Simplicity

Terminei a leitura de um livro que me prendeu durante dias: Simplicity escrito por Mark Salomon (RelevantBooks). Eu precisava ler esse livro! Foi uma leitura mais que edificante, foi refrescante! A mesma sensação que tomar uma Coca-cola (ou sua bebida favorita) gelada quando você está com sede. Ahhh! Sensação de prazer, alívio e… quero mais! O livro me fez voltar no tempo. Isso porque Mark Salomon foi vocalista de uma das minhas bandas favoritas no início da década de 1990: The Crucified. Me lembro da primeira vez que escutei o primeiro CD da banda. Fiquei pasmo com o som e a agressividade da música, além das letras diretas e bem escritas. Finalmente uma banda cristã com atitude! Em seu memoir, Mark Salomon  fala de sua infância numa família não cristã cujos pais usavam drogas, da conversão de seus pais e de sua própria introdução ao Cristianismo, conta detalhes da formação de sua primeira banda, sua ascensão no “cenário músical cristão” norte-americano e os motivos (até então desconhecidos por mim) que levaram The Crucified a acabar depois do segundo CD (Pillars of Humanity). Além disso Mark também fala de sua banda atual, Stavesacre, e porque eles decidiram sair do “cenário” musical cristão (a razão principal do livro, apresentada logo no prefácio, é justamente explicar essa postura do Mark e de seus companheiros no Stavesacre). Mark SalomonAlgumas histórias são hilárias, outras são tristes. Simplicity é um livro brutalmente honesto. Quando Mark fala sobre a pressão que havia sobre ele ao subir no palco à frente do The Crucified para pregar o Evangelho (algo que ele sempre fez, ainda que totalmente despreparado), eu fico pensando no quanto erramos ao colocar essa mesma pressão sobre as pessoas (principalmente cantores e músicos). Se um músico cristão não pregar é porque ele não tem compromisso com o Evangelho. Afinal de contas, se o apóstolo Paulo tivesse um palco (e microfone nas mãos!) diante de uma platéia qualquer, com certeza ele pregaria… Assim pensamos e por isso julgamos aqueles que não usam de sua arte para pregar o Evangelho. Mas será que todos deveriam pregar? Será que o fato de que temos tanta gente falando bobagem em cima de palcos e plataformas não é justamente porque nós criamos a oportunidade (e até demanda) para que isso acontecesse? Mark Salomon confessou não possuir maturidade suficiente (e nem chamado) para se tornar um pregador, apesar de ter passado anos pregando (Deus sabe o quê) porque tinha que provar seu compromisso com o Evangelho e com a salvação dos perdidos. Ao ler seu texto, eu comecei a ver como isso é real. Pensei em todas as bandas de rock cristão com que trabalhei nestas quase duas décadas. Pensei em quantos jovens cristãos envolvidos com essas bandas se colocaram como porta-vozes do Evangelho e acabaram até se tornado “líderes” e pastores, sem preparo algum, sem fundamento bíblico, repetindo jargões aprendidos, sem discernimento e, tristemente, muitas vezes sem vida por trás das palavras. Lembrei-me de algo que um amigo um dia me disse: “Parece que o único chamado no Corpo de Cristo é para ser pastor/pregador.” O pior é que nós elevamos as pessoas a um patamar que elas não estão preparadas para ocupar (e talvez nem seja o seu chamado/dom/talento em primeiro lugar) e depois as condenamos quando elas finalmente não preenchem nossas expectativas. É hora de acordar Igreja! Simplicity, apesar de ter sido escrito por um artista e falar muito no contexto de música, é um apelo para que possamos recuperar o senso de chamado de Deus para nossas vidas e abraçar esse chamado sem nos preocuparmos em viver o “chamado” de outras pessoas ao nosso redor. Ser nós mesmos. Viver a simplicidade do Evangelho onde quer que estejamos. E viver livre da culpa de ter que todos nos tornarmos pregadores do Evangelho.