O texto abaixo foi publicado no blog Out of Ur em fevereiro deste ano. Logo que o li, decidi fazer uma tradução livre do mesmo, mas acabei deixando-a esquecida na minha caixa de rascunhos. Creio que ele pode ser lido como um complemento para a reflexão anterior sobre o “espírito de pastor.”

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Pastores ou Personalidades?

Numa cultura obcecada com o ego, pastores trocaram a “morte do eu” pela auto-promoção

Penso que foi quando eu estava na faculdade que vi pela primeira vez o título de uma revista que resplandecentemente se chamava EGO, e era tão ousada que poderia ser chamada de EGO! Nutrido por uma teologia que extraia seus sucos da Bíblia e influenciado por gente como Agostinho, Lutero e Calvino, eu me distanciava de qualquer revista ou pessoa que se promovesse com a palavra “ego”. O ego, eu fui ensinado, tinha que morrer (Lucas 9:23) ou ser colocado à morte (Romanos 6). Na verdade, meus pastores frequentemente falavam da “mortificação” da carne (e do ego).

Minha criação, então, me colocou em alerta quando eu vi a revista chamada EGO e quando o sentimento fez seu ninho na famosa música de Whitney Houston “The Greatest Love of All“. Suas palavras nos dizem que “aprender a amar a si mesmo é o maior amor de todos.” Bem, sim, eu diria a mim mesmo, precisamos ter um amor próprio… mas como pode nosso “maior” amor ser dirigido a nós mesmos? A Geração “Me” criou o que Jean Twenge está agora chamando de Geração EU. Outros a chamam de iGen. Esse valor está em todos os lugares; é o ar que a GeraçãoEU respira; e tem feito investidas potentes na igreja.

Recentemente vi o site de uma igreja onde em vez de encontrar “Pastores” ou “Equipe de Trabalho” estava listado “Personalidades”. Um clique revelava as “personalidades” destas personalidades, ou pelo menos, as “personalidades” que essas pessoas queriam que outros vissem. Não me lembro de todos os detalhes, mas li coisas como o que eles comiam no café da manhã ou o que faziam quando não estavam em suas funções na igreja. E assim por diante, mas já tinha visto o suficiente, então cliquei sobre o X vermelho no canto da janela e fui sentar-me em uma poltrona e pensar um pouco.

Pensei sobre o modo como fui criado que me levou a ficar ofendido ou chocado por qualquer pastor que se deixasse ser apresentado desta maneira no site da igreja. Minha criação tinha me ensinado certas coisas sobre um pastor:

Primeiro, é um chamado sagrado ter sido arrancado do pecado para um lugar de não somente receber graça, mas também dispensá-la. A tarefa primária do pastor é “espalhar o Evangelho”. Como? Como um pastor de pessoas e como um pregador do Evangelho. Para ter certeza, o pastor aprende a espalhar o Evangelho a si mesmo também. O site poderia facilmente ter refletido isso. Mas não fez.

Segundo, ser um líder do povo de Deus neste mundo é um chamado nobre. As gerações anteriores criaram uma imagem de pastores focada na distância, separação, santidade e, algumas vezes ,extrapolaram a nobreza da imagem [pastoral]. Esta geração atual desfez a imagem e, no processo, se apaixonou com a “autenticidade” e o “eu sou igualzinho a você”. Eu duvido que o apóstolo Paulo tinha isso em mente quando ele enviou suas instruções aos presbíteros nas epístolas pastorais. Líderes lideram porque eles têm algo a dizer e mostrar aos outros.

Terceiro, requer-se um compromisso à reverência tanto diante de Deus como da tarefa pastoral. Talvez a maior necessidade da geração atual é a de modelos de santidade e reverência. Isto é, pastores que se calam diante do próprio Nome de Deus, que falam com reverência no sagrado da presença de Deus, e que falam de si mesmos e de sua tarefa com um senso de gratidão e espanto. Precisamos de mais gente como Eugene Peterson. Você pode pensar em outros [como ele].

Quarto, acima de tudo, pastores devem ser exemplos da mortificação do eu e da carne. Eles devem exibir auto-negação diária. O pastor se levanta diante de sua congregação como um todo: pastor, pai, marido, mentor, guia espiritual, irmão, amigo e companheiro cristão. Como um “companheiro” cristão o pastor deve ser um modelo para todos de uma vida de “morte do eu e morte da carne”. Muitos hoje em dia estão com medo de colocar os pastores em pedestais e elevá-los acima do sacerdócio de todos os crentes. Isso é compreensível, mas o extremo oposto não é nada melhor. Não podemos perder a expectativa de que o pastor deve ser realmente um bom exemplo do que significa viver corretamente diante de Deus.

Eu não me considero um antiquado; nem um fossilizado. Mas estou contente em dizer que pastores devem ser santos e reverentes e tão gratos pela graça de ser um pastor que eles nunca irão divulgar a si mesmos como a palavra “personalidade”, a qual não é nada mais do que a palavra “EU” vestida de um roupagem pós-moderna que eles aprenderam no divã de Freud. A melhor palavra para um pastor na internet ainda é “pastor”.

Por Scot McKnight, professor de Estudos Religiosos na North Park University.