
Acordei com as primeiras palavras da canção Like Someone You Know do Further Seems Forever tocando em minha cabeça: “Watch somebody fall from grace.” (Observe alguém cair da graça). Por incrível que pareça eu fiquei a manhã inteira tentando afugentar esse mantra com outras canções e melodias, mas de repente, ele voltava. No final das contas decidi refletir um pouquinho sobre isso: cair da graça. Primeiramente, por mais “emergente” que eu seja, quero deixar claro que eu creio na velha e gasta doutrina da Soberania de Deus. Creio também que Deus é maior que qualquer doutrina ou concepção teológica que qualquer pessoa, por mais brilhante que seja, possa fazer sobre Ele. Creio ainda que há mais mistérios e perguntas não respondidas sobre Deus do que a maioria de nós gostaria de admitir. Sendo assim, creio que, em última instância, só “o Senhor conhece os que lhe pertencem“. Ou seja, eu posso pensar que alguém está com Deus, e esta pessoa no final demonstrar que nunca esteve. Posso também me surpreender com relação a outras pessoas que eu não acredito estarem com Deus. Por isso, minha reflexão sobre “cair da graça” diz respeito unicamente ao meu ponto de vista limitado. Tendo estabelecido isso, infelizmente em minha jornada espiritual, tenho presenciado muitas pessoas caírem da graça. Poucas coisas me causam mais tristeza do que isto. Ver pessoas que caminharam lado-a-lado, de repente, desistirem do combate, abandonarem a corrida e perderem a fé. Quase todas elas começam dizendo que isso não está acontecendo, que elas só estão “dando um tempo”, que apesar de não estarem mais congregando em lugar nenhum, elas ainda continuam crendo em Deus, etc. Com o passar do tempo, seus corações ficam tão frios que parece quase impossível reaquecê-los novamente. Nos últimos anos, tem havido um revival da doutrina da graça no cenário evangélico. Começando com o livro O Despertar da Graça de Charles Swindoll (1989), seguido por livros como Nas Garras da Graça e Maravilhosa Graça de Max Lucado e Philip Yancey respectivamente. Mais recentemente, o cristão evangélico brasileiro descobriu os textos do franciscano Brennan Manning, onde a graça é superabundante. Sem dúvida, há outros textos que falam sobre a graça, mas estes talvez sejam os mais populares. Eu acho muito bom, pois como diz o Glenn Kaiser: Grace never ceases to be Amazing. Eu acredito na graça, me agarro a ela todos os dias da minha vida. O que penso, no entanto, é que não podemos esquecer que a Graça que para nós é de graça, custou muito caro para Deus. E se quisermos realmente experimentar essa Graça, irá custar-nos nada menos que nossa própria vida. “É morrendo que se nasce para vida eterna”, disse S. Francisco. Morrendo para o nosso ego, para nosso orgulho, para nossas tentativas e esforços, para nossa auto-justiça e rendendo-nos completa e irremediavelmente a Deus em reconhecimento de que nada somos e nada podemos, que dependemos total e exclusivamente dEle. É esse o verdadeiro Caminho da Graça. Esquecer isso é correr o sério risco de tornar a graça barata. Outra coisa importante sobre a graça, é que embora ela seja abundante justamente na mais densa escuridão e pecado, uma vez que nossos olhos são abertos para ela, não podemos continuar vivendo do mesmo modo. No Projeto 242 costumo dizer que a graça nos recebe como somos – e faz de nós pessoas que jamais poderíamos ser por nós mesmos. Antes de ver a Graça, eu podia simplesmente fechar os olhos para o meu pecado e fazer de conta que estava tudo bem. Mas depois que sua luz brilhou, não posso mais ignorar meus pecados. A graça me conduz ao arrependimento. Continuar pecando sem nenhum quebrantamento é pisar na graça. Alguém me perguntou outro dia se eu fico decepcionado quando seguidores do Caminho pecam. Não, isso não me decepciona. Todos pecamos (quem disser o contrário engana-se a si mesmo). O que me decepcionada mesmo, é quando esses seguidores pecam e não se arrependem do seu pecado. Isso para mim é cair da graça.
Devo confessar que durante muitos anos após minha conversão, eu não sabia o que era amar as pessoas realmente. Eu pregava o Evangelho, queria ganhar almas, visitava presos e sem-tetos, mas parecia apenas uma obrigação, algo para ver-me livre do senso de culpa que eu teria caso não fizesse isso. Naquela época, eu não dava valor algum para obras sociais. Pelo contrário, eu pensava que além de ser perda de tempo, envolver-se com projetos sociais representava também o risco de cair em “heresias” como as da Teologia da Libertação. O que importava mesmo era “ganhar almas” para Cristo. A experiência de ver as pessoas como pessoas (e não como almas a serem salvas para aumentar o galardão no céu) foi um processo lento que começou quando eu estava no seminário. Fui enviado com uma pequena equipe para fazer um estágio em uma cidade mineira e implantar lá uma igreja evangélica. Após seis meses, havíamos feitos muitos amigos e uma pequena comunidade de discípulos de Jesus estava se formando, quando fomos chamados a retornar para o seminário. Lembro-me da indignação que eu e meus companheiros sentimos ao ter que deixar aquelas pessoas com lágrimas nos olhos, quase como órfãos espirituais. De alguma forma, nosso sentimento era de que nós as havíamos usado como laboratório ministerial. Mas elas eram pessoas, gente, seres humanos com necessidades reais, com capacidade de amar e se ferir. Não eram almas para serem salvas, mas pessoas que aprendemos a amar no processo de compartilhar o amor de Deus a elas. Anos mais tarde, morando em Amsterdam, comecei a freqüentar reuniões de terças-feiras à noite no The Cleft (a fenda), um dos ministérios da JOCUM bem no coração do Red Light District (distrito da luz vermelha). Andando pelas ruelas cercado de prostitutas nas vitrines e dezenas de sex shops com material explícito à vista, eu caminhava de cabeça baixa. Não me sentia à vontade fazendo o caminhada até o local, mas como havia sido chamado lá para interpretar os estudos bíblicos para uma prostituta brasileira chamada Isabel, eu fazia o esforço de ir até lá. Ao começar a interpretar para Isabel, de repente, comecei a vê-la não como uma prostituta, um produto, mas como um ser humano, frágil, com medo, perdida. Percebi que ela era tão carente de Deus quanto eu mesmo. Foi a primeira vez que olhei para uma prostituta como ser humano. Com o tempo, entendi que eu estivera sofrendo como resultado da dicotomia entre alma e espírito que valoriza um em detrimento do outro. Compreendi que o ser humano é um todo complexo de corpo material e alma imaterial, e que, portanto, o chamado de Deus é para amar a pessoa por inteiro e não apenas se interessar por sua alma. Minha missiologia passou a ser um pouco mais holística, assim como diz o Manifesto de Manila: “Todo o Evangelho para a pessoa por inteiro em todo mundo.” Minha visão deixou de ser de apenas salvar almas, para amar e servir seres humanos criados à imagem e semelhança de Deus. Já não estou interessado em estatísticas de conversão tanto quanto estou em ver pessoas sendo abraçadas pelo amor sem medidas do Pai, através de Seu Corpo na terra, a Igreja. Afinal de contas, Jesus disse que o amor seria a marca de seus seguidores. O apóstolo João expandiu isso dizendo que é praticamente impossível amar a Deus sem amar o próximo – e se o próximo estiver em necessidade e eu tiver recursos e não fizer nada por ele, como ouso dizer que amo a Deus? Ganhar almas é relativamente fácil; difícil é amar pessoas, pois exige a crucificação do eu. Se a Igreja é uma comunidade de irmãos e irmås, uma família espiritual, ela precisa ver as pessoas como pessoas, e não meras almas penadas entre o céu e o inferno. Por isso não dizemos: “Eu amo sua alma”, mas “Eu amo você.”