Há 5 anos aconteceu o Tsunami da Ásia, uma catastrofe que tirou a vida de 230 mil pessoas e deixou mais de 1 milhão de desabrigados nos 11 países que sofreram a devastação causada por ondas gigantes.
Inconformados com a tragédia de proporções bíblicas, alguns pastores e teólogos brasileiros começaram a questionar se Deus poderia realmente estar no controle do mundo e, ao mesmo tempo, permitir tanta morte e sofrimento. A onda do Tsunami trouxe consigo uma outra onda para os cristãos brasileiros: o teísmo aberto.
O texto abaixo apesar de breve, dá uma noção sobre o que é o teísmo aberto, sua premissa básica e para onde, em última instância, ele conduz.
Denominei essa postagem de Teísmo seguido de um sinal de interrogação porque quanto mais leio textos daqueles que abraçaram essa visão sobre Deus e o homem, mais parece que estou lendo conceitos bem mais próximos do Deísmo do que do Teísmo propriamente dito.
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Numa série de livros, Clark Pinnock e John Sanders tem promovido uma visão de um Deus finito e limitado em seu poder e conhecimento. Eles afirmam que se o homem tem livre-arbítrio de verdade, então Deus não pode ordenar nem conhecer os eventos que irão acontecer no futuro. O futuro está em aberto, no sentido de ser tanto criação do homem como de Deus. Como Pinnock escreve:
A idéia da responsabilidade moral exige que acreditemos que as ações não são determinadas, nem interna nem externamente. Uma importante implicação desta forte definição de livre-arbítrio é que a realidade permanece, em certa extensão, aberta, e não fechada. Isso significa que uma novidade genuína pode aparecer na história, que não pode ser prevista por ninguém, nem mesmo por Deus. (…) Tal conceito implica em que o futuro realmente está em aberto, e não disponível à exaustiva presciência nem mesmo da parte de Deus. Fica bem claro que a doutrina bíblica do livre-arbítrio humano exige de nós que reconsideremos a perspectiva convencional da onisciência de Deus.
Em outras palavras, o que se infere daí é que quase a totalidade da tradição cristã, incluindo aí o arminianismo clássico, desde o primeiro século até agora, tem afirmado uma noção equivocada quanto à natureza de Deus – mas, felizmente, no fim do século XX, Pinnock, Sanders e outros conseguiram finalmente entender a verdade! Que essa postura é inacreditável fica evidente, ao se observar que a Escritura é clara ao refutar tal ensino. (…) Um dos fatores que distingue o Deus verdadeiro de Israel dos falsos deuses é precisamente o fato de que Deus conhece o futuro absolutamente e, assim, é capaz de predizer o que acontecerá com certeza (Is 46.10). Os planos de Deus não são frustrados (Sl 33.10-11), porque ele faz tudo segundo o conselho da sua vontade (Ef 1.11).
O problema está no fato de que, ao definir o livre-arbítrio como uma causa totalmente indeterminada, Pinnock criou uma contradição que não existe na Bíblia. (…) A Bíblia põe a livre agência do ser humano e a providência de Deus lado a lado, sem a menor indicação de que haja contradição entre as duas. Isso porque a liberdade da Criação não implica sua autonomia diante do Criador, como Pinnock afirma. Além disso, já vimos que, ao contrário do que pensa Pinnock, a responsabilidade humana não está vinculada com a noção libertária do livre arbítrio. Isso é um conceito filosófico que é imposto ao texto bíblico, mas que não surge do texto em si.
Os problemas do teísmo aberto são muitos. Roger Nicole, numa resenha que escreveu sobre um dos principais textos deste movimento, The Openness of God, levanta vários problemas e perguntas a respeito do teísmo aberto.
Primeiro, ele nota que o teísmo aberto não é consistente com a existência de profecias detalhadas nas Escrituras. “Como Deus poderia saber que Judas trairia Jesus por 30 moedas de prata, quando o pagamento e aceitação de tal soma dependiam de decisões imprevisíveis dos principais sacerdotes e de Judas?” De fato, uma profecia, como a crucificação de Jesus, não exige apenas que Deus conheça o que acontecerá no futuro, mas que ele também tenha controle soberano sobre cada decisão livre de todos os agentes que participaram nos eventos, como de Pôncio Pilatos e dos soldados que lançaram sortes sobre a túnica de Jesus. Mas, como Nicole afirma, se Deus nem soubesse com certeza que Adão cairia em pecado, certamente ele não poderia “prever a morte de Cristo antes da fundação do mundo” (1 Pe 1.20; Ap 13.8; 17.8). A visão de Pinnock e Sanders, segundo Nicole, faz com que Simeão tivesse mais conhecimento do que Deus (Lc 2.35).
Roger Nicole também está correto ao indicar a futilidade da oração, se o teísmo aberto fosse verdadeiro. “O que dá direito aos autores [da obra The Openness of God] a aconselharem Deus em suas orações? O que eles sabem que Deus não sabe?” E por que perder tempo pedindo que Deus intervenha para salvar pecadores? Já que Deus não interfere com o livre-arbítrio das pessoas, ele não poderá fazer nada para influenciar a pessoa para se tornar cristã. Sem conhecer o futuro, Deus nem pode saber como as pessoas reagiriam a qualquer influência colocada em seu caminho. Deus estaria completamente desamparado diante da autonomia do pecador.
Concordamos com a avaliação de Nicole. O caminho para aqueles que têm abraçado o teísmo aberto parece ser o completo abandono da fé cristã histórica. Uma por uma, as outras doutrinas centrais da fé cristã serão abandonadas, ou por estes autores, ou por seus discípulos, exatamente como já aconteceu no passado. O caminho para o liberalismo e, depois, para o naturalismo, começa com a doutrina da autonomia do homem. A conclusão dele está correta:
Não é muito difícil prever para onde estas pessoas se moverão, se elas seguirem a lógica de sua própria posição. Eles brevemente abandonarão a doutrina cristã do pecado original, porque ela será vista como incompatível com o livre-arbítrio de todo ser humano que entra neste mundo (conforme Pelágio). O passo lógico seguinte é renunciar a expiação substitutiva penal, como tem freqüentemente acontecido com o liberalismo e até mesmo no arminianismo. Quando a expiação se vai, não há nenhuma grande necessidade de se manter a deidade de Cristo, e, quando isto se vai, geralmente se descarta a doutrina da Trindade. Então, a pessoa estará em pé de igualdade com o socinismo, que é o último passo antes da total negação do cristianismo. Na outra direção, a sedução da teologia do processo, que os presentes autores são ávidos em repelir, indubitavelmente exercerá algum poder sobre suas mentes. Quando alguém lê este livro, tem a impressão de que muitas vezes algumas páginas foram escritas por John Hick.
Para concluir, precisamos notar que alguns defensores do teísmo aberto têm afirmado que este seria uma recuperação da cosmovisão judaica, afastando a fé cristã das influências da filosofia grega. Mas é necessário perguntar: que cosmovisão judaica? Ao se estudar a literatura judaica antiga, o que fica evidente, por um lado, é o desprezo completo destes pela cultura helênica e, por outro lado, a ênfase na onipotência absoluta de Deus. Basta um pouco de familiaridade com alguns textos de Efraim Urbach, Akiba, Tanchuma bar Abba, Hanima, Joshua ben Hananiah, entre outros, para perceber esta diferença. A idéia básica do antigo judaísmo é que Deus dirige todos os atos dos homens rumo ao fim que ele mesmo estabeleceu. E é nesse ponto que o judaísmo antigo foi mais acentuadamente contrastado com o paganismo. No fim, se descobre que não existe nada novo nas atuais posições dos defensores do teísmo aberto que não tenha sido ensinado no passado por Heráclito, por exemplo, ou, na atualidade, pelos adeptos da teologia do processo.
(Franklin Ferreira e Alan Myatt em Teologia Sistemática, Vida Nova, 2007)
Fala Sandro. Fico feliz que vc tenha trazido esse assunto ao blog, especialmente por ser algo que vez ou outra volta a ser falado.
Fico feliz que você tenha usado como base para falar do TA a Teo Sis do Franklin e do Alan. Fui aluno do Franklin aqui no Seminário e ele é um cara excelente, além de inteligente e engraçado.
Queria deixar como sugestão três artigos da Fides Reformata (revista do curso de Teo da Mackenzie) sobre o assunto. Eis os links:
http://www.mackenzie.br/teologia_relacional.html
http://www.mackenzie.br/fileadmin/Mantenedora/CPAJ/revista/VOLUME_XII__2007__1/resenha_filipe.pdf
http://www.mackenzie.br/oteismo_aberto.html
Tem um link “clique aqui para ler o PDF” em duas das páginas. Vale a pena dar uma olhada no material.
Bem, era só isso. Um bom bfim de ano para vc e para o Projeto. Saudades de vocês.
Olá Sandro, foi sutil em seu texto, hein!!!! Acho que deveria dar nome aos bois, se é que já não deu né? Abraços cara.
Olá Sandro,
obrigado por colocar este texto à disposição dos que sofrem com o bombardeio infindável de teorias que só dizem respeito aos pensamentos de autores que ficam somente refletindo dentro das suas masmorras na Europa ou nos EUA, Afinal de contas, o que esses pensamentos como o teísmo aberto, o neocalvinismo, a teologia integral etc. interessa para a sociedade em geral?
Até quando nós cristãos vamos continuar repetindo a prática dos academicistas, ou seja, a “masturbação intelectual”, que não lança nenhum feedback na vida cotidiana?
Um grande abraço!
[...] Artigo retirado do blog do revBaggio [...]
Esta discussão é oriunda do desgaste de uma outra mesa: a da predestinação. Desde quando os reformados não souberam articular suficientemente os argumentos a favor de Calvino, os adeptos do livre-arbítrio ( que na minha opinião acabam caindo nos mesmos deslizes do teísmo aberto ) deram margem às mais veriadas ramificações teológicas. O teísmo aberto é cria do livre-arbítrio e como ele tende a se tornar pensamento comum inclusive no meio cristão. Tudo porque o ser humano não admite que os pensamentos de Deus são mais altos e que um tsunami, assim como milhares de tragédias pessoais aou não, façam parte do plano divino.
Discussão boa.
Mas se já está tudo sistematizado e pronto, podemos ficar em casa, nénão? Alguns, muito melhores do que nós, “decifraram o código”, e podemos ficar descansados pois não há nada que não saibamos sobre Deus. Tá tudo dominado.
Falando sério: creio no Deus soberano, sou pequeno, limitado, e não creio que igreja ou pessoa alguma possa ser defensora ou guardadora das verdades finais sobre ele. Mesmo que essa pessoa ou igreja me considere um herege, vivo na linha tênue de procurar viver como ele viveu, e o resto, caros, é resto.
Esdras, não creio que a questão seja esta. Não se trata de estar tudo sistematizado ou de decifraram o código. Nunca saberemos tudo sobre Deus, só sabemos o que Ele relevou-nos em Cristo e nas Escrituras. E quando nos apartamos das Escrituras que as coisas ficam complicadas. Não há nem como viver como Jesus viveu se não for pelas Escrituras. O resto é realmente resto.
Ok, Caro Sandro. Mas a Escritura é interpretada por nós. E Ela tem sido sempre multi-poli-super-ultra-interpretada. Então, fica bem fácil partidarizar quem está certo e quem está errado. Eu estou certo, e você estã errado. É assim que muitos pensam.
Acho que serenidade, observação e principalmente fé devem nos guiar nestas horas difíceis, meu caro.
E só para lembrar: nossa cabeça muda. Você mesmo já pensou de um jeito e hoje não pensa mais. Será que você estava fora do que Jesus queria antes e só agora anda de acordo com o que Ele quer?
Abraços,
Esdras
[...] o original aqui. [...]
Pela ótica calvinista a oração faz menos sentido ainda. Para Calvino Judas a traição de Judas foi determinada por Deus. Ora, que sentido faz orar por algo que não pode mudar?
O teísmo aberto possui problemas sim, como qualquer outro modelo. No A.T Deus mudava de idéia (para Calvino, mera antropopatia). Aliás até mesmo o amor divino precisa ser encarado como antropopatia.