“Abre tua boca em favor do mudo, em favor do direito de todos os desamparados.” Prov 31.8
A ESTRANHA TEORIA DO HOMICÍDIO SEM MORTE
Marcia Suzuki
Conselheira de ATINI – VOZ PELA VIDA
www.atini.org
Alguns antropólogos e missionários brasileiros estão defendendo o indefensável. Através de trabalhos acadêmicos revestidos em roupagem de tolerância cultural, eles estão tentando disseminar uma teoria no mínimo racista. A teoria de que para certas sociedades humanas certas crianças não precisariam ser enxergadas como seres humanos. Nestas sociedades, matar essas crianças não envolveria morte, apenas “interdição” de um processo de construção de um ser humano. Mesmo que essa criança já tenha 2, 5 ou 10 anos de idade.
Deixe-me explicar melhor. Em qualquer sociedade, a criança precisa passar por certos rituais de socialização. Em muitos lugares do Brazil, a criança é considerada pagã se não passar pelo batismo católico. Ela precisa passar por esse ritual religioso para ser promovida a “gente” e ter acesso à vida eterna. Mais tarde, ela terá que passar por outro ritual, que comemora o fato dela ter sobrevivido ao período mais vulnerável, que é o primeiro ano de vida. A festa de um aninho é um ritual muito importante na socialização da criança. Alguns anos mais tarde ela vai frequentar a escola e vai passar pelo difícil processo de alfabetização. A primeira festinha de formatura, a da classe de alfabetização, é uma celebração da construção dessa pessoinha na sociedade. Nestas sociedades, só a pessoa alfabetizada pode ter esperança de vir a ser funcional. E assim vai. Ela vai passar por um longo processo de “pessoalização”, até se tornar uma pessoa plena em sua sociedade.
Esse processo de socialização é normal e acontece em qualquer sociedade humana. As sociedades diferem apenas na definição dos estágios e na forma como a passagem de um estágio para outro é ritualizada.
Pois é. Esses antropólogos e missionários estão defendendo a teoria de que, para algumas sociedades, o “ser ainda em construção” poderá ser morto e o fato não deve ser percebido como morte. Repetindo – caso a “coisa” venha a ser assassinada nesse período, o processo não envolverá morte. Não é possível se matar uma coisa que não é gente. Para estes estudiosos, enterrar viva uma criança que ainda não esteja completamente socializada não envolveria morte.
Esse relativismo é racista por não se aplicar universalmente. Estes estudiosos não aplicam esta equação às crianças deles. Ou seja, aquelas nascidas nas grandes cidades, mas que não foram plenamente socializadas (como crianças de rua, bastardas ou deficientes mentais). Essa equação racista só se aplicaria àquelas crianças nascidas na floresta, filhas de pais e mães indígenas. Racismo revestido com um verniz de correção política e tolerância cultural.
Foto: Niawi, menino indígena do Amazonas enterrado vivo aos 5 anos por não conseguir andar. Mãe e pai não queriam sacrificá-lo e se suicidaram antes.
Tristemente, o maior defensor desta hipótese é um líder católico, um missionário. Segundo ele “O infanticídio, para nós, é crime se houver morte. O aborto, talvez, seja mais próximo dessa prática dos índios, já que essa não mata um ser humano, mas sim, interdita a constituição do ser humano”, afirma.”(1)
Uma antropóloga da UNB, concorda. “Uma criança indígena quando nasce não é uma pessoa. Ela passará por um longo processo de pessoalização para que adquira um nome e, assim, o status de ‘pessoa’. Portanto, os raríssimos casos de neonatos que não são inseridos na vida social da comunidade não podem ser descritos e tratados como uma morte, pois não é. Infanticídio, então, nunca”.”(2)
Mais triste ainda é que esta antropóloga alega ser consultora da UNICEF, tendo sido escolhida para elaborar um relatório sobre a questão do infanticídio nas comunidades indígenas brasileiras.(3) Como é que a UNICEF, que tem a tarefa defender os direitos universais das crianças, e que reconhece a vulnerabilidade das crianças indígenas(4), escolheria uma antropóloga com esse perfil para fazer o relatório? Acredito que eles não saibam que sua consultora defende o direito de algumas sociedades humanas de “interditar” crianças ainda não plenamente socializadas.(5)
O papel da UNICEF deveria ser o de ouvir o grito de socorro dos inúmeros pais e mães indígenas dissidentes, grito este já fartamente documentado pelas próprias organizações indígenas e ONG’s indigenistas.(6)
A UNICEF deveria ouvir a voz de homens como Tabata Kuikuro, o cacique indígena xinguano que preferiu abandonar a vida na tribo do que permitir a morte de seus filhos. Segurando seus gêmeos sobreviventes no colo, em um lugar seguro longe da aldeia, ele comenta emocionado:
“Olha prá eles, eles são gente, não são bicho, são meus filhos.
Como é que eu poderia deixar matar?”(7)
Para esses indígenas, criança é criança e morte é morte. Simples assim.
NOTAS
(1) http://www.amazonia.org.br/noticias/noticia.cfm?id=347765
(2) idem
(3) Marianna Holanda fez essa declaração em palestra que ministrou em novembro de 2009 no auditório da UNIDESC , em Brasília.
(4) Segundo relatório da UNICEF, as crianças indígenas são hoje as crianças mais vulneráveis do planeta. “Indigenous children are among the most vulnerable and marginalized groups in the world and global action is urgently needed to protect their survival and their rights, says a new report from UNICEF Innocenti Research Centre in Florence.”
(5) Em algumas sociedades, crianças não socializadas seriam gêmeos, filhos de mãe solteira, de viúvas ou de relações incestuosas, crianças com deficiência física ou mental grave ou moderada, etc. A dita “interdição” do processo pode ocorrer em várias idades, tendo sido registrada com crianças de até 10 anos de idade, entre os Mayoruna, no Amazonas. Marianna defende essa “interdição” em dissertação intitulada “Quem são os humanos dos direitos?” Estudo contesta criminalização do infanticídio indígena.
(6) www.quebrandoosilencio.blog.br www.atini.org
www.movimentoindigenaafavordavida.blogspot.com
http://vimeo.com/1406660 carta aberta contra o infanticídio indígena.
(7) Trecho de depoimento do documentário “Quebrando o Silêncio”, dirigido pela jornalista indígena Sandra Terena. O documentário está disponível no link www.quebrandoosilencio.blog.br
“Uma criança indígena quando nasce não é uma pessoa. ”
Se for levar isso em consideração, podem até colocar a pena de morte em vários países sem problemas, já que pra um monte de gente, um criminoso não é digno de ser chamado de gente.
Falam que é cultura e isso deve ser preservado. Ok, tourada é cultura, e todo mundo aplaude as (por sinal, válidas) manifestações contrárias aos maus tratos contra os animais. Porque com indígenas tem que ser diferente?
Isto que não entendo no discurso desse pessoal, é incoerência demais.
Obrigada por usar seu blog para divulgar o absurdo que é o infanticídio no nosso país!
tô… assim… chocada!
pastor, vou dar um ctrl+c e ctrl+v para nosso blog de missões.
Deus tenha misericórdia.
Por favor Tati, ajude a divulgar isso.
[...] This post was mentioned on Twitter by Lemos George and Thiago C Gomes, Kenny Santa Cruz. Kenny Santa Cruz said: RT @baggiorev: Abre tua boca em favor do mudo, em favor do direito de todos os desamparados." Prov 31.8 http://miud.in/2Nq [...]
Era isso que Hitler fez com as crianças e homens que eram esquizofrenicos, que tinham algum tipo de deficiência, matava.
[...] o original aqui. [...]
[...] o original aqui. [...]
Esse povo precisa muito conhecer Jesus o qual não faz asepcão de pessoa,e mais Ele diz que :aí daqueles que tocarem num dos seus pequeninos,e ainda:deichai vir á mim as criancinha,pois das tais é o reino de Deus. Deus tenha misericordia dessa crianças e pais…
Infelizmente o infantícidio está presente até os nossos dias…
Triste idéia “civilizatória” travestida num “Darwinismo Social” – onde são considerados “humanos” apenas quem é “gente civilizada”.
Nem vamos falar sobre o conceito de civilização nestes tempos, que estamos à beira da bárbarie…
Quem é civilizado? Aquele que veste jeans ou terno e gravata e frequenta as missas, cultos, reuniões ou encontros aos domingos? (melhor não comentarmos…)
A verdade é que muitas crianças e adolescentes são interpretados como uma “patologia social” – vistos apenas como “abandonados, carentes, vitimizados e/ou perigosos…
e, não vistos como vidas, cidadãos e sujeitos de direitos!
Sandro, caso alguém queira ler mais sobre o infanticídio e suas expressões, segue algumas referências sobre questões da infância, entre leis, mitos e sua historicidade:
. História social da infância e da família – Phíllipe Aries – 2ed. editora: LTC
. O Código de Menores de 1927 – pdf – (*detalhe: historicamente ‘menores’ sempre foram os provenientes de uma classe dominada, já os de maior poder aquisitivo são as ‘crianças’.
. Política Social, família e juventude: uma questão de direitos – Sales, Matos e Leal (orgs). Ed Cortez, 2004
. Família Brasileira: a base de tudo, Kaloustian (org), Unicef/Cortez, 1998
. Lei 8.069 de 13 de julho de 1990 – ESTATUTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE – pdf (*base: concepção de criança e do adolescente como cidadãos, passíveis de “proteção integral”, proteção quanto aos direitos de desenvolvimento físico, intelectual, afetivo, social e cultural.
. Artigos da Professora Rita de Cássia Oliveira
* Precisamos ter conhecimento destas ferramentas – não para uma militância que se perde em sua própria utópia…
Mas para propagarmos a justiça contida no Evangelho, aquela que é essência de Deus!
Abraços!!!
Sou estudante de Ciências Sociais e fiquei chocada com o que a antropóloga disse a respeito da socialização das crianças, não serem consideradas pessoas quando nascem e tudo mais! Muito racista esse opinião e errada.
Lamentável mesmo!
Lamentável!
Fiquei revoltado com o que li e decidi reproduzí-lo em meu blog, crendo que fazendo isso estaremos divulgando esse absurdo, criando na sociedade uma blindagem contra esse crime.
Embora já tivesse ouvido e até mesmo visto alguns absurdos como este, o que me espanta é o fato de os que se dizem civilizados cada dia mais assentirem com tais fatos…”sem afeto natural”… alguém ja teria dito que crianças são apenas “animais que necessitam ser domesticados”…estou enviando isso a todos os meus contatos É algo que considero degradante…Consentir com isso é cumplicidade… e ai daqueles que escandalizarem um desses pequeninos, melhorles fora ter uma pedra de moinho enlaçada no pescoço e ser atirado ao mar, que ter que acertar contas no dia das contas….épreciso despertar a Igrejapara a realidade que a circunda,desperta-la do sono da religiosidade e falsa espiritualidade… despertá-la para o IDE, IDE AO ENCONTRO DOS INUSTIÇADOS, DOS OPRIMIDOS,DOS EXCLUIDOS, REJEITADOS, ESQUECIDOS, dos que sem nenhum direito de defesa são corrompidos e mortos…
é PRECISO FAZER ECORAPOR TODA A NAÇÃO E POR TODA AMERICA LATINA A OPRESSÃO SOB A QUAL VIVEM OS POVOS INDIGENAS, E TODO OS QUE CLAMAM SEDENTOS E FAMINTOS DE JUSTIÇA…façamos ecoar esse grito…