Arquivos para o mês de: March, 2009

A arte de desresolver, de voltar atrás

Aqui está uma coisa que você precisa aprender: a arte de desresolver. A arte de voltar atrás. Isto se aplica apenas aos casos em que a resolução tomada anteriormente não é a mais sábia nem a mais correta. Neste aspecto, a arte de desresolver não tem nada a ver com a falta de perseverança ou de firmeza. Não se trata de capitulação. Nem de retrocesso. Nem de fraqueza. Quando é para reparar o erro, a arte de desresolver é um ato de sabedoria e coragem.

Veja este exemplo extraordinário: ao saber que Maria estava grávida, sem que tivessem ambos coabitado, José resolveu deixá la secretamente. Porém, ao tomar conhecimento de que a concepção dela era sobrenatural, ele fez exatamente o contrário do que havia resolvido: a recebeu como esposa (Mt 1.18 25).

Há muitas resoluções intempestivas, baseadas em raciocínios falazes, frutos de uma cultura oposta ao caráter de Deus e geradas pela pecaminosidade latente do homem. Elas precisam ser revogadas. É exatamente aí que entra a bendita arte de desresolver. Há votos e promessas feitos impensadamente em momentos de desespero que não atingem o alvo e que não agradam a Deus. Eles devem ser anulados.

A arte de desresolver é um dos mais importantes elementos na conversão de um pecador e na evolução de sua santidade pessoal. A conversão nada mais é do que uma desresolução. O filho pródigo da famosa parábola de Jesus desresolveu continuar na lama do pecado e regressou ao lar paterno (Lc 15.11 32).

Inicie se na arte de desresolver. Lembre se de suas mais recentes ou de suas mais antigas resoluções e, se precisar, volte atrás. Talvez você tenha resolvido nunca mais pôr os pés na igreja, talvez você tenha resolvido abandonar o cônjuge, talvez você tenha resolvido vingar se de alguém, talvez você tenha resolvido entregar se às aventuras da carne, talvez você tenha resolvido brigar com Deus, talvez você tenha resolvido jogar fora toda a herança cristã imposta ou adquirida até agora. Use a arte de desresolver para proteger se do tédio, do vazio, da vaidade, da loucura, da dor, do remorso, do desespero, do suicídio, da morte e da morte eterna.

Fonte: Elben César na  Revista Ultimato

Samurai
Ontem terminamos a primeira parte da série de reflexões sobre disciplinas espirituais. Falar sobre disciplinas é relativamente fácil (apesar de que, no dias atuais, esse assunto me parece ser um cristianismo vintage). O desafio é vivê-las um dia após o outro. Para mim foi bom sentar e ouvir meus irmãos compartilhando a cada final de semana, aprendendo com eles, fazendo minhas anotações pessoais a cada mensagem, rendendo meu coração a Cristo e buscando a ajuda do Espírito Santo para viver o que foi transmitido. No final cada pessoa levou um origami samurai para não se esquecer do desafio de colocar em prática o que ouviu. A metáfora do samurai (literalmente aquele que serve) e todas as imagens da cultura ancestral japonesa usadas para transmitir os conceitos de disciplina espiritual parece ter combinado bastante com o fato de estarmos no bairro da Liberdade. No mês de maio tem mais (e aí a coisa ficará mais desconfortável ainda, nas disciplinas de abstinência…). Estreito é o caminho… Valeu Osmar pela arte que ilustrou essa série!

Você conhece alguém que já foi ferido em nome de Deus? Alguém que foi vítima de abuso espiritual? Nos últimos 11 anos eu conversei com muitas pessoas que passaram por situações assim. O fato é que com o crescimento acelerado das igrejas, há uma demanda por liderança fazendo com que pessoas sem preparo assumam funções pastorais e, como consequência, tenhamos cada vez mais pessoas feridas em nome de Deus. O livro da jornalista Marília de Camargo César (entrevista abaixo) que será lançado pela Mundo Cristão em maio promete colocar esse tema em perspectiva. Um outro livro que seria interessante de ser pesquisado/escrito é sobre a “manipulação” que muitos crentes tentam fazer com seus pastores, a falta de ética com que muitos também tratam àqueles que estão buscando servir-lhes com humildade e coração sincero, etc… Acredite em mim, esse tipo de coisa também existe…

Qual o tema central de Feridos em nome de Deus?

O livro narra histórias de cristãos que estão muito machucados emocionalmente e tiveram a sua fé abalada pelo convívio com líderes abusivos, que passaram dos limites em seu relacionamento com seus liderados. São histórias, acredito, com as quais muitos poderão identificar-se, porque o problema do abuso espiritual parece espalhar-se pela comunidade dita evangélica no Brasil.

Para quem ele foi escrito?

Eu escrevi o livro, em primeiro lugar, para mim mesma. Porque eu precisava de respostas. Eu não conseguia entender por que amigos que, antes eram tão próximos de seus pastores, de uma hora para outra passaram a detestá-los e a falar mal deles. Eu precisava entender o que tinha dado errado naquele convívio. Mas entendo que o livro também foi escrito para esses irmãos feridos, como uma espécie de registro de suas experiências, e para líderes religiosos, que podem se ver retratados nas histórias.

Por que escrever um livro que trata de um assunto tão delicado para a igreja evangélica atual? É uma espécie de autobiografia?

Não, não é uma autobiografia, embora eu conte alguns detalhes de minha experiência de fé. Creio que decidi escrever por ver o estado em que ficaram esses irmãos. O abuso pastoral levou muitos deles à lona, eles perderam o chão. Passaram a questionar a fé, a estrutura da igreja – o que não deixa de ser uma boa coisa – a veracidade da Bíblia e a autoridade pastoral de forma generalizada. A maioria só conseguiu recobrar o fôlego depois de receber a ajuda de terapeutas.

Como se deu o processo de pesquisa para o livro, você entrevistou outras ovelhas feridas?

Fiz muitas entrevistas pessoais com os feridos e também com pastores isentos, que analisam o fenômeno do abuso espiritual à luz de suas experiências pessoais e da Bíblia. Entrevistei também psicólogos, filósofos e sociólogos para dar maior profundidade à análise do problema.

Quais foram os seus sentimentos ao colocar no papel sua própria experiência e de tantas outras pessoas?

Houve dias em que fiquei muito triste ao relembrar como era o convívio fraterno em nossa antiga igreja e o pouco que tinha restado dele. Houve entrevistas em que eu chorei junto com os feridos e fiquei morrendo de raiva dos fatos que estavam vindo à tona. Eu não acreditava no absurdo daquelas histórias. Eu me senti incrivelmente indignada e não entendia como aquelas pessoas, todas adultas e instruídas, tinham concordado em sofrer tais humilhações, em nome de Deus, e ainda assim permanecer caladas.

A igreja brasileira tem crescido muito nos últimos anos. Você vê alguma correlação entre esse fato e o aumento nos casos de feridos? Qual o principal fator que leva as pessoas a se ferirem?

Sim. O crescimento numérico dos ditos evangélicos e de pastores sem uma boa formação bíblica, ética e cultural colabora muito com isso. Creio que o tipo de teologia que está se pregando atualmente, que se concentra nas páginas do Antigo Testamento e delas tira lições distorcidas ou meias-verdades, é um fator importante para a disseminação do abuso.

A seu ver, existe solução para o problema? O que a igreja evangélica brasileira deveria fazer para que os fiéis não mais fossem feridos?

Não tenho todas as respostas, penso que dificilmente alguém as terá. Eu apenas aprendi, depois de muito ouvir as pessoas, feridas ou não, que buscar maturidade espiritual e assumir responsabilidades pelas próprias decisões de fé ajuda muito a evitar o abuso. Parar de procurar a ajuda de gurus evangélicos também. Como diz o Eugene Peterson, as pessoas adoram ver o pastor brincar de Deus.

Marilia de Camargo Cesar é jornalista, com passagens pela TV Globo, principais jornais de economia do Brasil e Il Sole-24 Ore, maior jornal de economia e negócios da Itália. Atualmente colabora com o Valor Econômico. É casada, tem duas filhas e mora em São Paulo.
Fonte: Site da Editora Mundo Cristão