Estava conversando sobre igreja e denominação com alguns amigos recentemente, quando ouvi pela enésima vez o seguinte jargão: “Esta igreja [uma certa denominação] nasceu no coração de Deus!” Sinceramente não dá mais para ouvir isso e ficar calado. Então perguntei: Que Igreja não nasceu no coração de Deus? “Ah, mas você não entende,” me responderam, “Essa igreja [novamente, falando da denominação] não nasceu de divisão como muitas outras por aí…” (noto que a pessoa que fala expressa um não pequeno orgulho ao dizer isso). Ah, agora eu entendi. Seguindo essa linha de pensamento, devemos dizer então que todo o Protestantismo e suas vertentes Evangelicalismo, Pentecostalismo, etc., não podem ter nascido no coração de Deus, uma vez que são fruto de uma divisão do Catolicismo. É isso? “Não, claro que não…” escuto. Aceitar isso seria negar que aquela denominação em particular tivesse nascido no coração de Deus. É incrível como as pessoas repetem coisas sem pensar…
A Igreja nasceu no coração de Deus. A Igreja é maior do que qualquer denominação ou tradição; de fato, é maior que todas elas reunidas. A Igreja não tem placas, não tem rótulos, não tem limites geográficos ou históricos. Ela é constituída de todas as pessoas na história cujas vidas foram compradas pelo alto preço do amor de Deus revelado em Cristo. Pessoas estas que se reuniram em templos, casas, catacumbas, palácios, florestas, montes, catedrais, capelas, cavernas, e muitos outros locais durante a história. Pessoas que se reuniram sob rótulos diferentes, mas sob um só Senhor, uma só fé, um só Espírito, uma só esperança. Tal entendimento não é apenas bíblico, mas tremendamente necessário nestes tempos trabalhosos (para emprestar a expressão paulina) em que vivemos. Quando percebemos isso, no mínimo, somos levados a uma atitude mais humilde em relação àqueles que não fazem parte no mesmo grupo/ajuntamento que nós, todavia fazem parte conosco da Grande Família de Deus.
Já expressei isso em outro post, mas vale repetir aqui. Creio que denominações, quando são saudáveis, têm o seu lugar e servem para auxiliar na propagação do Evangelho e no plantio de novas comunidades de fé e serviço missional. Mas Deus não tem nenhum compromisso (por assim dizer) com denominações e instituições humanas de preservá-las ou dirigi-las como se elas tivessem sido criadas por Ele (nascidas em seu coração). Cristo não morreu por denominações ou instituições. Ele morreu por pessoas. Ele deu sua vida por uma Igreja santa, católica (evidentemente no sentido pleno da palavra, universal) e apostólica (note que não existe igreja no sentido bíblico que não seja apostólica, quer ela se auto-denomine assim – como muitas estão fazendo hoje em dia – ou não).
Ao concluir minha conversa com os amigos, fiquei com um sentimento de tristeza, pois percebi que assim como alguns deles, muita gente ainda confunde igreja (com “i” minúsculo) e denominação (instituição) com a Igreja, Noiva de Cristo. Pior ainda, muitos parecem ter mais compromisso com a denominação e tradição (e com a manutenção destas mesmo quando talvez a melhor coisa seria deixá-las morrer), do que com Cristo e Sua Obra. Lembrei-me do que me disse o Greg Russinger uma vez: “A comunidade missional não tem medo de morrer; quem tem medo de morrer é a instituição.” Cada dia que passa, percebo o quanto ele tem razão.

