Cerca de 10 anos atrás, Jaime Kemp escreveu dois livros com os títulos “Pastores em Perigo” e “Pastores Ainda em Perigo”. Nestes livros, ele abordava uma série de perigos no exercício no ministério pastoral, dentre eles o orgulho, a incapacidade de equilibrar o tempo entre família e igreja, e a facilidade para se envolver em casos extra-conjugais. Recentemente me perguntaram se eu achava que pastores (e líderes espirituais cristãos) precisam ter formação teológica. Creio que sim, e creio que a crescente falta de formação teológica na liderança espiritual de muitas igrejas no Brasil é (pelo menos em parte) responsável pela deformidade do Evangelho que vemos sendo pregado e seguido ao nosso redor.
Se você precisar de um advogado, acho que não irá buscar alguém que não estudou Direito para defender sua causa. Se precisar de um médico, creio que não irá confiar sua vida (ou de seus filhos) a alguém que não estudou Medicina para examiná-lo e prescrever-lhe um medicamento ou fazer algum procedimento cirúrgico em você. E se estivesse à bordo de um avião e, antes da decolagem, descobrisse que o piloto é gente boa, amigável, bom de papo, carismático, mas não frequentou nenhuma escola de aviação e nunca tirou um avião do solo antes, tenho quase certeza de que você não aceitaria viajar com ele. Tudo isso parece óbvio. No entanto, quando se trata de assuntos espirituais e, mais precisamente, de receber diretrizes para a vida cristã, parece que muita gente acha que não tem problema se a pessoa não sabe muito do que está falando (desde que fale alto e seja convincente).
Acredito que é preciso resgatar a convicção de chamado pastoral (ou vocação ministerial). Ser pastor não é uma profissão, como expressou muito bem John Piper em seu livro Brothers, We Are Not Professionals. Ser pastor, não é algo que qualquer pessoa possa ou deva fazer (como muitos dos que estão advogando um retorno da igreja ao cristianismo apostólico erroneamente pensam). Ser pastor é ser chamado por Deus para servir à Sua Igreja com integridade, pureza, humildade, no poder do Espírito e manejando bem a Palavra da verdade. Ser pastor é amar as pessoas mais do que os aplausos (ou as recompensas terrenas), é ser capaz de falar a verdade em amor, sabendo que nem sempre isso o tornará popular e querido. Basta ler com atenção o Novo Testamento para ver que nem todos eram pastores, nem todos eram mestres. De fato, há uma advertência com relação a isso em Tiago 3.1, onde é dito que aqueles que ensinam serão julgados com maior rigor.
Por estas e outras, acredito que pastores devem possuir algum tipo de educação teológica (pode ser formal ou informal, mas o fato é, precisam conhecer bem a Bíblia, o desenvolvimento da doutrina cristã, as principais correntes teológicas, a história da Igreja, etc.). Isso não é tudo, mas é o começo de qualquer ministério pastoral sério. Negligenciar isso representa um grande risco para a saúde espiritual e é semelhante a embarcar em uma viagem com destino fatal.
Tenho visto tantas pessoas se aventurando a serem chamadas de pastores (e se apegando ao título com unhas e dentes) e tantas outras que estão seguindo estas com ingênua sinceridade, que talvez seja o momento de alguém escrever sobre as “Ovelhas em Perigo”…
É a mais pura verdade, e quanto mais nos afastamos dos grandes centros, mais real se torna essa “ameaça”. Mas tb em contrapartida, encontramos pessoas dispostas, amáveis e com certo conhecimento bíblico, e nem sequer sonham ou desejam ser chamadas de pastores. Preferem fazer a função ao invés de ter o título, confesso que são raros, mas existem… abração sandro
Concordo que temos que conhecer bem as escrituras se quisermos ter responsabilidades pastorais ou de ensino, porém sou um pouco desacreditado a respeito de alguns seminários e de muitas pessoas que dizem ter “o chamado”.
O que acontece, pelo menos na região que moro, é um excesso de “chamado” e muitos deles para serem pastores ou missionários na África. Será que não temos condições de nos aprofundarmos na palavra em um grupo de estudo? E ao invés de ter o chamado para África ou pastorear uma igreja, simplesmente ser um missonário no trabalho, na faculdade ou mesmo no seu condomíno? Não sei, tenho dúvidas…
Graças a Deus, minha igreja investe muito no ensino, no aprofundamento da palavra e na capacitação de líderes espirituais.
Boa reflexão, gosto muito dos textos.
Victor,
Muito bom comentário. Sem dúvida alguma precisamos recuperar também a natureza missional da igreja e do cristão, e assim, vermos cada cristão assumindo seu chamado para ser missionário onde quer que esteja. Sobre o trabalho pastoral (para usar o termo de Barrientos em seu excelente livro), creio que é preciso estressar o chamado (vocação), a natureza do ministério e suas responsabilidades devido ao fato de que acredito que perdemos isso de vista e tem gente demais querendo ser pastor (ou assumindo o título) sem levar em consideração essas coisas. Ao mesmo tempo, creio que a formação não necessita estar estrita a um seminário (como disse, ela pode ser informal).