Arquivos para o mês de: February, 2008

Oscar Romero



Ser cristão agora significa ter coragem de pregar o verdadeiro ensino de Cristo e não temer, não silenciar com medo 
pregando algo fácil que não nos cause problemas. Ser cristão nesta hora significa ter coragem que o Espírito Santo nos dá no sacramento da confirmação para ser soldados valentes de Cristo o Rei, para fazer Seus ensinamentos prevalecer, para alcançar corações e proclamar a eles a coragem que deve-se ter para defender a lei de Deus. - Oscar Romero, 5/12/1977 

Quando eu mergulhei na experiência com o Refúgio do Rock em 1993 e tive que responder às críticas que começaram a surgir (de profanar o espaço sagrado), comecei a fortalecer o conceito neo-testamentário de Corpo.

É intessante como há uma diferença entre o VT e o NT quando se trata de local de adoração, santuário, templo, etc. No VT, haviam locais fixos e apropriados para se adorar e prestar culto a Deus. Esse inclusive foi um dos temas da conversa entre a mulher samaritana e Jesus em João 4. Ela acreditava que Deus devia ser adorado em um local geográfico definido. Jesus disse que Deus poderia ser adorado em qualquer lugar, desde que essa adoração fosse sincera e verdadeira. No NT, o cristão é o templo, o santuário, o lugar onde Deus habita.

A Igreja é chamada de Corpo de Cristo. E Igreja são pessoas, e não um edifício, uma construção. Por meio de pessoas que renderam suas vidas ao Seu Senhorio, Cristo continua vivo e presente no mundo hoje. Onde quer que essas pessoas vão em nome de Cristo, lá Ele está. Isso tem implicações imensas em nossas vidas. Se Cristo vive em mim (para isso eu preciso tomar a cruz diariamente e morrer para mim mesmo), então Ele está presente através de mim (meu corpo é seu santuário) e toca as pessoas por meio de minhas mãos, abraça-as com meu abraço, ouve-as com meus ouvidos, fala com elas por minha boca… Quanta responsabilidade é dizer-se cristão!

Hoje eu estava lendo as palavras do Arcebispo Oscar Romero, de sua homília de 27 de janeiro de 1980, dois meses antes de ter sido assassinado:

Romero

 

“Eu repito o que já disse a vocês antes quando temíamos perder nossa estação de rádio: o melhor microfone de Deus é Cristo, e o melhor microfone de Cristo é a igreja, e a igreja são todos vocês. Que cada um de vocês, em seu próprio trabalho, em sua vocação (…), cada um em seu próprio lugar viva a fé intensamente e sinta que em seu ambiente você é um verdadeiro microfone de Deus nosso Senhor.”

 

A igreja são todos vocês. Essa convicção é ensinada e vivida no Projeto 242 hoje, ainda que de uma forma bem aquém do que sonhamos. É por isso que transformamos o espaço onde nos reunimos para ser um local que nada lembra um templo ou igreja. Porque o templo é nosso corpo e a igreja somos nós, as pessoas, que se reunem naquele local. É por isso que recebemos artistas não cristãos para apresentar seu trabalho em nosso espaço, sem medo de “profanar o altar”. Porque o altar são nossas vidas e corações rendidos ao Senhor. Isso não tem nada a ver com querer ser emergente; tem tudo a ver com querer viver como discípulos de Cristo, chamados para carregar a cruz, morrendo diariamente para o ego e permitindo que Jesus viva através de nossas vidas.

Rich Mullins

“Para Rich [Mullins], mesmo uma hora em uma má igreja era melhor do que não ir a nenhuma igreja.” Jimmy Abegg

Deparei-me com esta frase no livro An Arrow Pointing To Heaven (uma flecha apontando para o céu), uma espécie de biografia do cantor Rich Mullins que faleceu após um acidente de carro em 1997. Rich era muito famoso nos Estados Unidos como cantor e compositor cristão. Suas músicas fizeram sucesso na voz de Amy Grant (Sing Your Praise to the Lord), Michael W. Smith (Awesome God, I See You, Step By Step), Third Day (Creed), dentre outros. Apesar do sucesso em torno de suas músicas, Rich havia optado por um estilo de vida simples e dedicado a servir ao próximo. Ele havia se mudado para uma reserva de índios navajos para compartilhar o Evangelho com eles. Acima de tudo, Rich amava Jesus e sua Igreja. Suas palavras sobre a igreja refletem o amor e respeito que ele tinha pela Noiva de Cristo.

“Escuto pessoas dizendo: ‘Por que você deseja ir à igreja? Ela está cheia de hipócritas!’ Eu nunca entendi que ir à igreja faz de você um hipócrita uma vez que ninguém vai a igreja porque é perfeito. Se você está com tudo em cima, você não precisa ir. Você poder ir correr no parque aos domingos com todas as outras pessoas perfeitas. Todas as vezes que você vai à igreja, você está confessando novamente para você mesmo, para sua família, para as pessoas que você encontra a caminho de lá, para as pessoas que o cumprimentam lá, que você não está com tudo em cima, que você precisa do apoio delas. Você precisa de direção. Você precisa prestar contas e precisa de alguma ajuda.”

Rich acreditava que nós precisamos ir a igreja justamente porque não somos perfeitos. Ele enxergava a vida cristã como um processo, uma luta continua para ser fiel ao que sabemos ser verdade. Ele entendia nossa tendência de cair no erro e por isso nossa necessidade de apoio, direção e prestação de contas encontrada somente na igreja.

“O maior problema da vida é que ela é diária. Você nunca fica tão saudável a ponto de não precisar mais continuar se alimentando bem. Todos os dias temos que fazer as escolhas certas sobre o que iremos comer e quanto exercício precisamos. Espiritualmente nós estamos no mesmo lugar. Eu passo por esses impulsos em que digo a mim mesmo: ‘Vou memorizar os cinco livros de Moisés.’ Espero poder viver disso. Mas a oração de hoje é boa somente para hoje. Não é o que você fez, não é o que você diz que irá fazer, mas o que você faz hoje que conta.”

Rich tinha fome de Deus e ele encontrava o que precisava na igreja. Ele estava consciente que muitas pessoas tentam encontrar outros modos de satisfazer essa fome. Nenhum deles, acreditava, poderia substituir o que a igreja tem a oferecer. Um substituto comum que ele frequentemente via era a tentativa de se viver de experiências emocionais, como ouvir música. Ele dizia: “Gente… levem isso a sério. Eu sou um cantor cristão contemporâneo e eu não sei nada. Se vocês querem alimento espiritual, vão para a igreja.”

“Algumas vezes me preocupa, o número de pessoas que podem citar minhas canções, ou podem citar canções de muitas outras pessoas, mas não podem citar as Escrituras. Como se qualquer coisa que um músico tenha a dizer seja digna de ser ouvida. Realmente, quero dizer, o que músicos fazem é unir acordes, ritmos e melodias. Então se você quer entretenimento, eu sugiro entretenimento cristão, porque penso que é bom. Mas se você quer alimento espiritual, eu sugiro que você vá a uma igreja e que leia sua Bíblia… A indústria da música cristã é um negócio capitalista e ponto final. Se alguém estiver interessado em vitalidade espiritual, então precisa investir na igreja e não em uma indústria.”

Rich Mullins amava a igreja. Ele a amava porque ela lhe dava a verdade, porque ela permitia-lhe expressar sua fé, porque ela dava-lhe uma oportunidade de ser parte do corpo de Cristo, o qual ele cria dar-lhe sua verdadeira identidade.