Blog do revBaggio
Trilhando o estreito caminho entre o cinismo e a ingenuidade.

Espírito de Pastor

posted by Sandroin IgrejaComments (17)

Me enviaram por e-mail o texto abaixo, escrito pelo Caio Fábio. Trata-se de uma boa reflexão e exortação sobre o tema do ministério pastoral. No Projeto 242 temos seguido por esse caminho de desmistificação de cargos e funções desde o início. Às vezes, aparece entre nós pessoas possessas por esse “espírito pastoral”, mas logo percebem que vieram ao lugar errado e partem em busca de outros pastos menos avisados.

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“Pastoreai o Rebanho de Deus que há entre vós, não por constrangimento, mas espontaneamente, como Deus quer; nem por sórdida ganância, mas de boa vontade; nem como dominadores dos que vos foram confiados, antes, tornando-vos modelos do rebanho.”
Na Primeira Carta de S. Pedro 5:2-3

Um depoimento e um conselho

Há uma coisa que deveria ser pejorativamente chamada de “espírito de pastor”, e essa tal coisa é uma casta existencial difícil de deixar a gente.
O fato é que há muita gente “possessa desse espírito”, o qual tira da pessoa a possibilidade de ser ela mesma, fazendo dela um clone psicológico de um modo de sentir completamente artificial, e sem espontaneidade humana com os outros e com a própria pessoa.
Eu só tinha 18 anos e meio, e era apenas um menino amante de Jesus. Pregava em toda parte. Não queria ser pastor e nem ordenado. Desejava apenas pregar, e pregava. Aos 21 anos, me ordenaram, mesmo sem que eu tenha aceitado as imposições da denominação para ordenar ministros.
Então, logo começaram a me chamar de “Reverendo”. Aquele garoto livre, agora, de súbito, da noite para o dia, era o “Reverendo Caio”. Aí o tratamento passa a mudar: O melhor lugar na casa, na mesa, na sala, no salão, no aniversário, no funeral, nas festas de casamento, nas bodas, etc. As pessoas começam a ver o “sacerdote”, o homem diferente dos homens, o santo, o ungido do Senhor, o anjo da igreja…; e também se percebe que as pessoas mudam com você; mas raramente se percebe que depois de um tempo, muito suave e lentamente, você também aceita a mudança que fizeram acerca de você. Ora, é aí que nasce o “espírito de pastor”!
Então, começa a transformação do ser humano numa figura totêmica, um totem erguido para a manutenção de tudo: Ele é santo pelos outros; é puro pelos demais; é quem não se diverte pelos que se divertem; é quem não fica doente para poder curar; é quem “estuda Deus” e “entende de Deus”, a fim de poder explicar; e é quem é exemplo para se fazer clones comunitários. Se ele não casa os que se casam, eles se ressentem e magoam. Se ele está viajando quando alguém morre, ele abandonou o moribundo. Se ele está de férias, a igreja pode esvaziar. Ou seja: sem ele, nada do que foi feito de fez ou se faz! Vivendo sob tais responsabilidades e honras, o indivíduo vai virando pajé e não sente. Ou, em muitas ocasiões, passa a gostar mesmo de ser essa figura totemizada para a “igreja”.
Ora, é nesta necessidade que o povo tem de ter “sacerdotes” e “figuras cultuadas”, que tanto os bem intencionados se corrompem entregando-se ao “espírito de pastor”; como também os lobos se aproveitam e tiram as carnes do rebanho.
De fato, os ministérios pastoral, episcopal, apostólico ou de qualquer outra natureza já carregam em si próprios o germe do poder desse imantamento espiritual. As pessoas olham para qualquer desses “seres” — “ungidos” formalmente para tais posições —, como “ungidos do Senhor”; aqueles contra os quais não se pode ter uma opinião, pois, em assim sendo, Deus mesmo punirá os “rebeldes”, ou “hereges”, ou “desviados”. Imagine quanto poder isto significa! Ali está um homem que é visto como “o homem de Deus” no meio dos demais homens “normais”, e, de tal projeção, pode nascer apenas o “pastor clerical”, como também pode vingar qualquer maluquice!
Eu tenho por certo que todos os modos de clericalismo são malignos em relação à saúde do indivíduo que carrega o peso cultural dessa “posição”.
E a comunidade também fica adoecida! Sim, porque enquanto ela vê o líder com tais olhos, ela não cresce; ao contrário, se infantiliza; e jamais aprende a andar com as próprias pernas.
Ora, o verdadeiro pastor cuida, não domina; ajuda, não controla; alimenta, não explora; só se faz notado em caso absolutamente necessário; e deixa a porta aberta, de tal modo que todos entram e saem e acham pastagem.
A analogia do Bom Pastor em João 10, todavia, é perfeita no seu todo apenas em relação a Jesus, e a mais ninguém. Isto porque em relação a Jesus todos nós somos apenas ovelhas do rebanho.
Porém, em relação a nenhum “outro pastor”, nós devemos ser “ovelhas do rebanho”; posto que ser ovelha de Jesus já nos põe na condição de só ouvir a voz de um homem se ela for de acordo com a Voz do Único Pastor; do contrário, a ordem de Jesus é para não “seguir a voz do estranho”, pois somos o Rebanho de Deus.
Portanto, o verdadeiro pastor de homens é apenas mais um do rebanho único, sendo somente uma ovelha que já se deixou ensinar um pouco mais pela voz do Único Pastor. É na Sua fidelidade e reconhecimento à Voz do Pastor que ele se qualifica para ser pastor entre ovelhas, pois, conforme Pedro, ele se torna “modelo do rebanho”.
Assim, é o caminho da ovelha seguindo o Pastor, o que a torna uma ovelha-pastor; visto que seu passo e obediência estabelecem referência para as demais.
O problema é que alguns “pastores” e clérigos pensam que são os “Jesuses” da comunidade; e, diferentemente de Jesus, transformam-se nos lobos que não amam as ovelhas, mas apenas os privilégios e poderes que delas “arrancam”.
E como agravante, a “igreja”, por ser pagã ainda em sua essência, precisa desses “pastores tiranos”, pois, como associam a “figura clerical” ao “representante de Deus”, sentem-se objeticamente mais seguras se têm um déspota dizendo o que fazer, o que não fazer, com quem casar ou não, e quem é quem.
“Não é assim entre vós!”— disse Jesus!
Foi por esta razão que Jesus tirou as roupas de cima e se cingiu de uma toalha e passou a lavar os pés dos discípulos. Sim, porque liderar é, sobretudo, poder lavar pés e servir em nudez.
Na realidade, além de tudo o que o gesto de Jesus ensina, nele também vemos o modelo existencial do significado da liderança: O líder serve em revelação de sua humanidade. E os liderados são servidos aceitando a humanidade de quem lidera servindo de modo humano. E Jesus disse a Pedro que ou seria assim, ou Pedro não teria parte com Ele!
Somente quando os líderes tiverem a coragem de fazer como Paulo e Barnabé, que rasgaram as roupas e expuseram sua nudez quando foram chamados de “deuses”, é que aqueles que crerem no que as lideranças disserem, não ficarão ainda mais adoecidos de idolatria.
Hoje se dá o contrário da experiência dos apóstolos: a maioria dos líderes faz todo o possível para passar por deuses; e, o povo, vai se ameninando na fé, apenas trocando de “pai-de-santo”, ou de pajé ou de sacerdote; porém existindo sob a escravidão da espiritualidade da idolatria; adorando e servindo a criatura, mesmo que se vistam de pastores, bispos ou apóstolos.
No Caminho nós temos buscado diante de Deus e conforme o Evangelho, quebrar todos esses paradigmas totêmicos. Sugiro que todos, em todo lugar, e com todo bom coração, assim o façam também, em nome de Jesus, o Bom Pastor!

por Caio Fábio

Comments (17 Responses)

Ariovaldo Jr, says:
May 27th, 2009 at 12:41 pm

Realmente todos nós sofremos esta influência do pós-ordenação. Ao menos a consciência da necessidade de mudança permanece viva em muitos, graças a Deus!

Lutar contra um problema nos outros é fácil. Difícil é lutar contra si mesmo.

May 27th, 2009 at 1:09 pm

[...] o original aqui. [...]

Sandro, says:
May 27th, 2009 at 1:15 pm

Ariovaldo Jr., obrigado pelo comentário! Como o Caio disse e eu tenho experimentado (também fui ordenado aos 21 anos por minha denominação), esse espírito é algo que é lançado sobre a gente continuamente por pessoas a quem servimos, a maioria delas (eu diria), bem intencionadas. Cabe a cada um nós exorcizar tal espírito (como fizeram Paulo e Barnabé), em vez de deixar que ele tome conta de nosso ser. A má notícia é que esta é uma luta que irá nos acompanhar pro resto da vida (enquanto estivermos dispostos a servir à vocação e, portanto, estivermos rodeados de pessoas). A boa notícia é que, como você notou, quanto mais conscientes estivermos dessa luta e mais dispostos estivermos de não aceitar a imposição desse espírito sobre nossas vidas, mais prontos estaremos para vencê-la. Um abraço.

Paula, says:
May 27th, 2009 at 4:38 pm

Fico feliz de saber q muitos pastores (inclusive o meu) tem tido a ousadia da autoavaliação, coisa extremamente difícil p/ nós seres humanos.
Já convivi de perto c/ o “espírito de pastor” em outra época e sei bem o quanto ele é pesado de carregar… só tenho uma restrição quanto ao se “exorcizar” dele, é correr o risco de “exorcizar” junto o papel do verdadeiro pastor (risco eminente dos emergentes, na minha humilde opinião):
“Ora, o verdadeiro pastor CUIDA, não domina; AJUDA, não controla; ALIMENTA, não explora; só se faz notado em caso absolutamente necessário; e DEIXA A PORTA ABERTA, de tal modo que todos entram e saem e acham pastagem”
Hoje em dia, até mesmo nós ovelhas andamos esquecendo de nossos companheiros de pasto…
Nada como o equilíbrio.
Abraços!

cristian, says:
May 28th, 2009 at 12:21 am

muitoooooo bom o texto!!!!!!!!

fabioq, says:
May 28th, 2009 at 3:27 pm

Eu penso q os lideres deveriam fazer terapia ou ter um bom senso de quem sao e pq agem de certas maneiras, mta coisa seria evitada se isso fosse feito.

existem algumas pessoas por exemplo que por sua carencia necessitam se impor, outros tem uma vida mediocre fora das portas da igreja, um emprego no qual nao se destacam e qdo tem oportunidade de estar a frente de algo é o momento em que se perdem pq sao “alguem”, ai comeca td tipo de abuso, nao querem perder o gostinho da “coisa”, de ser “o cara” (ou “a mina”)

infelizmente mta gente se perde no caminho entre o servico e o status…

que Deus guarde o coracao de tds aqueles que buscam servir a Igreja dEle!

Kim, says:
May 28th, 2009 at 9:33 pm

Que Deus nos guarde a todos. Esse mesmo espírito de pastor tem outros nomes pelos quais atingem a muitos outros além de pastores.

silmar, says:
May 29th, 2009 at 10:37 am

É verdade Kim, que Deus nos guarde mesmo. Gostei do texto, ele mostra o perigo da obsessão por titulos e infelizmente rola muito dentro das igrejas, dai quando o cara nao consegue o posto desejado dentro de uma casa ele pula pra outra ate conseguir a sua grande obsessão de ter um titulo e dizer “Eu sou…, Eu tenho…”.

X-tevão, says:
May 31st, 2009 at 11:29 pm

Entendo que haja uma mitificação do “pastor” nos dias de hoje. Estar em pé em um altar deveria ser como Cristo, que mesmo pregado em uma cruz viu que aqueles que o feriu necessitavam serem perdoados. Infelizmente muitos usam o altar como júri, se tornam juízes com um martelo prestes a dar uma condenação ao primeiro que o criticar.
Jesus do alto da cruz viu homens que precisavam ser curados e perdoados.
Na posição mais elevada do altar o que temos visto hoje
quando olhamos os que estão ao nosso redor?
Acho que é preciso uma condescendência verdadeira e não fingida, não preciso ser respeitado por um título, nem ao menos preciso ter um.
Preciso apenas ser amigo amar e não condenar os outros os outros ainda que tenham convicções contrárias as minhas.
“O mito nunca terá um relacionamento verdadeiro”.

Carlos Neca, says:
June 1st, 2009 at 8:51 am

Quando penso nesse lance de titulo, gosto de me lembrar como a bíblia relata a morte de Moisés:
Deuteronômio 34:5
*Assim,morreu ali Moisés, servo do Senhor…*

Servo…um tapa na cara dos *neo-apóstolos*

June 1st, 2009 at 11:08 am

[...] idéias e sentimentos em meus textos. O tal “Espírito de Pastor”, bem citado no blog do Sandro Baggio, pressiona todos aqueles que estão diretamente envolvidos em funções pastorais a renunciar o uso [...]

Marcelo, says:
June 2nd, 2009 at 12:00 pm

Muito bom esse texto. Acredito que nossos pastores precisam, e muito, desse espírito de auto-crítica.

Além disso, eu poderia dizer que o “espírito de pastor” possui outros sintomas:

_”Espírito de Hittler”: é um sub-espírito, que faz com que os pastores queiram sempre arrebanhar o rebanho, isto é, mobilizar a igreja para que ela faça isso ou aquilo… Em seu limite, vira manipulação. Usam-se novas técnicas e métodos que permitem que o pastor tenha maior “controle” sobre a igreja… Isso é deprimente…

_O amor à pregação: pastor gosta de pregar. Cuidado, precisamos de pastores, não de pregadores tagarelas. É muito fácil subir no púlpito e falar, falar, falar… Difícil é pregar com a vida, é exortar o rebanho individualmente, verdadeiramente cuidar das ovelhas…

_O amor à igreja: pastor gosta demais da igreja, e acha que todo mundo deve gostar também. Programações todos os dias da semana, às vezes o dia todo. Querem que o rebanho viva na igreja, de preferência todo dia… Às vezes esquecem que suas ovelhas têm uma necessidade básica: descanço. Enquanto isso, o ativismo reina…

_O amor à igreja 2: dedicam-se tanto à sua igreja, que fazem qualquer coisa para que ela cresca e dê certo. Esquecem-se que o dono da igreja é Jesus, que às vezes é melhor deixar a igreja para trás e deixar que outros colham o que eles plantaram… O sucesso não deve ser medido pela porcentagem de crescimento em número da igreja, nem pelo tempo permanecido no mesmo lugar.

Por enquanto, só lembro destes…
Que Deus abençõe nossos pastores…

June 3rd, 2009 at 10:27 am

O link abaixo possui um texto que complementa as ideias sobre essa triste realidade.

http://dlgrubba.blogspot.com/2009/01/7-caracteristicas-das-igrejas-que.html

Rod, says:
June 9th, 2009 at 9:35 pm

Muito bom o texto mesmo. E uma coisa que é citada e que a gente passa batido é que muitas vezes (quase sempre) é a própria igreja que acaba criando esse “espirito de pastor”. Que Deus nos dê sabedoria à ouvir somente a Sua voz através de Seus SERVOS.

ricco, says:
June 10th, 2009 at 12:05 am

Bom texto. Temos que lembrar que o Pastor (ou qualquer outra cargo de liderança na Igreja) começa seu pastorado em casa. Como podemos podemos pastorear o grande rebanho (fora de casa, na igreja) se não cuidamos bem do nosso pequeno rebanho (dentro do lar). Nenhum sucesso ministerial, ou intelectual, compensa o fracasso no lar.

July 1st, 2009 at 11:18 pm

[...] tudo o que esse rapaz põe a mão vira ouro! Mas o metal precioso pôs nele uma febre danosa, um espírito de pastor terrível. Alguns desavisados o convidaram para imprimir a sua marca nas suas modestas [...]

July 6th, 2009 at 10:20 am

A luta contra nosso ego é ferrenha e só cessará na glória; ele faz parte de nós. Aqueles que estão no ministério e conseguem fazer essa reflexão devem temer por si mesmos e pelos seus companheiros. O ser-humano sem ser paparicado já tem um ego que deve estar na cruz, com os paparicos então…

Ocorre que muitas vezes aqueles que foram chamados esquecem da natureza de seu chamado, um chamado ao serviço. Paulo fala em sua carta aos Efésios, no capítulo 4 que os dons são para o “correto ordenamento dos santos, para a obra do ministério, para edificação do corpo de Cristo”. Portanto os que receberam o chamado, ajudam a igreja para que cada parte do corpo exerça seu papel de edificação. Infelizmente muitos acham que apenas eles edificam e a consequência é um corpo com membros ressequidos, aleijados.

Cada parte do corpo de Cristo deve ser ativo na edificação, sendo auxiliado a descobrir seu dom e vocação único, essa é a função dos apóstolos, profetas, evangelistas, pastores e mestres.

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