
Meu primeiro encontro com os Jesusfreaks se deu com a igreja deles de Berlin que estava reunida num acampamento cerca de 90 minutos ao sul da cidade. Saímos um pouco atrasados naquela manhã e o Benjamin, meu intérprete e motorista para essa parte da viagem, se perdeu no caminho (mesmo usando GPS como 90% dos motoristas alemães), o que atrasou ainda mais nossa chegada ao local. Logo que paramos o carro ouvimos o som de cânticos e seguimos as vozes até chegar a uma sala fechada. Quando entramos, me deparei com cerca de 25 pessoas, a maioria delas com o visual bem alternativo (quase hippie), que cantavam com profunda devoção ao som de um violão, baixo e violino. Me senti bem entre eles de imediato. As reuniões foram conduzidas pelo pessoal do Obadja (veja video deles no YouTube aqui), uma banda dos Jesusfreaks Berlin. Na hora do almoço, eles me falaram sobre as passagens da banda brasileira de grindcore Antidemon entre eles e conversamos bastante sobre o cenário musical no Brasil. Fiquei lá durante o sábado inteiro e compartilhei duas vezes, pela manhã e à noite quando fizeram um lounge de adoração, com bastante velas, incenso, almofadas, material para desenho e pintura e uma atmosfera bem relax (sem contar os cachorros que passeavam entre a gente, aparentemente curtindo tudo também).
Como eu descobriria mais tarde, os Jesusfreaks estão passando por momentos de transição, tentando se encontrar em uma nova realidade e identidade. Eles até fizeram um Concílio para dialogar sobre isso e emitiram uma cartilha de suas crenças, valores, missão, etc. Mesmo um movimento cujo logo lembra o “A” de anarquia (na verdade é o Alpha e Ômega sobrepostos) está em busca de estrutura. Os Jesusfreaks começaram no início dos anos 1990 na Alemanha, e alcançaram projeção nacional e internacional em poucos anos. Martin Dreyer, líder do movimento, chegou a ser mencionado por uma revista não-cristã como um dos 25 líderes jovens mais influentes na Alemanha. Mas com o passar dos anos, os Jesusfreaks experimentaram duras perdas com quedas morais de seus líderes principais e divisões causadas por ventos de doutrina. Além disso, muitos dos jovens solteiros se casaram e constituíram famílias, o que torna a vida mais interessante, mas também apresenta novos desafios aos relacionamentos. Tive a oportunidade de conversar sobre essas dificuldades com quase todos os grupos dos Jesusfreaks que visitei.
Depois de Berlin, estive com os Jesusfreaks de Colônia. Eles se reunem num galpão que foi transformado para acomodar suas atividades. O grupo lá parecia mais velho que o de Berlin, tinha até alguns bikers de meia-idade, além de alguns punks e gente “comum”. No local de reunião, antes e depois do culto, a galera jogava ping-pong e pebolin. Havia também muita coisa velha, sucata, roupa para doação, etc., espalhada pelo local. Estava bem frio e como eles não tem sistema de aquecimento, cobertores estavam à disposição das pessoas que sentavam nas almofadas no chão ou em fileiras de sofás velhos de todos os tipos e modelos. No final, um dos bikers arrastou para o meio do salão um grande forno de barro sobre um gabinete com rodas para prover um pouco de calor.

Dias depois visitei uns 20 jovens em Bremen que formam parte do Jesusfreaks local. Eles se reúnem num prédio onde há várias salas de ensaio para bandas e músicos. Parte do que eles têm tentado fazer lá é servir a esses músicos para compartilhar com eles o amor de Deus. Estava frio naquela noite e ficamos congelando do lado de fora uns 30 minutos antes que alguém nos abrisse a porta. Eu ouvia uma banda de punk rock ensaiando e podia ver onde eles estavam pela pequena janela ao nível da rua. Estava com tanto frio que fiquei com vontade de chutar a janela para ver se eles nos abriam a porta, mas acabei deixando a idéia de lado para evitar confusão. No final foi a coisa certa a fazer, uma vez que essa banda não tinha nenhum relacionamento com os Jesusfreaks (eles ainda não estavam no local, pois estavam atrasados). Encontrei uma jovem brasileira chamada Marcela e seu marido Freddo que já esteve no Brasil fazendo trabalhos sociais em comunidades carentes. Diferente dos outros Jesusfreaks, esse grupo era em sua maioria de jovens profissionais e/ou estudantes. Um deles é piloto de avião e naquele dia recebeu a notícia de que tinha passado no teste da Lufthansa. A reunião foi bem à vontade, tomando chá para esquentar e cantando alguns cânticos antes de me darem a oportunidade para falar. Depois que compartilhei, tivemos um momento para perguntas e respostas e ficamos conversando um bom tempo. Era tarde quando cruzamos a cidade rumo a casa onde passaríamos a noite. Atravessando o canal e olhando as luzes na noite, me lembrei de quando lá estive em 1990 e acabei ficando bêbado após tomar uma cerveja doce (somente uma) com os amigos. Desta vez, decidi ficar longe de qualquer cerveja…


Meu último encontro com os Jesusfreaks se deu em Stuttgart e foi a maior igreja deles que visitei (tinha umas 80 pessoas no culto). O Cristian Faber estava comigo nesta reunião e encontramos outros conhecidos lá também. O louvor foi conduzido pela Sally que trabalhou com o Steiger Minneapolis e na Índia, onde conheceu seu marido. A Christa do NLM estava tocando violino e o Thomas da banda Wating for Steve (uma das melhores bandas que ouvi recentemente) tocou violão. Resultado: um momento lindo de cânticos e adoração. Tinha muitos bebes no local e muitos casais bem vestidos, formando um público que você encontraria em locais alternativos em São Paulo, Londres, Nova York ou Tóquio. Depois da reunião, novamente um tempo para comer e compartilhar vida.
Resumindo, minha experiência entre os Jesusfreaks fortaleceu minha crença no fato de que a igreja como organismo é algo que, quando saudável, cresce e passa por transformações constantes em seu processo de amadurecimento e relação com o mundo ao seu redor. Muitas vezes, assim como famílias, o crescimento e amadurecimento leva a um ponto de separação saudável e à formação de novas futuras famílias. Outras vezes, organismos chegam ao ponto de enfrentar a morte (preferivelmente depois de terem cumprido com seus propósitos em vida) para renascer para uma nova vida. Pelo que vi, os Jesusfreaks estão experimentando essas realidades como organismo e organização.