Arquivos para o mês de: October, 2008

Oferta da mulher pobre

Uma pergunta que frequentemente me fazem é sobre o dízimo e contribuições financeiras no Projeto242. Eu tenho respondido de modo particular, mas como cada vez mais pessoas perguntam, vou postar aqui basicamente o que já respondi para muitas pessoas.
Primeiramente, reconheço que há amplo ensinamento bíblico sobre o dízimo por aí e eu não pretendo repetir o que outros já têm escrito com equilíbrio e sólida base nas Escrituras. Reconheço também que há muito erro nessa área, principalmente quando o dízimo é utilizado como barganha com Deus ou como uma espécie de “espantalho do Devorador”, geralmente promovendo o enriquecimento ilícito de pastores inescrupulosos e a construção de verdadeiros impérios “ministeriais” megalomaníacos.
Quase que como uma reação a esse desequilíbrio, muitos apontam que o NT não contêm nenhuma instrução sobre o dízimo e que o mesmo era relacionado à Lei Cerimonial no VT, sendo portanto, uma prática que deveria ser abandonada pela Igreja (para mim, essa crença é tão desequilibrada quando a que ela se propõe a rebater). É muito importante lembrar que o fato de não haver nenhuma instrução para a prática do dízimo no NT não necessariamente o anula, visto que, como disse Paulo, toda a Escritura é inspirada por Deus (e a Escritura nos dias de Paulo era o que conhecemos como Velho Testamento). Um ensino cuidadoso do dízimo no VT revelará que o mesmo não era só 10%, mas aproximadamente 23% durante o ano, como apontou Leonard Sweet em seu excelente artigo escrito há alguns anos sobre uma mordomia pós-moderna intitulado Freely You Have Received, Freely Give (infelizmente esse artigo está fora do ar em seu site). Ou seja, se for fazer lei sobre isso, então precisa mudar o percentual também. Dá pra notar que as coisas não são tão simples assim.
Tendo dedicado metade da minha vida até aqui ao serviço pastoral, curti muito o capítulo no livro Confessions of a Reformission Rev. do Mark Driscoll intitulado Jesus, our offering was $137 and I want to use it to buy bullets (Jesus, nossa oferta foi 137 dólares e quero usar o dinheiro para comprar balas [para meu revólver]) onde ele relata as dificuldades de pastorear uma comunidade pequena e cheia de jovens alternativos, descolados e descompromissados. Confesso que já me senti como Driscoll, exceto que não possuo uma arma (digitar isso agora me fez lembrar do Nirvana… and I swear that I don’t have a gun…). De qualquer modo, um dos textos pós-modernos mais interessantes que eu li sobre o dízimo (além do citado acima, de Leonard Sweet) se encontra no livro Como os pinguins me ajudaram a entender Deus de Donald Miller. Muita gente que eu conheço gosta deste livro. Imagino quantos praticam o que o Donald Miller falou ali sobre a relação do dinheiro com espiritualidade. De fato, creio que a questão de como usamos os recursos disponibilizados a nós pelo Criador e do quanto damos com liberalidade está profundamente conectada com nossa espiritualidade.
Eu creio e tenho comunicado no P242, que o seguidor de Cristo deve viver muito além do dízimo: 100% de sua vida e bens precisam ser submetidos a Deus. Como disse Tonio K em uma velha canção sobre ser livre: I don’t know how much it’s gonna cost you, probably everything! (não sei quanto irá custar de você, provavelmente tudo!). Seguir Jesus significa entregar tudo a Ele.  Isso é o que chamo de mordomia pós-dízimo. A oferta da viúva pobre era a menor em valor, mas era tudo que ela possuía e, foi precisamente por isso que Jesus louvou a atitude dela. Uma noção de mordomia é reconhecer que tudo pertence a Deus. Como alguém já disse sobre a questão de dízimo e contribuição: “Não se trata do quanto de meu dinheiro dou para Deus, mas o quanto do dinheiro de Deus fica comigo.” Em alguns momentos da vida, isso significa que sua contribuição poderá ser abaixo dos 10% e em outros será acima. O importante é que em todos os momentos da vida, você use tudo para a glória de Deus, administrando bem os recursos que Ele colocou sob sua responsabilidade. E quanto mais recursos você tiver, maior será a sua responsabilidade diante de Deus. Afinal de contas, Ele mesmo disse que a quem muito é dado muito será cobrado.
Tendo dito isto, creio que 10% é uma medida saudável (não uma lei) como patamar de contribuição (novamente, mordomia pós-dízimo). Você nem precisa ser crente para concordar com isso; o consultor financeiro Gustavo Cerbasi, por exemplo, ensina a disciplina de dar 10% (ou um percentual de sua renda) em seus livros sobre administração financeira. E ele não é o único. De fato, a prática de uma contribuição percentual sistemática parece ser milenar e preceder a tradição Judaico-Cristã.
O que eu realmente não entendo é que um seguidor de Cristo que experimentou seu Amor e Graça de modo tão livre e abundante, não sinta desejo de contribuir livremente ou então deseje contribuir continuamente com menos do que aqueles que seguiam a Lei (e viam através do véu) o faziam. Tampouco entendo aqueles que frequentam ou fazem parte de uma comunidade cristã sem nunca contribuir com ela. Parece-me uma atitude muito pobre e egoísta por parte destas pessoas. Infelizmente, parece-me que muitos usam desculpas para não contribuir para disfarçar seu egoísmo e ingratidão, além de um “espírito rebelde” (o dinheiro é meu e faço dele o que quiser). Tudo isso não me parece ser a atitude de um seguidor de Cristo que foi livre das garras do materialismo e está lutando contra o espírito consumista desta época. Portanto precisamos repelir os dois erros: o da contribuição forçada, manipulada, da barganha com Deus, e o da falta de compromisso, ingratidão e avareza disfarçadas de espiritualidade.
Finalizando (mas definitivamente não esgotando o assunto), creio que uma mordomia pós-dízimo é uma questão de compromisso, gratidão, confiança e engajamento com o Reino e toda a sua justiça.

Para quem gosta de ser enganado, tem um monte de caloteiros de plantão nas igrejas evangélicas por aí. Geralmente fazendo promessas de cura e prosperidade, eles atraem multidões desesperadas e não têm misericórdia alguma na hora de tirar-lhes até o último centavo (tudo pela fé). Durante anos o Projeto242 se recusa a “passar a sacolinha”. Muitos já chegaram a me acusar de “não ter fé para tirar ofertas.” Eu sempre respondo: “É preciso ter fé para não tirá-las, para crer que Deus proverá para Sua Obra sem a necessidade de apelos emotivos e manipulativos.”  Como eu já disse muitas vezes, os únicos que prosperam com a teologia da prosperidade são os que a pregam… Abaixo está uma reportagem da UOL hoje sobre um destes mercadores da fé.

Pastor usa nome de Jesus para fazer ‘merchan’ de consórcio na TV

Se existe uma “vítima” da chamada Teologia da Prosperidade ela é a própria palavra escrita na Bíblia. Essa teoria (ou prática teológica) tem se disseminado de forma surpreendente, e é defendida por evangélicos que crêem –grosso modo– que Deus tem algum tipo de dívida para com o ser humano, ou que tem uma espécie de acordo (com ares de obrigação) de dar-lhe riqueza e felicidade caso a pessoa realmente tenha fé e o queira. A contrapartida geralmente é o fiel desembolsar alguma riqueza própria (dinheiro) em troca da riqueza maior futura.
O pastor evangélico Marco Feliciano, do Ministério Tempo de Avivamento, leva a teoria às últimas consequências em site e em programa na Rede TV. Enquanto garante que Deus atenderá a todos os pedidos de “fiéis”, “perseverantes” ou “valentes”, ele aproveita e vende cursos de teologia, DVDs, CDs de músicas e camisetas. Até aí, ok, nada demais. Mas ele também usa o nome de Jesus em merchandisings.
Segundos após realizar uma oração inflamada (que inclui palavras de língua desconhecida), pastor Feliciano ressurge como garoto-propaganda no mesmo cenário para vender um consórcio de casa própria, o GMF Consórcios.
“Você realiza, então, em nome de Jesus, o sonho da casa própria”, diz o pastor.
Os pastores e bispos adeptos da teologia ou teoria da prosperidade fazem uso da hermenêutica na leitura da Bíblia para garantir que o que estão fazendo não viola as regras de Deus ou de Jesus. Trata-se de uma espécie de “edição” de conteúdo: cada um usa a Bíblia da forma que lhe interessa.
Senão vejamos: a orientação divina para que os humanos não se percam em desejos materiais em detrimento ao amor por Deus está citada duas vezes, de forma muito semelhante, em dois diferentes Evangelhos.
Em Lucas, 16:13, lê-se: “Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de aborrecer-se de um e amar ao outro ou se devotará a um e desprezará ao outro. Não podeis servir a Deus e às riquezas.”
Da mesma forma, em Mateus 6:24, está: “Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de odiar um e amar o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e a Mamom”.
Por outro lado há outro trecho em Lucas , 11:9, que diz que ao pedir algo a Deus, o fiel simplesmente receberá o que deseja (de acordo com o merecimento e fé, pressupõem-se). Mas sem precisar fazer um carnê de desafio com uma igreja. Sem intermediários.
“Por isso eu digo: peçam e vocês receberão; procurem e vocês acharão; batam, e a porta será aberta para vocês.” No caso do pastor do “merchan”, a porta começa com um consórcio para a casa própria.

(Ricardo Feltrin – Colunista do UOL)

Algumas pessoas me perguntam por que coloco tantos posts sobre a igreja em meu blog. Minha resposta é que sou apaixonado pela Igreja. De fato, poucas coisas me irritam tanto quanto ouvir pessoas que se dizem seguidores de Jesus falando mal da Igreja por quem Cristo tem tanto amor que deu Sua vida por ela. Recentemente ouvi o Ariovaldo Ramos em um podcast intitulado Lutando pela Igreja (é assim que me sinto muitas vezes, lutando pela Igreja). Abaixo está a transcrição de um trecho desse podcast:

“Igreja não é movimento de massas, igreja é comunhão dos santos. Igreja é comunhão de gente que se ama, que está querendo ser igual a Jesus, que está querendo, como comunidade, ser igual a Trindade ao ponto de manifestar a unidade que tem na Trindade entre nós; que reconhece que o Espírito Santo é quem comanda a gente, e que o Espírito Santo comanda a gente dando funções para a gente, dando capacidades para a gente, e essas capacidades têm que ser usadas em benefício do outro. Isso é que é uma comunhão. Se isso está marcado, está debaixo de uma instituição como nome, CGC, endereço, ou se isso está se reunindo nas casas, se isso está se reunindo nas aldeias, se isso está acontecendo de condomínio em condomínio, não tem problema. Desde que essas marcas estejam presentes. Se essas marcas não estão presentes, você tem qualquer outra coisa, mas não o que o Novo Testamento chama de igreja.”

O podcast completo você acha no site irmaos.com.