Arquivos para o mês de: September, 2008


“Free love is neither”

Encontrei a frase acima meses atrás quando estava lendo U2′s Achtung Baby: Meditations on Love in the Shadow of the Fall de Stephen Catanzarite. O livro é uma análise das letras e música desse álbum fantástico lançado em novembro de 1991 (Achtung Baby é meu CD favorito do U2).

A geração hippie das décadas de 1960 e início de 1970 sonhou com o amor livre (revolução sexual). A expressão desse sonho estava nos relacionamentos casuais, desinteressados, sem compromisso ou apego que prometiam uma sociedade mais feliz e saudável, libertando as pessoas do peso da culpa, dando-lhes a liberdade para experimentar antes de se comprometer. Os resultados décadas depois parecem ter tornado o sonho em pesadelo. O mundo pós-revolução pelo amor livre não é mais feliz nem mais saudável. Pelo contrário, o que presenciamos são índices cada vez maiores de DSTs, depressão, ansiedade, filhos ilegítimos e divórcios (mesmo depois de tanta tentativa antes de se casar, parece que os casais de hoje estão acertando muito menos do que aqueles que não fizeram tentativa alguma). Como disse Catanzarite, “o amor livre não é nem amor nem livre.”

Enquanto refletia sobre isso, imaginei se os seguidores de Cristo hoje não estão sonhando com uma vida cristã que é semelhante ao sonho hippie do amor livre. Ou seja, uma vida cristã sem compromisso algum. Do mesmo modo que a geração do amor livre deseja sexo sem casamento, muitos seguidores de Cristo hoje em dia aparentam estar desejando as bênçãos de Deus sem compromisso de uma vida com Deus, sem o compromisso de submissão e obediência, sem o compromisso de mutualidade e prestação de contas. Fico pensando se tantos textos e comentários que colocam a graça de Deus quase como uma desculpa para se viver de maneira descompromissada não levarão muitos a uma verdadeira des-graça espiritual. O chamado ao discipulado feito por Jesus requer compromisso radical (negar a si mesmo… tomar a cruz… não voltar atrás).  Jesus disse: “Quem tem os meus mandamentos e lhes obedece, esse é o que me ama.”

Amor não tem nada a ver com mandamentos e obediência… ou será que tem? Amar a Jesus de verdade envolve um compromisso com Ele e com o que Ele disse (Sua Palavra). E para que não haja dúvidas, isso envolve obediência (algo que os discípulos pós-modernos parecem não gostar muito – é só citar o termo obediência que já surgem objeções e acusações de legalismo, institucionalismo, autoritarismo, manipulação, hipocrisia… parece até papo dos hippies justificando suas atitudes “contra o sistema” na década de 1960). Como disse Bonhoeffer: “A resposta ao discipulado não é uma confissão oral da fé em Jesus, mas sim um ato de obediência.” O fato é que assim como amor livre não é amor nem livre, discípulo cristão sem compromisso não é nem discípulo nem cristão.

Creio que os hippies estavam procurando boas coisas, mas buscaram de maneira errada. Do mesmo modo, creio que essa geração de pessoas que está buscando mais de Jesus e menos de religião, está procurando uma boa coisa. Minha esperança é que ela não cometa o erro da geração free love.

Meu amigo Damaceno Junior enviou o texto abaixo que, após ler, pedi a ele permissão para tornar público aqui no blog. A razão para isso é que espero que possamos aprender algo com o que ele escreveu. Talvez possamos parar de repetir chavões “proféticos” com a voz tremida em gravações ao vivo. Talvez possamos nos interessar mais em entender as implicações de afirmações missionárias tais como “ir às nações” e colocá-las em prática. Talvez possamos apoiar aqueles que não dependeram de um impulso emocional durante uma “adoração profética” para se disporem a não somente “ir às nações”, mas perseverar no campo durante anos de duro labor, frustração, solidão, oposição de todos os lados, falta de recursos e pouco sustento. Talvez possamos valorizar esses guerreiros preciosos demais para o Reino e interceder por eles, nos unindo em suas lágrimas na esperança de que o Ramo de Jessé floresça nas nações.

“No início desta semana, indo ver um amigo e colega de ministério que mora na Bélgica, a fim de orar e colocar as lágrimas em dia, eu estava ouvindo um CD que me deram no Brasil quando lá estive em Abril. No final da canção, uma pessoa estava dizendo: ‘O Senhor tem nos levantado para irmos às nações.’ Eu fiquei pensando nas muitas vezes que ouvi isso nas igrejas por onde andei no Brasil. Alguns dizem até que Deus tem levantado a igreja brasileira para ir às nações. Debaixo da chuva, que aliás tem sido constante neste nosso verão que chega ao fim sem nunca ter começado, eu fiquei pensando se as pessoas que falam de ir às nações sabem realmente o que estão falando. Ainda me indago se aquele irmão que chorando proclama que Deus está nos enviando às nações, já foi ele mesmo peregrino numa nação estrangeira. Quanto mais eu escuto o tal CD, mais convencido eu fico de que aquelas pessoas não têm a mínima idéia do que é ser enviado às nações.
Se algum dia eu tivesse experimentado o que tenho vivido aqui, enquanto Deus abençoa as nações através da minha vida, acho que nunca teria saído do conforto da minha terrinha ensolarada. Quando você passa seu tempo semeando e chorando, dando de cara com dificuldades do tamanho do Mont Blanc, você quase nem pensa que está sendo bênção às nações, mas que está apenas sobrevivendo.
Já fazem 17 anos que eu sai de casa para obedecer ao chamado de abençoar as nações e se ainda estou por aqui, é pura graça de Deus. Quase não canto mais: ‘Eis-me aqui eu livre estou ao teu dispor para onde tu quiseres me enviar‘, a canção do Asaph Borba que cantei no meu culto de envio em Junho de 1991 lá na igreja em Cabo Frio. A maior parte é: ‘Da-me mais graça, Senhor…
Chegando na casa do meu amigo na Bélgica, constatei que o canto que entoa aquele pastor, trabalhando numa terra tão árida, embora molhada todo dia pela chuva incessante, é o mesmo que temos entoado aqui na França. Mas, eu sei que Deus nos quer aqui. Mesmo que a gente chore mais do que cante. No final, o importante é que Ele receba a glória devida a Seu Nome.”

Fingerprints

Foto (com reflexo) do trabalho do Tom com as impressões digitais da galera do Projeto 242 exposto na cafeteria da Faith Chapel em Billings, Montana, EUA.