Arquivos para o mês de: June, 2008

Feridos na igreja, nossa tentação é rejeitá-la. Mas, quando o fazemos, torna-se muito difícil manter-nos em contato com o Cristo vivo. Quando dizemos “eu amo Jesus, mas odeio a Igreja”, acabamos por perder a Igreja e também Jesus. O desafio é perdoá-la. Isso é particularmente delicado porque a Igreja raramente pede por perdão, pelo menos não oficialmente. Todavia, a Igreja como organização humana freqüentemente falível precisa de nosso perdão, enquanto a Igreja como o Cristo vivo no meio de nós continua a nos oferecer perdão.

- Henri Nouwen, Pão para o Caminho.

 

Donald Miller, autor dos livros Through Painted Desert (publicado no Brasil como Fé em Deus e Pé na Tábua), Blue Like Jazz (publicado aqui sob o título Como os pinguins me ajudaram a entender a Deus), Searching For God Knows What e How to Own a Dragon (um livro que ele escreveu sobre a experiência de ter crescido sem a presença paterna), está numa aventura sobre duas rodas pelos Estados Unidos. Juntamente com um grupo de amigos chamados de Ride:Well Team (um trocadilho de palavras que pode significar “equipe pedale bem” ou algo como “equipe pedale por poços”), Donald Miller está atravessando os EUA, numa viagem de de costa a costa de bicicleta, na tentativa de levantar a consciência das pessoas para um projeto chamado Blood:Water Mission que visa abrir 1000 poços de água potável na África. Para quem deseja acompanhar suas aventuras (e doar para o projeto), ele está postando literalmente da beira da estrada em seu blog DonaldMillerWords.

Cerca de 10 anos atrás, Jaime Kemp escreveu dois livros com os títulos “Pastores em Perigo” e “Pastores Ainda em Perigo”. Nestes livros, ele abordava uma série de perigos no exercício no ministério pastoral, dentre eles o orgulho, a incapacidade de equilibrar o tempo entre família e igreja, e a facilidade para se envolver em casos extra-conjugais. Recentemente me perguntaram se eu achava que pastores (e líderes espirituais cristãos) precisam ter formação teológica. Creio que sim, e creio que a crescente falta de formação teológica na liderança espiritual de muitas igrejas no Brasil é (pelo menos em parte) responsável pela deformidade do Evangelho que vemos sendo pregado e seguido ao nosso redor.

Se você precisar de um advogado, acho que não irá buscar alguém que não estudou Direito para defender sua causa. Se precisar de um médico, creio que não irá confiar sua vida (ou de seus filhos) a alguém que não estudou Medicina para examiná-lo e prescrever-lhe um medicamento ou fazer algum procedimento cirúrgico em você. E se estivesse à bordo de um avião e, antes da decolagem, descobrisse que o piloto é gente boa, amigável, bom de papo, carismático, mas não frequentou nenhuma escola de aviação e nunca tirou um avião do solo antes, tenho quase certeza de que você não aceitaria viajar com ele. Tudo isso parece óbvio. No entanto, quando se trata de assuntos espirituais e, mais precisamente, de receber diretrizes para a vida cristã, parece que muita gente acha que não tem problema se a pessoa não sabe muito do que está falando (desde que fale alto e seja convincente).

Acredito que é preciso resgatar a convicção de chamado pastoral (ou vocação ministerial). Ser pastor não é uma profissão, como expressou muito bem John Piper em seu livro Brothers, We Are Not Professionals. Ser pastor, não é algo que qualquer pessoa possa ou deva fazer (como muitos dos que estão advogando um retorno da igreja ao cristianismo apostólico erroneamente pensam). Ser pastor é ser chamado por Deus para servir à Sua Igreja com integridade, pureza, humildade, no poder do Espírito e manejando bem a Palavra da verdade. Ser pastor é amar as pessoas mais do que os aplausos (ou as recompensas terrenas), é ser capaz de falar a verdade em amor, sabendo que nem sempre isso o tornará popular e querido. Basta ler com atenção o Novo Testamento para ver que nem todos eram pastores, nem todos eram mestres. De fato, há uma advertência com relação a isso em Tiago 3.1, onde é dito que aqueles que ensinam serão julgados com maior rigor.

Por estas e outras, acredito que pastores devem possuir algum tipo de educação teológica (pode ser formal ou informal, mas o fato é, precisam conhecer bem a Bíblia, o desenvolvimento da doutrina cristã, as principais correntes teológicas, a história da Igreja, etc.). Isso não é tudo, mas é o começo de qualquer ministério pastoral sério. Negligenciar isso representa um grande risco para a saúde espiritual e é semelhante a embarcar em uma viagem com destino fatal.

Tenho visto tantas pessoas se aventurando a serem chamadas de pastores (e se apegando ao título com unhas e dentes) e tantas outras que estão seguindo estas com ingênua sinceridade, que talvez seja o momento de alguém escrever sobre as “Ovelhas em Perigo”…