Rob Bell, céu e inferno

Ouvi falar sobre Rob Bell pela primeira vez em 2005. Estávamos reunidos com a equipe do No Longer Music para sua turnê em São Paulo naquele ano, quando um dos integrantes chamou minha atenção para um video que ele queria que eu assistisse. Tratava-se de Luggage (bagagem), um dos videos da série Nooma, do Rob Bell, cuja mensagem era sobre a necessidade de perdoar. Naquele mesmo dia assisti também Rain (chuva) e Lump (caroço). Fui cativado de imediato pela produção profissional dos curtas (um amigo norte-americano me diz que o primeiro Nooma custou mais de 100 mil dólares) e pela habilidade de comunicação de Bell. Naquele mesmo ano, numa viagem aos EUA, comprei todos os DVDs da série Nooma disponíveis até então, e também o primeiro livro de Bell, Velvet Elvis (publicado no Brasil sob o título Repintando a Igreja). Apesar de discordar de vários trechos do livro (por exemplo, a insinuação de que a concepção virginal de Jesus não é relevante para a fé cristã), dei boas-vindas aos questionamentos, justamente porque eu também estava passando por uma fase de questionamentos com relação a maneira de ser igreja.

Confesso que, na época, me tornei um admirador de Rob Bell. Nos dois anos seguintes, exibimos quase todos os Noomas em reuniões de oração e reflexão do Projeto 242. Li os outros livros de Rob Bell assim que saíram em inglês e cheguei comentar minhas impressões sobre eles neste blog (1, 2 e 3).

No ano passado, em meio a grande controvérsa que seguiu o video viral anunciando a publicação de Love Wins, eu estava numa fase de tremendo desgosto com a influência negativa que o velho liberalismo teológico e neo-liberalismo, sorrateiramente invadindo a igreja evangélica a partir das faculdades de teologia, havia causado na vida de pessoas que conheço. Portanto, minha reação inicial foi de desgosto. Deduzi de imediato que as insinuações de salvação universal e de um inferno vazio fossem consequências lógicas da influência teológica liberal que eu já havia notado nos escritos de Bell, principalmente no livro Jesus Quer Salvar Seus Seguidores.

Todavia, a despeito do meu desgosto, assim que Love Wins (O Amor Vence) saiu, comprei em audiobook, narrado pelo próprio Rob Bell, uma vez que, sendo um excelente comunicador, ouvi-lo é bem melhor do que lê-lo. Posteriormente, encomendei uma cópia do livro em paperback. Ouvi e li o livro várias vezes. Reproduzi no blog dois trechos que gostei (1 e 2). Li as diversas críticas. Assisti entrevistas. Ouvi podcasts. Troquei ideias sobre o livro com um amigo que respeito muito, professor de teologia do NT e diretor de uma faculdade teológica nos EUA. Uma de suas observações ficou em minha mente. Ele disse que Rob Bell é um artista, não um teólogo acadêmico. Sua teologia é como uma pintura com traços largos, isto é, uma visão geral sem muita atenção aos detalhes. Foi algo que tentei considerar ao ler e refletir sobre O Amor Vence. Mas ainda assim, o desgosto permaneceu.

O fato é que O Amor Vence é, em sua maior parte, um livro mais de questionamentos do que de respostas. Mas qual a motivação das perguntas, senão uma tentativa clara que Bell faz de desmoralizar a mensagem cristã tradicional sobre o inferno como algo escandaloso, ilusório e, de certo modo, repugnante?

Recentemente, na entrevista que Rob Bell concedeu à revista Veja, ficou claro a confusão e contradição que já transparecia nas entrevistas dadas por ele logo após a publicação de O Amor Vence (talvez a mais embaraçosa delas tenha sido para Martin Bashir da NBC, que pode ser vista aqui). Em sua ânsia para tornar a mensagem do Evangelho mais revelante ao homem pós-moderno, Bell tornou-se um pregador da conveniência, bem no espírito da espiritualidade de botique de nossos dias.

Confesso que fiquei preocupado com O Amor Vence e com a influência negativa que a mensagem de Rob Bell possa ter na vida de muitas pessoas. Não porque tenho prazer em pensar, falar, estudar, tentar entender, etc., o inferno. Meu desejo seria poder dizer: Pro inferno com o inferno! Todavia, como seguidor de Jesus, não posso ignorar o fato de que ele falou, muitas vezes e de muitas maneiras, sobre a realidade da vida após morte e as consequências das escolhas pessoais. Não acredito que as imagens sobre o inferno usadas por Jesus devam ser interpretadas literalmente. Como disse Tim Keller, elas são figurativas… para algo tremendamente mais horrível do que o fogo e enxofre! Afinal de contas, se o inferno significar uma separação plena e definitiva da presença de Deus, o que poderia ser mais terrível do que isso?

Gostaria que todos que lessem O Amor Vence, pudessem ler também Apagando o Inferno de Francis Chan e Preston Sprinkle. Não publicado em português, mas também excelente, é Christ Alone: An Evangelical Response to Rob Bell’s Love Wins, por Michael Wittmer e Michael Horton. Ambos os livros apresentam argumentos sólidos e expõem os erros exegéticos de Rob Bell sobre o inferno.

Como já disse, não tenho prazer em falar sobre o inferno. Quero ser mensageiro de amor, fé e esperança. Quero seguir o ministério da reconciliação, rogando a todos os homens que se reconciliem com Deus. Mas porque eu deveria rogar aos homens que façam isso? Pelo simples fato de que as Escrituras são claras em dizer que os homens não estão, por default, reconciliados com Deus e que a reconciliação só é possível por meio de Cristo.

Penn Jilette, ilusionista e comediante norte-americano ateu, em um video no YouTube (em inglês aqui), faz um comentário interessante sobre algo que, acredito, tem tudo a ver com a questão do por quê, como cristão, devo alertar as pessoas sobre o inferno e as consequências de suas escolhas. Após contar a história de um homem cristão que deu-lhe uma Bíblia ao final de um de seus shows, num gesto claro de proselitismo, Jilette diz o seguinte:

Eu não respeito pessoas que não proselitizam. Se você crê que existe um céu e um inferno e que pessoas poderiam estar indo para o inferno, ou não recebendo a vida eterna ou algo assim, e se você pensa que não vale a pena dizer isso para as pessoas para não ser visto como um incómodo social… quanto ódio você precisar ter por alguém, ao acreditar que a vida eterna é possível, e não falar sobre isso para as pessoas?

David Hansen, em seu excelente livro A Arte de Pastorear: Um Ministério Sem Todas as Respostas, conta sobre o período em sua vida de pastor e pregador do Evangelho, em que ele também começou a duvidar da existência do inferno. Em vez disso torná-lo uma pessoa mais engajada com o social e mais amorosa, fez exatamente o contrário. Ele quase perdeu o ministério e quase se perdeu também. Então ele se arrependeu de ter permitido que as perguntas e questionamentos assumissem controle de sua vida e voltou a falar sobre as realidades do céu e inferno para seus ouvintes. Seu ministério na igreja local voltou a florescer. E seu engajamento social ficou mais forte.

Falar sobre as realidades da vida após a morte e sobre as consequências das escolhas que fazemos nesta vida pode ser simplesmente um ato de amor.

***

Abaixo está um série de links de artigos escritos sobre O Amor Vence e a entrevista que Rob Bell deu às páginas amarelas da Veja.

O Inferno em que Rob Bell se meteu – Augustus Nicodemus

A Torre de Babel de Rob Bell – Misael Nascimento

Rob Bell, os evangélicos e suas representações de céu e inferno – Jonathan Menezes

Interações com a Entrevista de Rob Bell a Veja – Allen Porto

Can Hope Be Wrong on New Universalism – James K. A. Smith

A Chronology on Rob Bell On Hell

11 Comments

  1. Daniel November 30, 2012

    Um dos melhores (se não o melhor) artigos que li sobre toda essa celeuma envolvendo o Bell.

    Talvez por todo o processo de seguir os passos de Bell e ter acompanhando as fases de seu ministério.

    Muito bom o artigo, muito legais também os links inseridos nele!

  2. Rene November 30, 2012

    Ola Sandro conheço um pouco sobre o seu trabalho no projeto 242, parabéns pelo texto, atualmente é o mais sincero, e coerente que li sobre o livro de Rob Bell.

  3. Emmanoel Messias November 30, 2012

    O livro do Francis Chan – Apagendo o Inferno citado no texto já se encontra disponível em português. http://bit.ly/ApagandoOinferno

  4. [...] Rev. Sandro Baggio postou suas percepções sobre Rob Bell, indicando também outros textos que eu não conhecia, disponíveis lá. Voltemos às [...]

  5. [...] Já em O Amor Vence, como diz Sandro Baggio (que também leu todos os livros do Bell), o livro se trata, em sua maior parte, mais sobre um livro de questionamentos do que de respostas, embora na concepção do Baggio a motivação das perguntas é feita de maneira tendenciosa sendo “uma clara tentativa de desmoralizar a mensagem cristã tradicional sobre o inferno”. (Você pode ler mais sobre o que o Sandro pensa a respeito do livro aqui) [...]

  6. [...] Sandro Baggio fala sobre como deixou de ser um admirador de Rob Bell. [...]

  7. Fabiana Souza December 5, 2012

    Sandro, abaixo, um dos artigos mais esclarecedores a respeito dessa entrevista, na minha opinião. Artigo do Rev Augustus Nicodemos, da Igreja Presbiteriana do Brasil.

    http://tempora-mores.blogspot.com/2012/11/o-inferno-em-que-rob-bell-se-meteu.html

  8. Sandro December 10, 2012

    Fabiana,
    Se você olhar os links abaixo do meu texto, encontrará o do Dr. Augustus Nicodemus logo no início.
    Abs

  9. Ana February 4, 2013

    Olá Sandro!

    Cheguei aqui pesquisando informações sobre o “O Amor Vence”.

    Rob Bell, assim como tantos outros escritores a meu ver, não podem ser usados como uma norma, afinal seus escritos refletem apenas o próprio entendimento do autor. Por isso, conjecturarmos a respeito de sua obra não quer dizer que consigamos refletir sua intenção. Quando damos “nosso” ponto de vista, estamos lançando mais uma teoria embasada apenas em nossas crenças ou nos princípios em que ela esta alicerçada.

    No “meu” ponto de vista, Bell quis dizer algo assim: – o inferno como se pinta, não existe! Ou seja, a maior punição para os “perdidos” será o término de sua existência, de uma vez só, não num fogo que arde pra sempre. Pensar em um fogo que arderá eternamente, para mim, é contra o caráter de um Deus de Amor, que ama o pecador, mas abomina “o pecado”. E será o “mal” a causa do pecado que será eternamente banido, pelo fogo que o exterminará “para sempre” ou seja, eternamente.

    Li outra vez um artigo que explicita esse meu pensamento de uma forma embasada em fontes bíblicas, segue o link pra sua apreciação:
    http://www.criacionismo.com.br/search?q=inferno&submit=Ok

    Com estima cristã, Ana.

  10. Sandro March 4, 2013

    Ana,
    Devemos ser gratos a Deus que ele não nos deixou às escuras quando o assunto é o destino daqueles que escolhem ou rejeitam sua salvação. A Bíblia é clara como o sol ao meio dia quando fala sobre a continuação da existência tanto dos justos como dos ímpios. Até mesmo o Rob Bell enxerga isso em seu livro. Ela não nega a existência após a morte e nem mesmo que os ímpios possam ir para o inferno (na entrevista dada à Veja, ele deixou claro que gente como Hitler mereça o castigo). O que ele diz (fruto de uma exegese falha) é que as pessoas terão infinitas chances de acertar e escolher o amor. Mas isso é, mas melhor das hipoteses, mera especulação teológica.
    Abs

  11. Paulo Arend April 7, 2015

    Sandro,
    Eu lí o Amor Vence, do Rob Bell. Gostei da abordagem dele, ao dizer, em outras palavras, que o céu já é, em parte, real aqui, na Terra. Penso também se para alguns, de certa forma, o inferno já não é real, aqui, e agora. Como por exemplo para uma criança Síria, ou um idoso no Iêmen, ou um preso político na Coréia do Norte ou mesmo um brasileiro preso no medieval sistema penal que temos.
    Porém, me parece que a mensagem bíblica fala sim de um inferno eterno. O que é aterrorizante de certa forma.
    É muito difícil comparar Deus ou Jesus com qualquer um de nós. Mas temos que fazer isso, se quisermos compreender melhor Deus. Tento entender Deus olhando para Jesus. Jesus foi um pregador do Amor, da paciência, do perdão, do ir até as últimas consequências para resgatar alguém (ele não deu um soco em Judas quando soube da traição, antes o beijou). Outra maneira que, ingenuamente e de certa forma tosca uso para entender Deus, é me vendo na figura de pai. Eu tenho um filho pequeno, de três anos. Não consigo imaginar-me condenando meu filho eternamente, ou colocando ele em um lugar para sofrimento eterno. Em nenhuma hipótese consigo imaginar isso. Então, como pode Deus, que nos ama muito mais do que amamos nossos filhos, condenar pessoas para um fim eterno em um fogo inestinguível?
    Enfim eu creio em Jesus, sou cristão, mas estas questões sobre céu e inferno são bastante complexas. Não acho que Rob Bell seja um falastrão ou tenha má fé, ele apenas colocou um ponto de vista, que é compartilhado por muitas pessoas que tem dúvidas sobre a questão do inferno.
    Quero ler o livro do Francis Chan que trata do mesmo tema.
    Finalizo dizendo o seguinte: embora existam dúvidas sobre céu, inferno e o destino das pessoas “para sempre” ou eternamente, creio que o dia mais importante do mundo seja o dia chamado hoje, pois é agora que podemos amar, perdoar e fazer as pessoas verem um jeito diferente de se portar, atraindo-as para Jesus. Me sinto responsável por isso também, e vejo que a maior falha dos dias de hoje dos cristão seja um portar-se diferente, de tal maneira, que as pessoas sentissem uma atração irresistível em conhecer melhor qual o motivo desse novo comportamento, sem uma panfletagem político/evangélica como é feito hoje em dia.
    Obrigado.
    Abraços.
    Paulo Arend

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