Há quase 20 anos eu ouvi um sermão de um pregador negro norte-americano chamado Tom Skinner que abalou minhas estruturas. Foi um daqueles defining moments da vida. Tom Skinner nasceu e cresceu no Harlem, bairro negro de Nova Iorque, na década de 1940 onde, segundo ele, “era comum acordar no meio da noite com os gritos de uma mãe que havia percebido que seu bebê de suas semanas de vida fora mordido por uma ratazana até morrer”. Depois de ter sido líder de uma violenta gangue de rua na adolescência, Skinner experimentou o poder transformador do Evangelho e tornou-se um líder respeitado na luta contra a injustiça e a pobreza, e a favor da reconciliação racial. Tom Skinner costumava dizer: “Se Cristo é a resposta, quais são as perguntas?”
O que ouvi Skinner pregar que ainda hoje ecoa em meus ouvidos é sobre a nossa tendência comum de ler a Bíblia sem o compromisso de uma interpretação correta da mesma. Ele falava sobre o que era comum em muitos grupos pequenos de estudo bíblico nos EUA (e talvez não apenas lá, mas em muitas partes do mundo). Um grupo de cristãos se reunia em uma casa para estudar a Bíblia. Eles escolhiam um texto para ler e, depois da leitura, o “líder” do grupo se dirigia a cada um dos participantes e pedia para que cada um expressasse o que aquela passagem significava para si. Depois de todos terem falado o que a passagem lida significava para si mesmo, o estudo bíblico era encerrado, geralmente com uma oração. “E todos saiam de lá sabendo o que aquela passagem significava para fulano e sicrano, mas sem saber exatamente qual era o significado real da passagem”, dizia Skinner. Era por isso, ele apontava, que havia milhares de grupos de estudo bíblico nos EUA se reunindo em lares a cada semana e, no entanto, produzindo tão pouco em termos de mudança de vida e da sociedade norte-americana. Era pela falta de um compromisso com uma leitura e interpretação séria da Bíblia, que muitos americanos de classe-média podiam ler a Bíblia sem levar em consideração as centenas de versos que falam sobre o compromisso de Deus com os pobres (e o chamado para que o povo de Deus tenha um compromisso semelhante) e o clamor profético pela justiça social. E é esse estudo subjetivo e descompromissado das Escrituras que parece estar ganhando força novamente.
Uma das regras básicas de interpretação bíblica é que a Escritura é a sua própria intérprete. Antes de perguntar o que uma passagem significa para mim hoje (ou para qualquer pessoa), uma interpretação ortodoxa das Escrituras exige que eu me empenhe em descobrir o que essa passagem significava para o escritor da mesma e para os seus leitores na época em que foi escrita. Muitas vezes é preciso considerar também a relação dessa passagem específica com o restante das Escrituras que tratam do mesmo tema. Somente depois de ter feito isso é que eu posso perguntar o que a passagem significa para mim hoje. Sem esses passos, dificilmente teremos uma leitura transformadora das Escrituras. E o que mais a geração emergente de discípulos de Jesus deseja – uma revolução espiritual – não irá acontecer.
Tudo isso soa ultrapassado e estreito demais para aqueles que estão seguindo as idéias pós-modernas como lente e filtro para a leitura da Bíblia e a prática da fé cristã. Para estes, não há significado algum no texto a não ser o significado dado pelo leitor do texto. O conclusão lógica para esse tipo de leitura bíblica é a relativização das Escrituras e, conseqüentemente sua perda de qualquer autoridade (uma vez que a autoridade é transferida para o leitor e intérprete do texto). Este é um caminho perigoso e infrutífero que muitos cristãos emergentes serão tentados a seguir nestes tempos de pós-modernidade. A ironia disso é que, embora a igreja emergente esteja buscando um novo Cristianismo, se seguir por esse caminho de leitura e interpretação das Escrituras, estará repetindo os erros que marcaram o liberalismo alemão do início do século passado e que levaram boa parte da Europa a ser morta espiritualmente como hoje.
Jesus disse: “As minhas palavras são espírito e vida”. Quando a Bíblia se torna relativa por meio de uma leitura e interpretação sob as lentes do pós-modernismo, o futuro da igreja que segue por esse caminho tem cheiro morte.
Rev Sandro,
Tenho uma pergunta não respondida dentro dos meios e literatura emergente. Perdoe-me a dúvida e por me dirigir a você mas me parece o mais indicado por dirigir uma comunidade que analisa os padrões bíblicos e busca a vontade de Deus para suas vidas hoje. A questão me parece relevante no contexto capitalista em que vivemos.
Caso prefira me responda no email pessoal.
Como o projeto 242 ensina e pratica a questão dos dízimos e ofertas ?
Edson,
Me perdoe, você já havia me perguntado isso e tinha pensado em responder na forma de um post, mas acabei deixando a idéia (e sua resposta) de lado. Nosso ensinamento desde o início tem sido de uma mordomia maior do que o simples ato de “dizimar”. Ensinamos que 100% de nossas vidas pertence a Deus (e não apenas 10% de nosso salário, como tão frequentemente tenho visto a “doutrina do dizimo” reduzir em muitas igrejas). Encorajamos as pessoas a viver de modo responsável e consciente, sendo generosos e participativos na contribuição de acordo com suas posses. Não fazemos muita distinção entre dízimo e oferta e também não enfatizamos o dízimo (10%) como uma regra rígida, mas como um alvo mínimo de contribuição dentro de uma vida financeira disciplinada e focada em Deus e seu Reino. Cremos que uma vida de mordomia cristã onde Jesus é Senhor de tudo, não pode ser medida na base de 10% apenas. Em alguns casos (ou momentos da vida), pessoas podem e devem contribuir com mais ou menos de 10% de suas posses. John Wesley é um exemplo de contribuição que usamos, neste sentido. Também ensinamos que, visto que 100% pertence a Deus, o cristão deve usar de maneira consciente e responsável, a quantia do dinheiro de Deus que fica com ele (na maioria dos casos, os 90%). Na prática, não recolhemos ofertas/dízimos publicamente, nem fazemos apelos para isso. Dispomos de um gasofilácio e envelopes que os membros da comunidade podem usar para suas contribuições (alguns preferem fazer por meio de depósito ou transferência bancária). Uma vez por ano, temos uma prestação de contas detalhada de como os recursos foram utilizados no ano anterior. É mais ou menos isso. Não sei se responde suas perguntas, fique à vontade para perguntar qualquer coisa específica sobre isso. Abraços.
olá pastor,
seu texto é bastante lúcido. temos secularizado tanto a leitura da Bíblia que muitas vezes entendemos só o que queremos…
especialmente me tocou a história de tom skinner. como ele, devemos nos preocupar com a postura da igreja diante das misérias sociais. o capitalismo, enquanto produto de uma história e de um homem caídos, é pecado. e o papel dos cristãos, se não estou enganada, é lutar contra o pecado e suas consequências.
um abraço.
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Sandro,
muito obrigado pela sua atenção. Não há como fugir da necessidade de recursos financeiros para o avanço do reino. Jesus tinha sua bolsa, Paulo ensinou claramente sobre ofertas.
O que eu queria abordar é o modelo emergente para, não somente estimular contribuições espontâneas para investimento na obra missional mas também ajudar a discernir o âmbito espiritual pessoal na vida do discípulo, que está relacionado com ofertar.
Se entregar o último bolo e azeite, não apenas quando sobeja, libera o sobrenatural suprimento do Senhor, não simplesmente materialmente mas principalmente ministra dependência em Deus, então esse ensino é fundamental. Sabemos que isso escorrega fácil para a distorcida pregação sobre prosperidade que vemos hoje.
Penso que cabe a nós refletir e discernir formas de ensino da questão para uma geração consumista e com uma forte tendência de amor pelo dinheiro. Geração essa decepcionada com o mercantilismo evangélico.
A forma utilizada pelo P242, da forma como você respondeu me parece muito boa. Glórias a Deus pela sua vida.
Achei legal o que você falou sobre prestar atenção para o autor e o contexto em que a passagem foi escrita.
O que acontece muito é que as pessoas pegam um texto, usam em outro contexto e muitas vezes como pretexto para atitudes egoistas e errôneas em favor próprio.
Muito bom. Tenho aprendido muito. Deus abençoe você e seu ministério.
se essa interpretacao particular ocorresse apenas nos estudos em lares eu ate ficaria menos preocupado.
Verdade FQ, infelizmente esse tipo de interpretação acontece muito mais do que nos pequenos grupos de estudos bíblicos. Vale salientar aqui que não estou, de maneira nenhuma, criticando a existência de grupos pequenos de estudos bíblicos em lares, cafés, onde quer que for. Nem quero insinuar que não devemos ter reuniões participativas, onde haja espaço para o diálogo e para que pessoas expressem suas dúvidas, opiniões, etc. Precisamos tanto de estudos bíblicos em grupos pequenos, como de conversações informais sobre questões espirituais, assim como precisamos de proclamação (o cada vez mais caído de moda papel do pregador). É impossível ser uma igreja do Novo Testamento sem todos esses elementos. E, em todos eles, precisamos buscar uma interpretação que seja fiel ao texto e ao contexto.
Oi pastor…sou um admirador seu…vejo em vc e em sua comunidade pessoas sérias e comprometidas com o Reino.Admiro seus posicionamentos firmes acerca da fé,de valores e principios do cristianismo…vc tem feito bem a mim através de suas reflexões.Admiro e vejo a relevancia de seu trabalho,pelos frutos que tem produzido…me considero um anonimo da fé…e no meu anonimato vejo muitas ovelhas suas participando e engajadas em inumeros trabalhos missionarios que frequentemente participo…e vejo muita importancia nisso,ou seja,de ver que o que tem ensinado a suas ovelhas é sadio e relevante…não é estéril…porque vejo muita vida na vida daqueles que vejo que Deus lhe deu para pastorear.Sim!estamos vivendo uma época de muito relativismo…e isso é grave e triste.Mas fico feliz em saber que há pessoas como vc que sabe dialogar com a cultura de maneira saudavél,mas não abre mão da fé simples e inegociavél do evangelho.Ficaria feliz em um dia desses poder tomar um café com vc…para conhece-lo melhor…podemos?…rs
Mas a mensagem que quero deixar com vc é essa…permaneça firme amigo,sabendo que o teu trabalho não é´vão!acho que é isso que queria aqui compartilhar…
um abraço