Semana passada eu tive que comprar um material em uma livraria evangélica e inclui na compra o livro Eu Creio, Mas Tenho Dúvidas do Ricardo Gondim (Editora Ultimato). Trata-se de um livro onde o Gondim apresenta suas reflexões claramente influenciadas pelo Teísmo Aberto (o que não é novidade alguma para quem tem acompanhado seus escritos nos últimos anos). Eu tenho reservas com relação ao Teísmo Aberto, que, ao meu ver, parece deformar o Deus das Escrituras ou então, para “encaixar” esse novo conceito de Deus nas Escrituras, é preciso descartar boa parte do que está escrito lá. No entanto, gosto do Gondim, gosto do modo como ele escreve e da maneira como projeta seus pensamentos, e como tenho lido quase todos os seus livros, não poderia deixar de ler esse também para tentar entender melhor o que ele pensa sobre esse tema. O que me surpreendeu foi que na hora de pagar, quando a funcionária foi registrar o livro, ela olhou o título, fez uma careta e disse-me: “Misericórdia irmão, tá duvidando!?”

É incrível como as pessoas tendem a oscilar entre uma fé cega (que não pensa, não reflete, onde não existe nunca espaço para questionamentos, dúvidas e incertezas) e uma fé morta (onde os questionamentos e as incertezas são tantos que a pessoa não é capaz de afirmar mais nada como crença).  Parece que o equilíbrio é mesmo difícil de se encontrar. Se eu não posso ter dúvidas, então não posso orar com boa parte dos Salmos, onde dúvidas e questionamentos são abundantes. Da mesma forma, se minha fé não aceita nenhuma certeza (o que, para mim, é uma antítese da fé) então também não posso orar com os Salmos, onde há muitas declarações de fé e certeza. Tome por exemplo o Salmo mais conhecido e recitado de todos: Salmo 23. Quem só enxerga espaço para dúvidas e incertezas, não pode orar com o salmista e dizer que “o Senhor é o meu pastor e nada me faltará”, e “ainda que eu ande pelo vale escuro, tu estás comigo”  ou “certamente bondade e misericórdia me seguirão todos os dias da minha vida.” Tais palavras são afirmações de fé e confiança. Não há nelas dúvida alguma. Em outros salmos, como já disse, encontramos dúvidas e questionamentos. Quem não sabe nada, não pode dizer como Paulo: “Eu sei em quem tenho crido e sei que ele é poderoso para guardar meu depósito até aquele dia.” Ou repetir a bela confissão de fé de Jó: “Eu sei que o meu Redentor vive, e que por fim se levantará sobre a terra.”

Somos humanos e tendemos a oscilar entre momentos de fé e de dúvida (ou mesmo a conviver com ambos - ”Eu creio! Ajuda-me na minha falta de fé.”) O que não podemos, no entanto, é negar nem um nem o outro.