Deixe-me ser seu garoto virtual
Você não precisa de uma muleta da realidade
Posso ser seu garoto virtual, eu lhe darei o toque virtual
Sonhos virtuais, realidade virtual
Paz virtual, aluguel virtual
Espaço virtual, graça virtual
Pele virtual, bronzeamento virtual, fôlego virtual
Dor virtual, morte virtual
Viagens virtuais para a Espanha
Garotas virtuais em seus vestidos pretos com bundas grandes
cantando suas música virtuais tolas sobre suas tolas vidas virtuais
(letra da música Virtual da banda NLM em seu CD Primordial cantada por Sy Rogers)
No início da década de 1990, em meio a crise da AIDs, algumas pessoas começaram a fazer a seguinte proposta: “Faça seguro seguro: Masturbe-se!”
Ou seja, já que você não pode ter certeza de que não irá se contaminar com algum vírus ou doença ao se relacionar com uma pessoa de verdade, a saída é dedicar-se à satisfação solitária e egoísta.
Hoje em dia eu tenho ouvido idéias vindas de pessoas que se machucaram em seus relacionamentos eclesiásticos que fazem lembrar da proposta acima sobre o sexo seguro. É quase como se estivem propondo um tipo de “masturbação espiritual”. Não preciso me envolver, não preciso fazer compromissos, não preciso sair de casa, não preciso contribuir com nada (só receber)…
Para mim, a idéia de experimentar a vida espiritual por meio da virtualidade, no fundo, parece ser uma busca por segurança.
A verdadeira espiritualidade está distante disso. Ela envolve fé, disposição para lançar-se numa jornada nada segura.
Longe de ser uma prática individual e egoísta, a verdadeira espiritualidade não pode ser alcançada sem relacionamentos, aliança, mutualidade, entrega, disposição a negar a si mesmo e doar de si mesmo.
É por isso que tenho dificuldade em acreditar numa espiritualidade virtual e numa igreja virtual. Parece bonito, legal, perfeito (afinal de contas, o mundo virtual é o mundo das edições, dos filtros, do Photoshop…).
Mas não é real.
Por outro lado, igreja são pessoas reais vivendo um relacionamento real num mundo real.
Igreja são pessoas – plural, coletivo, nunca individual.
Igreja são pessoas pecadoras, salvas pela Graça de um Salvador real.
Igreja são pessoas com suas feiuras, seus defeitos, suas falhas, suas idiossincrasias, mas também com seu calor humano, seu sorriso, seu abraço e sua presença (mesmo que silenciosa) nos dizendo que não estamos sós nesta jornada de fé.
Igreja são pessoas reais que comentem erros reais e precisam de perdão real.
É arriscado, é confuso, é complexo, é falho, é algumas vezes sujo, mas é real.
Tudo isso passa longe dos relacionamentos virtuais, à distância. Eles podem ser seguros, mas onde foi que pegamos a idéia de que o amor é seguro?
Amar é e sempre será tremendamente arriscado.
Igreja são pessoas que estão aprendendo a responder ao Amor que lhes foi revelado em Jesus e aprendendo a amar uns aos outros.
Negócio arriscado esse do mundo real, da igreja real…
