2008
Mais pensamentos sobre a Igreja
Estava conversando sobre igreja e denominação com alguns amigos recentemente, quando ouvi pela enésima vez o seguinte jargão: “Esta igreja [uma certa denominação] nasceu no coração de Deus!” Sinceramente não dá mais para ouvir isso e ficar calado. Então perguntei: Que Igreja não nasceu no coração de Deus? “Ah, mas você não entende,” me responderam, “Essa igreja [novamente, falando da denominação] não nasceu de divisão como muitas outras por aí…” (noto que a pessoa que fala expressa um não pequeno orgulho ao dizer isso). Ah, agora eu entendi. Seguindo essa linha de pensamento, devemos dizer então que todo o Protestantismo e suas vertentes Evangelicalismo, Pentecostalismo, etc., não podem ter nascido no coração de Deus, uma vez que são fruto de uma divisão do Catolicismo. É isso? “Não, claro que não…” escuto. Aceitar isso seria negar que aquela denominação em particular tivesse nascido no coração de Deus. É incrível como as pessoas repetem coisas sem pensar…
A Igreja nasceu no coração de Deus. A Igreja é maior do que qualquer denominação ou tradição; de fato, é maior que todas elas reunidas. A Igreja não tem placas, não tem rótulos, não tem limites geográficos ou históricos. Ela é constituída de todas as pessoas na história cujas vidas foram compradas pelo alto preço do amor de Deus revelado em Cristo. Pessoas estas que se reuniram em templos, casas, catacumbas, palácios, florestas, montes, catedrais, capelas, cavernas, e muitos outros locais durante a história. Pessoas que se reuniram sob rótulos diferentes, mas sob um só Senhor, uma só fé, um só Espírito, uma só esperança. Tal entendimento não é apenas bíblico, mas tremendamente necessário nestes tempos trabalhosos (para emprestar a expressão paulina) em que vivemos. Quando percebemos isso, no mínimo, somos levados a uma atitude mais humilde em relação àqueles que não fazem parte no mesmo grupo/ajuntamento que nós, todavia fazem parte conosco da Grande Família de Deus.
Já expressei isso em outro post, mas vale repetir aqui. Creio que denominações, quando são saudáveis, têm o seu lugar e servem para auxiliar na propagação do Evangelho e no plantio de novas comunidades de fé e serviço missional. Mas Deus não tem nenhum compromisso (por assim dizer) com denominações e instituições humanas de preservá-las ou dirigi-las como se elas tivessem sido criadas por Ele (nascidas em seu coração). Cristo não morreu por denominações ou instituições. Ele morreu por pessoas. Ele deu sua vida por uma Igreja santa, católica (evidentemente no sentido pleno da palavra, universal) e apostólica (note que não existe igreja no sentido bíblico que não seja apostólica, quer ela se auto-denomine assim – como muitas estão fazendo hoje em dia – ou não).
Ao concluir minha conversa com os amigos, fiquei com um sentimento de tristeza, pois percebi que assim como alguns deles, muita gente ainda confunde igreja (com “i” minúsculo) e denominação (instituição) com a Igreja, Noiva de Cristo. Pior ainda, muitos parecem ter mais compromisso com a denominação e tradição (e com a manutenção destas mesmo quando talvez a melhor coisa seria deixá-las morrer), do que com Cristo e Sua Obra. Lembrei-me do que me disse o Greg Russinger uma vez: “A comunidade missional não tem medo de morrer; quem tem medo de morrer é a instituição.” Cada dia que passa, percebo o quanto ele tem razão.
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Comments (18 Responses)
Brother, venho acompanhando as matérias aqui no blog, tenho gostado bastante, o blog não sai da linha “Trilhando o estreito caminho entre o cinismo e a ingenuidade.” Uma realidade dura, o fato de “….muita gente ainda confunde igreja (com “i” minúsculo) e denominação (instituição) com a Igreja, Noiva de Cristo.”
até mais, abrax.
Boa análise Sandro, é vdd, não tinha pensado nisso, rs Se olharmos para a história, houve uma ruptura fundamental na Reforma que foi a base do que temos hoje, sem dúvida, tem gente que olha pra denominaçao que pertence e bate no peito dizendo que lá é pregado o vdd evangelho, já fui assim tbm, mas hj começo a entender que a Igreja é muito maior do que qualquer dimensão, isso me faz pensar numa outra discussão, outro dia ouvi uma pregação em minha igreja sobre o “entretenimeto cristão” o que me despertou pra uma série de coisas um tanto qto polêmicas, trata-se dos lugares que hj existem para entreter a juventude gospel, danceterias e casa de shows onde só entra o que é gospel, hj temos uma sub cultura cristã, onde um novo convertido pode continuar sua vida “baladeira” sem pecar, bom, o ponto é… é alienante essa idéia de entretenimento? É certo ou errado? Edifica? Tá aí mais um tema interessante… por hora fico com aquele versículo que Jesus diz que o povo erra por falta de conhecimento… abraços e parabéns pelos posts.
Fala Ricardo, rsss
Concordo em gênero, número e grau, isto é uma das coisas que tenho questionado em nosso meio. ainda bem que não sou o único a ver isto, seria muita pretensão achar que sou, mas fico feliz por isto.
Forte Abraço
tenho medo d insituicoes p/ isso, pq elas – generalizando – tomam um papel de importancia q nao tem, pq elas podem se perder em seus rotulos, nomenclaturas, logotipos e td essa parafernalia.
que Deus nos ajude a viver para o Reino simplesmente p/ o Reino!!
ah… q livro é esse “soul graffiti”?
me chamou atencao, n sei pq, rs
Galera, obrigado pelos comments. Só uma coisa que é preciso não perder de vista é que instituição não é necessariamente má nem totalmente descartável. Noto que algumas pessoas estão tentando passar a impressão de que o Cristianismo verdadeiro deveria ser totalmente desistitucionalizado. Não creio nisso. Não creio que a ausência ou presença de instituição seja um indicativo de saúde. Mais importante do que isso, é manter o valor das pessoas bem acima do valor da instituição (pois o problema geralmente ocorre quando isso fica invertido). Falow.
Soul Graffiti é o livro de um amigo que vive em São Francisco numa comunidade missional. O livro fala das experiência dele e de membros de sua comunidade seguindo o Caminho de Jesus na cidade mais secularizada da América.
ah ta, o titulo criou uma grande curiosidade, embora n pareca ter a ver c/ o conteudo parece mto bom tb!
sobre a instituicao ser necessariamente má, n creio tb, mas creio q as instituicoes – ou as pessoas q dela fazem parte – devem estar sempre vigilintas, pq infelizmente são numerosos os casos onde algo comeca bem, com simplicidade e aplicacao correta e no entanto vira o q tanto “combatemos” .
por isso repito q Deus nos ajude a todos a vivermos somente p/ o Reino!
instituicao é consequencia, e qdo vivemos p/ o Reino ela toma o seu lugar correto na historia.
Sandro,
Tambem não creio que a presença ou ausência de instituição seja um indicativo de saúde; Só acho que as instituições tem um imenso poder de nos tirar do foco e fazer com que nos dediquemos mais a elas do que ao propósito a que dizem servir.
E digo isto em relação a toda instituição, não apenas cristã, um exemplo,:
“aqui entre nós houve uma ruptura entre a nossa missão e escola de surf e a associaçao de surf local por desentendimentos do presidente da associação, um dos professores da associação comentou que o coração dele estava conosco, que gostaria de continuar dando aulas às crianças com a gente , mas não poderia porque é membro da associação e o presidente desta é contra”
Infelizmente este tipo de atitude é mais frequentre na igreja do que gostaríamos, eu mesmo tenho congregado numa igreja “institucional”, mas quero ter o cuidado de não servir mais à instituição do que ao propósito aque ela serve !
É como aquela estória do pessoal que usou andaimes para reformar o prédio da igreja e depois de algum tempo estavam tão acostumados com eles que quando a reforma havia acabado não queriam tirá-los !
Ecclesia reformata, semper reformanda !
“… há no mundo ainda quem faz, o que outros deixaram pra trás e não se importaram jamais…”
é isso.
Sandro,
Bem lembrado seu comentario sobre instituicoes. Eu sempre, sempre vejo crentes “muderrnos” criticando instituicoes como se a completa falta delas fosse a solucao de todos os problemas de carater e foco do homem moderno. O problema nunca esteve nas instituicoes. O problema sempre foi o carater, o foco e os objetivos de quem se envolve numa comunidade, numa organizacao ou associacao. Esse desejo de dissolver instituicoes, pra mim, cheira a anarquia. “Ah, ja que o governo nao presta, nao me envolvo com politica”, “Ja que as pessoas estao se separando tanto, vamos abolir o casamento”, “Ja que as bandeiras denominacionais sao tao soberbas, vamos acabar com todas elas”. Pensamento pos-moderno puro. Isso eh querer resolver um problema de carater, com outro.
Eu particularmente nunca me senti parte da uma denominacao, e sim de uma comunidade que eh parte de um todo, complexo e cheio de nuances. Mas concordo com vc sobre a utilidade das denominacoes, no minimo pra promover a prestacao de contas dos seus envolvidos, principalmente lideres.
Tbm vejo a degraca que vc descreveu, pessoas que levantam a bandeira da “igreja” e deixam a Igreja guardada na gaveta. A velha necessidade do ser humano de fazer parte de grupos, partidos e times de futebol, so que levada as ultimas consequencias.
Oi!
Coloquei uns links de posts no meu blog e esse texto está lá. Eu gostei. Quando quiser conferir vá em marcomaps.blogspot.com. Grande abraço!
Uma análise profunda, coerente, instigante e sóbria.
Os meus parabéns.
Tenho de explorar melhor o blog, pois estou certo que encontrarei textos e reflexões com qualidade .
Abraço fraterno.
A igreja instituição pode até acabar, mas a Igreja de Cristo, aquela que vai prevalecer contra as portas do inferno, nunca. Essa é a diferença entre organização e organismo.
Muito bom os textos, tenho aprendido muito.
Fala Sandrão ! parabens cara ! 15 anos de Refúgio do rock… foi uma honra lutar ao seu lado,
que possamos continuar combatendo o bom combate, completar a carreira e guardar a fé !
Abraços, Ricardinho
Nunca tinha olhado por esta ótica, de que nascemos de uma divisão.
Deus abençoehttp://www.thepescador.blogspot.com
Acho que devemos ser coerente porque as pessoas entram nas igrejas e estao vendo como as coisas estão .
onde estiver 2 ou mais reunidos em meu nome ali estará minha igreja…
Oi pastor! Q bom q descobri seu blog… enfim…
Queria t contar uma coisa – Meu irmao se formou em Musica na UFMS, aqui em Campo Grande – MS e a monografia dele foi sobre a musica crista, baseada no seu livro “Musica crista contemporanea” (certo?). Legal né..rs
Um abração!
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