Arquivos para o mês de: July, 2009

Nos últimos 2 anos tem crescido o número de postagens em blogs sobre a validade de se reunir como igreja (com “i” minúsculo mesmo para indicar a congregação de discípulos reunidos em nome de Cristo, para edificação, exortação e consolo). Parece que, à medida em que aumenta a ênfase no SER Igreja em vez de simplesmente IR à um local chamado igreja, num esforço nobre de recuperar a essência da fé e discipulado cristão, diminui consequentemente a motivação de se IR também. Para mim esse é um caso clássico do que acontece com todo movimento reacionário: vai de um extremo a outro. A razão simples porque creio assim é que SER Igreja é algo impossível de se acontecer na individualidade. Igreja é sempre plural, comunitário, sempre algo que eu não posso ser sozinho. Mas a galerinha lê livros questionando a validade da igreja e sai blogando e declarando: “Ufa! Agora posso SER sem IR. Uma libertação!” Será?

Tal coisa só faz sentido numa sociedade cada vez mais individualizada como a nossa (temos feito a lição de casa direitinho com os norte-americanos). Diz isso para quem está tentando seguir Cristo em regiões do mundo como o Norte da África, Oriente Médio e Ásia Central. Nestes lugares você encontra pessoas que anseiam por IR e se reunir com outros e compartilhar sua fé, suas lutas, orar juntos, aprender umas com as outras, etc. Mas não é só nos “países fechados” que você encontra esse entusiasmo pela igreja em sua forma congregacional. Na Europa pós-cristã, acontece o mesmo com os seguidores de Cristo que buscam viver a realidade de sua fé naquele continente frio. Pessoas viajam 1-2 horas na Autobahn para se reunirem como igreja em países como Alemanha, Suíça, França, etc.

Quando penso sobre isso me lembro do que um velho professor de teologia costumava dizer-me no seminário: “A teologia foi elaborada na Europa, está sendo deturpada nos Estados Unidos e testada no Brasil.” Cada dia que passa, mais cresce em mim a sensação de que ele estava certo. Pois essa nova descoberta de SER sem IR é um fenômeno não somente totalmente inédito na história da Igreja, mas arrisco dizer, algo puramente norte-americano. Somente numa sociedade que pratica o culto ao indivíduo (e à individualização) é que um conceito desses pode ser desenvolvido. E pior, vendido como se fosse verdade, grande revelação. E só quem não conhece bem nem as Escrituras nem a História pode embarcar nessa. Pois tanto as Escrituras quanto a História são claras quando o assunto é seguir Jesus: Não é algo que se faz sozinho. Seguir Jesus envolve um compromisso com a mutualidade: disposição a repartir a vida com outros para aprender a amar, perdoar, dar e receber, morrer para o eu, servir, etc.

Creio que Henri Nouwen expressou bem o que é SER Igreja:
“A Igreja é o povo de Deus. A palavra latina para “igreja”, ecclesia, origina-se do grego ek, que significa “fora”, e kaleo, “chamar”. A Igreja é o povo de Deus chamado a sair da escravidão para a liberdade, do pecado para a salvação, do desespero para a esperança, da escuridão para a luz, de uma existência centrada na morte para uma existência centrada na vida.
Quando pensamos na Igreja, devemos pensar num corpo de pessoas viajando juntas. Temos que imaginar as mulheres e os homens e as crianças de todas as idades, raças e sociedades apoiando-se um ao outro em suas longas e, muitas vezes, cansativas jornadas para a morada final.”

Note que Igreja é povo de Deus, não indivíduo de Deus. Igreja são pessoas, nunca uma pessoa só.

Muitos argumentam que não estão questionando a validade da comunhão, que praticam comunhão em casas onde compartilham sua fé enquanto comem e bebem alguma coisa. Essa é sua igreja. Eu não questiono sob hipótese alguma esse tipo de experiência. Com certeza posso cultuar com pessoas em reuniões nos lares. A maioria das igrejas em países fechados acontecem assim. Talvez mesmo vivendo num país onde há liberdade de culto, eu deva praticar o pequeno grupo. Mas, pessoalmente, eu sinto falta de certas coisas que uma reunião nos lares simplesmente torna impraticável.

Grupos pequenos geralmente se reunem por afinidade e/ou geografia. Por isso, raramente transpõem barreiras sociais. Dificilmente pessoas alheias ao grupo terão acesso às suas reuniões (qual foi a última vez que você teve um mendigo em seu grupo pequeno?). Nas reuniões congregacionais maiores encontro a oportunidade de me relacionar – ainda que superficialmente – com uma variedade maior de pessoas – as mulheres e os homens e as crianças de todas as idades, raças e sociedades, do texto de Nouwen. Tal encontro abre possibilidades incríveis de ministração do Espírito em minha vida.

Eu também gosto da vibração musical quando a banda toca e me convida a cantar junto canções que expressam meu amor e sentimentos por Jesus e Sua Causa. Difícil encontrar uma banda de rock tocando em grupos pequenos.  E por mais que eu goste da informalidade do diálogo e das conversações sobre a fé, da troca de experiências e questionamentos que acontecem nos encontros informais, sinto que preciso também ouvir um bom sermão que me exorte, edifique e console. De um modo geral, sermões (ou pregações) não se encaixam bem em reuniões caseiras – o próprio ambiente pede algo mais conversacional. Além disso, eu reconheço a grande quantidade de dons e talentos distribuídos por Cristo à Sua Igreja e encontro muito mais oportunidades de ver esses dons sendo exercitados em reuniões congregacionais maiores do que nos pequenos grupos.

Bom, estes são alguns motivos que me levam a perseverar na igreja e crer como Rich Mullins que mesmo uma hora numa igreja ruim é melhor que não ir a nenhuma igreja.

Finalmente, eu acredito que SER Igreja é infinitamente mais importante do que simplesmente IR a uma igreja. Todavia, me pergunto seria possível, a longo prazo, SER sem nunca IR?

Isso tudo me faz lembrar a letra da música  Acrobat do U2…

O Thiago Bomfim escreveu uma postagem essa semana chamada Photoshop na Celulite da Igreja, comentando sobre algo que eu tenho pensado com uma certa frequência nos últimos meses: a tentativa de fazer uma plástica na imagem da igreja para deixá-la bonitinha e atrativa. Na verdade, meus pensamentos têm sido mais específicos, direcionados para a criação dessa imagem na divulgação de igrejas e ministérios por meio da internet. Antes que qualquer pessoa pense que eu seja contra o uso da internet para divulgação da igreja/ministério, deixe-me afirmar que não sou. Muito pelo contrário, na Era Google, não há como fugir da presença na internet. Todavia, o que me preocupa (e um dos motivos que fez com que tirássemos nosso site do ar há meses para uma reformulação total) é como nós utilizamos desta ferramenta poderosa de comunicação.

No meio missionário, há anos que ouço o termo “números evangelásticos” para se referir aos exageros cometidos ao relatar o resultado de uma campanha evangelística. Tinha 100 pessoas, mas o relatório diz que tinha 250… 500 ou 1000! Convivendo com pastores, cansei de ouvir relatórios mentirosos de suas igrejas, exagerando o número de membros, freqüência de cultos, batismos, etc. Acabei de acessar o site de uma igreja, e um vídeo anunciando um evento tinha um narrador com uma voz “poderosa”, cheia de eco e efeitos, como se o recado viesse do além. Até mesmo um artigo sobre o relatório de estatísticas de acesso na internet denunciava como alguns marqueteiros mentem sobre o números de acesso/visitantes, divulgando, na verdade, o número de hits em seus sites (geralmente 10 vezes maior do que o número real de visitantes).

Recentemente estava ouvindo uma entrevista com Eugene Peterson e percebi que esse parece ser um fenômeno global. Ele falava sobre seu primeiro pastorado e sobre como os pastores mentiam em seus relatórios nas convenções. Há trinta anos George Verwer falava sobre a mentira do exagero, essa tendência de aumentar os números/estatísticas (ou simplesmente dizer que fez jejum, leu a Bíblia e orou, quando não fez nada disso), como um sinal de pseudodiscipulado. O que me parece é que a pressão para ser bem sucedido, relevante e atrativo pode se tornar uma armadilha, levando a tais exageros e mentiras. Ou fazer o que Bomfim apontou em sua postagem: usar um Photoshop para dar uma imagem cool na igreja/ministério, eliminando suas celulites.

Lendo Seth Godin (Tribes e The Dip), me deparei com o título de outro livro seu que foi um sinal de alerta para mim: All Marketers Are Liars (todos os marqueteiros são mentirosos). Não li esse livro e não sei o que Godin diz exatamente sobre os marqueteiros serem (ou não) mentirosos, mas de qualquer maneira fiquei pensando se, na ânsia de embelezar a igreja, transmitir algo e atrair pessoas para “nossa” causa, não escorregamos em alguma mentira (ou “mentirinha”) e acabamos criando igrejas e ministérios “evangelásticos”.

Em So Beautiful, Leonard Sweet fala sobre Cristianismo APC, referindo-se a um medicamento muito usado pelos militares nos EUA na década de 1950 que prometia o alívio para tudo. Tinha um problema porém, o APC causava dependência. E o pior, mais tarde descobriu-se que o uso prolongado desse medicamento levava à morte. Ou seja, o APC de fato funcionava, mas era uma armadilha mortal a longo prazo.

Creio que o marketing mal utilizado (mentiroso) pode ser um reflexo desse Cristianismo APC. Mente-se para atrair, crescer, ser bem sucedido. Mente-se porque se propaga algo que não é verdadeiro, algo ilusório, superficial. A imagem é bonita, mas não há substância por trás da mesma. Atrai pessoas, vira notícia, causa toda a impressão de ser um sucesso. E como o sucesso vicia, então é preciso continuar mentindo para mantê-lo a qualquer custo. Com o passar do tempo, os resultados geralmente são catastróficos.

Nas palavras de Leonard Sweet: “Algumas coisas podem fazer sua igreja crescer rápido e grandemente em meses e anos, entretanto, com o passar de décadas podem ter efeitos debilitantes no corpo de Cristo, e até mesmo matar você se não matar seu espírito.”

Que Deus nos ajude a nos livrar de toda e qualquer mentira sobre nós mesmos e nossas igrejas, a buscar a honestidade e realidade no modo como nos apresentamos aos outros (seja na internet ou de qualquer outro modo) e, acima de tudo, encontrar a liberdade para ser quem Deus nos chamou para ser, livres da necessidade de ficar nos comparando com esse ou aquele ministério ou igreja.

Jesus

O Luis Fernando traduziu e publicou no Renovatio Café um texto escrito por Leonard Sweet e Frank Viola chamado Manifesto por Jesus – A Carta Magna pela Supremacia de Jesus Cristo ou Um Manifesto por Jesus para Igreja do Século XXI. Acabei de ler o livro recente do Sweet (So Beautiful) e irei bloggar sobre ele ainda esta semana. Ainda quero ler o novo do Viola também, From Eternity to Here. Alguns trechos do manifesto abaixo. Vale a pena ler e refletir sobre este texto.

Jesus Cristo não pode ser separado de seus ensinamentos. Aristóteles disse a seus discípulos, “Sigam meus ensinamentos”. Sócrates disse a seus discípulos, “Sigam meus ensinamentos”. Buda disse a seus discípulos, “Sigam minhas reflexões”. Confúcio disse a seus discípulos “Sigam o que disse”. Maomé disse a seus discípulos, “Sigam meus pilares”. Jesus disse a seus discípulos, “Sigam-me”. Em todas as outras religiões, um seguidor pode seguir os ensinamentos de seu fundador sem ter nenhum relacionamento com seu fundador. Isso não acontece com Jesus Cristo. Os ensinos de Jesus não podem ser separados da pessoa de Jesus. Jesus Cristo está vivo e ele personifica seus ensinamentos. É um equívoco muito grande , então, tratar Cristo como simplesmente um fundador com uma série de ensinamentos morais, éticos ou sociais. O Senhor Jesus e seus ensinamentos são um. O Meio e a Mensagem são um. Cristo é a encarnação do Reino de Deus e do Sermão do monte.

O “Jesus da história” não pode ser desconectado do “Jesus da fé”. O Jesus que andou pelas partes da Galiléia é a mesma pessoa que habita a igreja hoje. Não deve haver desconexão entre o Jesus do evangelho de Marcos com o incrível, todo-inclusivo Cristo cósmico que Paulo descreveu na carta aos Colossenses. O Cristo que viveu no primeiro século existia antes da história. Ele também tem uma existência depois da história. Ele é o Alfa e o ômega, Princípio e fim, A e Z, tudo ao mesmo tempo. Ele habita no futuro e no fim dos tempos ao mesmo tempo que ele habita em cada filho de Deus. A falha em abraçar essa verdade paradoxal tem criado problemas enormes e tem diminuído a grandeza de Cristo aos olhos do povo de Deus.

Jesus Cristo não foi um mero ativista social ou filósofo moral.  Considerá-lo dessa forma é tirar sua glória e diluir sua excelência. Justiça fora de Cristo é uma coisa morta. O único golpe que pode perturbar os portões do inferno não é o grito de Justiça, mas o nome de Jesus. Jesus Cristo é a personificação da Justiça, Paz, Santidade e Retidão. Ele é a soma de todas as coisas espirituais, o “atrator estranho” do  cosmos. Quando Jesus se torna uma abstração, a fé perde seu poder reprodutor. Jesus não veio para tornar pessoas más boas. Ele veio para tornar pessoas mortas vivas.

Cristãos não seguem um livro. Cristãos seguem uma pessoa, e a essa biblioteca de livros divinamente inspirados, nós chamamos “A Bíblia Sagrada” como a melhor ajuda para seguir esta pessoa. A Palavra Escrita é um mapa que nos leva a seguir a Palavra Viva. Ou como Jesus mesmo colocou, “Toda a Escritura testifica de mim”. A Bíblia não é o destino, é uma bússola que aponta para Cristo, Nossa Estrela do Norte do céu.

Só Jesus pode consertar e preencher o vazio no coração da igreja. Jesus Cristo não pode ser separado de sua igreja. Enquanto Jesus é distinto de sua Noiva, ele não está separado dela. Ela é de fato seu próprio corpo na terra. Deus escolheu para vesti-la de todo poder, autoridade e vida no Cristo vivo. E Deus em Cristo só é conhecido plenamente através de sua igreja (Como Paulo disse, “A multiforme sabedoria de Deus – o qual é Cristo – que é conhecido através da “ekklesia”)

A vida cristã, então, não é uma busca individual. É uma jornada coletiva. Conhecer Cristo e fazê-lo conhecido não é um projeto individual. Aqueles que insistem em um vôo solo de vida serão trazido à terra através de uma terrível queda. Pois Cristo e sua igreja são intimamente unidos e conectados. O que Deus uniu, que nenhuma pessoa separe.

O texto completo você encontra aqui.