Arquivos para o mês de: January, 2008

A igreja em que abracei a fé em Cristo era Pentecostal tradicional e extremamente legalista nos usos e costumes. Foi lá que ouvi falar de missões pela primeira vez, por ocasião da conferência Operação Mundo 82, organizada pela OM (Operação Mobilização) e Missão Antioquia. Foi lá que fui desafiado a pensar em termos de contextualização e cultura, quando me mostraram o filme Hudson Taylor. Foi naquela igreja que comecei a sentir a vocação ministerial, saindo para evangelizar pessoas sem-teto no Centro de São Paulo, visitando presos no Carandirú e pregando meus primeiros sermões nas reuniões de jovens (ou “cultos da mocidade”, como a gente chamava naqueles dias). Voltando no tempo, acho interessante que naquela época, muito embora houvesse um esforço para que tivéssemos consciência da vocação missionária, essa vocação não era da Igreja, mas de apenas alguns poucos vocacionados. Havia uma diferença entre evangelismo (pregar o Evangelho para nossa gente) e missões (levar o Evangelho para outros povos, geralmente em lugares distantes de nossa terra natal). Talvez seja por isso que na cabeça dos líderes era cabível (ainda que a contra gosto) que Hudson Taylor tivesse deixado crescer o cabelo e feito uma enorme trança para alcançar os chineses. Ele era missionário, pregando em terra distante. Mas se algum jovem da igreja começasse a deixar o cabelo crescer para se aproximar dos que estavam ouvindo heavy metal (em plena ascensão no início dos anos 80) e se reunindo no Anhangabaú em frente à Woodstock Discos (a meca dos metaleiros antes da Galeria do Rock) a fim de evangelizá-los, seria disciplinado rigidamente por essa mesma liderança. Isso não fazia sentido, mas ninguém questionava. E se questionasse, a resposta provavelmente seria algo assim: “Hudson Taylor foi missionário na China, você não é missionário e não está na China.” Além disso, era muito usado o argumento do “escândalo”. Qualquer coisa que não se enquadrava no padrão legalista da igreja poderia levar um irmão a se escandalizar. O pior é que vinte e tantos anos depois, é bem provável que muitos continuem pensando da mesma maneira. Eu porém mudei. Minha mudança começou quando fui para o seminário teológico. Depois durante os anos trabalhando com a OM na Europa e à bordo do navio Logos II pela África Ocidental. O contato com cristãos de diferentes tradições e povos de culturas diversas me fez enxergar mais longe, quebrou quaisquer preconceitos que tivessem resistido o tempo de seminário e me tornou um “liberal desviad0″ (emprestando o termo de Martyn Joseph em sua canção Liberal Backslider) para muitos que me conheceram nos primeiros anos com Cristo. Foi como “liberal na metologia” que comecei o Refúgio do Rock, em 1993, abrindo os portões da igreja todas as sextas-feiras para as dezenas de roqueiros ouvirem bandas de rock pesado e uma breve mensagem do Evangelho. Embora muitos pudessem duvidar, havia em mim e nos que estavam ao meu lado um compromisso real com Cristo e com o Evangelho e estávamos dispostos a quebrar barreiras para levar esse Evangelho àqueles que não estavam sendo alcançados pela igreja com seus métodos convencionais. De repente, não havia mais aquela distinção entre evangelismo e missões. O campo missionário tinha vindo até nós. Mesmo sem pensar, nós estávamos percebendo que a vocação missionária era para toda a igreja e que todo cristão era chamado para viver essa vocação onde quer que estivesse. Muito tempo antes de reflexões sobre a Missio Dei e comunidade missional fazerem parte de minha vida, de algum modo, eu já estava começando pensar de maneira missional. Antes das reflexões sobre a natureza da igreja e sua missão num mundo pós-moderno se tornarem no que é conhecido como igreja Emergente, em minha vida um novo entendimento sobre a Igreja e fé cristã estava emergindo, muito embora eu não tinha idéia disso e nem para onde isso me levaria… (to be continued)

LabelJá faz algum tempo que tenho recebido e-mails e sido abordado por pessoas que me questionam sobre igreja Emergente. Tenho amigos que estão no centro do diálogo lá nos EUA e participei de um evento voltado para o tema, em 2005 na Califórnia.  A comunidade Projeto 242 onde sirvo como pastor tem sido chamada de “emergente” e já recebeu elogios e também críticas por causa disso. Um artigo sobre igreja Emergente em um blog que eu acompanho (e respeito) citou ou Projeto 242 de maneira a sustentar aspectos negativos do “movimento”. Confesso que fiquei chateado quando li o artigo, principalmente porque o “argumento” partiu de uma frase extraída de um texto em nosso site e a pessoa que o escreveu nem sequer nos conhece, nunca falou com nenhum de nós para saber o que realmente acreditamos e entender nossa proposta de ser igreja e seguir Jesus. Portanto, devo começar a postar aqui uma série de reflexões sobre igreja Emergente e, principalmente, sobre o que eu creio em relação a Igreja (e, inevitavelmente, o que creio acaba refletindo bastante no que é o Projeto 242). Pelo menos, quando nos criticarem novamente, poderão fazer com um pouco mais de “fundamento” (apesar de que eu gostaria de dar um conselho para os críticos de plantão: procure andar com uma pessoa antes de dizer algo negativo sobre ela). Para início de conversa sou evangélico, mas não sou Evangélico; sou pentecostal, mas não sou Pentecostal; sou cristão, mas não sou Cristão; sou apostólico, mas não sou Apostólico; sou católico, mas não sou Católico; sou protestante, mas não sou Protestante; sou calvinista, mas não sou Calvinista; sou arminiano, mas não sou Arminiano;  sou liberal, mas não sou Liberal; sou conservador, mas não sou Conservador; sou fundamentalista, mas não sou Fundamentalista; e, sou emergente, mas não sou Emergente. Antes de me acusarem de esquizofrenia espiritual ou de usarem a confissão acima como prova de que estou seguindo a tendência pós-moderna de pluralismo e relativismo, o que quero dizer com tudo isso é simplesmente que estou numa fase da vida que não estou muito ligado a Etiquetas e Rótulos. Etiquetas e rótulos podem ser falsificados. Etiquetas e rótulos não dizem toda a verdade. Etiquetas e rótulos geram competição. Não me parece sábio julgar uma pessoa apenas pela etiqueta que ela usa. Da mesma maneira, se você apenas ler o rótulo da embalagem e não provar o que está no interior, não saberá jamais qual é o sabor. Afinal de contas, não foi um profeta quem certa vez disse: “Deus não vê como o homem; o homem vê a aparência, mas Deus vê o coração”? Então eu vou falar sobre Igreja Emergente, mas não pretendo ficar preso a rótulos e etiquetas e espero que você também não. 

No domingo, o Hudson e eu gravamos uma entrevista com o Jota para nosso primeiro podcast que deverá estar disponível nesse final de semana. Um pouco antes da entrevista, enquanto o Hudson preparava o equipamento, o Jota disse-nos que esteve em uma igreja em São Paulo em que o pastor estava proibindo os membros de acessarem o site Sexxxchurch. Eu fiquei imaginando que isso só pode ser por falta de informação ou (pior) preconceito. Afinal de contas, sexo é coisa séria e a Igreja deveria falar mais sobre isso. A omissão da Igreja faz com que as pessoas recebam sua educação sexual através de conversas sujas com amigos no vestiário da escola, filmes, revistas e sites pornográficos, e por aí vai. E isso é uma má educação sexual que gera problemas na vida sexual e muita infelicidade nas relações (ao contrário do que se divulga e se pensa). A pornografia se tornou algo epidêmico e, infelizmente, os cristãos não estão livres dela. É triste pensar que, enquanto esse pastor está proibindo seus membros de acessarem um site que se propõe a combater a pornografia e ajudar aqueles que estão presos por ela, é bem provável que alguns deles estejam acessando outros sites impróprios… Um dos grandes problemas da pornografia é que ela mente. Como diz a canção do Living Colour: “No! I’ll never be satisfied until it end in tears”. Essa frase descreve exatamente a condição de alguém que se deixa prender pela pornografia. Não há satisfação no final, só remorso e lágrimas. Por isso a pornografia se torna um espiral descendente, levando a pessoa do softcore para o hardcore e cada vez mais profundo. Ao contrário da pornografia, o sexo é uma bênção, uma dádiva de Deus. É incrível que muita gente se esquece que o sexo foi criado por Deus, foi idéia dEle. A Bíblia tem dezenas de referências sobre sexo e relações sexuais. Não há nada de errado com sexo, quando praticado dentro do contexto da aliança de casamento (afinal de contas, se você realmente ama uma pessoa, por que não casar com ela?). Sexo não é pecado. Sexo torna-se pecado quando é praticado fora do contexto de casamento. Essa é a mensagem da Bíblia. Imagine um mundo sem adultérios, estupros e crimes sexuais. Imagine um mundo sem lares desfeitos, sem lágrimas derramadas por causa de traições, sem filhos abandonados por pais que não tiveram a hombridade de assumir a responsabilidade de criá-los. Esse seria o mundo em que as pessoas seguissem as diretrizes de Deus sobre o sexo. Imagine novamente. Esse pode ser o seu mundo.