Nos últimos 20 anos tenho percebido uma tendência no evangelicalismo brasileiro no sentido de minimizar (ou até mesmo eliminar por completo) a mensagem da Volta de Cristo e da esperança da Igreja no mundo porvir. Os carismáticos e neo-pentecostais, com sua ênfase na prosperidade, saúde e uma vida em que a fé garante imunidade contra qualquer tipo de sofrimento, promovem o céu na terra e, evidentemente, conduzem as pessoas a ficarem bem confortáveis com a vida aqui mesmo, sem a necessidade de se pensar no além. Por outro lado, me parece que cada vez mais evangélicos mais tradicionais também estão deixando de lado a crença no Advento da Segunda Vinda, desta vez com a mensagem da missão integral (e eu apoio totalmente a missão integral), como se a Igreja fosse responsável por produzir o céu na terra através da ação social – e fica só nisso, eliminamos a pobreza, estabelecemos a paz por meio do politicamente correto, preservamos o planeta e todos ficam felizes para sempre aqui mesmo na terra.
Creio que tanto a postura escapista apontada por Antonio Gouvêa em seu trabalho usado como título desta postagem e que discorre sobre a inserção do protestantismo no Brasil – postura na qual eu cresci nas décadas de 1970-80 – como a posição de descaso atual (Quando foi a última vez que você ouviu um sermão sobre a Segunda Vinda? Falar sobre a Segunda Vinda em alguns círculos é correr o risco de ser taxado de retrógrado.) são erros que a Igreja comprometida com a mensagem de Jesus deve evitar. Foi pensando nisso que li o texto de A. W. Tozer com o título de O Mundo Vindouro, do qual transcrevo abaixo alguns parágrafos. Tozer escreveu isso há mais de 50 anos, mas suas palavras soam como se tivessem sido escritas hoje.
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Tem-se citado como defeito do cristianismo, que ele se preocupa mais com o mundo vindouro do que com o mundo que agora existe, e algumas almas tímidas se agitam procurando defender a fé cristã contra essa acusação, como a galinha defende os seus pintinhos das garras do gavião.
Tanto o ataque como a defesa são desperdiçados. Ninguém que sabe o que o Novo Testamento tem em vista, se aborrecerá com a acusação de que o cristianismo pertence a outro mundo. É claro que é assim, e é precisamente nisto que reside o seu poder.
Na última metade de século, o cristianismo foi abalado pelas críticas de certos filósofos sociais. Estes cavalheiros presumiram a bondade básica do presente sistema mundial. Com uns poucos melhoramentos aqui e ali, uma sociedade próspera, saudável e pacífica poderia ser estabelecida aqui mesmo, nesta terra, e fazê-lo, dizem eles, é todo o dever do homem.
Estes homens foram suficientemente observadores para ver que sua concepção de um mundo permanentemente pacífico era contrária aos ensinos do Novo Testamento; assim, muito naturalmente, muitos líderes cristãos influentes não foram bastante astutos para notar a contradição entre os ipse dixit de Cristo e as doutrinas dos sonhadores sociais e, aflitos com as acusações lançadas contra eles pelos pensadores do mundo unificado, abandonaram a sua posição cristã e correram atrás dos filósofos sociais, gritando: “Eu também, eu também”, num frenético esforço para provar que o mundo tinha entendido mal o cristianismo do princípio ao fim. É claro que, ao fazer isso, eles renunciaram a tudo que é único na fé cristã e adotaram um cristianismo enfraquecido, que é pouco mais do que um fantasma da fé uma vez por todas entregue aos santos.
Que ninguém peça desculpas pela vigorosa ênfase que o cristinismo dá à doutrina do mundo vindouro. É justamente aí que está a sua imensa superioridade às demais coisas dentro de toda a esfera do pensamento e da experiência dos homens. Quando Cristo ressurgiu da morte e ascendeu ao céu, estabeleceu para sempre três fatos, a saber, que este mundo está condenado à dissolução final, que o espírito humano subsiste além do túmulo e que existe realmente um mundo por vir.
A igreja está sendo constantemente tentada a aceitar este mundo como o seu lar, e às vezes ela dá ouvidos às adulações daqueles que desejam seduzi-la para os seus próprios fins. Mas, se for sábia, considerará que se acha no vale, entre as altaneiras montanhas da eternidade passada e eternidade futura. O passado se foi para sempre, e o presente vai passando veloz como a sombra no relógio de sol de Acaz. Mesmo que a terra continuasse a existir por um milhão de anos, nenhum de nós poderia estar aqui para desfrutá-la. Faremos bem em pensar no prolongado amanhã.
Todos nos dirigimos rumo ao mundo vindouro. Como é indescritivelmente maravilhoso saber que nós cristãos temos um de nossa espécie que foi na frente preparar um lugar para nós! Esse lugar será num mundo ordenado divinamente, acima e além da morte e da separação, onde não há nada que possa causar dano ou medo.
(do livro De Deus e o Homem por A. W. Tozer, Editora Mundo Cristão, 1981, páginas 106-108)
Toda falta de equilíbrio se torna um pecado mortal.
Identifiquei-me com o texto da Carta de Dioneto, escrita aproximadamente no ano 120 e que fala sobre como é a vida de um cristão:
“Excelentíssimo Diogneto, vejo que te interessas em aprender a religião dos cristãos e que, muito sábia e cuidadosamente, te informaste sobre eles:
Qual é esse Deus no qual confiam e como o veneram, para que todos eles desdenhem o mundo, desprezem a morte, e não considerem os deuses que os gregos reconhecem, nem observem a crença dos judeus; que tipo de amor é esse que eles têm uns para com os outros; e, finalmente, por que essa nova estirpe ou gênero de vida apareceu agora e não antes.
Aprovo esse teu desejo e peço a Deus, o qual preside tanto o nosso falar como o nosso ouvir, que me conceda dizer de tal modo que, ao escutar, te tornes melhor; e assim, ao escutares, não se arrependa aquele que falou.
Os cristãos não se distinguem dos demais homens, nem pela terra, nem pela língua, nem pelos
costumes. Nem, em parte alguma, habitam cidades peculiares, nem usam alguma língua distinta, nem vivem uma vida de natureza singular.
Nem uma doutrina desta natureza deve a sua descoberta à invenção ou conjectura de homens de espírito irrequieto, nem defendem, como alguns, uma doutrina humana.
Habitando cidades Gregas e Bárbaras, conforme coube em sorte a cada um, e seguindo os usos e costumes das regiões, no vestuário, no regime alimentar e no resto da vida, revelam
unanimemente uma maravilhosa e paradoxal constituição no seu regime de vida político-social.
Habitam pátrias próprias, mas como peregrinos: participam de tudo, como cidadãos, e tudo sofrem como estrangeiros. Toda a terra estrangeira é para eles uma pátria e toda a pátria uma terra estrangeira.
Casam como todos e geram filhos, mas não abandonam à violência os recém-nascidos. Servem-se da mesma mesa, mas não do mesmo leito. Encontram-se na carne, mas não vivem segundo a
carne. Moram na terra e são regidos pelo céu.
Obedecem às leis estabelecidas e superam as leis com as próprias vidas. Amam todos e por todos são perseguidos. Não são reconhecidos, mas são condenados à morte; são condenados à
morte e ganham a vida.
São pobres, mas enriquecem muita gente; de tudo carecem, mas em tudo abundam. São desonrados, e nas desonras são glorificados; injuriados, são também justificados. Insultados, bendizem; ultrajados, prestam as devidas honras.
Fazendo o bem, são punidos como maus; fustigados, alegram-se, como se recebessem a vida. São hostilizados pelos Judeus como estrangeiros; são perseguidos pelos Gregos, e os que os odeiam não sabem dizer a causa do ódio.
Numa palavra, o que a alma é no corpo, isso são os cristãos no mundo. A alma está em todos os membros do corpo e os cristãos em todas as cidades do mundo. A alma habita no corpo, não é,
contudo, do corpo; também os cristãos, se habitam no mundo, não são do mundo.
A alma invisível vela no corpo visível; Também os cristãos sabe-se que estão neste mundo,
mas a sua religião permanece invisível. A carne odeia a alma, e, apesar de não a ter ofendido em nada, faz-lhe guerra, só porque se lhe opõe a que se entregue aos prazeres; da mesma forma, o mundo odeia os cristãos que não lhe fazem nenhum mal, porque se opõem aos seus prazeres.
A alma ama a carne, que a odeia, e os seus membros; Também os cristãos amam os que os odeiam. A alma está encerrada no corpo, é todavia ela que sustém o corpo; Também os cristãos se encontram retidos no mundo como em cárcere, mas são eles que sustêm o mundo. A alma imortal habita numa tenda mortal;
Também os cristãos habitam em tendas mortais, esperando a incorrupção nos céus. Provada pela fome e pela sede, a alma vai-se melhorando; também os cristãos, fustigados dia-a-dia, mais se vão multiplicando. Deus pô-los numa tal situação, que lhes não é permitido evadir-se.”
[...] o original aqui. [...]
Estava no Bill um dia desses e estavamos falando sobre isso. Nos dias atuais o lance é apenas pensar em estabelecer o reino aqui e agora, o pessoal ta perdendo o foco, caindo no mesmo esquema dos dias de Jesus, quando pensavam que ele iria estabelecer o reino na terra, e libertar a galera do imperio romano…
A galera vai tomar um banho de agua a fria qdo o Jesus Cristo voltar.
Sandro o primeiro aspecto esta bem claro, agora o segundo sobre missão integral, confesso que não tinha pensado nisso, como sempre uma reflexão muito coerente e diria *profética*, pois me parece que esta armadilha é bem sutil, escrevo este post me questionando será que cai nela?
Muto obrigado pelo alerta, é hora de (re) ver algumas coisas por aqui, já tenho mensagem para domingo, como o ouvido mais próximo será o meu…
1Co15:19
*Se a nossa esperança em Cristo se limita apenas a esta vida, somos os mais infelizes de todos os homens*
Ariovaldo, valeu pelo post dos trechos da Carta a Diagneto. Demonstram bem a conduta equilibrada dos cristãos no primeiro século. Os versos 3-6 do capítulo sete desta carta tratam sobre como Deus enviou seu Filho:
“Enviou-o como Deus. Salvador, persuasivo e não violento, enviou-o aos homens. Em Deus não existe violência. Enviou como quem convida, não como perseguidor; enviou como quem ama, não como juiz. Há de mandá-lo, porém, um dia para julgar. E então quem suportará a sua vinda?”
Note a crença e esperança na Segunda Vinda expressa aí.
Silmar, o Bill tem razão em expressar essa preocupação. Infelizmente a falta de equilibrio típica de posições teológicas (e ideológicas) reacionárias acaba conduzindo ao erro. A história se repete tanto que é incrível que os pensadores desta época não consigam enxergar esse equívoco.
Carlão, eu penso com frequência neste verso da carta de Paulo aos Coríntios ao ler e escutar algumas posturas na Igreja hoje.
“nao ha nada novo debaixo dos ceus” me vem a mente, hj essa filosofia q o Tozer se refere é bem difundida atraves do Zeitgeist Addendum segundo episodio que é mais “criveu” q o primeiro, e portanto mais perigoso pois entre a aparente verdade e a verdade a linha é bem tenue.
a reflexao do texto foi mto boa (acredito) na epoca, e nao envelheceu com os 50anos, continua sendo uma reflexao mto boa!
Fabio Q, esta é a maravilha de ler *coisas velhas, dos mestres,* parece que foram escritas naquela semana.