Visitando os stands e bancas de livros no V CBM acabei comprando dois livros que já possuo (!?): Simplesmente Cristão do N.T. Wright e Servos Entre os Pobres do Viv Grigg (ambos publicados pela Ultimato). O livro de N.T.Wright eu li no ano passado e comprei apenas para ter a edição em português também. E tenho uma edição bem velha e gasta do livro de Viv Grigg, publicada na década de 1980, que comprei numa conferência da OM (Operação Mobilização) então aproveitei o desconto para comprar essa nova edição.
Relendo trechos do livro de Grigg pensei numa conversa que tive recentemente com uma pessoa sobre como temos a tendência de polarizar e, consequentemente, julgar as pessoas que não estão fazendo as coisas que nós temos paixão por fazer. Para quem não conhece nada do Viv Grigg, ele é um neozelandês que adotou uma vida de pobreza voluntária e mudou-se para uma favela em Manila, nas Filipinas, para conviver com os pobres que lá viviam na década de 1970 (ele é um pouco de Shane Claiborne 30 anos antes) e compartilhar com eles o amor de Deus. Grigg foi o primeiro “evangélico” que eu ouvi falar em termos de “ministério encarnacional” entre os pobres.
Por mais que eu admire o trabalho e exemplo dele, não posso pensar que todo seguidor de Cristo tenha que fazer voto de pobreza voluntária e mudar-se para as favelas para “alcançar” as pessoas que moram lá. Mas freqüentemente encontro pessoas que sentem-se desafiadas (chamadas?) para um ministério assim julgando o restante do Corpo como frio, sem amor e sem compromisso com os pobres. O orgulho espiritual é a maior tentação que essas pessoas enfrentam (e muitas caem nele facilmente).
De modo semelhante, não seria sensato pensar que todo discípulo comprometido com a Causa de Cristo tenha que ir para o Mundo Islâmico, apesar de que este represente hoje o maior desafio para a evangelização do mundo e conta com menos de 1% da força missionária. Uma pessoa com paixão por comunicar o amor de Deus no mundo islâmico pode olhar para todos aqueles que não possuem a mesma paixão e, erroneamente, pensar que eles não têm compromisso com a Grande Comissão. Já encontrei pessoas literalmente amarguradas com a Igreja porque elas não conseguem entender como tão poucos estão se mudando para o mundo islâmico a fim de ajudar os muçulmanos a encontrarem em Cristo o amor do Pai.
E nós podemos continuar nesse raciocínio em relação a muitas áreas vocacionais ou ministeriais. Percebo que quando uma pessoa, grupo ou igreja abraça uma causa, é fácil cair na tentação de julgar os outros que não “abraçaram” a mesma causa como sendo menos espirituais ou descompromissados (e na maioria das vezes, esse “abraçar” significa mergulhar de cabeça e não simplesmente oferecer uma palavra de apoio ou intercessão). Mas ao mesmo tempo em que estão julgando, com certeza estão sendo julgados também, pelo simples fato de que há mais causas do que apenas uma pessoa, grupo ou igreja poderá abraçar. O desafio é entender que a graça de Deus se manifesta e é distribuída livremente no Corpo segundo a vontade do Espírito. Dom (charismata) é graça em ação (literalmente “efeito da graça”). Ou seja, não é algo que eu mereça ou deva me orgulhar a respeito. Somente quando penso “mais ao meu respeito do que devo pensar” é que fico me comparando com os outros ou julgando-lhes como menos espirituais por não fazerem as coisas que eu faço. Esse tipo de atitude vai na contra-mão do espírito de Cristo.
É evidente que todos fomos chamados a amar, a compartilhar Cristo, a interceder, a exercer misericórdia, a ter fé, etc. Usando o exemplo do ministério (serviço) aos pobres, todos somos chamados para compartilhar do amor de Deus com eles de forma prática sempre tivermos a oportunidade de fazê-lo – mas nem todos são chamados para uma vida de pobreza voluntária.
Somente quando somos maduros o suficiente para entender isso é que podemos viver o que Paulo disse: “Cada um permaneça na vocação com a qual foi chamado” (1 Cor. 6.20) e, em vez de julgar e criar divisões, passarmos a apoiar (respeitando a vocação uns aos outros) e celebrar a diversidade de dons e ministérios no Corpo de Cristo.
Bom dia Sandro,
Fico muito feliz em poder compartilhar minha opinião com vc. Quero dizer que estou a mais ou menos 1 semana passando por esse momento descrito. Tipo, me sinto altamente incomodado por não estar eu e a minha igreja participando na relação aos oprimidos, nem evangelização fazemos. Em todos os cultos é pregado que o cristão é próspero, é cabeça e não cauda, mas seus exemplos são sempre voltados a finanças e isso me incomoda pois cria uma relação de troca, faço isso para ser próspero e não escolho isso para fazer a vontade de Deus seja ela qual for. Tenho me incomodado muito com relação ao oprimido e quando cito oprimido digo todos que estão longe do Pai e se esforçam quase uma vida inteira tentando resolver determinados problemas onde a presença do Pai é fundamental. Já no outro extremo temos esse voto de pobreza, algo bem radical mas ao mesmo tempo creio que Deus nos chama em particular, só nós dois e nos mostra o que quer de nós, bem Sandro, acho que foi mais um desabafo que uma questão, mas deixo aqui um grande abraço e dizer que te conheci pela net, assim como o Jota, e gostaria de manter contato contigo para tirar algumas dúvidas, se for possível.
Um grande abraço e fique com Deus.
Boas!
Concordo contigo, e eu já passei por isso, mas graças a Deus Ele mudou minha cosmovisão… Talvez o jugamento destes amigos e irmãos podem, até certo ponto, ser inconsciente mas lá estão eles. De facto é uma tentação este julgar outros por não amar o que amamos. Sem dúvida que tuas palavras é uma chamada de atenção, pelo menos pra mim, e que Deus age conforme a Sua multiforme graça em diferentes realidades com diferentes paixões dadas à diferentes membro do corpo!
Hasta
Não tem como discordar desse texto.
Apesar de hoje saber lidar (um pouco) melhor com isso, confesso que já tive dificuldades em distinguir o chamado ao amor, a amar o próximo como a nós mesmos, que é feito à todos, com aquilo que Deus tem especificamente para mim.
Na verdade, ainda tenho dificuldades em lidar com algumas pessoas que enxergam o cantar ou o tocar bem como um dom e o louvor e adoração através da música como um ministério, mas quem sabe Deus não muda minha forma de enxergar esta questão? Ou não…
Apenas chamo a atenção para o outro lado da moeda. Para os que, não sendo chamados para uma vida de pobreza voluntária ou para evangelizar os muçulmanos, desestimulam, marginalizam, desencorajam, negam apoio, ou por vezes criticam aqueles chamados a uma vida cristã diferente da deles.
Creio que nestes casos, também cabe a exortação de Paulo, e o teu chamado à maturidade que eu reproduzo abaixo:
“Somente quando somos maduros o suficiente para entender isso é que podemos viver o que Paulo disse: “Cada um permaneça na vocação com a qual foi chamado” (1 Cor. 6.20) e, em vez de julgar e criar divisões, passarmos a apoiar (respeitando a vocação uns aos outros) e celebrar a diversidade de dons e ministérios no Corpo de Cristo.”
Apesar da forma como nós infelizmente os rotulamos, e dos claramente diferentes chamados, creio que Paulo precisava de Pedro na mesma proporção em que Pedro também precisava de Paulo.
Mesmo por vezes se desentendendo (Galatas 2:11-21), a Igreja hoje precisa tanto de “Pedros” como de “Paulos”. De preferência, em comunhão. Certo?
Abraços!
Poxa isso é realmente verdade,as vezes passo por isso,fico aborricido porque algumas pessoas nao participam do grupo de evangelismo,nao aprendem a tocar algum instrumento,para ajudar no louvor da Igreja,mas Deus tem me direcionado para nao dexar essas coisas entrarem no meu coração e me tirar o Foco
abração
Faço parte de um grupo de estudo onde metade dele é formado por líderes da minha igreja e semana passada levantei o questionamento: o que é ser chamado?
Um amigo, líder dos jovens, me contou sua experiência de como pessoas confirmaram o que ele sentia no coração.
Continuei sem entender. Na verdade, fiquei ainda mais confuso.
Gostaria que você me explicasse, se possível. Quem sabe compartilhar sua experiência.
Abraço, Deus abençoe.
Grande Sandro,
Muito bom o post.
Ter equilíbrio em tudo. Acredito ser algo a ser almejado…
Saber para que você foi feito e focar forças, tempo e energia nisso… sem desvios…
Aceitar a multiplicidade de dons espalhados por Deus nas diferentes pessoas e incentivá-las naquilo para o qual foram chamadas.
Valeu!
Abs
Fala Sandro
Muito bom o texto!
Gosto de pensar que nossa convicção do serviço ou do chamado, coloca toda a motivação em seu lugar. Porque o julgar os outros ou pensar que todos devem fazer a mesma coisa que eu, somente revela que nós não estamos contentes com missão oferecida pelo Pai!
Somente para ilustrar se no meio secular com a variedades de profissões que existem; pense comigo se houvesse coletores de lixo, médicos, professores, que ficassem murmurrando pelos cantos: “Porque ninguém me ajuda isso está pesado”, ou “Nossa quantas pessoas doentes para cirurgia”, “Quantos analfabetos para ensinar!!!” Realmente ficaria muito difícil, o mundo viraria um caos…
Mas nós que estamos ligados a Deus e ao seu Reino que é tudo muito organizado, não pensamos assim. Ouvindo o seu coração, com a convicção impregnada da cruz e impulsionada a motivação correta que é a glória de Deus, toda missão fica mais fácil.
otimo texto, e reflexao realmente importante…
porem n posso deixar d fazer coro com o Seloti sobre o outro lado da moeda, e qto ao lance de tocar e cantar bem.
creio q equilibrio é msm equilibrio (apesar da redundancia cabe o pleonasmo aqui).
é so constatar q tem bem mais pessoas “chamadas” pro louvor do que pro voto de pobreza, sera q é mais necessario um q o outro?
essa é uma questao q eu tenho curiosidade em saber.
abs
Na verdade a luta de todo aquele que pastoreia deveria ser para que as pessoas ao seu redor sejam “intensas”. Apenas isto. Cada um conforme foi chamado. O resto é tentativa de ajudar a Deus.
Concordo que nem todos os cristãos terão algum tipo de trabalho ministerial para com os pobres e muito menos serão franciscanos e farão algum voto de pobreza, agora como cristãos, devemos olhar para o mundo e defender a causa do oprimido, das injustiças sociais, e ai, quer queira, quer não, incluímos o pobre. Quer se tenha um trabalho ministerial com eles ou não, quer faça votos de pobrezas ou não, é papel nosso de cristão de ter um olhar especial pelas causas da injustiça.
Creio que é exatamente o que Sandro escreveu em seu texto.