Arquivos para o mês de: January, 2010

doctrine-jesus
Freqüentemente ouvimos pessoas dizendo que não é o que alguém crê e, sim, o que faz que tem importância. Trata-se de meia verdade, que, como acontece com as verdades apresentadas pela metade, chega a ser perigosa. É meia verdade porque, do ponto de vista cristão, o pensamento teológico não é nenhum fim em si mesmo. O cristianismo é doutrina que se propõe a ser vivida. Visa a resultar em ações. De forma que, se permanecer sempre como pensamento, torna-se algo até mesmo destituído de verdadeiro cristianismo e, portanto, fútil. Entretanto, acentue-se que se trata de meia verdade, pois, o que quer que o homem faça, tal comportamento estará em íntima correlação com o que pensa e com o que crê ser o valor último da existência. Sempre que o chamado homem prático se encontra diante de situações que lhe forçam a decidir quanto à melhor maneira de proceder, sente ser portador de alguma idéia implícita quanto ao que constitui um alvo a ser alcançado em tal circunstância, ou que valores se lhe impõem como devendo ser assegurados mediante o encontro das soluções cabíveis. Além disso, ele não poderá deixar de revelar algum conceito quanto aos meios mais recomendáveis pelos quais os valores serão alcançados. Tudo isso não passa de teologia, implícita ou explicitamente.

- William E. Hordeen em Teologia Contemporânea, Hagnos.

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Há pouco mais de uma semana os olhos do mundo se voltaram para o Haiti, uma pequena ilha caribenha atingida por um terremoto devastador. Estima-se que 200 mil pessoas possam ter morrido, apesar de que o número exato de mortes demorará para ser computado.

Em meio a tragédia e sofrimento sem medida, temos assistido uma emergência de solidariedade imensa, vinda de todas as partes do mundo, para socorrer os soterrados, os feridos e mais de 1 milhão de desabrigados sedentos e famintos na Capital Porto Príncipe. Histórias emocionantes de resgate surgem a cada dia, como a de Anna Zizi, uma senhora de 70 anos, ou a de um bebê recêm-nascido de 23 dias, ambos resgatados com vida uma semana após o terremoto.

Tenho visto um grande número de cristãos respondendo nesta hora com paixão e urgência, o que é sem dúvida alguma animador. A maioria das respostas que vejo, no entanto, é de blogueiros e twiteros chamando pessoas para fazer doações (muitas vezes impensadas e que correm o risco de nunca alcançarem seu destino), denunciando as declarações tolas de Pat Robertson ou aproveitando o momento para falar mal de alguma pessoa, governo ou instituição.

Ainda assim, não conheço ninguém pessoalmente se manifestando no sentido de ir ao Haiti ajudar nas equipes de resgate (a maior necessidade logo após um terremoto), atender os feridos ou  trabalhar na reconstrução que se seguirá nos próximos meses e anos. Estes são passos que exigem muito mais engajamento pessoal.

Entendo que nem todo mundo tenha condições de ir a Porto Príncipe. Mas não consigo deixar de pensar também nas tragédias negligenciadas no dia-a-dia, muitas delas bem próximas de cada um de nós. Fico pensando quantos blogueiros e twiteros que manifestam tanta paixão agora pelo Haiti, vivem suas vidas com a mesma paixão, entrega e abnegação no dia-a-dia? Quantos estão engajados em atividades missionais rotineiramente, de tal maneira que suas postagens sejam carregadas não somente de emoção politicamente correta, mas de autoridade de vida seguindo o Caminho de Jesus?

É trágico o que aconteceu no Haiti. Não tenho a intenção de minimizar a tragédia nem tampouco desencorajar os esforços humanitários neste momento de dor. O que gostaria, sinceramente, é que todos aqueles tocados agora, pudessem enxergar o Haiti nosso de cada dia e se envolver nele com a mesma intensidade quando as notícias deste terremoto se dissiparem como a névoa. Isso sim seria revolucionário…

Giotto-St Francis before the Sultan (Trial by Fire)

“Pregue o Evangelho o tempo todo. Se necessário use palavras.”

A frase acima é comumente atribuída a São Francisco de Assis e usada como um pretexto para o seguinte:

“Não é mais necessário pregar, basta viver o Evangelho e as pessoas entenderão quem é Jesus.”

Primeiramente, quero dizer que gosto de São Francisco. Tenho suas obras completas (Escritos e biografias de São Francisco de Assis, Crônicas e outros testemunhos do primeiro século franciscano), das quais li 1/3 aproximadamente, e sua vida muito me inspira. Um dos meus hinos favoritos é baseado em um cântico escrito por Francisco.

Em segundo lugar, apesar de ser reconhecidamente bem franciscana em seu espírito, tudo indica que a frase acima não é de São Franciso de Assis. Os mais eminentes estudiosos franciscanos pesquisaram todos os seus escritos e as biografias escritas até 200 anos após sua morte e não encontraram nelas tal frase. O mais próximo que chegaram foi a uma instrução que Francisco deu em sua Regra Não-Bulada dizendo que ninguém deveria pregar a menos que tivesse recebido permissão de seu ministro para fazê-lo. E acrescentou: “No entanto, todos os irmãos podem pregar pelas obras.” (RegNB 17.1 e 3)

Entretanto, uma vez que a frase é atribuída a São Francisco e usada para apoiar a atitude de cristãos pós-modernos de não pregar (visto que pregar é antiquado, ofensivo e politicamente incorreto), por que não olhar para a vida de São Francisco e ver se o modo como ele viveu sustenta essa teoria?

A biografia de São Francisco revela que ele foi um fervoroso missionário, viajou centenas de quilômetros para pregar (isso mesmo!) o Evangelho aos italianos, desejou muito alcançar os sarracenos (muçulmanos) chegando a enfrentar um naufrágio (na primeira tentativa de ir até a Síria) e enfermidade (quando se encontrava à caminho do Marrocos). Francisco era um pregador ao ar livre, falando nas feiras públicas, das escadarias das igrejas e das muretas nos pátios dos castelos. O livro St Francis of Assisi and the Conversion of Muslims por Frank Rega, narra o esforço de Francisco para converter Melek el-Khamil, sultão do Egito, durante a Quinta Cruzada (1219). Francisco esperava convertê-lo “não com armas, mas sim com palavras” diz o monge John Michael Talbot em seu livro Lições de São Francisco. Talbot cita Chesterton: “Francisco seguia esta máxima simples: É preferível criar cristãos a destruir muçulmanos.”

O capítulo 16 de sua Regra Não-Bulada trata dos que quiserem “ir para entre os sarracenos e outros infiéis.” Francisco dá a seguinte instrução: “Os irmãos que partirem [em viagem missionária] poderão proceder de duas maneiras espiritualmente com os infiéis: O primeiro modo consiste em abster-se de rixas e disputas… e confessando serem cristãos. O outro modo é anunciarem a palavra de Deus quando o julgarem agradável ao Senhor.” (RegNB 16.6-8)

Não há dúvidas de que São Franciso pregava, de que ele acreditava na necessidade de conversão das pessoas e de que usava palavras para comunicar o Evangelho. De fato, São Francisco gostava tanto de pregar, que ele passou a pregar até mesmo para os pássaros e animais (sim, com palavras!) de acordo com algumas das lendas a seu respeito, surgidas após sua morte (a mais famosa delas é o Fioretti escrito no século 14).

Assim sendo, creio que o sentido da frase não é que não devemos usar palavras. É que sempre que necessário, devemos usar palavras. E palavras são necessárias quando se trata de explicar a razão de nosso amor, fé e esperança.

É simplesmente impossível conhecer Jesus sem a pregação. Como argumentou o apóstolo Paulo: “Como crerão naquele de quem não ouviram falar? E como ouvirão, se não houver quem pregue?”

Sem a pregação as pessoas podem até ter uma idéia de que servimos a Deus, mas ficam sem saber quem/como Ele é. Seria esse Deus a natureza ao nosso redor? Seria uma energia cósmica? Uma força impessoal?

A frase deveria ser vista mais como uma advertência contra a hipocrisia daqueles que pregam, mas não vivem o que pregam, do que uma instrução para que se pare de pregar e ensinar o Evangelho de maneira clara e verbal.

Para o seguidor de Jesus, pregar e ensinar não são opcionais. São uma ordem. Jesus disse: “Vão e preguem o evangelho a todas as pessoas” e “vão e façam discípulos de todas as nações, batizando-os… ensinando-os a obedecer tudo o eu lhes ordenei.”

Se há algo claro nas Escrituras é que obras não salvam. Isso foi denunciado pelos profetas no VT, demonstrado por Jesus e ensinado pelos apóstolos no NT. Boas obras podem ser praticadas em abundância, mas elas não são suficientes para salvação. Qualquer crente fiel ao espírito das Escrituras sabe que não faz obras para ser salvo, mas faz porque foi salvo, faz porque ama Aquele que nos amou primeiro e nos ensinou o amor pelo próximo.

Boas obras feitas em nome de Jesus demonstram amor. Mas as pessoas só saberão que é o amor de Deus que nos constrange se nos dispusermos a falar isso a elas, respondendo a todos os que nos perguntarem a razão de nossa esperança. Caso contrário, elas podem até pensar que foi Kardec, Buda ou Maomé quem nos inspirou a fazer tais obras.

Ao mesmo tempo, creio que devemos nos questionar o que há de errado quando, ao viver nossas vidas em devoção profunda por Deus e demonstração de amor pelo próximo com a prática de boas obras, ninguém nunca nos pergunta a razão de nossa esperança, fé e amor.

Viva o Evangelho o tempo todo. Quando lhe perguntarem a razão, use palavras.