Blog do revBaggio
Trilhando o estreito caminho entre o cinismo e a ingenuidade.

Igrejas Evangelásticas

posted by Sandroin IgrejaComments (13)

O Thiago Bomfim escreveu uma postagem essa semana chamada Photoshop na Celulite da Igreja, comentando sobre algo que eu tenho pensado com uma certa frequência nos últimos meses: a tentativa de fazer uma plástica na imagem da igreja para deixá-la bonitinha e atrativa. Na verdade, meus pensamentos têm sido mais específicos, direcionados para a criação dessa imagem na divulgação de igrejas e ministérios por meio da internet. Antes que qualquer pessoa pense que eu seja contra o uso da internet para divulgação da igreja/ministério, deixe-me afirmar que não sou. Muito pelo contrário, na Era Google, não há como fugir da presença na internet. Todavia, o que me preocupa (e um dos motivos que fez com que tirássemos nosso site do ar há meses para uma reformulação total) é como nós utilizamos desta ferramenta poderosa de comunicação.

No meio missionário, há anos que ouço o termo “números evangelásticos” para se referir aos exageros cometidos ao relatar o resultado de uma campanha evangelística. Tinha 100 pessoas, mas o relatório diz que tinha 250… 500 ou 1000! Convivendo com pastores, cansei de ouvir relatórios mentirosos de suas igrejas, exagerando o número de membros, freqüência de cultos, batismos, etc. Acabei de acessar o site de uma igreja, e um vídeo anunciando um evento tinha um narrador com uma voz “poderosa”, cheia de eco e efeitos, como se o recado viesse do além. Até mesmo um artigo sobre o relatório de estatísticas de acesso na internet denunciava como alguns marqueteiros mentem sobre o números de acesso/visitantes, divulgando, na verdade, o número de hits em seus sites (geralmente 10 vezes maior do que o número real de visitantes).

Recentemente estava ouvindo uma entrevista com Eugene Peterson e percebi que esse parece ser um fenômeno global. Ele falava sobre seu primeiro pastorado e sobre como os pastores mentiam em seus relatórios nas convenções. Há trinta anos George Verwer falava sobre a mentira do exagero, essa tendência de aumentar os números/estatísticas (ou simplesmente dizer que fez jejum, leu a Bíblia e orou, quando não fez nada disso), como um sinal de pseudodiscipulado. O que me parece é que a pressão para ser bem sucedido, relevante e atrativo pode se tornar uma armadilha, levando a tais exageros e mentiras. Ou fazer o que Bomfim apontou em sua postagem: usar um Photoshop para dar uma imagem cool na igreja/ministério, eliminando suas celulites.

Lendo Seth Godin (Tribes e The Dip), me deparei com o título de outro livro seu que foi um sinal de alerta para mim: All Marketers Are Liars (todos os marqueteiros são mentirosos). Não li esse livro e não sei o que Godin diz exatamente sobre os marqueteiros serem (ou não) mentirosos, mas de qualquer maneira fiquei pensando se, na ânsia de embelezar a igreja, transmitir algo e atrair pessoas para “nossa” causa, não escorregamos em alguma mentira (ou “mentirinha”) e acabamos criando igrejas e ministérios “evangelásticos”.

Em So Beautiful, Leonard Sweet fala sobre Cristianismo APC, referindo-se a um medicamento muito usado pelos militares nos EUA na década de 1950 que prometia o alívio para tudo. Tinha um problema porém, o APC causava dependência. E o pior, mais tarde descobriu-se que o uso prolongado desse medicamento levava à morte. Ou seja, o APC de fato funcionava, mas era uma armadilha mortal a longo prazo.

Creio que o marketing mal utilizado (mentiroso) pode ser um reflexo desse Cristianismo APC. Mente-se para atrair, crescer, ser bem sucedido. Mente-se porque se propaga algo que não é verdadeiro, algo ilusório, superficial. A imagem é bonita, mas não há substância por trás da mesma. Atrai pessoas, vira notícia, causa toda a impressão de ser um sucesso. E como o sucesso vicia, então é preciso continuar mentindo para mantê-lo a qualquer custo. Com o passar do tempo, os resultados geralmente são catastróficos.

Nas palavras de Leonard Sweet: “Algumas coisas podem fazer sua igreja crescer rápido e grandemente em meses e anos, entretanto, com o passar de décadas podem ter efeitos debilitantes no corpo de Cristo, e até mesmo matar você se não matar seu espírito.”

Que Deus nos ajude a nos livrar de toda e qualquer mentira sobre nós mesmos e nossas igrejas, a buscar a honestidade e realidade no modo como nos apresentamos aos outros (seja na internet ou de qualquer outro modo) e, acima de tudo, encontrar a liberdade para ser quem Deus nos chamou para ser, livres da necessidade de ficar nos comparando com esse ou aquele ministério ou igreja.

Comments (13 Responses)

Teo Victor, says:
July 14th, 2009 at 3:48 pm

Isso muitas vezes surge da pressão superior. Há grupos onde o pastor é substituído ou transferido caso a igreja local não dê “retorno”, em um modelo de negócio semelhante ao dos gerentes de vendas de lojas de móveis.

Participei de um evento gospel onde o apresentador colocava mil pessoas no local cada vez que pegava no microfone. Terminamos o evento com 15 mil pessoas, nas contas do rapaz, o que seria 50% da população da cidade então.

A maquiagem da igreja é sempre borrada, como a do Coringa de Ledger, feita por ela mesma e com pressa. Sempre cai no ridículo.

E parabéns pela significativa postagem número 242. =)

fabioq, says:
July 14th, 2009 at 5:08 pm

a um ano mais ou menos eu quero fazer um blog, mas a falta de tempo nao ajuda, o curioso é q um de meus posts pre-escritos tem a ver com esse post, marketing e mentira…

uma imagem q me vem sempre a mente é o comercial da Sprite “imagem nao é nada sede é tudo”, que resume bem esse jeito que os cristaos tem feito para promover o “evangelho” ( ou seria o EU-vangelho?)

o diabo é o pai da mentira e ainda assim cristaos tem usado (e temo cada dia mais) a mentira em nome de Deus ( ou seria em nome deEUS?)

para muitos isso nem é errado, numa atitude amoral acham que isso é bom!

eu espero que quem nao caiu nessa armadilha mantenha vigilancia e quem caiu revise e mude de atitude com a graça do Senhor.

Carlos Neca, says:
July 14th, 2009 at 7:27 pm

Eu tanbém como muitos já vi vários números superfaturados, existe uma pressão muito grande por números no *mercado da fé*.
Quem conhece uma pouquinho de filosofia conhece um termo chamado silogismo, aliás muito usado em marketing e direito
Ex: O cara estupra uma menina, o *bom advogado* prova que o culpado é o homem, pois a menina estava com roupa sex, num horário e local inadequado, o cara é homem, dai é atraido pelo olhar, é fisiológico, blá, blá…
O filme O mentiroso, com Jim carey mostra bem isso.
Claro que é um exemplo forçado, mas apenas para salientar…
Outra coisa, esse negócio de igreja com propósitos, contribuiu muito tb para essa loucura por números. Sim, eu sei tem muita coisa legal, mas colocar a igreja dentro de padrões de mercado apenas é fria.
Temos um simulacro, parece mas não é.
Que Deus nos livre desse mal…

Carlos Neca, says:
July 14th, 2009 at 7:28 pm

A galera que é bacharel em direito vai querer me enforcar,rs…

Sandro, says:
July 14th, 2009 at 8:22 pm

Carlão, somente uma observação, no comentário acima acho que você quis dizer “o *bom advogado* prova que o inocente é o homem…” Estou certo? Abs

Kim, says:
July 14th, 2009 at 8:31 pm

Eu trabalho com propaganda, e não acredito nela, pelo menos na maneira como é usada na maioria das vezes. No entanto, acredito que ela pode ser usada de uma boa maneira, quando divulga a verdade, ou um trabalho que merece ser divulgado. É necessário encontrar equilíbrio em tudo.

Carlos Neca, says:
July 14th, 2009 at 8:42 pm

Valeu pela correção sandro, foi isso mesmo.

Rebeca, says:
July 14th, 2009 at 11:25 pm

Olá, Sandro.

Acabei de ler a postagem sobre o assunto lá na Livraria do Thiago, da qual também sou leitora (tudo bem que já nem tão assídua)

Mas enfim, há algo lá muito verdadeiro e que me chamou a atenção:
‘Nossa fé tem que ser introspectiva, para nos fazer pensar, para nos por em crises. A verdade que carregamos contraria vários interesses do estilo de vida que levamos, por isso ela não é legal, ela não é divertida(…)’

é triste ver que a tão preciosa fé, que nos confronta, que nos faz tomar posições, que nos liga ao Pai, e que é tão séria, solene e muitas vezes não atraente, é rebaixada, pintada de ouro e oferecida como a resolução de todos os problemas da vida moderna.

Walter Cruz, says:
July 14th, 2009 at 11:39 pm

Embora não tenha diretamente a ver com o tema, sugiro a leitura de um texto do Caio Fábio em http://www.caiofabio.com/2009/conteudo.asp?codigo=04362

“Foram sumindo os evangelistas e surgindo os evangelasticos. Esses eram os falsificadores de números… E mais: eram os que saiam dizendo: “Ontem o Senhor me usou para salvar 150 de uma paulada só… Aleluia!”

Ora, tanto não se sabia quem havia sido salvo [nunca se sabe], como também não havia no lugar nem 150 pessoas ouvindo, quanto mais sendo salvas… Era o inicio do ministério do evangelastico.”

Sandro, says:
July 14th, 2009 at 11:56 pm

Legal Walter! Não conhecia este texto do Caio, mas tem tudo a ver com o tema da ênfase nos números, no causar impressão nas pessoas…

Carlos neca, says:
July 15th, 2009 at 6:53 am

Sandro acabei de ver, achei espetacular…

*Certa vez a verdade e a mentira foram passear juntas. Passaram perto de um belo lago, e o dia estava quente.

A mentira falou à verdade: “Venha, vamos nadar juntas, está um dia tão bonito”.

A verdade respondeu: “Sim, vamos nadar”.

Ambas se despiram e a verdade pulou na água antes da mentira; a mentira ficou fora da água, pegou as roupas da verdade e sumiu.

Desde então, a mentira anda por aí com as roupas da verdade, mas a verdade é considerada mentira.*

Autor desconhecido

Fonte: pavablog

July 15th, 2009 at 7:04 am

[...] o original aqui. [...]

July 15th, 2009 at 11:53 am

Muito bom o texto.

Pensando nisso, o pior de tudo, é quando as igrejas se utilizando desse marketing enganoso, com números elásticos, campanhas e milagres etc… de tal maneira persuasiva que os membros passam a acreditar neles. E não faltam: o “animador de auditório”, o “Chorão do rádio”, o “Datena evangélico”, o “Silvio dos Santos” e por ai vai…
O tempo passa e as evidências são grandes que essas coisas não são de todo a realidade, mas mesmo assim, os membros preferem se deixar enganar ano após ano.

Abç

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