A igreja em que abracei a fé em Cristo era Pentecostal tradicional e extremamente legalista nos usos e costumes. Foi lá que ouvi falar de missões pela primeira vez, por ocasião da conferência Operação Mundo 82, organizada pela OM (Operação Mobilização) e Missão Antioquia. Foi lá que fui desafiado a pensar em termos de contextualização e cultura, quando me mostraram o filme Hudson Taylor. Foi naquela igreja que comecei a sentir a vocação ministerial, saindo para evangelizar pessoas sem-teto no Centro de São Paulo, visitando presos no Carandirú e pregando meus primeiros sermões nas reuniões de jovens (ou “cultos da mocidade”, como a gente chamava naqueles dias). Voltando no tempo, acho interessante que naquela época, muito embora houvesse um esforço para que tivéssemos consciência da vocação missionária, essa vocação não era da Igreja, mas de apenas alguns poucos vocacionados. Havia uma diferença entre evangelismo (pregar o Evangelho para nossa gente) e missões (levar o Evangelho para outros povos, geralmente em lugares distantes de nossa terra natal). Talvez seja por isso que na cabeça dos líderes era cabível (ainda que a contra gosto) que Hudson Taylor tivesse deixado crescer o cabelo e feito uma enorme trança para alcançar os chineses. Ele era missionário, pregando em terra distante. Mas se algum jovem da igreja começasse a deixar o cabelo crescer para se aproximar dos que estavam ouvindo heavy metal (em plena ascensão no início dos anos 80) e se reunindo no Anhangabaú em frente à Woodstock Discos (a meca dos metaleiros antes da Galeria do Rock) a fim de evangelizá-los, seria disciplinado rigidamente por essa mesma liderança. Isso não fazia sentido, mas ninguém questionava. E se questionasse, a resposta provavelmente seria algo assim: “Hudson Taylor foi missionário na China, você não é missionário e não está na China.” Além disso, era muito usado o argumento do “escândalo”. Qualquer coisa que não se enquadrava no padrão legalista da igreja poderia levar um irmão a se escandalizar. O pior é que vinte e tantos anos depois, é bem provável que muitos continuem pensando da mesma maneira. Eu porém mudei. Minha mudança começou quando fui para o seminário teológico. Depois durante os anos trabalhando com a OM na Europa e à bordo do navio Logos II pela África Ocidental. O contato com cristãos de diferentes tradições e povos de culturas diversas me fez enxergar mais longe, quebrou quaisquer preconceitos que tivessem resistido o tempo de seminário e me tornou um “liberal desviad0″ (emprestando o termo de Martyn Joseph em sua canção Liberal Backslider) para muitos que me conheceram nos primeiros anos com Cristo. Foi como “liberal na metologia” que comecei o Refúgio do Rock, em 1993, abrindo os portões da igreja todas as sextas-feiras para as dezenas de roqueiros ouvirem bandas de rock pesado e uma breve mensagem do Evangelho. Embora muitos pudessem duvidar, havia em mim e nos que estavam ao meu lado um compromisso real com Cristo e com o Evangelho e estávamos dispostos a quebrar barreiras para levar esse Evangelho àqueles que não estavam sendo alcançados pela igreja com seus métodos convencionais. De repente, não havia mais aquela distinção entre evangelismo e missões. O campo missionário tinha vindo até nós. Mesmo sem pensar, nós estávamos percebendo que a vocação missionária era para toda a igreja e que todo cristão era chamado para viver essa vocação onde quer que estivesse. Muito tempo antes de reflexões sobre a Missio Dei e comunidade missional fazerem parte de minha vida, de algum modo, eu já estava começando pensar de maneira missional. Antes das reflexões sobre a natureza da igreja e sua missão num mundo pós-moderno se tornarem no que é conhecido como igreja Emergente, em minha vida um novo entendimento sobre a Igreja e fé cristã estava emergindo, muito embora eu não tinha idéia disso e nem para onde isso me levaria… (to be continued)
Já faz algum tempo que tenho recebido e-mails e sido abordado por pessoas que me questionam sobre igreja Emergente. Tenho amigos que estão no centro do diálogo lá nos EUA e participei de um evento voltado para o tema, em 2005 na Califórnia. A comunidade