2009
fé sob medida
Na sala ampla, repleta de pinturas estilizadas de figuras religiosas nas paredes, os instrumentos de uma banda de rock estão a postos e um telão exibe slides que fazem referência ao papel de Jesus como revolucionário.
Nas pequenas mesas e sofás, alojam-se os fiéis: jovens tatuados que usam roupas modernas e prestam atenção a cada palavra proferida pelo representante comercial Hudson Parente, o pregador da noite, paramentado de calça jeans e tênis All Star.
Como tudo no Projeto 242, igreja localizada no número 900 da rua da Glória, na Liberdade, a pregação passa longe daquelas dos cultos de templos evangélicos tradicionais.
A começar pelo teor do sermão: “Vamos falar do X-Men de verdade. O ‘X’ é de Cristo, ele é o messias, ele é o que traz a revolução”, prega Hudson, 37, apropriando-se de um personagem pop das histórias em quadrinhos para falar de Jesus.
Logo depois, Hudson faz mais uma ligação com a contemporaneidade ao pedir uma prece pelo presidente eleito dos Estados Unidos. “Vamos fazer uma oração para que Barack Obama possa ser iluminado. Deus, tenha misericórdia desse cara.”
Criado há dez anos, o projeto marca a chegada a São Paulo da chamada igreja emergente, movimento que nasceu na Inglaterra, na última década. É uma vertente que congrega denominações que começaram a oferecer cultos alternativos para a juventude, unindo espiritualidade, cultura e vida em comunhão.
O próprio nome da igreja remete ao espírito de comunidade: é uma referência bíblica ao versículo 42 do capítulo 2 do livro dos Atos dos Apóstolos: “E perseveravam na doutrina dos apóstolos, e na comunhão, e no partir do pão, e nas orações”. A divulgação da fé se dá por meio de sites, fotologs e blogs.
Os fiéis do 242 são jovens de classe média ou média alta, muitos deles profissionais de áreas ligadas à criatividade, como designers, publicitários e arquitetos. Acreditam nos valores mais estritos da moral cristã, como a virgindade.
Ao mesmo tempo, fazem parte de uma comunidade religiosa na qual não precisam mudar a linguagem, as roupas ou as preferências musicais para se assumirem como cristãos.
Praticam também a chamada “teologia da inclusão”, levando o cristianismo aos “excluídos”. “Jesus ama a todos”, resume João Mossadihj, 25, o Jota, tatuagens nos braços, repetindo os dizeres dos 2.000 adesivos distribuídos na Parada Gay por ele e outros participantes do Sexxx Church, grupo criado para ajudar prostitutas e viciados em pornografia “a encontrarem Deus”.
Realizam também um trabalho direcionado a evangélicos. O grupo faz palestras nas igrejas, uma vez que recebem pedidos de ajuda de “irmãos” viciados em pornografia.
O Sexxx Church não se classifica como mais uma igreja, embora use o termo em inglês no nome. Seus 30 missionários são de diversas denominações, todos com um perfil parecido com o de Jota, que entrou para o 242 há quatro anos.
Em outubro, o grupo fez jus à primeira parte do nome e foi visto na 13ª Erótika Fair de São Paulo. Lá, o Sexxx Church alugou um estande e exibiu camisetas com os dizeres “Jesus ama os atores pornô”, com a figura impressa de um Cristo de óculos escuros e exibindo tatuagens no braço. “Um Jesus ‘putão’”, define Jota.
O linguajar sem cerimônias do rapaz certamente pode provocar arrepios em cristãos tradicionais. “Se os jovens desta igreja se reúnem, usam essa linguagem e se identificam, acho válido como fenômeno religioso”, afirma o reverendo Luiz Alberto Barbosa, secretário-geral do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil. No entanto, ele pondera que os fins nem sempre justificam os meios. “A mensagem é válida, mas pode-se questionar se realmente está sendo transmitida.”
É com um discurso mais contemporâneo e ousado que os emergentes querem aumentar o rebanho. “A igreja não tem que ser uma fortaleza. Deve caminhar junto com as pessoas”, defende Jota. Ele acredita que, em geral, os desviados -termo usado pelos evangélicos para definir aqueles que se afastaram da igreja- foram separados de Deus pelas próprias denominações religiosas.
É justamente em busca de quem se “desviou” do cristianismo que iniciativas como o projeto Toque, uma ONG apoiada pelo 242, se aproxima de prostitutas, sem-tetos e crianças de rua na noite paulistana. “Vamos à região da Cracolândia, da Boca do Lixo e do largo do Arouche e abordamos travestis para conversar, fazer amizade”, relata Fernanda Pinilha, 26. “Acreditamos que, só por estar com eles, resgatamos sua dignidade.”
Plano divino
A integrante do projeto Toque resume a opinião dos fiéis das igrejas emergentes sobre o homossexualismo: “Acreditamos que não é o plano de Deus para o homem, mas não podemos excluir, julgar”.
Adriano Lima, 26, tatuagens que cobrem os seus dois braços, também é missionário em tempo integral do Toque. “O conceito de viver a vida em comunidade é bíblico. É um estilo de vida que deveria ser praticado pelos cristãos”, diz ele, que se prepara para cursar filosofia.
Na igreja do Projeto 242, triângulos pretos de tecido fazem as vezes de cortina nas janelas, lembrando espaços de eventos culturais -na pintura da parede, sobressai uma figura que representa a “noiva de Cristo”, ou seja, a própria igreja.
No lugar dos tradicionais bancos de madeira estão sofás ou pequenas mesas com espaço para no máximo quatro cadeiras, com velas e salgadinhos para facilitar a interação entre os fiéis. E o show de uma banda de rock abre o culto.
“O visual é uma expressão do que nós somos”, explica o reverendo Sandro Baggio, 41, fundador da igreja, referindo-se tanto aos piercings dos fiéis quanto às mensagens de visual moderno exibidas no telão. “Decidimos andar juntos em uma comunidade cristã porque não nos encaixávamos em nenhum outro lugar.”
Oferecer um espaço religioso sob medida para jovens que professam a fé cristã, mas fogem do estereótipo certinho do crente, é o diferencial da igreja dos modernos.
É uma maneira pragmática de olhar a questão religiosa. “Cria-se um ambiente de comunhão, no qual esses jovens não se sentem estranhos”, explica o filósofo Eulálio Figueira, professor do Departamento de Ciências da Religião da PUC-SP. “Se eu vou a um lugar e me sinto bem, vou seguir frequentando.”
Os jovens urbanos, mais ligados à arte, podem se sentir peixes fora d’água em cultos em que seu estilo de vida é demonizado. “As igrejas convencionais e suas grandes assembleias já não atendem a determinadas parcelas da população”, afirma o filósofo. Daí, a organização de grupos religiosos menores e ao gosto do freguês.
Culto revolucionário
Quando questionados sobre como chegaram ao projeto, que atualmente conta com cerca de 150 fiéis, muitos dos frequentadores citam amigos ou parentes em comum.
Como é usual em igrejas emergentes, os membros do 242 também são estimulados a criar: durante o culto ao qual a Revista compareceu, por exemplo, o artista plástico Anderson Augusto, 26, o SAO, pintou um quadro abstrato que intitulou de “O Revolucionário”. “Vou trabalhando de acordo com o que está rolando na pregação.”
A roupagem moderna parece não entrar em choque com valores como transar só depois do casamento e apenas com uma pessoa do sexo oposto. “Casei virgem, com o meu primeiro namorado”, diz Ester de Souza Ganev, 22, mulher de Jota, com quem tem um filho de dois anos, Zion.
“O projeto atrai os jovens, mas muita gente não permanece”, reconhece Ester, que é de família evangélica e passou a ir ao 242 com 17 anos. “A Bíblia não é muito confortável. Quando a pessoa vê que precisa mudar, acaba não ficando.”
A doutrina seguida por Ester não faz a clássica divisão entre o sagrado e o mundano. É difícil imaginar que outra igreja Claudio Tiberius, 43, editor de imagens que ajudou a fundar o projeto, poderia frequentar: roqueiro, dreadlocks nos cabelos e alargadores nas orelhas, ele tem uma banda que não está relacionada com religião. “Agora, estou compondo e gravando com a Eucatastrofe”, afirma ele, que durante os anos 1990 fez parte da banda de metal Krisiun.
À sua imagem e semelhança
Há diversas denominações no Brasil voltadas para as tribos urbanas, como emos, góticos e metaleiros, entre outros.
Já existe inclusive uma organização cristã, a Tribal Generation, que ensina, por meio de cursos, a administrar e a organizar igrejas. “Temos a obrigação bíblica de enxergar o coração, seja de um surfista, seja de um pagodeiro”, explica o produtor Ronei Soriani Junior, 32, um dos colaboradores na capital paulista dessa organização, cuja sede fica em Uberlândia, Minas Gerais.
A Tribal ajudou a criar denominações como a Manifesto, de Uberlândia, formada por “head-bangers” (fãs de heavy metal), a Ministro Milícia, de Vitória, com um público hardcore e punk, e, em Palmas, a Comunidade Zoe, de metaleiros. “A Tribal é uma facilitadora que agrega ferramentas para ajudar grupos que querem encontrar Jesus, como, por exemplo, um emo que está lá no canto dele chorando e que quer Deus”, diz Ronei.
Sem preconceitos, o Sexxx Church, também em nome da inclusão, está prestes a cometer uma heresia, do ponto de vista dos cristãos tradicionais: quer imprimir Bíblias, que serão doadas, com uma capa imitando a folha de um caderno de brochura e com listras da bandeira GLS, com a figura de Cristo de óculos escuros e tatuagem.
Mais: estuda, em 2009, alugar uma noite em uma casa noturna na Augusta, a rua dos prostíbulos e inferninhos da capital, para produzir uma festa. “A ideia é que seja uma balada normal, não-cristã, tocando música eletrônica, com bandas”, explica Jota, da 242.
Nos últimos dez minutos, os baladeiros crentes farão uma preleção sobre um Cristo criativo. “O Jesus do ‘Dogma’ [filme de Kevin Smith, no qual Cristo aparece sorrindo e fazendo sinal de positivo]“, emenda o cristão pós-moderno, para choque de muitos e curiosidade de tantos outros.
Por Maeli Prado e Rafael Balsemão (Revista da Folha de SP, 11/09/2009)
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Comments (25 Responses)
Apesar de alguns erros na matéria, ficou muuuuuito legal!
\o/
Interessante!
Fazendo a diferença, não importa como!!
Achei boa a matéria…
não dá pra querer que a jornalista entenda tudo em tão pouco tempo…e mesmo assim, ela não prejudicou o conteúdo com frases preconceituosas como a gente já viu no passado…
mto bom.
Se fosse para resunir tudo eu diria: Integridade para com a palavra, com relevania cultural. Foi isso que aprendi com vcs e tb trilho este Caminho.
Carlos Neca, membro do projeto 242, serve em Itapecerica/Mg, no Projeto Atos 29 como pastor
É isso aí Carlos! Ou como disse alguém: a Bíblia em uma mão e o jornal do dia na outra. Que possamos seguir firme e não perder nem um nem outro. Me assusta pensar que muitos estão em busca de relevância cultural sem sequer conhecer as Escrituras. E, por outro lado, é triste ver ministérios com tremenda solidez bíblica e teológica perdendo contato com uma geração inteira… Kyrie Eleison! Um abraço,
Conheço por cima o P242, conheça bem a galera do Toque. Mas achei muito legal e bem explicativa a matéria.
Paz Sandro… Quais são os “escorregões aqui e ali (o que nos fez rir em alguns momentos e franzir as sombrancelhas em outros)”?
Rod, quais “erros da matéria”?
todos nós q fazemos parte do 242 temos que ter conhecimento nas escrituras de forma profunda, pq se nao tivermos, a relevancia cultural nao servira de nada pois ela por ela mesmo na refina carater de ninguem
e sim temos q fazer a diferença, mas sempre se importando como.
e outra coisa, eu nao tava fazendo uma arte abstrata, ate porq nao gosto de arte abstrata, pois ate um cavalo e uma criança de 2 anos conseguem fazer esse tipo de arte….
o q eu estava fazendo era essa pintura
http://flickr.com/photos/sao/3188572284/
Tentei visitar o pessoal do 242, mais, Deus sabe, infelizmente não deu. Já não encaixo (como MUITOS) há anos. Não tenho tatuagens, não sou Zine nem cool, mas tenho uma tremenda dificuldade com a igreja como se formou… com o que ela fez com aquilo que tentaram fazer dela (para parafrasear o Sartre (?). Aqui em Santos, temos igrejas de velhos, com contextualização bíblica dificultosa (deve haver). Se tem até em Itapecirica (rsrsrsrs), porque não em Santos, cidade do porto, das prais, do cais (…).
Um abraço a todos os meus irmãos que abraçam seu tempo e encaram o evangelho como um par de asas e não como uma âncora.
Oi Andre!
Meu brother, quando der apareça por lá, tenho certeza que será muito bem vindo.
Em Cristo, que transcende barreiras geográficas e culturais
comparando com a materia da Galileu essa ta “corretissima”
não sei se é o caso dos escorregões, mas particularmente me caiu mau uma frase dizendo “nós queríamos um Jesus putão”. Quem me conhece sabe que não faço julgamentos (pelo menos tento), mas acredito que não seja intenção dos membros (onde eu tb me enquadro, pois fiz parte do projeto) polemizar ou ferir igrejas ou pensamentos tradicionais. Senão, estariam fazendo a mesma coisa que as igrejas anteriores a eles (nós) fizeram. Criaram um gueto e se fecharam em si mesmos.
Pelo pouco que frequentei a igreja [p242], achei que a matéria ainda foi “rasa”. Mas legal já sair este tipo de matéria e mostrar que mais do que um visual cool ou “bando de moderninho juntos” a comunidade citada tem a Bíblia como fundamento e segue os mandamento deixados por Cristo.
o 242 é pop….rsrsrsrsrs
Luna, como eu disse tiveram alguns escorregões e você notou um… Mas você nos conhece o suficiente para saber que não temos o sentimento de nos fechar em nos mesmos (somos apenas uma minúscula parte no grande Corpo de Cristo) nem de polemizar ou ferir igrejas ou pensamentos tradicionais. Eu sinceramente lamento pelos escorregões…
Fábio, creio que a matéria foi o melhor que uma jornalista que esteve conosco em duas ocasiões e entrevistou alguns de nós por telefone/e-mail posteriormente poderia fazer. Sinceramente, creio que a Maeli fez um ótimo trabalho… Mas somente quem vive conosco no dia a dia sabe o que é o P242… como você notou, muito mais do que o visual cool…
Lelo, como disse Andy Warhol, todo mundo tem seus 15 minutos de fama…Ela vem e vai, o que importa mesmo é o que temos vivido e aprendido nos últimos 11 anos e, se Deus o permitir, iremos viver e aprender um pouquinho mais nos próximos 11 anos…
Ricco,
Acho que o pessoal ja comentou aqui mais ou menos a minha impressão.
Eu só fui um pouco chato (sou estudante de jornalismo… rs)
Mas no geral gostei da matéria sim.
Como o pessoal ja citou, foi uma das melhores que fizeram, comparadas as antigas!
Abraços
Bom, só fui a 242 umas poucas vezes, então nem posso opinar muito.
Mas creio que mesmo reconhecendo o bom trabalho da repórter não custa vcs escreverem um e-mail, inclusive com um link pra esse post, mostrando aonde a reportagem escorregou.
No mínimo eles publicam uma errata na próxima edição.
Abraço.
Sandro, no problem, conheço o trabalho e conheço o pessoal, e fiz questão de mostrar isso no meu comentário anterior. Fique tranquilo. No mais, achei bem legal a reportagem, ao contrário de muitas outras. Quero manter um contato mais próximo de vcs. Abração.
Li a reportagem e para os padrões da Revista da Folha, o conteúdo até surpreendeu, ainda que a tal revista é uma tentativa antiga de criar um folhetim cultural popular… eca!
Quanto às falhas, eu estava me preparando para avisar minhas irmãs que são fãs do Krisium (que inclusive são vizinhos delas) que conhecia um cara que tinha tocado com eles…
Ah… não sou das áreas criativas, nem sou tatuado, nem “piercingado”… rsrsrs Sou profissional liberal das carreiras antigas, inclusive tenho aprendido com o povo da 242 a ser menos careta e a reconstruir Cristo em mim!
Deus continue a nos abençoar!
Materia boa pros padroes Folha. Nao esperava o grau de imparcialidade e o tamanho da materia, muito bom. O “Jesus putao” ainda me da pontadas no estomago, mas serve de experiencia pra quem deu a entrevista ficar esperto da proxima vez, lembrar que jornalista adora publicar aquilo que pedimos pra nao publicar.
Mas tem um outro aspecto disso tudo que precisamos lembrar: essa materia serviu como uma vitrine e chamariz enorme pro P242 e as reunioes realmente lotaram depois disso. So que eh preciso saber o que fazer com esse hype, como reter essas pessoas, como mante-las dentro ou como choca-las com conceitos desafiadores e contra-culturais.
Devemos lembrar que “coolness factor” nao salva ninguem.
Ah esqueci de dizer: Sandro, o novo layout ficou bem legal, bem melhor que o outro
“Devemos lembrar que ‘coolness factor’ nao salva ninguem”… Amém brother!!!
Acabei de ver que a matéria também foi publicada no jornal Ipanema que é distribuído gratuitamente aqui na região de Sorocaba.
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