Blog do revBaggio
Trilhando o estreito caminho entre o cinismo e a ingenuidade.

Igreja: SER e IR

posted by Sandroin Igreja, discipuladoComments (23)

Nos últimos 2 anos tem crescido o número de postagens em blogs sobre a validade de se reunir como igreja (com “i” minúsculo mesmo para indicar a congregação de discípulos reunidos em nome de Cristo, para edificação, exortação e consolo). Parece que, à medida em que aumenta a ênfase no SER Igreja em vez de simplesmente IR à um local chamado igreja, num esforço nobre de recuperar a essência da fé e discipulado cristão, diminui consequentemente a motivação de se IR também. Para mim esse é um caso clássico do que acontece com todo movimento reacionário: vai de um extremo a outro. A razão simples porque creio assim é que SER Igreja é algo impossível de se acontecer na individualidade. Igreja é sempre plural, comunitário, sempre algo que eu não posso ser sozinho. Mas a galerinha lê livros questionando a validade da igreja e sai blogando e declarando: “Ufa! Agora posso SER sem IR. Uma libertação!” Será?

Tal coisa só faz sentido numa sociedade cada vez mais individualizada como a nossa (temos feito a lição de casa direitinho com os norte-americanos). Diz isso para quem está tentando seguir Cristo em regiões do mundo como o Norte da África, Oriente Médio e Ásia Central. Nestes lugares você encontra pessoas que anseiam por IR e se reunir com outros e compartilhar sua fé, suas lutas, orar juntos, aprender umas com as outras, etc. Mas não é só nos “países fechados” que você encontra esse entusiasmo pela igreja em sua forma congregacional. Na Europa pós-cristã, acontece o mesmo com os seguidores de Cristo que buscam viver a realidade de sua fé naquele continente frio. Pessoas viajam 1-2 horas na Autobahn para se reunirem como igreja em países como Alemanha, Suíça, França, etc.

Quando penso sobre isso me lembro do que um velho professor de teologia costumava dizer-me no seminário: “A teologia foi elaborada na Europa, está sendo deturpada nos Estados Unidos e testada no Brasil.” Cada dia que passa, mais cresce em mim a sensação de que ele estava certo. Pois essa nova descoberta de SER sem IR é um fenômeno não somente totalmente inédito na história da Igreja, mas arrisco dizer, algo puramente norte-americano. Somente numa sociedade que pratica o culto ao indivíduo (e à individualização) é que um conceito desses pode ser desenvolvido. E pior, vendido como se fosse verdade, grande revelação. E só quem não conhece bem nem as Escrituras nem a História pode embarcar nessa. Pois tanto as Escrituras quanto a História são claras quando o assunto é seguir Jesus: Não é algo que se faz sozinho. Seguir Jesus envolve um compromisso com a mutualidade: disposição a repartir a vida com outros para aprender a amar, perdoar, dar e receber, morrer para o eu, servir, etc.

Creio que Henri Nouwen expressou bem o que é SER Igreja:
“A Igreja é o povo de Deus. A palavra latina para “igreja”, ecclesia, origina-se do grego ek, que significa “fora”, e kaleo, “chamar”. A Igreja é o povo de Deus chamado a sair da escravidão para a liberdade, do pecado para a salvação, do desespero para a esperança, da escuridão para a luz, de uma existência centrada na morte para uma existência centrada na vida.
Quando pensamos na Igreja, devemos pensar num corpo de pessoas viajando juntas. Temos que imaginar as mulheres e os homens e as crianças de todas as idades, raças e sociedades apoiando-se um ao outro em suas longas e, muitas vezes, cansativas jornadas para a morada final.”

Note que Igreja é povo de Deus, não indivíduo de Deus. Igreja são pessoas, nunca uma pessoa só.

Muitos argumentam que não estão questionando a validade da comunhão, que praticam comunhão em casas onde compartilham sua fé enquanto comem e bebem alguma coisa. Essa é sua igreja. Eu não questiono sob hipótese alguma esse tipo de experiência. Com certeza posso cultuar com pessoas em reuniões nos lares. A maioria das igrejas em países fechados acontecem assim. Talvez mesmo vivendo num país onde há liberdade de culto, eu deva praticar o pequeno grupo. Mas, pessoalmente, eu sinto falta de certas coisas que uma reunião nos lares simplesmente torna impraticável.

Grupos pequenos geralmente se reunem por afinidade e/ou geografia. Por isso, raramente transpõem barreiras sociais. Dificilmente pessoas alheias ao grupo terão acesso às suas reuniões (qual foi a última vez que você teve um mendigo em seu grupo pequeno?). Nas reuniões congregacionais maiores encontro a oportunidade de me relacionar – ainda que superficialmente – com uma variedade maior de pessoas – as mulheres e os homens e as crianças de todas as idades, raças e sociedades, do texto de Nouwen. Tal encontro abre possibilidades incríveis de ministração do Espírito em minha vida.

Eu também gosto da vibração musical quando a banda toca e me convida a cantar junto canções que expressam meu amor e sentimentos por Jesus e Sua Causa. Difícil encontrar uma banda de rock tocando em grupos pequenos.  E por mais que eu goste da informalidade do diálogo e das conversações sobre a fé, da troca de experiências e questionamentos que acontecem nos encontros informais, sinto que preciso também ouvir um bom sermão que me exorte, edifique e console. De um modo geral, sermões (ou pregações) não se encaixam bem em reuniões caseiras – o próprio ambiente pede algo mais conversacional. Além disso, eu reconheço a grande quantidade de dons e talentos distribuídos por Cristo à Sua Igreja e encontro muito mais oportunidades de ver esses dons sendo exercitados em reuniões congregacionais maiores do que nos pequenos grupos.

Bom, estes são alguns motivos que me levam a perseverar na igreja e crer como Rich Mullins que mesmo uma hora numa igreja ruim é melhor que não ir a nenhuma igreja.

Finalmente, eu acredito que SER Igreja é infinitamente mais importante do que simplesmente IR a uma igreja. Todavia, me pergunto seria possível, a longo prazo, SER sem nunca IR?

Isso tudo me faz lembrar a letra da música  Acrobat do U2…

Comments (23 Responses)

Dennis, says:
July 17th, 2009 at 1:21 pm

Sandro, achei mto bom e pertinente seu texto.
Nos exorta a em épocas onde reina o individualismo e o ” Deus pra mim eh assim ” nos lembramos que nada substitui a comunhão do corpo de Cristo reunido em seu nome.

Coloquei tue blog nos links do alien cristão, que é um blog com intuito de difundir cultura e idéias a comunidade cristã.

Acompanho teus textos a algum tempo e Deus te abençoe e continue te dando sabedoria para fazer pessoas refletirem,como fez comigo hj!

abraço

Paula, says:
July 17th, 2009 at 1:43 pm

Por isso VOU e procuro SER, “simples” assim.
Ah, gosto muito da intimidade da casa, necessária, mas nada como a abrangência e totalidade da igreja, fundamental!
Texto muito bom.
abs

July 17th, 2009 at 2:06 pm

Os modismos são quase inevitáveis, causam algum alvorolço mas se vão com o tempo. Não é mesmo.

Tenho minha teoria, de que as pessoas estão cansando da igreja, ( e me incluo nisso), pela politicagem, pelas ameaçãs de não ser abençoado, pelas armações gospel onde o cara coloca a sua idéia como revelação e portando lei, as vaidades e oportunismos e não de Deus.

Por ter ficado por dois anos na rebeldia de não ir, não participar, e ficar “de mau” com Deus, (se é que isso é possivel, pois eu orava, lia a biblia, mas me recusava firmemente a por os pés em qualquer igreja) tenho uma nova percepção do papel da igreja, da necessidade de estar junto, não apenas das pessoas de nossa afinidade , mas dos mendigos, das pessoas mais carentes, de um abraço sincero, de dar as mãos para orar, do compromisso.

A igreja precisa rever seu papel e o que anda fazendo com sua membresia a fim de reverter a cultura do Ser sem IR , do IR sem SER, sim porque isso também acontece muito.

Eu não abro mão de SER e de IR mas que ando cansada de cobranças e de ameaças , (em nome de um Deus, que conheço como pai, que ama, e por que ama corrige. ) isso ando.

um abraço

fabioq, says:
July 17th, 2009 at 2:53 pm

Eu tenho me questionado sobre o assunto igreja (”i”), IR a igreja nao te faz ESTAR na igreja (sentido ter comunhao), como bem frisou Ariovaldo Ramos, igreja é comunhao dos santos e nao movimento de massa ( e esse movimento de masssa nao acontece so nas mega-igrejas.)

creio que em parte a falta de promover comunhao é causada pelo utilitarismo que a igreja abracou como doutrina (msm qdo pensa q nao), entao se voce nao esta no grupo de louvor ou outro trabalho especifico raramente vc tera comunhao na igreja, nao acho q isso seja falha de carater de ninguem, acredito que seja uma regra ditada inconcientemente.

Entrar um culto para cantar, orar (de forma congregacional), ouvir o sermao nao te faz ser parte de muita coisa (embora isso tb seja parte da pratica crista), pq sem a comunhao vc é um lobo solitario msm dentro de um ambiente cheio de gente.

Enquanto o utilitarismo dominar nosso pensamento e a comunhao for gerada apenas por aplicacao “trabalhista” acho q a igreja deixara sempre a desejar em promover uma parte substancial de sua exietencia.

Minha maior questao é, como nao ser um lobo solitario ou nao partir para uma agrupamento nos lares em tempos em que o individualismo mostra a cara em mais facetas do que pensamos?

É algo em que tenho pensado e muito nos ultimos tempos.

Carlos neca, says:
July 17th, 2009 at 8:44 pm

Uma das minhas criticas pelo chamado movimento emergente é este: Parece uam droga o lance de novidade, nada está certo, tudo tem que ser revisto.
Sim! Acredito que devemos mesmo colocar em cheque pacotes fechados que recebemos, pois se a Verdade me liberta não devo temer conhecer o lado b.
Agora aparece algo novo e já é taxado como verdade absoluta, jogando no lixo uma jornada de séculos, isto é bem tipico no pós-modernismo (Se é que ainda estamos nele…)
fizemos uma série de mensagens aqui e a primeira foi:
O que é Igreja? e conclui assim: Igreja é um presente do Pai para o Filho.
Preço determina valor: O preço da Igreja foi o próprio sangue do Cordeiro, este foi o sacrifício que custou a Igreja.
Também acho complicado Ser Igreja sem Ir a Igreja, viver uma espiritualidade isolada, cheira tão estranho ao Espírito dos Evangelhos, que *beira a heresia*

Minha definição de heresia:
Um ato voluntário ou involuntário de não exercer o privilégio de amar o próximo.

Se me acho tão superior aos outros ao ponto de nem querer conviver com eles, pois no fundo esta é a verdadeira questão, embora ninguém assuma, criei o quinto evangelho (o meu) que definitivamente é outro Evangelho como dirira um sábio apóstolo…

Carlos neca, says:
July 17th, 2009 at 9:13 pm

Estou ouvindo Jorge Camargo: O cd Somos um.
Sugiro que ouçam.
Dai quem não conhece vai entender, a ligação com o post.

Leonardo Jr, says:
July 17th, 2009 at 10:37 pm

Sandro,

Muito bom o post. Deus te abençoe sempre!

Estás sempre em minhas orações.

Abraço!

William, says:
July 18th, 2009 at 1:37 am

Igreja: tenho que IR!
O post me lembra uma passagem do livro “Cartas de um diabo ao seu aprendiz” quando o diabo diz a Fitafuso que é muito bom que os crentes não estejam na igreja aos domingos (ou algo assim).
Cristão sem igreja, sem irmãos por perto para se reunir, conversar, orar e adorar não é cristão…

July 18th, 2009 at 1:26 pm

Excelente texto.
Realmente, a dificuldade é encontrar o equilíbrio, a nossa tendência é transitar entre os extremos. O que, em ambos os casos (ser e ir), é até bem mais cômodo, geralmente.
um abraço

Thiago Bomfim, says:
July 18th, 2009 at 3:59 pm

Sandro, foi extremamente benéfico voltar a ler seus posts.

Novamente vamos parar no assunto outrora discutido: “como fazer a igreja ficar mais bonita para o mundo?”

Acredito que o anseio de se afastar dessas reuniões e aglomerações é um reflexo da idéia de que a igreja, espaço físico, é anacrônica.

“Teólogos” contemporâneos pensam: se o mundo acha que igreja é desnecessária, vamos então criar os pequenos grupos, que continuarão a ser igreja, mas, desse modo, a fachada (a maquiagem) muda, fazendo parecer algo diferene.

Se a motivação para a criação dos grupos domésticos é a de rebocar a fachada da instituição, está tudo errado.

Vi-me em várias épocas afastado das reuniões da igreja, hoje frequento com regularidade os cultos na Betesda e é um sensação muito boa ver jovens misturados aos velhos, pobres aos ricos, cultos a leigos.

Imagino-me numa reunião moderna da igreja, do modo mais individualista possível: num de bar, com jovens com a idade entre 20-30 anos, que gostem de Machado de Assis.

Rebeca, says:
July 18th, 2009 at 4:30 pm

Não, não seria possível SER sem nunca IR.
você bem disse, uma coisa precisa da outra, está dentro da outra, é necessário que seja assim.

muitos críticos tentam acabar com a Igreja alegando que a fé é individual e trazendo à tona todos os defeitos que ela carrega e os pecados de seus líderes.

se esquecem tão facilmente da historinha do Corpo…

July 19th, 2009 at 2:58 am

Sandro, Confesso Acompanhar a um bom tempo seu blog, Parabéns!!! Então, manifesto o 1º comentário neste post rsrs:

Se pensarmos na possibilidade de “SER igreja sem nunca IR”, podemos pensar também numa outra questão, pois a “Fragmentação da Igreja” passa a ser Seletiva. Seja, direta ou indiretamente as pessoas procuram os grupos que SÃO mas, não VÃO, apenas por uma questão de COESÃO.

Isso me lembra uma certa citação de Jesus, afirmando que “Um Reino dividido não subsiste” Mc 3.24

Abraços.

Julia Seloti, says:
July 20th, 2009 at 12:22 pm

Compartilho total dessa opinião, incluindo as mais particulares visões do autor, pois posso encontrar base bíblica pra todas elas.
Obrigada pela chamada à meditação desse assunto que, infelizmente, tem servido de ‘muleta’ pra algumas pessoas agirem de forma tão limitada.

July 21st, 2009 at 11:49 am

Concordo completamente! Pensando em tudo isso, pode até ser um exemplo simplório. Mas, se você é um cristão genuíno que ama a Deus, cheio do amor de Cristo; experimente “Ser Igreja” sem ir ao encontro dessa Assembleia. Fique dentro de sua casa fechado, o máximo que puder, sem contato com ninguém, depois desse período tire suas conclusões na prática, se é possível “Ser Igreja” sem vivê-la.

Abç

Marcio Uno, says:
July 21st, 2009 at 12:20 pm

Olá Sandro, ótima abordagem sobre o assunto.

Se nessa geração emergente e pós-moderna da igreja há um processo de desinstitucionalização e desinteresse da igreja, é de se verificar outro caminho para a congregação. Mas ainda creio que este “outro caminho” não se deve lançar fora questões como o contato físico, para além do virtual.
Cultuar a Deus pode ser de diversas formas, sozinho, ouvindo musica, lendo a Bíblia ou outros livros (SER), porém sentir a presença da comunhão do irmão, do compartilhar, consolar, exortar, é de extrema necessidade humana o sentir, tocar (IR).
Deus o abençoe.
Abraços.

July 21st, 2009 at 3:01 pm

Eai Sandro tudo certo???

Achei muito boa a esplicação sobre SER igreja, realmente existem pessoas que leem coisas sobre não mais ir à igreja e pensa que achou uma libertação na participação da comunhão que Cristo chamou de corpo
e deu até sua ultima gota de sangue por ela. Devemos SER igreja dentro do nosso lugar de comunhão e serviço cristão.

July 21st, 2009 at 8:14 pm

Glória a Deus por sua vida Sandro Baggio!

Você sempre me abençoa.
Acabei de tentar escrever isso em um blog onde vi um post nesse outro extremo.

Que sábias palavras expressas aqui ! ;]

Valeu!
Deus continue a te abençoar! :D

PAZ

Leandro, says:
July 22nd, 2009 at 10:35 pm

Sandrão, twitter?

@lelo__

July 29th, 2009 at 9:51 am

Ir sem Ser…

creio que um dos grandes problemas seja exatamente isso tem um monte de Ir sem Ser, principalmente nos pulpitos ou “altares” como são chamados agora…
as “personalidades” outrora aboradas aqui nos cansam de uma igreja hipócrita e ardilosa, residindo no litoral paulista há seis anos já tentei universal, congregação, peniel, portinhas com nomes de emmanuel, ebenezer, el shaddai e coisas assim, quadrangular, presbiteriana, batista, metodista… enfim não dá, antes que digam que estou procurando perfeição vou logo dizendo: procuro sinceridade, procuro ao menos 10% do que experimentei na comunidade ágape(242)… procuro apenas simplicidade mas tá dificil!

September 2nd, 2009 at 9:33 am

[...] eu já escrevi aqui, acredito que o SER e o IR (do reunIR-se) são inseparáveis. E os autores do livro deixam isso [...]

ana claudia, says:
September 3rd, 2009 at 4:09 am

Rev. Gostei muito do texto. Tenho observado este movimento de pessoas indignadas com tantas baixarias que surgem no meio da igreja… e infelizmente muitos caem no extremo de se excluirem totalmente da comunhão… vou indicar seu blog/texto, pode ?? abs

ana claudia, says:
September 3rd, 2009 at 4:13 am

SANDRO divulguei no orkut… abs

September 3rd, 2009 at 11:12 am

[...] eu já escrevi aqui, acredito que o SER e o IR (do reunIR-se) são inseparáveis. E os autores do livro deixam isso [...]

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