sim, e mencionei que gostaria de ir com ele em algumas dessas visitas.

Na primeira vez em que fui, um preso convertido (que, segundo me disseram, era do PCC) fez a leitura de um texto bíblico. A passagem que ele escolheu foi Mateus 25: “Estive preso e você não foi me visitar.”

A razão pela qual desejo continuar visitando presos é que a sociedade, de um modo geral, e até mesmo a Igreja, infelizmente, considera-os como uma causa perdida, como criminosos que merecem apodrecer na cadeia. Mas eu creio que se a graça de Deus é abundante, então ela deve ser mesmo numa cadeia. Também desejo encorajar aqueles que se converteram na cadeia a continuar firmes em sua fé e a se preparar para que do lado de fora, quando forem liberados, possam continuar vivendo a nova vida que encontraram lá dentro. Finalmente, desejo continuar visitando presos porque creio que quando os visito, é a Jesus que estou visitando.

“Lembrem-se dos que estão na prisão, como se aprisionados com eles.” Hebreus 13.3

Os ricos sempre tereis convosco (versão beta)

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A relação do cristão com o dinheiro parece condenada a posições extremas. Conheço cristãos que pregam e ensinam que o dinheiro deve ser buscado como sinal da bênção e aprovação de Deus. Para eles, a vida do cristão verdadeiro e cheio de fé deve ser cada vez mais próspera financeiramente. A riqueza é motivo de celebração por parte de um povo que foi escolhido para ser “cabeça e não cauda” e, portanto, comer “o melhor desta terra”. Por outro lado, conheço cristão que abominam tal ideia, denunciando-a como uma distorção da Bíblia e consequência de uma Igreja contaminada pelo capitalismo materialista. Para estes, o dinheiro é a raiz de todo mal que existe no mundo, e a verdadeira espiritualidade só é possível por meio da pobreza voluntária. Ironicamente, apesar de suas críticas, boa parte deles não são exatamente o que poderia se chamar de pobres. Sob forte influência marxista, muitos destes cristãos passam a ideia de que tudo que precisamos para ter um mundo com mais igualdade social é uma redistribuição da riqueza.

Tony Campolo, introduzindo o capítulo How To Be Rich And Still Be A Christian (Como ser rico e ainda ser cristão) do seu livro Following Jesus Without Embarrassing God (Seguindo Jesus sem envergonhar Deus), contesta a ideia que diz que riqueza e pobreza é uma mera questão de distribuição da renda:

John Perkins, um líder [norte-americano] na criação de programas de desenvolvimento econômico para os pobres, sustenta a ideia de que não resolvemos os problemas associados a desigualdade econômica por meio de uma mera redistribuição da riqueza: “Mesmo se redistribuíssemos toda riqueza de maneira igual, dentro de alguns anos, os ricos teriam tudo de volta”, diz ele. Há uma evidência empírica sustentando essa declaração do John. Após a Segunda Guerra Mundial sob o Plano Marshall, cada cidadão da Alemanha recebeu o equivalente a cinquenta dólares. De certa forma, todo mundo na Alemanha tinha sido reduzido, o máximo possível, ao mesmo nível de riqueza/pobreza. Mas dentro de 10 anos, 90 por cento da riqueza da Alemanha estava concentrada nas mãos de 5 por cento da população. O ponto feito por John Perkins é que ser rico não é apenas ter dinheiro; é saber como “fazer” dinheiro. E o rico sempre sabe como fazer isso.

Se Campolo e Perkins estão certos (acredito que estão), talvez seja essa a razão pela qual a Bíblia assume o fato de que, ao menos nesta era, sempre haverá ricos e pobres, e conduz a uma ética onde os ricos sejam solidários e justos no trato para com os pobres.

Richard Foster, em seu livro Dinheiro, Sexo e Poder, apresenta esses temas como três tentações clássicas na vida e convoca os cristãos a considerarem as disciplinas da simplicidade, pureza e humildade, como uma maneira de resistir a elas. Ao tratar da questão do dinheiro, Foster reconhece que há uma face luminosa (o dinheiro como bênção) e outra sombria (o poder sedutor do dinheiro, onde o dinheiro assume a figura de uma potestade, um deus – Mamon).

A face luminosa é indicada também por Craig L. Bloomberg, professor de Novo Testamento do Seminário de Denver no Colorado, EUA, em seu livro Nem Riqueza Nem Pobreza:

As posses materiais são um bom dom de Deus dado para que seu povo as aprecie. Isso é deixado claro desde a criação do mundo material por Deus destinado para o bem, de seu desejo que todos tivessem acesso a pelo menos uma pequena parte de propriedade e do fato de que as posses materiais, na aliança de Deus com Israel, são uma bênção pela obediência. Ao longo do Antigo Testamento, Jó, Abraão, Davi, Salomão e diversas outras figuras demonstram que riqueza e santidade podem coexistir pelo menos por um tempo. A literatura proverbial oferece riquezas como recompensa pelo trabalho benéfico. O Novo Testamento, da mesma forma, reconhece um crescente número de cristãos prósperos ao longo da história primitiva do cristianismo que recebem as igrejas em suas casas, fazem viagens de negócio e financiam ministros itinerantes (incluindo Jesus e sua trupe original). A comunidade de discípulos não divide os próprios recursos materiais entre si para todos serem igualmente pobres, mas para não haver nenhum necessitado entre eles (At 4.34). Até mesmo nos cenários mais difíceis, os luxos que podem levar à perdição e ao demoníaco (Ap 17-18) estarão disponíveis para o povo redimido de Deus em uma era muito material por vir (Ap 21-22). (BLOOMBERG, p. 243-244)

Em O Homem e o Dinheiro, Jacques Ellul trata da “face sombria”, apontando para o caráter sagrado que o dinheiro adquire para as pessoas. Ele diz:

A manifestação do caráter sagrado que o homem atribui a seu dinheiro é, ainda, a potência espiritual desse Mamon. Não se trata aqui do fato de que haja ídolos travestidos simbolizando o dinheiro, mas muito simplesmente que, para o homem moderno, o dinheiro faz parte de seu “sagrado”. As relações de dinheiro são, nós o sabemos bem, as “coisas sérias” para o homem moderno; todo o resto – o amor, a justiça, a sabedoria, a vida – são palavras. Da mesma forma, o homem evita falar de dinheiro. Fala-se de negócios, mas quando, em uma salão, fazemos uma pergunta sobre o dinheiro, cometemos uma indiscrição insuportável, e é exatamente esse embaraço que exprime, na realidade, o sentimento do sagrado. Isso, para a burguesia. Na classe operária, encontramos o mesmo sentimento, mas sob um outro aspecto: é a convicção generalizada de que, se a questão do dinheiro for resolvida, todos os problemas do operário e do homem em geral serão da mesma forma resolvidos. E vermos também uma convicção de que tudo o que não servir para resolver isso, é apenas bobagem ou perda de tempo. O fato é que esse sagrado atribuído ao dinheiro pode, além do mais, se exprimir de várias outras formas – todavia ele existe no fundo de cada homem. (ELLUL, p. 81)


A capacidade para ser tanto bênção como altamente sedutor. É assim que a Bíblia apresenta o dinheiro. Talvez precisamente por este motivo, os cristãos são chamados para uma relação com o dinheiro que vai na direção oposta ao apego pelo mesmo e a busca desenfreada por riqueza. Foster diz que, “se levarmos o que a Bíblia ensina a sério, parece que uma das melhores coisas que podemos fazer com o dinheiro é dá-lo. A razão é óbvia: dar é uma das principais armas de que dispomos para vencer o deus Mamon.” (FOSTER, p. 83) Jacques Ellul pensa de maneira semelhante: “Temos indicações muito claras de que, na vida cristã, o dinheiro é ganho a fim de ser dado.” E é esta a conclusão de Bloomberg em sua obra sobre riqueza e pobreza nas Escrituras:

No fim, a vida toda de uma pessoa deve ser dedicada a Deus, mas uma área que particularmente indica o compromisso religioso envolve as finanças. Os patriarcas e reis ricos, mas bons, do Antigo Testamento são relatados, sem exceção, como tendo compartilhado generosamente com o pobre e necessitado. As leis do Antigo Testamento ordenavam dízimos e impostos para sustentar “trabalhadores religiosos em tempo integral” além de ajudar aos destituídos. Um dos refrãos mais frequentes da Torá, dos Salmos e dos profetas é a preocupação de Deus pela “viúva, órfão, forasteiro e pobre”, uma preocupação que devia levar o povo a evitar qualquer forma de exploração e buscar formas de suprir as necessidades genuínas do marginalizado e tratar as causas de sua miséria. No Novo Testamento, Lucas e Paulo impõem a caridade generosa, enquanto Jesus simplesmente pressupõe tal prática, mais notavelmente no Sermão do Monte (Mt. 6.1-4). Tiago e João concordam que aquele que está ciente das necessidades dos irmãos em Cristo e tem condições de ajudar mas falha em fazer algo, não pode ser salvo (Tg 2.14-17; 1 Jo 3.17s). Pedro e Paulo são particularmente consistentes em desafiar o sistema-greco romano de reciprocidade na doação e recebimento de ofertas. Ambos constroem sobre o comando de Jesus enraizado na teologia jubilar de emprestar (ou dar) “sem esperar nenhuma paga” (Lc 6.35). (BLOOMBERG, p 244,245)

Diante disso, acredito que, como cristãos precisamos cada vez mais resistir a sedução do Evangelho da Prosperidade tanto quanto as propostas simplistas que algumas ideologias tidas como libertadoras dão ao problema da desigualdade social. Ricos e pobres foram seguidores de Jesus. Embora ele não tenha mandado todos venderem seus bens e doarem aos pobres como condição sine qua non para que o seguissem, ele disse a todos que sem a morte para si mesmo, ninguém poderia ser seu discípulo.

O grande avivalista e fundador do metodismo, João Wesley, costumava dizer algo que acredito que deve ser um incentivo para todo cristão vivendo nesta presente Era como um servo de Cristo e mordomo de Deus:

“Ganhe tudo o que puder, economize tudo o que puder, doe tudo o que puder.”

Jacques Ellul, O Homem e o Dinheiro, Editora Palavra, 2008
Richard Foster, Dinheiro, Sexo e Poder, Mundo Cristão, 1988
Tony Campolo, Following Jesus Without Embarrassing God, Word Publishing 1997
Craig L. Bloomberg, Nem Pobreza Nem Riqueza, Editora Esperança, 2009

Por que Teo-logia?

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Comecei a ler livros de teologia logo após minha conversão, na década de 1980. Quando fui para o seminário, clássicos de teologia como o de Louis Berkhof não estavam disponíveis na língua portuguesa. Lembro-me de passar algum tempo na biblioteca, tentando ler os textos daquela obra em espanhol. Ao lado de Berkhof, o livro Palestras em Teologia Sistemática de Henry Clarence Thiessen aumentou meu interesse por estudar. Então, ainda nos anos ’80, veio As Institutas de João Calvino, mesmo que apenas no resumo feito por J. P. Wiles. Depois, ao longo dos anos (e décadas) vieram Dietrich Bonhoeffer, Francis Schaeffer, C.S. Lewis, Paul Tillich, George Ladd, Karl Barth, Hans Küng, Jürgen Moltmann, Wayne Grudem, N.T. Wright, D.A. Carson, Wolfhart Pannenberg, John Piper, Santo Agostinho, Hans Urs Von Balthasar, Miroslav Volf e tantos outros autores – alguns conservadores, outros liberais; a maioria deles protestantes, mas alguns católicos – que tem acompanhado essa paixão que tenho pela teologia e seus intérpretes. Obviamente que o fato de ler e estudar diferentes teólogos não significa que eu concorde com tudo o que eles escreveram ou as conclusões que chegaram acerca de Deus, sua natureza, seus propósitos, sua obra, etc. Meus pés permanecem firmes na tradição protestante-reformada-evangélica, na qual fui formado e que continua fazendo mais sentido e coerência intelectual (McGrath) para mim, na tentativa de interpretar a vida e seus mistérios.

Não é raro ouvir pessoas – algumas delas, líderes espirituais – questionarem o interesse pelo estudo teológico ou criticarem veementemente qualquer tentativa de se fazer teologia. Escolhi duas citações abaixo como lembrete e resposta a tais críticas e questionamentos. Dentre tantas frases que eu poderia ter escolhido, fiz questão de usar um teólogo latino-americano para a primeira citação:

“A reflexão teológica – inteligência da fé – surge espontânea e iniludivelmente naquele que crê, em todos aqueles que acolheram o dom da Palavra de Deus. A teologia é, com efeito, inerente à vida de fé que procura ser autêntica e plena… Em todo crente, mais ainda, em toda comunidade cristã, há pois um esboço de teologia, e esforço de inteligência de fé.”(1)

“Quem quer que pense e fale a respeito de Deus está fazendo teologia. Quem fala e pensa muito a respeito de Deus cria uma estrutura na qual Deus é enquadrado. Essa estrutura é sua teologia. É a lente por meio da qual o indivíduo lê a Bíblia, ouve sermões, ora a Deus, lê livros e reflete a respeito dele. Quando lê algo sobre Deus, lê o pensamento teológico de alguém e usa o que lê para ajustar a própria teologia, quer se dê conta disso, quer não. Portanto, não há fé sem teologia. Não há quem leia a Bíblia sem recorrer – consciente ou inconscientemente – a uma teologia que a interprete… A pergunta é: Como sabemos se nossa teologia, isto é, a visão que temos de Deus, é a correta?” (2)

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1. Gustavo Gutiérrez em Teologia da Libertação
2. Gerald R. McDermott em Grandes Teólogos: A síntese do pensamento teológico em 21 séculos de igreja

Derek Webb

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Eu confesso que, na última década a música cristã, de um modo geral, não foi a maior porção em minha dieta musical. Com raras exceções, a maioria dos artistas cristãos se tornou repetitiva e superficial demais, sem criatividade capaz de fazer com que eu escutasse sua música mais que uma vez (ou, em muitos casos, só alguns minutos). Derek Webb é uma das exceções.

Conheci Derek Webb por acaso, num show em Orlando, em 1999. Fui ao show para ver as atrações principais: Third Day e Jars of Clay, esta última fazendo um show de pré-lançamento do álbum Since I Left the Zoo. O show tinha sido promovido pela indústria musical e, por este motivo, teve uma série de apresentações de outros artistas desconhecidos para mim: Bebo Norman, Andrew Peterson e Caedmon’s Call (a banda da qual Derek Webb fazia parte).

Nos anos seguintes, comprei os cds da banda Caedmon’s Call sempre que eram lançados e tentei acompanhar um pouco a carreira da banda. Desse modo, li que o Derek Webb havia gravado dois álbuns solo, mas somente em 2005 parei para escutar algo de sua carreira solo, no lançamento de Mockingbird, quando o disco foi distribuído gratuitamente na internet por uma semana. Esse foi um daqueles cds que escutei muitas vezes antes de dormir, prestando atenção em cada nota tocada e cada palavra cantada.

Fiquei tão impressionado que acabei voltando aos trabalhos solos anteriores do Derek: She Must And Shall Go Free (2003), I See Things Upside Down e The House Show (2004). Para minha surpresa, esses álbuns eram tão bons quanto Mockingbird. Virei fã definitivo do cara. Comprei cada trabalho seguinte lançado pelo Derek, no dia do lançamento na internet (geralmente semanas antes do lançamento “físico”), desfrutando cada um deles como um jorro de água fresca no deserto que se tornou grande parte do cenário da música cristã contemporânea.

Para os leitores fluentes em inglês, recomendo ouvir atentamente as letras do Derek. Elas são brutalmente sinceras, honestas, relevantes e retratam o estado da Igreja atual que, como a de Laodiceia, se gaba de ser rica e de não ter falta de nada, mas na realidade é desgraçada, miserável, pobre, cega e nua. Derek não faz esse retrato como alguém que está do lado de fora, mas como alguém que é membro da Igreja, que faz parte dessa confusão e que deseja ardentemente tanto falar a verdade (mesmo sabendo que “a verdade nunca é sexy” – Nobody Loves Me) como ser confrontado por ela (ainda que corte sua carne, como canta em Medication).

Web: derekwebb.com
Twitter: @derekwebb