Arquivos para o mês de: October, 2008

É difícil nomear um único livro na formação de meu pensamento até aqui. No entanto, se tivesse que destacar um só, muito provavelmente seria Resistência e Submissão (Widerstand und Ergebung) de Dietrich Bonhoeffer. O li pela primeira vez no carnaval de 1991. Para usar a expressão do filme Matrix (bem usada hoje em dia), foi então que eu tomei a pílula vermelha… e iniciei a jornada para descobrir quão profundo é a toca do coelho. Relendo aquela velha edição de 1980 e os trechos marcados já gastos pelo tempo, me deparei com as seguintes palavras que grifei do poema escrito pelo tradutor do livro para o português, Ernesto F. Bernhoeft:

Deus só vive para homem,
mas êste perdeu
a independência e a dignidade
para poder entendê-Lo.
O mundo sempre precisou da Igreja,
esta, porém, preocupou-se mais consigo mesma
do que com as necessidades do mundo,
ao qual deve servir.
O incrédulo sente um desejo ardente
de ser crente também,
mas o fanatismo, o orgulho e a falta de alegria
observadas nos crentes
impeliram-no para outros rumos,
aos quais se habituou muito bem.
Contudo é esta
a época do homem,
a oportunidade da Igreja,
o momento do “crente”.

Jon Sobrino

Essa relação igreja-instituição parece evocar tantas emoções que decidi colocar mais um pequeno post com a opinião de um teólogo latino-americano revolucionário sobre esse tema:

A fé em Cristo vive-se comunitariamente, o que exigirá algum tipo de estrutura para expressar esse comunitarismo… A instituição concede um corpo ao carisma, até integrando a profecia, e no nível da ação oferece um corpo que torna mais marcadamente eficaz aquilo que os profetas expõem como linha de ação. A Igreja-instituição, embora um tanto ambígua, é uma necessidade histórica. Todo carisma que exista na Igreja e queira ser eficaz, deverá pagar o preço social representado pela instituição.

- Jon Sobrino, La Conflictividad dentro de la Iglesia, Selecciones de Teologia, n. 65, p. 50, 1978 (grifo meu).

 Creio que o maior desafio da comunidade chamada ekkesia é ser caórdica (vivendo na tensão do caos e ordem, da rigidez e da flexibilidade, exibindo simultaneamente tanto um como outro).  Apesar do termo “caordic” popularizado por Dee Hock ser posterior a época de A. W. Tozer, o texto abaixo chamado Organização: Necessária e Perigosa parece ter sido uma tentativa de Tozer de expressar, em suas palavras, essa realidade.

O homem que se opuser a toda organização na igreja ignora completamente os fatos da vida. A arte é a beleza organizada; a música é o som organizado; a filosofia, o pensamento organizado; a ciência, conhecimento organizado; o governo não passa de uma sociedade organizada. E o que é a verdadeira igreja de Cristo senão o mistério organizado?
O pulsar do coração da igreja é vida – na frase feliz de Henry Scougal, “a vida de Deus na alma do homem”. Esta vida, juntamente com a presença real de Cristo em seu interior, faz da igreja uma entidade divina, um mistério, um milagre. Entretanto, sem substância, forma e ordem esta vida divina não teria onde habitar, nem meios de expressar-se na comunidade.
Os cristãos têm cometido erros em várias direções por não compreenderem o propósito da organização e os perigos resultantes caso ela não seja controlada. Alguns não querem qualquer tipo de organização e as conseqüências são confusão e desordem. Estes dois elementos negativos não ajudam a humanidade nem servem para glorificar a Deus. Outros substituem a vida da igreja pela organização e embora tendo o nome de vivos estão na verdade mortos. Outros, ainda, se apaixonam de tal forma pelas regras e regulamentos que os multiplicam além de todo bom senso, e logo a espontaneidade se apaga dentro da igreja e a vida desaparece.
Muitos grupos da igreja pereceram por excesso de organização, da mesma forma que outros por falta dela. Os líderes sábios devem ficar vigilantes com relação a ambos os extremos. O homem pode morrer tanto de pressão alta como de baixa, e pouco importa qual das duas o tenha matado. Ele estará igualmente morto de um modo ou de outro. A coisa importante na organização da igreja é descobrir o equilíbrio escriturístico entre os dois extremos e evitá-los a ambos.

(O Melhor de A. W. Tozer, Mundo Cristão, pp. 58-59)