Em 1999, meu amigo norte-americano Sam Rockwell fez uma série de palestras para o grupo embrionário do Projeto 242. Sinceramente não me recordo de muita coisa que ele falou (apesar de ter sido eu o intérprete), exceto dos conceitos de ministério pastoral (cinco pedras lisas) baseados num livro do Eugene Peterson e uma parábola sobre como lidar com a responsabilidade sobre a vida de outras pessoas. Em 2007, o Sam me convidou para um retiro nas montanhas do Colorado onde conheci o Peter Scazzero, autor dos livros The Emotionally Heathy Church e Emotionally Healthy Spirituality. Foi num desses livros (o primeiro) que reencontrei a parábola contada pelo Sam anos atrás. No ministério pastoral, é comum encontrar pessoas que tentam lançar sobre nós a responsabilidade por suas escolhas. É comum pessoas fazerem decisões impensadas, sem buscar conselho, e depois lançar sobre o pastor a responsabilidade pelos desastres que elas encontram no caminho. A parábola abaixo não é fácil de processar, mas pode representar uma dura realidade na jornada espiritual e na vida em comunidade.
O Rabino Edwin Friedman conta uma parábola sobre um homem que tinha pensado bastante sobre o que ele queria da vida. Após tentar muitas coisas, ter sucedido em algumas e fracassado em outras, ele finalmente decidiu o que queria.
Um dia a oportunidade chegou para ele experimentar exatamente o tipo de vida com o qual sonhava. Mas a oportunidade só estaria disponível por pouco tempo. Não esperaria, e não voltaria novamente.
Ansiando tomar vantagem dessa vereda aberta, o homem iniciou sua jornada. A cada passo, ele se movia mais rápido. Toda vez que pensava sobre seu alvo, seu coração batia mais forte; e cada visão do que estava à sua frente, renovava suas forças.
Ao prosseguir adiante, ele chegou a uma ponte que atravessava no meio de uma cidade. A ponte transpunha um rio perigoso.
Logo que começou a cruzar a ponte, ele notou alguém vindo na direção oposta. O estranho parecia estar vindo ao seu encontro para saudá-lo. Quando o estranho chegou mais perto, o homem se deu conta de que eles não se conheciam, no entanto, eram incrivelmente parecidos. Estavam até mesmo vestidos de modo semelhante. A única diferença era que o estranho tinha uma corda enrolada ao redor de sua cintura. Se fosse desenrolada, essa corda poderia alcançar talvez a distância de uns dez metros.
O estranho começou a desenrolar a corda enquanto caminhava. Quando os dois homens se encontraram, o estranho disse: “Por favor, você poderia segurar a ponta dessa corda para mim?”
Sem pensar, o homem concordou e alcançando a ponta da corda, a segurou.
“Obrigado!” disse o estranho. E acrescentou: “Com as duas mãos agora, e lembre-se, segure firme.” Falando isso, o estranho pulou da ponte.
O homem na ponte sentiu um puxão forte da corta agora esticada. Ele automaticamente segurou firme e quase foi arrastado por sobre o parapeito da ponte.
“O que você está tentando fazer?” gritou ele para o estranho lá embaixo.
“Apenas segure firme,” respondeu o estranho.
Isso é ridículo, pensou o homem. Ele começou a tentar puxar o outro para cima. Porém, isso estava além de suas forças.
Novamente ele gritou lá de cima: “Por que você fez isso?”
“Lembre-se,” disse o outro, “se você soltar, eu estarei perdido.”
“Mas eu não posso puxá-lo para cima,” clamou o homem.
“Estou sob sua responsabilidade,” disse o outro.
“Eu não pedi para você fazer isso,” disse o homem.
“Se você soltar, eu estarei perdido,” repetiu o estranho.
O homem começou a olhar ao redor em busca de ajuda. Não havia ninguém à vista.
Ele começou a pensar sobre a situação desagradável em que se encontrava. Estava ansiosamente perseguindo uma oportunidade única, e agora se via sendo desviado de seu alvo por quem sabe quanto tempo.
Talvez eu possa amarrar essa corda em algum lugar, pensou ele, examinando a ponte cuidadosamente, mas não havia como se livrar de seu novo fardo.
Ele então gritou novamente para o homem lá embaixo: “O que você está querendo?”
“Apenas sua ajuda,” foi a resposta.
“Como posso ajudar? Eu não posso puxar você e não tem lugar para amarrar a corda enquanto eu procuro por mais alguém para ajudar você”.
“Apenas continue segurando firme,” respondeu o homem balançando na corda. “Isso será o bastante.”
Temendo que seus braços não poderiam segurar por muito mais tempo, ele deu uma volta com a corda ao redor de sua cintura.
“Por que você fez isso?” ele perguntou novamente. “Você não vê o que você fez? Qual era o seu propósito ao fazer isso?”
“Apenas lembre-se,” disse o outro, “minha vida está em suas mãos.”
Agora o homem estava perplexo. Ele pensou consigo mesmo, se eu soltar, pro resto de minha vida eu saberei que deixei esse homem morrer. Se eu ficar, corro o risco de perder o momento em direção à minha tão desejada salvação. De qualquer modo isso irá me assustar pra sempre.
Conforme o tempo passava, ninguém aparecia. O homem ficou muito consciente de era quase tarde demais para continuar sua jornada. Se não partisse imediatamente, ele não chegaria a tempo.
Finalmente, ele planejou algo. “Ouça,” ele explicou para o homem pendurado abaixo, “acho que sei como salvar você.” Ele delineou a idéia. O estranho poderia escalar enrolando a corda ao redor de seu corpo. Volta após volta, a corda ficaria mais curta.
Mas o homem balançando não queria nem saber da idéia.
“Eu não penso que poderei segurar por muito mais tempo,” alertou o homem sobre a ponte.
“Mas você precisa tentar,” apelou o estranho. “Se você falhar, eu morro.”
De repente, o homem sobre a ponte teve uma nova idéia Era diferente e até mesmo fora do seu modo de pensar. “Quero que você ouça com atenção,” ele disse, “porque eu irei falar sério.”
O homem balançando deu indicação de que estava ouvindo.
“Eu não aceitarei a posição de escolha sobre sua vida, somente sobre a minha própria vida; portanto, eu devolvo a você a escolha sobre sua própria vida.”
“O que você quer dizer?” perguntou o estranho, com medo.
“Eu quero dizer, simplesmente, que a escolha é sua. Você decide como é que isso irá terminar. Eu serei seu contrapeso. Você se esforça e escala a corda. Eu posso até dar alguma puxada daqui.”
Ele desenrolou a corda de sua cintura e colocou-se na posição de contrapeso. Estava pronto a ajudar tão logo o homem balançando começasse a agir.
“Você não pode estar falando sério,” o outro clamou. “Você não poderia ser tão egoísta. Eu estou sob sua responsabilidade. O que poderia ser tão importante que você deixaria alguém morrer? Não faça isso comigo.”
Após um longa pausa, o homem sobre a ponte falou vagarosamente: “Eu aceito sua escolha.” Ao dizer essas palavras, ele soltou a corda e continuou sua jornada sobre a ponte.
Oi Sandro! No dia eu não me lembro de estar presente, mas me lembro bem de ver vc recontar esta parábola.
Me lembrei de freud, sobre projeção e tb de como o diabo faz sucesso no meio evangélico.
Afinal é bem mais fácil jogar
para cima dele nossas *burrices*, do que dizer:
Minha culpa,minha máxima culpa. Interessante é que esta expressão integra uma parte da liturgia católica que acho linda…
nossa!
nunca ouvi a parábola, me impressionei.
Muito bom!
Ter claro o alvo que Deus tem para nós e persegui-lo com todas as nossas forças… demonstrando sempre amor e estendendo as mãos, mas ao mesmo tempo respeitando escolhas… em paz…
Sandro,
Esta eh uma das parabolas mais marcantes que eu ja ouvi na vida. Ouvi de voce ha uns 6 anos e nunca mais esqueci.
Me faz pensar sobre episodios da minha propria vida, em que estive no lugar do homem sobre a ponte, e mesmo me perguntando “porque ele nao solta logo a porcaria da corda?”, lembro que eu mesmo ja cai nessa armadilha. Eh uma armadilha, a coisa mais egoista que uma pessoa pode fazer, se amarrar a outra e pular da ponte.
Isso tambem me faz pensar que misericordia sem sabedoria e discernimento so piora as coisas.
[...] This post was mentioned on Twitter by Lemos George, Sandro Baggio. Sandro Baggio said: Você já se sentiu pressionado pelas escolhas dos outros? Soltar a corda não é fácil, mas às vezes, é preciso. http://miud.in/ohD [...]