Um dos argumentos usados por aqueles que enxergam na instituição o grande inimigo da comunhão com Cristo é o conceito que instituir é uma tentativa de preservar e, consequentemente, resistir a mudanças. Evidentemente isto choca-se com a imagem orgânica da Igreja apresentada no NT. Mas será o instinto de preservar intrinsecamente mal? Será que instituir é resistir a mudanças, engessar o organismo?
O instinto de preservação é natural nos seres vivos. Se a igreja é um organismo vivo, não seria natural que ela tivesse este instinto? E quando pensamos em corpo e organismos vivos, preservar não significa resistir à mudanças. Pelo contrário, é justamente por seu instinto natural de preservação que muitos organismos passam por constantes mudanças.
O corpo na visão cristã é muito mais do que um simples invólucro da vida. Por mais que alguém se empenhe em preservá-lo, não permanece o mesmo, mas passa por mudanças desde o seu nascimento até a morte. Da mesma forma a igreja, corpo local de crentes, possui um instinto de preservação natural em seu espírito comunitário, mas é incapaz de impedir que mudanças aconteçam à medida em que o corpo cresce e amadurece.
O cientista político Hugh Heclo em seu livro On Thinking Institutionally diz algo interessante sobre a relação entre preservação e mudanças: “Quando pensamos institucionalmente, as decisões atuais são feitas com uma consciência contínua de que estamos desfrutando os frutos de algo que pertence a antecessores e sucessores. Portanto, ainda que mudanças sejam inevitáveis, o reconhecimento de suas implicações é integrado por um forte apreço pelo que passou antes que você estivesse aqui e o que virá depois que você se for.”
Ao insistirmos no conceito de que para ser igreja de verdade precisamos nos livrar da instituição que a cerca, o que estamos dizendo é que a vida é algo que pode (e não só pode, mas deve) ser vivida fora do corpo. A instituição é a matéria má que sufoca o espírito (o livro que mata a borboleta) e, por isto, precisamos nos livrar dela. Esta idéia é tão velha quanto o gnosticismo com sua visão dualista e maniqueísta da vida. E não condiz com as realidades da vidas.
O corpo humano é, de certa forma, uma instituição. Como destacou Bonhoeffer, o corpo possui articulações e ordem. Seus órgãos desempenham funções rotineiras, obedecem a regras próprias internas e dependem de horários externos estabelecidos para um viver saudável e equilibrado. Há até mesmo uma certa “hierarquia” entre os diversos sistemas e membros do corpo que permite sua funcionalidade e vitalidade.
Você pode viver sem um dedo, sem uma mão ou mesmo sem todo o braço (talvez até sem ambos os braços e pernas em casos extremos, apesar de ficar bastante limitado em suas funções e bastante dependente de ajuda). Mas não é possível viver sem a cabeça, sem o tórax e sem nenhum dos órgãos vitais, visto que a relação entre eles é de interdependência. Talvez seja por isto que o apóstolo Paulo tenha utilizado a imagem do corpo para expressar sobre o funcionamento da igreja, seus membros e a diversidade de dons e funções.
O teólogo dominicano francês Yves Congar diz: “A categoria Povo de Deus permite afirmar, de uma só vez, a igualdade de todos os fiéis na dignidade da existência cristã e a desigualdade orgânica ou funcional dos membros [...]. A esse respeito, a noção de corpo prestaria os mesmos serviços que a de povo. Temos sempre um conjunto de membros que vivem e atuam, que participam da vida do corpo, e uma estrutura de funções, tendo uma cabeça para assegurar a unidade do todo.”
O mesmo é sustentado por Juan Antonio Estrada: “A comunidade é um corpo coeso e articulado, que mantém a unidade nas diferenças, contra o individualismo que busca uma relação privativa com Deus. [...] Todos somos iguais em dignidade, a dignidade cristã, dada pelo batismo; todavia, nem todos temos a mesma função na Igreja, mas cada um tem seu ministério e seu carisma específico.”
Nas realidades da vida, a própria linguagem, ou seja, o meio pelo qual nos expressamos, é uma instituição. E, prova de que instituição não significa necessariamente algo engessado, a linguagem é viva e, portanto, passa por mudanças, assume novas regras e novas expressões.
Você quer se ver totalmente livre de instituições? Não basta abandonar a igreja, não se casar no civil, não ter conta bancária, CPF, RG, carteira de trabalho, título de eleitor ou qualquer forma de contrato social. Você não pode falar, escrever e se comunicar tampouco.
Livrar-se de instituição é, de certa forma, desencarnar, deixar de viver, de se comunicar, de servir, de se relacionar, pois todas estas coisas, de alguma forma, estão cercadas por instituições.
Continua na Parte 3.

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A instituição é importante, se ela tiver essa capacidade de aceitar a mudança. Na prática, toda tentativa de mudança, normalmente, produz rupturas e até divisões, por falta dessa capacidade.