
Esta semana o Brasil assistiu o STF no julgamento histórico sobre o aborto de anencéfalos, em meio ao debate caloroso, na mídia e redes sociais, de pessoas totalmente contrárias, passando por posições favoráveis até as basbaquices feministas do tipo “a mulher é dona do seu próprio corpo”.
O aborto de anencéfalos, assim como nos casos de estupro e quando há risco de vida para a mãe (os três agora amparados pela legislação brasileira) é um tema complexo que envolve a questão do valor da vida humana. E o que mais senti falta nas discussões e comentários foi exatamente este senso de valor da vida. Parece-me que os favoráveis ao aborto precisam destituir o feto (que do latim significa “pequenino”) de qualquer valor humano para justificarem sua posição. Como se diminuindo o valor deste minúsculo ser humano em formação, aliviasse a consciência (não estamos matando uma vida humana, apenas descartando um feto, que sequer possui potencial humano). Não reivindico ter resposta para questão de tamanha complexidade como esta, mas me recuso a aceitar os argumentos de que a vida de um feto é destituída de valor como ser humano em desenvolvimento. A evolução da ciência, que nos dá o privilégio de acompanhar tal desenvolvimento desde seus primeiros estágios, não nos permite mais tal crendice. Não é necessário fé para admitir algo que podemos ver com nossos olhos através dos modernos exames laboratoriais.
Além do mais, considero tal ética extremamente perigosa. Me faz lembrar as imagens de centenas de corpos de judeus, empilhados numa vala comum, como se fossem lixo. Tal holocausto só foi possível porque os nazistas conseguiram convencer os alemães, de que os judeus não tinham valor humano, de que eles, na verdade, não eram pessoas.
Os que são contrários ao aborto são acusados de fanatismo religioso de extrema direita e de serem insensíveis para com as mães que carregam no corpo um feto anencéfalo que tem mínimas chances de sobreviver (e, caso, sobreviva, poderá não falar, não andar, não enxergar. etc). Por outro, parece-me que, na defesa do direito ao aborto de anencéfalos, há também uma tremenda insensibilidade para com a própria vida, que passa a ser tratada como algo que possamos simplesmente descartar como se fosse um apêndice.
A vida é sagrada e precisa ser protegida desde o seu estado embrionário até a velhice e morte. E os casos complexos que coloquem em cheque tal proteção, precisam ser avaliados com um senso de reverência pela vida, e não com a frieza com que os extremos opostos desta discussão parecem demonstrar.