Comprei minha primeira Bíblia há 28 anos. Apesar de ter nascido num lar com influências cristãs, tinha acabado de experimentar a fé de modo real e significativo. Por isso, decidi assumir meu compromisso com Deus e com a Sua Palavra. Aquele livro volumoso de capa preta pesava como um tijolo todas as vezes que eu passava diante dos meus amigos a caminho da igreja. A Bíblia era para mim muito mais do que uma coleção de textos religiosos antigos. Era a Palavra de Deus. Com esta crença minha vida foi sendo transformada à medida que eu me dedicava a sua leitura e estudo.
Hoje me perguntam se ainda creio assim. Minha resposta é: Sim! Considero a Bíblia como Palavra de Deus. Isto significa que eu acredito que a Bíblia seja um livro soprado por Deus (theopneustos). O que não significa que a Bíblia seja um livro que caiu do céu. Em vez disso, ela é uma coleção de livros escritos por seres humanos plenos em suas faculdades mentais, num longo processo de composição dirigido pelo próprio Deus. Sendo assim, a Bíblia é palavra de Deus através das palavras dos homens.
Minha razão para crer assim não é antiintelectual. Ao contrário, é fruto de muita reflexão e estudo sobre a natureza das Escrituras e o papel que as mesmas desempenharam na vida de Jesus, dos primeiros cristãos e na história da Igreja nos últimos dois milênios.
Rejeito uma visão liberal em relação à Bíblia. Tal visão é fruto de influências do deísmo e racionalismo Iluminista. Incapaz de conceber intervenções sobrenaturais de Deus, surgiu a necessidade de desconstruir as narrativas bíblicas em que há relatos sobrenaturais reduzindo-as a meras fábulas e mitos. A maioria dessas desconstruções são baseadas em muitas teorias e poucas evidências. Por incrível que pareça, as propostas liberais relacionadas à Bíblia são ultrapassadas. Todavia continuam cativando novos estudantes de teologia fascinados por “idéias novas” e aqueles que preferem uma explicação natural para as narrativas bíblicas por não terem fé suficiente para crer em um Deus capaz de fazer milagres.
Rejeito o enfoque liberal da Bíblia porque o mesmo é herético. Como disse Roger Olson em seu livro “História das Controvérsias na Teologia Cristã” (p. 133-134):
O enfoque liberal da Bíblia é herético por negar ou solapar completamente a autoridade inigualável da Escritura. O problema não é os pensadores liberais tentarem fazer justiça à qualidade humana da Escritura, mas seu modelo de inspiração da Escritura não consegue fazer justiça à qualidade divina da Bíblia. Nas mãos deles a Bíblia se torna um romance histórico ou uma poderosa obra de ficção que molda comportamentos e moralidades ao criar um mundo habitável. Para muitos pensadores liberais, a verdade objetiva da Bíblia correspondente à realidade é irrelevante. O que realmente importa é seu poder de transformar a vida das pessoas para melhor. O foco não está na autoria da Escritura – divina ou humana – mas na autoria exercida pela Escritura sobre os leitores e nas respostas deles.
No entanto, surge naturalmente a pergunta: Se Deus não é de modo especial, ou sobrenatural, o autor maior da Escritura, por que crer que ela é inigualável ou especial? Por que outro livro não poderia ter um efeito de transformação espiritual e pessoal igualmente eficaz?
Rejeito uma visão liberal da Bíblia não porque sou um cristão ingênuo que desconhece a Alta Crítica, a Teoria Documental e outras calçadas no racionalismo anti-sobrenaturalista. Estou bem consciente de tais teorias, após tê-las estudado diversas vezes nos últimos 20 e poucos anos e não ter encontrado nelas nada de novo, somente uma repetição de velhas fórmulas e pressupostos construídos um em cima de outro sob a aparência de ciência da religião.
Finalmente, rejeito uma visão liberal da Bíblia porque considero tal visão incoerente com qualquer projeto de seguir Jesus que não passe do seguimento de um mero rabino judaico com alucinações messiânicas, que nunca fez nenhum milagre, foi vítima do Império Romano e cuja ressurreição é apenas uma forma de expressar que ele continua vivo na mente de seus seguidores. Quando se abre espaço para descartar trechos da Bíblia como se fossem meros mitos, abre-se espaço para que toda a Bíblia seja, pouco a pouco, descartada e perca qualquer autoridade de fé e prática. Se eu não acredito na travessia do Mar Vermelho, por que acreditaria na concepção imaculada de Cristo, em seus milagres, em sua ressurreição? Como alguém já disse: “Uma vez que permitamos que o verme corroa a raiz, não devemos ficar surpresos se os galhos, as folhas e os frutos, pouco a pouco, apodrecerem.”
John Stott disse:
Que sentido faz chamar Jesus de “Mestre” e “Senhor” para depois discordar dele? Sua visão das Escrituras deve tornar-se a nossa visão. (…) Toda a evidência disponível confirma que Jesus Cristo consentiu em sua mente e submeteu-se em sua vida à autoridade do AT… [Portanto] submissão às Escrituras é para nós, um sinal de nossa submissão à Cristo.
Norman Geisler concorda com isso ao dizer:
Como os estudiosos cristãos liberais alegam ser seguidores de Cristo, é inconsistente, da sua parte, rejeitar o que o próprio Cristo ensinou a respeito da Bíblia. Como existem firmes evidências, mais abundantes do que as que existem para outros livros da antiguidade, de que os documentos do Novo Testamento são historicamente confiáveis, um exame minucioso dos Evangelhos revela que Jesus ensinou que a Bíblia é a Palavra de Deus divinamente inspirada e portadora de autoridade. Então, como os liberais podem se considerar seguidores dos ensinos de Jesus, se negam um dos ensinos essenciais de Jesus, a saber, que a Bíblia é a Palavra de Deus? (Norman Geisler, Teologia Sistemática, p. 335)
Por estas razões e muitas outras é que rejeito uma visão liberal da Bíblia. Minha escolha por uma visão das Escrituras que honre seu caráter divino sobrenatural é uma escolha baseada na coerência intelectual com a fé que abracei, mais do que uma escolha de fé em si.
concordo plenamente: em poucas palavras desconstroe séculos de um humanismo sem Deus.
Se não for assim, não dá pra ser chamado de cristão.
Glórias ao Deus que é eternamente vivo e operante no meio dos homens.
Olá Sandro,
Já tinha passado pelo seu blog algumas vezes, mas essa é a primeira vez que paro realmente para ler. Talvez o rótulo emergente tenha me deixado um pouco “pé atrás”, uma vez que muito do que víamos sobre o movimento, propagando-se em blogs e sites, nao era bom. Na verdade, muito do que li na internet nos artigos de escritores emergentes tem uma forte dívida com o liberalismo. Seu blog foi uma exceçao. Aliás, ótima exceçao!
Espero visitar mais vezes e aprender por aqui. Sou missionário, e tenho aprendido muito com as perguntas dos emergentes, apesar de que, ao menos para mim, parece que muitas questoes sao, de certo modo, antigas e já debatidas desde muito por missiólogos.
Que Deus nos ajude a alcançar a geraçao pós-moderna com os pressupostos inegociáveis e sobrenaturais do cristianismo, adaptando o evangelho sem comprometer jamais a sua essência.
Paz e bem.
Olá Sandro,
Voltei como havia prometido. Queria te convidar a emitir sua opiniao nesse texto aqui:
http://pastorleonardogoncalves.blogspot.com/2010/07/igreja-emergente-o-que-e-isso.html
Pedi o mesmo ao amigo Jonas. As conclusoes vao me ajudar a escrever um artigo sobre a missao da igreja. Precisamos trazer a missiologia para o centro do debate, e envolver os pastores locais.
Aguardo seus comentarios.
Paz e bem.
PS: Nao precisa publicar este comentário. Escrevi aqui porque nao tenho seu e-mail.
Tambem acredito que a Biblia eh um livro soprado por Deus, que nao caiu do ceu, mas mesmo assim Ele controlou cada letra atraves de Sua Soberania.
No entanto nunca vi um argumento convincente contra a “Teoria Documental”, bons argumentos ja, mas convincentes…
E a autoria mosaica do pentateuco (tradicao judaica sobre um livro que nao foi assinado) eh contada como verdade e mantida por crentes atraves de pura negacao das varias evidencias contrarias.
Acredito em Deus e na direcao sobrenatural Dele na construcao da Biblia, mas eh tempo de buscarmos a verdade. E se as evidencias contribuem para acreditarmos que o texto [na perspectiva da autoria humana] eh fruto de uma edicao, nao vejo motivos pra mantermos crencas baseadas na tradicao.
Raul, obrigado pelo comentário. Não tenho certeza do que você tenha estudado sobre a Teoria Documental. Particularmente, após ter lido muito a respeito não encontrei evidências convincentes a favor dela (principalmente em relação a autoria/composição do Pentateuco), encontro argumentos calcados na ótica liberal das Escrituras, mas não evidências. Por outro lado, as evidências internas sobre a autoria mosaíca são bem fortes, em minha opinião.
Sandro,
Alguns pontos que pra mim deixa claro que Moises não escreveu a Torah no formato que conhecemos hoje:
1) O texto trata Moises como uma terceira pessoa.
2) A morte de Moises é um acontecimento histórico na época em que o texto foi escrito (Deuteronômio 34:6,10-12)
3) Acontecimentos a respeito dos reis de Israel são narrados como eventos históricos, não proféticos (Gênesis 12:6 e 36:31)
4) O tempo de deserto também é tratado como passado (Êxodo 16:35 e Números 15:32, note a característica de texto tradicional de Êxodo 15)
5) Dan já tinha posse da terra quando Gênesis foi editado (comparar Gênesis 14:14 e Juízes 18:29).
6) Israel já tinha tradição literária consagrada quando a Torah que temos em mãos hoje foi editada. O livro das Guerras do Senhor era um livro conhecido pelos leitores de Números (Números 21:14)
7) O Moises que tinha medo de falar em publico provavelmente não escreveu textos como Êxodo 11:3 e Números 12:3 sobre si mesmo.
Claro que vários trechos foram escritos por Moises (Ex 24:4; Nm 33:2;), mas não narrativas e sim as instruções (Torah ?) de Deus, já que seriam seguidas: “Todas as PALAVRAS, que o SENHOR tem falado, faremos. Moisés escreveu todas as PALAVRAS do SENHOR” (Ex 24:3,4)
Quando li o pentateuco pela primeira vez, com 12 anos, não conhecia a tradição de que Moises escreveu a Torah, pra mim era claro que o texto foi escrito muitos anos depois dos acontecimentos, já que Dan, que só foi aparecer capítulos posteriores já era nome de um território no capitulo 14 de Gênesis. Só depois conheci a tradição da autoria Mosaica, que passei a acreditar durante um tempo ate esbarrar com a Teoria.
As tabelas de JEPD e outros pontos da teoria (vocabulário, duplicações, contradições, etc) nem precisam ser avaliados para se chegar a conclusão que Moises não escreveu a versão final que temos em mãos.
Eu acredito que uma Torah escrita por vários autores não diminui o caráter histórico do texto, muito pelo contrario, a concordância entre os possíveis autores é maior que a “descordancia” (rs). A múltipla autoria também não diminui o caráter espiritual do texto, afinal, a própria Bíblia foi escrita por vários autores.
Eu realmente gostaria de ouvir argumentos sinceros e honestos contra a Teoria. Tratar trechos históricos como os que listei nos pontos 3 e 4 de maneira profética, eu acho artificial… outro argumento muito usado – que eu considero artificial – é dizer que Jesus disse que a Torah foi escrita por Moises. Ora, trechos foram escritos por Moises e o livro como um todo era chamado de “Moises”, mas dizer que por causa disse Jesus afirma que o Pentateuco foi escrito por Moises sozinho não parece coerente. É coerente dizer que a Torah, as instruções de Deus no Pentateuco foram escritos por Moises.
Raul, obrigado por postar os pontos acima. Como eu disse antes, já li bastante sobre isso e, portanto, estou familiarizado com estes (e outros) pontos. Creio que Archer respondeu a todos eles em seu clássico A Survey of Old Testament Introduction (que li há muitos anos). Realmente não encontrei nada de novo que não tenha sido respondido no livro de Archer citado acima (se você souber, estaria curioso em conhecer). Além das respostas a estes pontos, os argumentos de Archer a favor de um composição mosaíca do Pentateuco me parecem muito mais difíceis de serem descartados. Creio que basicamente você tem que fazer um escolha: ou acredita que o livro foi escrito tardiamente (Teoria Documental) com uma agenda política de unir uma nação em torno de estórias e mitos fabricados com esse propósito, ou acredita que o livro foi escrito bem mais cedo por Moisés (admitindo que os copistas/escribas poderiam ter feito pequenos acrescimos no texto). Com todos os argumentos que já li, a segunda hipótese me parece ser mais coerente.
Abs
Nunca li o livro de Archer, mas já li textos que o usam como fonte.
Procurei então nos trechos em espanhol disponíveis no Google Books quais argumentos ele usa para sustentar a autoria de Moises, o que questionei no post. Peço desculpas pelos prováveis erros de tradução do espanhol.
Archer lista três principais argumentos em “O testemunho das escrituras com respeito a autoria de Moises”:
1. “O próprio Pentateuco diz que foi composto por Moises”: pra defender isso ele usa textos sobre um registro de guerra (Êxodo 17:14 – livro das guerras do senhor?), registros de instruções (ordenanças, [lei?] Êxodo 34:27 Êxodo 24, já citei) e um registro de jornadas (Números 33). Note que só o fato desses trechos não narrarem algo como “Deus mandou Moises escrever a criação do céu e da terra em um livro”, já deixa claro que os livros listados como registros de Moises não é o Pentateuco que esta sendo escrito no momento. São textos separados em sua composição com conteúdo especifico.
2. “Existem referencias a Lei de Moises em outros livros do antigo testamento”: pra defender isso ele usa uma longa lista de referencias no velho testamento. O problema é que não significa que a lei de Moises naqueles tempos é o Pentateuco como existe hoje. Nenhuma citação garantiria que nosso Livro fechado é o Texto fechado da época. Garantira no máximo que a citação esta em nossa compilação.
3. “Também o novo testamento atesta a paternidade de Moises”: já comentei sobre isso. Os autores do Novo Testamento não eram oniscientes e as citações de Jesus não são suficientes pra garantir a autoria de todo o texto na forma de hoje.
Em um segundo grupo de evidencias ele lista como o texto mostra particularidades da terra, detalhes da narrativa e como o texto mostra a visão de um estrangeiro, linguagem arcaica… Nada que garanta a autoria de Moises do nosso atual Pentateuco.
No inicio do capitulo 6 quando ele introduz a Documentary Hypothesis e os primeiros argumentos de Baruch Spinoza. Um rodapé chama a atenção: “Quanto a nota de morte de Deuteronômio 34, não tem a pretensão de ter sido escrita por Moises e foi, sem duvida alguma, agregada por Josué ou algum outro contemporâneo. Não há duvidas quanto a autoria Moisaica do resto de Deuteronômio, que clama ser escrito por Moises.”
Eu não acho honesto dizer que todo o resto do livro foi escrito por Moises em terceira pessoa e a sua morte foi “anexada” a obra de Moises. A Logica é sacrificada em nome da Tradição.
A visualização parcial do livro não me permite avaliar a opinião de Archer sobre os outros pontos que listei, mas creio que você já esclarece quando escreve “(admitindo que os copistas/escribas poderiam ter feito pequenos acréscimos no texto)”. Acho bem mais aceitável que os copistas/escribas criaram o Pentateuco com base em alguns registros de Moises.
Não concordo com sua conclusão de que devemos escolher entre a Teoria no formato Wellhausen (como um livro de religião que evoluiu do animismo ou livro de manipulação politica) ou a autoria Mosaica. Devemos somente entender a diferença entre a narrativa e a lei em si, como entendemos a diferença entre as narrativas do Evangelho e a doutrina de Cristo. Mas concordo que existe uma escolha, pena que muitas vezes ela não é baseada na logica.
Rui, realmente não tenho a intenção de transformar estes comentários em um debate sobre este assunto…rs
Mas pense bem: Os teoristas apontam Deuterônomio como sendo uma composição tardia, mas Deuteronômio é quase todo composto de leis e instruções (que você admite terem sido escritas por Moisés). Então Deuteronômio foi ou não escrito por Moisés? Por que não existe lógica em dizer que Moisés teria escrito o livro em terceira pessoa e os detalhes de sua morte terem sido acrescentados posteriormente? Qual a dificuldade nisso? A lógica me diz que é justamente por estar escrevendo em terceira pessoa que Moisés poderia ter escrito acerca de si mesmo do modo que você citou nos versos acima.. Se houve uma grande edição e composição como defendem os teoristas, quando aconteceu? Por que não foi reportada sendo que tratava do Livro da Lei? Os teoristas diriam que evidentemente não foi reportada por ser uma espécie de conspiração política. Seria possível acreditar nisso e ainda acreditar na inspiração divina, como você disse que acredita? Essa conspiração teria sido guiada e omitida por Deus? Qual o propósito? Como explicar as questões de familiaridade com o terreno (geografia) expostas nas narrativas (e apresentadas por Archer) por pessoas vivendo séculos depois? Falando das teorias das “fontes”, como explicar que não existe nenhuma evidência arqueológica de tais “fontes”? Eu poderia continuar… Mas como disse, em tudo que li até hoje não encontrei nada que fosse consistente e convincente para fazer mudar meu ponto de vista. Sigo portanto a tradição (que outra alternativa tenho quando se trata de autoria de textos tão antigos quanto o Pentateuco?), mas uma tradição que remota ao próprio Jesus, um judeu que se referiu ao Pentateuco como Lei de Moisés (ele estava se referindo a todo o Pentateuco ou Torá e não a “algumas leis”, visto que as divisões que ele fez são equivalentes às divisões da Bíblia Hebraíca). Seria Jesus ignorante sobre o assunto ou simplista? Estaria ele seguindo a tradição de quem? Sinceramente, é a lógica e não a tradição, que me leva a seguir essa linha de raciocínio. Abs
Sandro,
Meu ultimo post sobre esse assunto. Já percebi que não é sua intenção usar o espaço pra debater, mas não podia perder a oportunidade.
Acredito que Moises escreveu instruções, registros de jornadas e registros de guerras. Isso não significa que todas as instruções foram escritas por Moises, mas sim que Moises escreveu instruções. Mesmo porque existem contradições dentro das instruções, como o motivo do sábado (Êxodo 20:11; 31:17 / Deuteronômio 5:15). Não é um tipo de contradição que invalida o texto, mas que mostra mais de um autor de maneira semelhante as diferenças entre os evangelhos. Então essa visão de Deuteronômio não pode ser tao simplista. Deuteronômio foi manipulado? Não sei. Sei que um culto baseado na centralização só aparece depois da reforma de Josias. Samuel que falava com Deus estava descumprindo a Torah?
A dificuldade de acreditar que Moises escreveu em terceira pessoa e alguém anexou o relato de morte no final, é porque tudo antes do final esta repleto de referencias a eventos futuros como sabemos. Ai pra justificar, surge outro artificio que é a atualização dos escribas e vira uma bola de neve que não para de crescer…
Quando aconteceu a edição é difícil especificar, mas tanto o Talmud como 4 Esdras afirmam que Esdras de certa forma reescreveu a Torah, e é certo afirmar o formato atual do Pentateuco na era do Segundo Templo. Só a possibilidade dos eruditos encontrarem traços das diversas fontes já deixa claro que quem compilou a versão FINAL do texto, fez com extrema reverencia.
“Os teoristas diriam que evidentemente não foi reportada por ser uma espécie de conspiração política. Seria possível acreditar nisso e ainda acreditar na inspiração divina, como você disse que acredita? Essa conspiração teria sido guiada e omitida por Deus? Qual o propósito? ” essa frase é interessante porque como cristãos acreditamos que a maior conspiração politica foi guiada por Deus:
“Depois os principais dos sacerdotes e os fariseus formaram conselho, e diziam: Que faremos? porquanto este homem faz muitos sinais. Se o deixamos assim, todos crerão nele, e virão os romanos, e tirar-nos-ão o nosso lugar e a nação. E Caifás, um deles que era sumo SACERDOTE naquele ano, lhes disse: Vós nada sabeis, Nem considerais que nos convém que um homem morra pelo povo, e que não pereça toda a nação. Ora ele não disse isto de si mesmo, mas, sendo o sumo sacerdote naquele ano, profetizou que Jesus devia morrer pela nação.” – João 11:47-51.
Agora isso não justifica a leitura de Wellhausen, que não considera a natureza espiritual do texto. O propósito da Lei é ser um aio, e o do Evangelho é revelar a Verdade.
Não vejo como o conhecimento geográfico nas narrativas garantem a autoria mosaica.
Verdade que não existem quatro documentos separados do Pentateuco, mas os manuscritos do Mar Morto nos dão alguma pista sobre o assunto. Os dois motivos do sábado por exemplo, aparecem juntos em um texto de Deuteronômio (4QDtn). O capitulo 22 de Gênesis é atribuído pelos eruditos da hipótese a fonte “E” (inicio da fonte Elohista), e isso era questionado já que o texto usa o tetragrama no titulo “Iavé provera” (“YHWH Yireh”). No entanto, o texto de Gênesis em um dos pergaminhos do Qumran (4Q1) usa “Elohim Yireh”. Essas pequenas diferenças entre o texto pai do
Massorético e o texto dos sectários Essênios em dois pontos chaves pra hipótese, mostram como alterações mais significativas (como a compilação) podem ter ocorrido entre a era Mosaica e o inicio da era do segundo templo.
Se os evangelhos se perdessem como os documentos essênios e construíssemos uma tradição sobre a Diatesseron? Alguém aparece e sugere que o texto é uma composição… vale a tradição que não pode ser questionada pela logica? Sei que é confortável justificar que “Jesus disse que a Lei é de Moises”. Também sei que ele nos mandou buscar a verdade, e que não teria feito uma releitura tao radical como Mateus 5 se não tivesse confrontado a tradição. E claro, cumpriu sim a Lei (Dt 21:23, Jo 19:30)
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[...] o original aqui. [...]