2009
Repensando a Oração
“If there are millions down on their knees, among the many can You still hear me?”
(se há milhões ajoelhados, dentre tantos ainda podes me ouvir?)
- Michael W. Smith
Recentemente eu estava falando com alguém sobre um texto que ambos lemos. O autor do texto dizia que se você orar pedindo a Deus para abrir as portas de emprego para você ou alguém que você conheça, sua oração é ilícita. Lembro-me que minha primeira sensação ao ler o texto foi sentir-me imaturo, culpado, inexperiente… pagão. Naquele mesmo dia um amigo próximo que estava desempregado havia me pedido orações e eu tinha orado justamente por isso, inclusive usando as mesmas palavras da “oração ilícita” daquele texto. Então fiquei pensando sobre isso e cheguei à conclusão de que, por mais que a intenção do autor tenha sido boa ao denunciar as relações de barganha com Deus e os clichês vazios da religiosidade popular, seu texto está equivocado neste ponto específico da oração.
Se eu estivesse desempregado e meu melhor amigo pudesse me ajudar a encontrar um emprego, indicando uma vaga para mim na empresa onde ele trabalha, será que eu seria sincero em meu relacionamento se não falasse a ele sobre minha necessidade de emprego? Será que ele ficaria feliz em saber que eu estava passando necessidade e não tinha contado nada a ele? Seria esse um relacionamento próximo, de amigos de verdade? Ou será que minha hesitação em contar minhas necessidades para ele poderia ser vista como uma expressão de orgulho de minha parte?
Estas são algumas das perguntas que vieram à minha mente ao refletir sobre aquele texto da “oração ilícita” por emprego. O tipo de relacionamento com Deus proposto no texto torna-se completamente superficial (por mais que a intenção do autor tenha sido exatamente o contrário) ao não envolver todas as áreas da minha vida – inclusive minhas necessidades pessoais.
Não pretendo de maneira alguma fazer aqui um tratado sobre oração (há muitos bons textos por aí) e nem acusar o autor do texto de heresia (não se trata de uma heresia, apenas de um equivoco ou “escorregão”). Esta reflexão é uma resposta a mim mesmo e, talvez, àqueles que como eu possam ter se sentido culpados por orar por coisas tão insignificantes como… emprego.
Reconheço que oração é verdadeiramente um mistério. Afinal, por que orar se Deus já sabe tudo a nosso respeito? Para mim, a oração só faz sentido no contexto de relacionamento. Me parece que foi isso que Jesus quis ensinar aos seus discípulos quando disse-lhes que eles deveriam iniciar suas orações com a certeza de que estariam se dirigindo a alguém que é Abba (Papai). Ou seja, pressupõe-se um relacionamento entre aquele que ora e Deus (que além de ser Pai, é também Santo e Soberano Rei). Orar é se relacionar com Deus que habita nas alturas (Pai nosso que estás nos céus!), mas que também habita no coração do contrito e quebrantado. Orar é expressar fé não somente em que Deus existe (o Deísmo crê assim também), mas que Ele recompensa aqueles que o buscam (Ele se comunica, responde e intervêm).
Com certeza há milhões de desempregados ao redor do mundo. Mas este fato de maneira alguma torna minha oração por emprego ilícita. Ao contrário, quando oro por emprego estou reconhecendo minha dependência de Deus para que eu possa encontrar um emprego e sustentar minha família. E creio que Deus recompensa minha fé, embora nem sempre eu receba o emprego que estou desejando ou no momento em que espero recebê-lo.
É verdade que não devemos ser como crianças mimadas e buscar a Deus somente por nossas necessidades físicas e materiais, todavia não há nada de ilícito em orar por elas. A oração modelo do Pai Nosso nos ensina a buscar o Reino em primeiro lugar, mas demonstra que Deus também se interessa em ouvir-nos sobre a nossa necessidade de subsistência diária (dá-nos hoje o nosso pão de cada dia) e também sobre nossa necessidade de proteção (livra-nos do mal). Seguindo o raciocínio daqueles cuja fé é interpretada à luz das calamidades (e não o contrário como eu acredito que deveria ser), nem sequer deveríamos orar pelo pão de cada dia, visto que bilhões de pessoas ao redor do mundo passam fome. Será que Jesus estava equivocado quando ensinou seus discípulos a orar assim? Talvez ele não soubesse que um dia haveria bilhões de famintos… Mas ainda que isso fosse verdade (não creio que seja), haviam muitos contemporâneos de Jesus famintos. Por quê, então, orar por pão numa época em que muitos passam fome? Por que orar por emprego numa época de desemprego crescente? Por que orar por cura quando há tantos doentes morrendo? Por que, simplesmente, orar?
Creio que a resposta só pode ser encontrada por aqueles que entendem que oração é relacionamento com Deus. Um Deus que é Pai e que tem prazer em ouvir Seus filhos – muito embora Ele já saiba de todas as suas necessidades.
Você precisa de emprego, provisão, sabedoria, cura, etc.? O conselho das Escrituras é: Não fique ansioso; mas em tudo, pela oração e súplica [de olhos abertos ou fechados, em voz alta ou em silêncio], e com ação de graças, apresente seus pedidos a Deus. E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará o seu coração e a sua mente em Cristo Jesus.
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Comments (8 Responses)
Passo longe de dominar o assunto, mas gosto de pensar em oração como eu estando no lugar da pessoa e tendo uma atitude de valorizar as dificuldades. É eu dizendo para Deus: Me preocupo com isso, esta pessoa é importante, sua dor é minha dor…
No mais, creio que mistério é para ser reverenciado, não entendido. confesso que não entendo muita coisa…
Oração é falar para Deus o que ele já sabe, mas que não abre mão de ouvir. Como minha mãe por exemplo, não preciso dizer que a amo, ela sabe disso, mas não abro mão de o fazer…
Orar é se vulnerabilizar, dizer: Deus preciso de Ti…
como disse C.S.Lewis (eu sei, cito mto ele) sobre outro assunto, mas q pode generalizar pra muitos assuntos diferentes “um erro gera um erro oposto”, nesse aspecto parece bem isso, por um lado a corrente cristã que ensina a barganha, no outro os ateus funcionais (ideia de um autor q n lembro o nome), pessoas que nao colocam Deus acima de tudo em suas vidas (o q nao invalida quem Deus é, claro), entao a vida se torna dubia, nao ha uma vida inteira a ser contemplada, so a vida “espiritual”, mas se corpo e alma nao fossem tao espirituais como é o espirito Deus nos faria uns fantasminhas voando por ai.
Devemos nos apresentar na oracao como somos/estamos e nao como devemos ser/estar (isso tb é d C.S.Lewis) mas se agirmos como se soubessemos como resolver tudo, como se tivessemos controle sobre tudo (o q seria a maior mentira do planeta) seriamos no minimo uns idiotas!
Confianca em Deus é sobre tudo, sobre todas as areas da nossa vida, Ele é o SOBERANO SENHOR.
Sandro,
O assunto é de alta relevância. Acredito nessa visão da oração. Peço licença para transcrever uma passagem de Dallas Willard, A Conspiração Divina:
“Certa vez, depois de uma palestra, um casal muito simpático me deu uma carona até o aeroporto, situado a algumas horas dali. No trajeto, a conversa recaiu sobre as dificuldades que seu filho vinha enfrentando nos negócios. Perguntei se estavam orando pelo problema e qual era a sua vivência na oração. Ficaram espantados. “Devemos mesmo orar pelo negócio do nosso filho?”, perguntaram. Acho que teriam orado sem muita cerimônia pela saúde ou pela salvação do rapaz. Mas pelos negócios? Especialmente por negócios em que eles tinham interesse pessoal? Isso lhes parecia totalmente fora de questão.
Havia um forte elemento de verdade, e certa benevolência também, por trás daquele constrangimento. Orar jamais é apenas pedir, nem é meramente uma questão de pedir aquilo que quero. Deus não é nenhum mordomo cósmico, muito menos um quebra-galho, e o objetivo do universo não é satisfazer os meus desejos e necessidades. Por outro lado, devo orar por aquilo que me diz respeito. De fato, muitas pessoas acabaram considerando a oração impossível por pensar que só deveriam orar por necessidades maravilhosas mas remotas, nas quais na verdade tinham pouco ou nenhum interesse, e as quais muitas vezes nem conheciam.
A oração simplesmente morre quando oramos por “boas coisas” que, verdade seja dita, não nos interessam. A maneira de orar sinceramente por essas coisas é começar orando por aquilo em que de fato temos interesse. O círculo dos nossos interesses irá inevitavelmente crescer na vastidão do amor de Deus.
O que a oração-petição pressupõe é simplesmente uma relação pessoal – ou seja, sensivelmente interativa – entre nós e Deus, como no caso do pedido que os filhos fazem aos pais, ou os amigos uns aos outros. Subentende-se que os nossos interesses naturais serão naturalmente expressos, e que Deus dará ouvidos às orações que fizermos por nós mesmos e também pelos outros. Vale ressaltar que isso fica claro diante das orações que encontramos na Bíblia, especialmente no maior de todos os livros de orações, Salmos.
Portanto, creio que a definição mais apropriada de oração é simplesmente: “Conversar com Deus sobre o que estamos fazendo juntos”. Assim, concentramos imediatamente a atividade no ponto onde nos encontramos, mas ao mesmo tempo expulsamos daí o egoísmo. É natural que se façam petições no curso dessa conversa. Orar é explicitamente dividir com Deus os meus interesses a respeito daquilo em que ele também está interessado na minha vida. E logicamente ele se interessa pelos meus interesses e, em particular, quer que os meus interesses coincidam com os dele. Isso é caminhar juntos. É assim que eu oro.”
http://books.google.com.br/books?id=RyI9GFxpOjoC&printsec=frontcover&dq=conspira%C3%A7%C3%A3o+divina&ei=LXUPSr3sO6b0ygTiyaysCw#PPA268,M1
Mt legal o texto…
sem fazer acusacao alguma, esse tipo de pensamento sobre oração ilícita me lembra os tempos que eu era católico. Fui por 19 anos e sempre aprendi que Deus só se importa com coisas grandiosas e que não está nem aí para o nosso dia-a-dia. Hoje em dia eu sei que Deus é bom e quer boas coisas pra mim, mas as vezes os resquícios do catolicismo voltam e me fazem sentir culpado pelas boas coisas que Deus me deu
Deus abencoe Sandro!
Sandro, excelente texto. Às vezes, na tentativa de evitarmos um erro, incorremos em outro. Equilíbrio é uma das palavras-chave do vocabulário cristão, e o seu post apontou para isso.
Muito bom!
Abç
Daniel
grande sandro. sempre com ótimos textos e reflexões.
aqui no brasil, hoje em dia temos “medo” de pedir, talvez devido a grande quantidade de igrejas que ensinam basicamente que Deus é nosso subordinado e tudo que pedirmos Ele vai dar. eu não peço que Deus me dê milhões e milhões de reais, oq peço é q dê condições de sustentar minha familia, que no prazo certo ele dê condições de comprar um apto e de comprar um carro maior. mas, peço que seja de acordo com a vontade Dele, no prazo que Ele achar melhor.
Nao acho errado pedirmos coisas materiais, acho errado darmos enfase nisso, só pedirmos isso e esquecermos principalmente do relacionamento com Ele. no meu ponto de vista, orarmos para outra pessoa ganhar algo (emprego, carro, cura, etc) faz parte de um dos maiores ensinamentos de Jesus: amar o próximo.
Acho que temos a tendência de querer romper de vez com o que vemos de distorção no mundo evangélico. A gente vê as pessoas indo até Deus com motivações erradas, de querer e querer e querer, mas como vc disse, isso não quer dizer que pedir seja ilícito, se não for o centro do meu relacionamento com Deus, tá safo =]
Abraço Sandro! Em julho tamo aparecendo ae!
oi Sandro!
Excelente texto… A visão de oração como relacionamento é realmente muito acertada, inclusive vai ao encontro do pensamento paulino. Na dicotomia homem espiritual X homem carnal Paulo é bem claro quando pegamos os termos antigos: pneumatikos (para o homem espiritual) e sarkikos (para o homem carnal).
O primeiro incita-nos a pensarmos como dependentes de Deus, as nossas forças estão e provêem d´Ele, diferente do segundo, que podemos aproveitar como orgulhoso, ou seja, as forças estão em si, depende somente de si. Lembramos que Carnal para Paulo não era somatikos, que refere-se ao corporal, e sim, sarkikos! Nos relacionamos com Deus e, ao orarmos despindo-nos e revelando-nos a nós mesmos (pois Ele nos conhece) estamos admitindo a dependência que temos do Pai.
Somente um pensamento…
Abraços
Yuri
(estou esperando a sua resposta reverendo!)
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