
Gosto de uma frase de Nietzsche no livro Além do Bem e do Mal:
“A coisa essencial ‘no céu e na terra’ é…
que haja uma longa obediência na mesma direção;
assim resulta, e sempre resultou no final,
algo que já fez a vida valer a pena.”
Esta frase inspirou o título do livro de Eugene Peterson sobre o discipulado cristão a partir dos Salmos de peregrinação, também chamados de cânticos dos degraus, que eram cantados durante a subida dos peregrinos para as festas na Cidade Santa. A idéia é que a jornada espiritual para ser como Jesus (ou deixar que Cristo seja formado em nós) não é apenas longa, mas uma longa obediência: algo que exige empenho, dedicação e perseverança.
Tenho ouvido o novo CD do U2 quase que diariamente nas últimas 5 semanas e acabei percebendo essa mesma idéia na letra do Bono para a música mais comercial do álbum (possivelmente a mais comercial da carreira do U2). A letra da música I Will Go Crazy If I Don’t Go Crazy Tonight diz o seguinte:
Oh, a change of heart comes slow
It’s not a hill, it’s a mountain
As you start out the climb
Do you believe me or are you doubting
We are gonna make it all the way to the light
(Oh, uma mudança de coração vem devagar
Não é uma colina, é uma montanha
Quando você começa a escalar
Você acredita em mim ou está duvidando?
Nós chegaremos até alcançar a luz)
Penso como é relativamente fácil iniciar algo, quer seja um novo relacionamento, um empreendimento, um programa de exercícios físicos, uma longa caminhada, etc. Geralmente há muita empolgação no começo, muitos sonhos, promessas e grandes expectativas. É uma verdadeira lua-de-mel, tudo é maravilhoso. Aqueles que iniciam estão cheios de energia e sentem-se como se os possíveis desafios à frente fossem apenas uma colina, relativamente fácil de ser conquistada. Mas a realidade é que, para aquelas coisas que fazem a vida valer a pena, o que temos que enfrentar pela frente é mais parecido com um K2, uma Trango Tower ou um Everest.
Por isso mesmo, o teste de todas as coisas é o tempo – e a perseverança com o passar do tempo. Em seu livro The Dip (publicado no Brasil sob o título de O Melhor do Mundo), o guru do marketing Seth Godin diz que o vão é a longa e cansativa caminhada entre o início e a maestria… a diferença entre o conhecimento básico dos “iniciantes” e a técnica apurada dos “especialistas”, seja em que área da vida for. Em outras palavras, é o resultado que se alcança quando se segue uma longa obediência numa mesma direção. É a maturidade que só se alcança tendo atravessado grandes dificuldades com espírito resoluto, por saber que está indo na direção certa.
Talvez seja isso que Jesus tenha falado quando comparou o custo do discipulado com a maneira que alguém deveria calcular o preço antes de se lançar num projeto de construção ou calcular suas forças antes de entrar numa guerra. Não será fácil, então é melhor pensar bem antes de iniciar, para não desistir quando a jornada ficar difícil, quando aparecer uma depressão (um vão – the dip) no meio do caminho e você sentir que, em vez de estar subindo, progredindo, alcançando o sucesso tão sonhado, está caindo em meio às dificuldades. Somente aqueles que atravessam o vão colhem os frutos da vida pela qual vale a pena viver.
É preciso não somente combater o bom combate e completar a carreira, mas fazer isso sem perder a fé, sem perder a paixão e o prazer que fez você iniciar o jornada em primeiro lugar.
Quando percebemos que estamos no rumo errado, o mais certo é desistir e voltar atrás. Mas quando no fundo de nosso coração sabemos que este é o rumo certo, então perseverar é preciso.
Você acredita em mim ou está duvidando?
Olá!
Pois é, muitas vezes a tendência é desistir do nossos “desertos” e cedermos às “tentações” para desviarmo-nos do caminho certo. Quão difícil é encarar nossos “desertos-escolas”, principalmente quando nosso suporte não está muito enfincado na Palavra e deixa de Jesus, que deveria ser O único.
“Quando percebemos que estamos no rumo errado, o mais certo é desistir e voltar atrás. Mas quando no fundo de nosso coração sabemos que este é o rumo certo, então perseverar é preciso.” Até quando ficaremos “convertendo-nos” quando a dificuldade em ser cristão frente ao paradigma que deturpa todos os valores e cria novos Baals a cada dia? Aceitaremos os Baals até quando?
E acredito sim!
PAX
Inspirado neste texto, ontem compartilhei aqui em nossa comunidade o salmo 84.
Onde esta idéia de peregrinação é muito forte, este longo caminho sendo visto como uma segurança e não algo pesado…
É isso!