Na semana passada, antes de uma longa viagem aérea (algo que eu definitivamente não curto), parei na livraria do aeroporto para comprar umas revistas. Comprei a Galileu para ler a matéria que fazia uma curta refência ao Projeto 242. Procurei pela revista Eclésia para ler a matéria sobre a SexxxChurch.com e descobri que eles não vendem Eclésia no aeroporto de Cumbica. Passando os olhos pela prateleira, vi uma edição da revista U.S. News com uma matéria de capa que me chamou a atenção: A Return to Tradition. Bingo! Achei algo para ler durante o vôo. O artigo assinado por Jay Tolson, reporta algo que está acontecendo com muitas igrejas e comunidades nos Estados Unidos: um retorno a práticas litúrgicas tradicionais e ortodoxas. Igrejas Católicas, impulsionadas pelo Papa Bento XVI e sua decisão de liberar igrejas a celebrar a missa em Latim (algo que havia sido mudado no Concílio Vaticano II), começam a oferecer missas em Latim. Uma dessas igrejas, em Washington D.C., reuni uma audiência de políticos e autoridades norte-americanas. No Texas, uma igreja evangélica de aproximadamente 600 membros decidiu oferecer a Santa Ceia todos os domingos (algo que foge completamente da tradição Protestante de celebrar a Ceia mensalmente). Outras comunidades evangélicas espalhadas pelo país estão recitando os credos Apostólico e Niceno, lendo literatura patrística (dos chamados Pais da Igreja), e fazendo coisas que parecem pertencer mais a igrejas católicas ou episcopais do que evangélicas. O curioso é que esse retorno à tradição não é exclusivo do Cristianismo. Comunidades judaicas e muçulmanas também estão experimentando um revival de suas crenças ortodoxas e liturgia tradicional. Isso me fez lembrar de quando visitei a igreja pentecostal de um amigo na cidade de Billings, Montana, e conheci a capela de oração anexa ao moderno auditório de cultos. Num verdadeiro contraste com a imensidão do auditório e toda sua instalação high tech, a capela era bem pequena, com vitrais bíblicos, uma mesa com a Comunhão (Santa Ceia), genoflexório, e bancos de madeira simples. No altar, uma cruz. Intrigado com o que estava vendo, perguntei-lhe o por quê a igreja mantinha essa capela. Ele me disse que, devido ao alto índice de católicos tradicionais naquele estado que acabavam se convertendo na igreja e não se acostumando a liturgia pentecostal com música alta, etc., o pastor decidiu manter a capela para que muitos deles pudessem se sentir mais confortáveis em seu momento de oração e adoração na igreja. Em 2005, participando de um evento na Califórnia, descobri uma tenda de oração, com velas, altar, almofadas para as pessoas se ajoelharem ou simplesmente sentarem no chão e orar, refletir, gastar minutos em silêncio diante de Deus. Em janeiro daquele mesmo ano, o pastor iraniano que visitou nossa comunidade em São Paulo, me pediu para conduzir toda a congregação numa lectio divina. Foi uma experiência incrível. Eu já estava flertando com algumas formas litúrgicas e práticas devocionais de outras tradições cristãs e fiquei muito feliz em ver como a congregação recebeu a lectio divina. Vindo de uma tradição pentecostal (meu avô era presbítero de uma igreja Assembléia de Deus), eu cresci aprendendo que a maneira mais espiritual de orar era em voz alta (quanto mais alta melhor) e todo mundo junto, ao mesmo tempo. Quando fui para o seminário, estranhei orações em grupo em que uma pessoa orava e todos os demais ficavam em silêncio (supostamente concordando com a oração que estava sendo feita). Mais tarde, me deparei com outras formas de oração: silenciosa, escrita, recitada, etc. Com o tempo, tenho experimentado várias dessas formas em minha vida devocional. E aconselho as pessoas a fazerem o mesmo. Há riqueza na diversidade. Quebra a rotina. Abre espaço para ser surpreendido pelo Espírito. Portanto, penso que esse revival de práticas tradicionais na liturgia das igrejas evangélicas e pentecostais e da experiência de formas litúrgicas que vão além de uma determinada tradição cristã, pode ser muito enriquecedor na vida das pessoas e das igrejas. No mínimo, nos faz lembrar que Deus não está cativo à nossa tradição e, como disse Patrick Johnstone há alguns anos no título de um de seus livros: A Igreja é maior do que você pensa.