2008
Um revival da tradição?
Na semana passada, antes de uma longa viagem aérea (algo que eu definitivamente não curto), parei na livraria do aeroporto para comprar umas revistas. Comprei a Galileu para ler a matéria que fazia uma curta refência ao Projeto 242. Procurei pela revista Eclésia para ler a matéria sobre a SexxxChurch.com e descobri que eles não vendem Eclésia no aeroporto de Cumbica. Passando os olhos pela prateleira, vi uma edição da revista U.S. News com uma matéria de capa que me chamou a atenção: A Return to Tradition. Bingo! Achei algo para ler durante o vôo. O artigo assinado por Jay Tolson, reporta algo que está acontecendo com muitas igrejas e comunidades nos Estados Unidos: um retorno a práticas litúrgicas tradicionais e ortodoxas. Igrejas Católicas, impulsionadas pelo Papa Bento XVI e sua decisão de liberar igrejas a celebrar a missa em Latim (algo que havia sido mudado no Concílio Vaticano II), começam a oferecer missas em Latim. Uma dessas igrejas, em Washington D.C., reuni uma audiência de políticos e autoridades norte-americanas. No Texas, uma igreja evangélica de aproximadamente 600 membros decidiu oferecer a Santa Ceia todos os domingos (algo que foge completamente da tradição Protestante de celebrar a Ceia mensalmente). Outras comunidades evangélicas espalhadas pelo país estão recitando os credos Apostólico e Niceno, lendo literatura patrística (dos chamados Pais da Igreja), e fazendo coisas que parecem pertencer mais a igrejas católicas ou episcopais do que evangélicas. O curioso é que esse retorno à tradição não é exclusivo do Cristianismo. Comunidades judaicas e muçulmanas também estão experimentando um revival de suas crenças ortodoxas e liturgia tradicional. Isso me fez lembrar de quando visitei a igreja pentecostal de um amigo na cidade de Billings, Montana, e conheci a capela de oração anexa ao moderno auditório de cultos. Num verdadeiro contraste com a imensidão do auditório e toda sua instalação high tech, a capela era bem pequena, com vitrais bíblicos, uma mesa com a Comunhão (Santa Ceia), genoflexório, e bancos de madeira simples. No altar, uma cruz. Intrigado com o que estava vendo, perguntei-lhe o por quê a igreja mantinha essa capela. Ele me disse que, devido ao alto índice de católicos tradicionais naquele estado que acabavam se convertendo na igreja e não se acostumando a liturgia pentecostal com música alta, etc., o pastor decidiu manter a capela para que muitos deles pudessem se sentir mais confortáveis em seu momento de oração e adoração na igreja. Em 2005, participando de um evento na Califórnia, descobri uma tenda de oração, com velas, altar, almofadas para as pessoas se ajoelharem ou simplesmente sentarem no chão e orar, refletir, gastar minutos em silêncio diante de Deus. Em janeiro daquele mesmo ano, o pastor iraniano que visitou nossa comunidade em São Paulo, me pediu para conduzir toda a congregação numa lectio divina. Foi uma experiência incrível. Eu já estava flertando com algumas formas litúrgicas e práticas devocionais de outras tradições cristãs e fiquei muito feliz em ver como a congregação recebeu a lectio divina. Vindo de uma tradição pentecostal (meu avô era presbítero de uma igreja Assembléia de Deus), eu cresci aprendendo que a maneira mais espiritual de orar era em voz alta (quanto mais alta melhor) e todo mundo junto, ao mesmo tempo. Quando fui para o seminário, estranhei orações em grupo em que uma pessoa orava e todos os demais ficavam em silêncio (supostamente concordando com a oração que estava sendo feita). Mais tarde, me deparei com outras formas de oração: silenciosa, escrita, recitada, etc. Com o tempo, tenho experimentado várias dessas formas em minha vida devocional. E aconselho as pessoas a fazerem o mesmo. Há riqueza na diversidade. Quebra a rotina. Abre espaço para ser surpreendido pelo Espírito. Portanto, penso que esse revival de práticas tradicionais na liturgia das igrejas evangélicas e pentecostais e da experiência de formas litúrgicas que vão além de uma determinada tradição cristã, pode ser muito enriquecedor na vida das pessoas e das igrejas. No mínimo, nos faz lembrar que Deus não está cativo à nossa tradição e, como disse Patrick Johnstone há alguns anos no título de um de seus livros: A Igreja é maior do que você pensa.
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Comments (2 Responses)
Cara, esse plugin LibraryThing eh realmente legal.
E definitivamente eu nunca conheci ninguem que lesse tanto…
See ya
Sandro, vi na lista de livros do librarything que você lê pra chuchu. Muito bom! Buenas, quando tiver um tempo, convido você a dar uma olhadinha no saite http://emergente.pbwiki.com . É uma tentativa de colecionar e promover livros sobre a conversa e igreja emer-gente. Se tiver disposto em ajudar com indicações ou comentários ficaria muito contente. Um abraço – Gustavo “K-fé” Frederico
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