Arquivos para o mês de: November, 2008

Gas

Depois de quase um dia de viagem, cheguei a Karlsruhe na quinta-feira passada para a segunda parte de minha turnê no sul da Alemanha, o que tornou as coisas mais fáceis para mim, pois fiquei na base do Steiger. O Cristian Faber que está trabalhando como graphic designer lá me recebeu como hóspede em seu quarto. Só deu tempo para um banho rápido e já tive que sair de novo, desta vez para me encontrar com a Damaris Kofmehl e seu marido Demitri. A organização deles nos doou os imóveis que estamos usando para o P242 e Projeto Toque e meu encontro com eles foi para agradecer-lhes mais uma vez pela confiança e generosidade. O David Pierce acabou se unindo a nós durante esse tempo e nos divertimos um pouco com suas brincadeiras. Logo depois fui falar na Jesus Rockt, a igreja do Steiger em Karlshure. Apesar de já ter estado lá base em outras ocasiões, eu ainda não tinha tido oportunidade de participar de um momento de adoração comunitária com eles. O local onde eles se reunem é um antigo abrigo anti-aéreo do prédio do Steiger e o visual é bem “cavernoso” (enquanto eu estava lá pensei que aquele seria o local idéial para a Caverna de Adulão). No dia seguinte fui falar para um grupo de jovens que estão se reunindo na Associação Cristã de Moços de um pequena cidade chamada Kleinsteinbach. Mais uma vez fiquei impressionado como esse novo modo de ser igreja está cada vez mais globalizado. A reunião foi simples, a atmosfera do local convidativa e como parte de um momento congregacional cantamos músicas do United, Matt Redman, alguns hinos em alemão e “My Sacrifice” do Creed.

HOP

Sábado à noite fui para Göppingen participar de outra reunião de jovens chamada Hours of Power em uma igreja pentecostal. O David Pierce tinha estado lá duas semanas antes e havia uma certa expectativa no ar pela minha presença. Eles fizeram até um folheto sobre a gente (foto acima). O líder de jovens lá é um cara legal, tipo metaleiro dos anos 80 que gosta de inserir uns riffs to Metallica nas músicas durante o louvor. Afinal, como ele me disse repetindo as palavras de seu conterrâneo Lutero, por que o diabo deveria ter toda boa música? O período de cânticos demorou hora e meia, algo surpreendente para reuniões de igreja na Alemanha. Depois que eu terminei de compartilhar eles ainda cantaram mais uns 30 minutos! Logo após a reunião, o local onde nos reunimos foi transformado numa cantina com comida alemã e metal pesado como som ambiente. Domingo acordei bem cedo para enfrentar meu último dia na Alemanha. O tempo estava frio e chuvoso quando Maren, esposa do Michael Sengle, me chamou para a viagem até Pforzheim (o Michael estava viajando como intérprete do David). Além dos dois filhos deles, estavam conosco um novo cristão chamado Dirk e o Johannes, meu intérprete. Logo que cheguei lá, o Chris, responsável pelo culto naquela manhã, me chamou para orar e conversar sobre a reunião. Após a oração ele me disse que gostaria que eu estivesse à vontade para dar-lhes algo com profundidade teológica, pois é isso que eles estavam querendo. Tendo em vista que meu intérprete tem dois mestrados em estudos teológicos, quase sugeri que ele falasse em meu lugar… A igreja lá se reúne num dos locais mais style que já visitei. A maioria dos membros são jovens profissionais, gente com PhDs e tals e o local esbanja conforto e criatividade. O louvor foi bem alternativo e um tanto contemplativo também, misturando arte, simplicidade e devoção. Logo depois da reunião, fui almoçar com velhos conhecidos Ilja e Amélie em um restaurante italiano. Foi muito bom estar em Pforzheim, principalmente para rever esses irmãos e compartilhar com eles. No final do dia fui para Stuttgart compartilhar com os JesusFreaks de lá. No próximo post irei comentar sobre minha presença entre os freaks.

Nos últimos dias estive falando a diferentes grupos do JesusFreaks e daqui a pouco irei para Bremen compartilhar com mais um desses grupos. Posteriormente farei um post somente sobre eles. A partir de amanhã, estarei retornando para o sul da Alemanha onde irei falar para mais 5 igrejas nos próximos dias. Neste intervalo de viagem estive hospedado na residência de um casal de amigos do Steiger. A casa é uma dessas coisas que a gente só encontra nessa parte do mundo, construída em 1906, numa propriedade enorme que antigamente era um campo de morangos e hoje abriga um jardim, horta e pomar generosos com macieiras carregadas. Just é pediatra e sua esposa Visnja é cientista comportamental bem engajada em seu trabalho de pesquisa e palestras. Ela é uma espécie de super-nanny aqui, ajudando pais e professores a lidarem com filhos/alunos que sofrem de dificuldade de prestar atenção por serem hiperativos (Attention-Deficit Hyperactivity Disorder – ADHD). Fiquei literalmente fascinado com o conhecimento que ambos possuem nesta área e convidei-lhes para dar um curso no P242. Eles ficaram entusiasmados com a idéia e me disseram que gostariam de ir ao Brasil talvez em 2010 quando a agenda deles permitir. Just e Visnja são luteranos e procuram servir a Deus e seus propósitos no mundo. Conversamos muito nos últimos dois dias sobre Deus, fé e o desafio de cumprir com nossa missão. Just me confessou ontem que há 25 anos ele foi desafiado a largar tudo e se tornar um “missionário”, no sentido tradicional da palavra. Mas Deus o guiou por um caminho diferente. Hoje, com os filhos crescidos e fora de casa, eles têm prazer em hospedar pessoas que estão de passagem por aqui em sua tarefa missionária. Eu disse a eles o que acredito: eles também são missionários. Para mim, eles representam um novo tipo de cristãos e missionários cada vez mais necessário (principalmente nesta parte do mundo). Gente que serve a Deus com suas profissões, sendo testemunhas do poder do Evangelho em seu campo de atividade profissional, com excelência, inteligência, convicção e generosidade. Algo interessante aqui é que, quando uma pessoa declara ser cristã, geralmente ela é mesmo! Não há muito espaço para “cristãos meia-boca” neste país totalmente secularizado.

Immaculée

Terminei hoje a leitura do livro Sobrevivi Para Contar, a história emocionante de Immaculée Ilibagiza, sobrevivente do genocídio em Ruanda em 1994. Confesso que chorei em alguns momentos da leitura, algo que não fiz ao ver Hotel Ruanda e Tiros em Ruanda (dois filmes que retratam a matança de quase 1 milhão de tutsis em 100 dias). É difícil entender o ódio que levou pessoas comuns a pegarem um facão e saírem à caça de outros seres humanos (muitas vezes seus próprios vizinhos e amigos de infância) para matá-los como se fossem insetos que precisassem ser exterminados (os hútus se referiam aos tutsis como “baratas” – estavam apenas matando baratas). Immaculée sobreviveu escondida por 91 dias num minúsculo banheiro da casa de um pastor hútu juntamente com outras 7 mulheres. Ela pesava 52 kg quando os confrontos estouraram e 29 kg quando finalmente pode sair do esconderijo e buscar refúgio no acampamento francês da ONU. O mais impressionante é que, apesar de ter perdido seus pais, dois irmãos e a maior parte de seus amigos no genocídio, Immaculée não perdeu sua fé em Deus. De fato, foi essa fé que a manteve viva e que deu-lhe condições de enxergar um futuro de reconciliação em vez de amargura,  ódio e vingança. Abaixo está um parágrado do livro que me chamou a atenção enquanto lia:

Estava certa de que Deus me reservava um propósito, e orava diariamente para que Ele me revelasse qual era. De início, imaginei que Ele me revelaria, de uma única vez, todo meu futuro – talvez em meio a relâmpagos e trovoadas, para que a cena fosse mais dramática. Aprendi, no entanto, que Deus jamais nos revela o que ainda não estamos prontos para entender, revela-nos aquilo que precisamos nos seja revelado, e quando chega a hora certa. Espera que nossos olhos e corações se tenham aberto para Ele, e então, quando estivermos preparados, nossos pés serão colocados no início do caminho que Ele considera o melhor para nós… Mas a nós competirá caminhar.

- Immaculée Ilibagiza em Sobrevivi Para Contar, Editora Fontanar, p. 126