2009
Virtual
Deixe-me ser seu garoto virtual
Você não precisa de uma muleta da realidade
Posso ser seu garoto virtual, eu lhe darei o toque virtual
Sonhos virtuais, realidade virtual
Paz virtual, aluguel virtual
Espaço virtual, graça virtual
Pele virtual, bronzeamento virtual, fôlego virtual
Dor virtual, morte virtual
Viagens virtuais para a Espanha
Garotas virtuais em seus vestidos pretos com bundas grandes
cantando suas música virtuais tolas sobre suas tolas vidas virtuais
(letra da música Virtual da banda NLM em seu CD Primordial cantada por Sy Rogers)
No início da década de 1990, em meio a crise da AIDs, algumas pessoas começaram a fazer a seguinte proposta: “Faça seguro seguro: Masturbe-se!”
Ou seja, já que você não pode ter certeza de que não irá se contaminar com algum vírus ou doença ao se relacionar com uma pessoa de verdade, a saída é dedicar-se à satisfação solitária e egoísta.
Hoje em dia eu tenho ouvido idéias vindas de pessoas que se machucaram em seus relacionamentos eclesiásticos que fazem lembrar da proposta acima sobre o sexo seguro. É quase como se estivem propondo um tipo de “masturbação espiritual”. Não preciso me envolver, não preciso fazer compromissos, não preciso sair de casa, não preciso contribuir com nada (só receber)…
Para mim, a idéia de experimentar a vida espiritual por meio da virtualidade, no fundo, parece ser uma busca por segurança.
A verdadeira espiritualidade está distante disso. Ela envolve fé, disposição para lançar-se numa jornada nada segura.
Longe de ser uma prática individual e egoísta, a verdadeira espiritualidade não pode ser alcançada sem relacionamentos, aliança, mutualidade, entrega, disposição a negar a si mesmo e doar de si mesmo.
É por isso que tenho dificuldade em acreditar numa espiritualidade virtual e numa igreja virtual. Parece bonito, legal, perfeito (afinal de contas, o mundo virtual é o mundo das edições, dos filtros, do Photoshop…).
Mas não é real.
Por outro lado, igreja são pessoas reais vivendo um relacionamento real num mundo real.
Igreja são pessoas – plural, coletivo, nunca individual.
Igreja são pessoas pecadoras, salvas pela Graça de um Salvador real.
Igreja são pessoas com suas feiuras, seus defeitos, suas falhas, suas idiossincrasias, mas também com seu calor humano, seu sorriso, seu abraço e sua presença (mesmo que silenciosa) nos dizendo que não estamos sós nesta jornada de fé.
Igreja são pessoas reais que comentem erros reais e precisam de perdão real.
É arriscado, é confuso, é complexo, é falho, é algumas vezes sujo, mas é real.
Tudo isso passa longe dos relacionamentos virtuais, à distância. Eles podem ser seguros, mas onde foi que pegamos a idéia de que o amor é seguro?
Amar é e sempre será tremendamente arriscado.
Igreja são pessoas que estão aprendendo a responder ao Amor que lhes foi revelado em Jesus e aprendendo a amar uns aos outros.
Negócio arriscado esse do mundo real, da igreja real…
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Comments (13 Responses)
E como diria o filósofo: “Quem não arrisca, não petisca”.
Só quem arriscou, só quem amou, sabe como é prazeiroso poder se entregar num relacionamento regido e orientado pelo e para o Amor. Para amar é preciso se relacionar e se entregar.
Amemos(e consequentemente nos relacionemos) cada vez mais!(em qualidade e quantidade!).
Muito bom Sandro!
quem quer uma vida apenas virtual é mto covarde, pois tem medo de viver e se machucar na realidade.
é bom viver com pessoas reais, pois vc passa por sofrimentos reais e isso ajuda a pessoa a amadurecer.
apenas igreja virtual+relacionamentos virtuais são coisas pra preguiçosos e covardes.
texto lindo!
Concordo com cada palavra sua, Sandro. Mas creio que infelizmente faço parte da estatística das pessoas machucadas pelo sistema. Entenda, eu quero e desejo estar inserido numa igreja, mas o que tenho visto e tenho vivido na atual igreja, são líderes interessados no meu bolso e no meu talento, e membros que mesmo na vida real, vivem relacionamentos virtuais, ou seja, não se tocam, não se relacionam, não se permitem se ferir para amadurecer. E isso me fere muito mais.O que fazer nessa situação?
Luna, amar porque o amor constrage! simples e dificil ao mesmo tempo
Luna, entendo que pessoas estejam machucadas, eu mesmo já tomei muita pancada tanto do “sistema” e talvez mais ainda daqueles que se colocam contra o sistema e partem para a rebelião atirando para todos os lados. Mas não creio que a resposta seja o isolamento. Do mesmo modo que a resposta para pessoas que se refiram em relacionamentos amorosos deva ser o desacreditar em tais relacionamentos e tornar-se amarguradas, ácidas. Ou pessoas que sofreram o divórcio anunciar que a resposta seja a relação descomprometida do “amor livre”. A resposta para a ferida é encontrar cura, e não domesticar o machucado. E a cura só é possível por meio de relacionamentos reais com pessoas reais, e nunca do isolamento. Não é fácil, nunca é. Abraços.
Ame sem esperar ser amado!
Abç
Ótimo texto, não há como exercer o chamado sem ter essa idéia clara do amor, da comunhão. Isso me fez lembrar uma pregação que ouvi e que transformou e me preparou para que meu casamento seja maravilhoso, “não case para ser feliz, mas case para fazer a pessoa feliz”.
abs!
Sandro
entendo o que vc diz e concordo, impossível achar cura na solidão e isolamento. Mas o grande problema é que as pessoas da atual igreja NÃO querem esse relacionamento, não gostam do confronto, para evitar mais feridas, e vivem uma vida “politicamente correta” nas atitudes, mas são hipócritas.
Jota e Jairo
Amor não falta, fiz de tudo para com todos, afim de conseguir me relacionar com alguns. Fui colocado como professor de Escola Bíblica dos Adolescentes, e nem eles conseguiram entrar no esquema de relacionamentos. Preferem se isolar em panelinhas e grupos, e toda e qq pessoa estranha, diferente e alheia a realidade deles, eles ignoram.
Para todos
Não quero me rebelar, não quero me isolar. O problema é que as pessoas tb não querem que eu faça parte das vidas delas e nem que eu as deixe fazer parte da minha. Eles criaram uma barreira.
Um fator que vcs precisam saber, o contexto no qual estou inserido é Nordeste, e não São Paulo, apesar de eu ser de SP, mas moro aqui há 8 anos. Além disso, é cidade com pessoas de mentalidade de interior, apesar de ser praia e próxima da capital. Outro detalhe, a grande maioria da igreja é de analfabetos, aposentados e a comunidade é de pessoas mais pobres. Não gostam de ler. Sei que por tudo isso, o meu amor por eles deveria ser maior. E fiz isso. Mas eles me rejeitaram, e não eu a eles.
Luna, pelo jeito você está passando um apuro tremendo com as igrejas por aí…
Cara, não são todas, mas posso dizer que a grande maioria anda meio que na contramão do cristianismo. Muitas buscam interesse financeiro, outras o pastor (ou a liderança) status de popstar e querem seguir a linha de Fidel, estarem sempre no poder. Infelizmente, o que me impede de frequentar uma boa igreja aqui, é a distância, nem sempre favorável. Pois moro numa cidade ao lado de joão pessoa. Ao mesmo tempo, algumas pessoas me perguntam por algum tipo de reunião ou grupo alternativo/emergente, e eu sinceramente não sei o que responder, talvez por medo de assumir um compromisso tão sério sem um apoio, seja local ou não.
Luna, entendo como é difícil lidar com essas situações e sentir-se só, sem apoio. Estamos juntos para o que der e vier. Enviei um e-mail para você sobre isso. Um abraço.
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