Arquivos para o mês de: June, 2008

Há quase 20 anos eu ouvi um sermão de um pregador negro norte-americano chamado Tom Skinner que abalou minhas estruturas. Foi um daqueles defining moments da vida. Tom Skinner nasceu e cresceu no Harlem, bairro negro de Nova Iorque, na década de 1940 onde, segundo ele, “era comum acordar no meio da noite com os gritos de uma mãe que havia percebido que seu bebê de suas semanas de vida fora mordido por uma ratazana até morrer”. Depois de ter sido líder de uma violenta gangue de rua na adolescência, Skinner experimentou o poder transformador do Evangelho e tornou-se um líder respeitado na luta contra a injustiça e a pobreza, e a favor da reconciliação racial. Tom Skinner costumava dizer: “Se Cristo é a resposta, quais são as perguntas?”

O que ouvi Skinner pregar que ainda hoje ecoa em meus ouvidos é sobre a nossa tendência comum de ler a Bíblia sem o compromisso de uma interpretação correta da mesma. Ele falava sobre o que era comum em muitos grupos pequenos de estudo bíblico nos EUA (e talvez não apenas lá, mas em muitas partes do mundo). Um grupo de cristãos se reunia em uma casa para estudar a Bíblia. Eles escolhiam um texto para ler e, depois da leitura, o “líder” do grupo se dirigia a cada um dos participantes e pedia para que cada um expressasse o que aquela passagem significava para si. Depois de todos terem falado o que a passagem lida significava para si mesmo, o estudo bíblico era encerrado, geralmente com uma oração. “E todos saiam de lá sabendo o que aquela passagem significava para fulano e sicrano, mas sem saber exatamente qual era o significado real da passagem”, dizia Skinner. Era por isso, ele apontava, que havia milhares de grupos de estudo bíblico nos EUA se reunindo em lares a cada semana e, no entanto, produzindo tão pouco em termos de mudança de vida e da sociedade norte-americana. Era pela falta de um compromisso com uma leitura e interpretação séria da Bíblia, que muitos americanos de classe-média podiam ler a Bíblia sem levar em consideração as centenas de versos que falam sobre o compromisso de Deus com os pobres (e o chamado para que o povo de Deus tenha um compromisso semelhante) e o clamor profético pela justiça social. E é esse estudo subjetivo e descompromissado das Escrituras que parece estar ganhando força novamente.

Uma das regras básicas de interpretação bíblica é que a Escritura é a sua própria intérprete. Antes de perguntar o que uma passagem significa para mim hoje (ou para qualquer pessoa), uma interpretação ortodoxa das Escrituras exige que eu me empenhe em descobrir o que essa passagem significava para o escritor da mesma e para os seus leitores na época em que foi escrita. Muitas vezes é preciso considerar também a relação dessa passagem específica com o restante das Escrituras que tratam do mesmo tema. Somente depois de ter feito isso é que eu posso perguntar o que a passagem significa para mim hoje. Sem esses passos, dificilmente teremos uma leitura transformadora das Escrituras. E o que mais a geração emergente de discípulos de Jesus deseja – uma revolução espiritual – não irá acontecer.

Tudo isso soa ultrapassado e estreito demais para aqueles que estão seguindo as idéias pós-modernas como lente e filtro para a leitura da Bíblia e a prática da fé cristã. Para estes, não há significado algum no texto a não ser o significado dado pelo leitor do texto. O conclusão lógica para esse tipo de leitura bíblica é a relativização das Escrituras e, conseqüentemente sua perda de qualquer autoridade (uma vez que a autoridade é transferida para o leitor e intérprete do texto). Este é um caminho perigoso e infrutífero que muitos cristãos emergentes serão tentados a seguir nestes tempos de pós-modernidade. A ironia disso é que, embora a igreja emergente esteja buscando um novo Cristianismo, se seguir por esse caminho de leitura e interpretação das Escrituras, estará repetindo os erros que marcaram o liberalismo alemão do início do século passado e que levaram boa parte da Europa a ser morta espiritualmente como hoje.

Jesus disse: “As minhas palavras são espírito e vida”. Quando a Bíblia se torna relativa por meio de uma leitura e interpretação sob as lentes do pós-modernismo, o futuro da igreja que segue por esse caminho tem cheiro morte.

O melhor argumento a favor do Cristianismo são os cristãos: sua alegria, sua convicção, sua plenitude. Mas o orgumento mais forte contra o Cristianismo também são os cristãos – quando eles são melancólicos e sem alegria, quando são cheios de justiça própria e convencidos em sua consagração complacente, quando eles são estreitos e repressivos, então o Cristianismo morre mil mortes. Mas, ainda que seja justo condenar alguns cristãos por essas coisas, talvez, depois de tudo, não seja justo, apesar de muito fácil, condenar o próprio Cristianismo por elas.

- Sheldon Vanauken em A Severe Mercy

Tenho acompanhado com curiosidade, deleite e uma certa apreensão blogs e postagens de pessoas aqui no Brasil envolvidas no que me parece ser um “pensamento emergente” sobre Igreja e Cristianismo. É curioso ler as postagens pois elas revelam um pouco do que se passa na mente de muitos cristãos que estão perdidos na tensão dos conceitos (e pré-conceitos) de um mundo cada vez mais pós-moderno (ainda que minha suspeita é que a grande maioria não entende muito do que isso significa realmente, não importa, faz parte do pós-modernismo!). Tenho prazer em perceber que, pelo menos, há mentes pensantes que não estão simplesmente engolindo dogmas e imposições de  pseudo-apóstolos e pseudo-profetas do Cristianismo “evangélico cada vez mais influenciado por idéias e práticas neo-pentecostais” brasileiro. Mas minha apreensão aumenta à medida em que percebo uma tendência a um tipo de desconstrucionismo eclesiástico, sem apresentar nada de concreto em seu lugar.

Parece que meter-o-pau na Igreja virou moda do dia entre um grupo de cristãos pensantes. De repente, todo mundo quer expressar seus traumas e desconfortos com relação a sua experiência cristã e, ao fazer isso, colocar em dúvida o valor de ser da Igreja como um todo e do próprio Cristianismo. Alguns me parecem ser tão ingênuos a ponto que sugerir que tudo o que aprendemos e experimentamos até agora está errado. Dois mil anos de história do Cristianismo são jogados no vaso sanitário de muitas conversas “emergentes” como se não tivessem valor algum para essa geração em busca do “novo Cristianismo”. A ironia na grande maioria dos casos que tenho observado é que, ao tentar iniciar algo “novo”, o que vemos não é nada novo, na realidade, mas apenas uma versão atualizada do velho. Já dizia o sábio Salomão que “nada é novo debaixo do sol.”

O que me surpreende (e causa medo) é ver pessoas que expressam o desejo de seguir Jesus (e acredito na sinceridade delas) mergulhando em conceitos pós-modernos como se, por meio destes, fosse possível chegar mais próximo do Caminho de Jesus. O problema é que, quando se adota as idéias de Derrida e outros filósofos pós-modernos como filtro para a compreensão do Evangelho e da fé, não sobra mais nada de concreto, somente dúvidas e incertezas. E a fé verdadeira envolve certeza e convicção, conforme disse o escritor cristão da carta aos Hebreus (11.1). Paulo certamente não entendia tudo sobre Deus, mas é impossível ler suas cartas sem encontrar nelas muitas certezas e convicções. Eu não sei tudo sobre Deus (e nunca saberei), mas eu sei em quem tenho crido, estou convicto de que nada me separará de Seu amor por mim.

Eu prefiro seguir o caminho inverso, prefiro ler Derrida e qualquer outra filosofia com o filtro do Evangelho. E sugiro a todos que estão buscando seriamente seguir Jesus, que façam o mesmo. A base de toda discussão (e compreensão) sobre a Igreja e a fé cristã precisa ser Jesus e seus ensinamentos. Perder isso de vista, é perder tudo.

Como todo mundo sabe (ou deveria saber) demolir é sempre mais fácil do que construir. O desafio para a geração de cristãos emergentes não é tanto desconstruir e demolir, mas sim construir e edificar. E no caso da Igreja e da fé cristã, não é possível construir sobre o nada (sobre o everything you know is wrong). A Igreja e fé cristã só são edificadas sobre um fundamento sólido de Cristo conforme anunciado pelos apóstolos e profetas (Escritura).