Os ricos sempre tereis convosco (versão beta)

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A relação do cristão com o dinheiro parece condenada a posições extremas. Conheço cristãos que pregam e ensinam que o dinheiro deve ser buscado como sinal da bênção e aprovação de Deus. Para eles, a vida do cristão verdadeiro e cheio de fé deve ser cada vez mais próspera financeiramente. A riqueza é motivo de celebração por parte de um povo que foi escolhido para ser “cabeça e não cauda” e, portanto, comer “o melhor desta terra”. Por outro lado, conheço cristão que abominam tal ideia, denunciando-a como uma distorção da Bíblia e consequência de uma Igreja contaminada pelo capitalismo materialista. Para estes, o dinheiro é a raiz de todo mal que existe no mundo, e a verdadeira espiritualidade só é possível por meio da pobreza voluntária. Ironicamente, apesar de suas críticas, boa parte deles não são exatamente o que poderia se chamar de pobres. Sob forte influência marxista, muitos destes cristãos passam a ideia de que tudo que precisamos para ter um mundo com mais igualdade social é uma redistribuição da riqueza.

Tony Campolo, introduzindo o capítulo How To Be Rich And Still Be A Christian (Como ser rico e ainda ser cristão) do seu livro Following Jesus Without Embarrassing God (Seguindo Jesus sem envergonhar Deus), contesta a ideia que diz que riqueza e pobreza é uma mera questão de distribuição da renda:

John Perkins, um líder [norte-americano] na criação de programas de desenvolvimento econômico para os pobres, sustenta a ideia de que não resolvemos os problemas associados a desigualdade econômica por meio de uma mera redistribuição da riqueza: “Mesmo se redistribuíssemos toda riqueza de maneira igual, dentro de alguns anos, os ricos teriam tudo de volta”, diz ele. Há uma evidência empírica sustentando essa declaração do John. Após a Segunda Guerra Mundial sob o Plano Marshall, cada cidadão da Alemanha recebeu o equivalente a cinquenta dólares. De certa forma, todo mundo na Alemanha tinha sido reduzido, o máximo possível, ao mesmo nível de riqueza/pobreza. Mas dentro de 10 anos, 90 por cento da riqueza da Alemanha estava concentrada nas mãos de 5 por cento da população. O ponto feito por John Perkins é que ser rico não é apenas ter dinheiro; é saber como “fazer” dinheiro. E o rico sempre sabe como fazer isso.

Se Campolo e Perkins estão certos (acredito que estão), talvez seja essa a razão pela qual a Bíblia assume o fato de que, ao menos nesta era, sempre haverá ricos e pobres, e conduz a uma ética onde os ricos sejam solidários e justos no trato para com os pobres.

Richard Foster, em seu livro Dinheiro, Sexo e Poder, apresenta esses temas como três tentações clássicas na vida e convoca os cristãos a considerarem as disciplinas da simplicidade, pureza e humildade, como uma maneira de resistir a elas. Ao tratar da questão do dinheiro, Foster reconhece que há uma face luminosa (o dinheiro como bênção) e outra sombria (o poder sedutor do dinheiro, onde o dinheiro assume a figura de uma potestade, um deus – Mamon).

A face luminosa é indicada também por Craig L. Bloomberg, professor de Novo Testamento do Seminário de Denver no Colorado, EUA, em seu livro Nem Riqueza Nem Pobreza:

As posses materiais são um bom dom de Deus dado para que seu povo as aprecie. Isso é deixado claro desde a criação do mundo material por Deus destinado para o bem, de seu desejo que todos tivessem acesso a pelo menos uma pequena parte de propriedade e do fato de que as posses materiais, na aliança de Deus com Israel, são uma bênção pela obediência. Ao longo do Antigo Testamento, Jó, Abraão, Davi, Salomão e diversas outras figuras demonstram que riqueza e santidade podem coexistir pelo menos por um tempo. A literatura proverbial oferece riquezas como recompensa pelo trabalho benéfico. O Novo Testamento, da mesma forma, reconhece um crescente número de cristãos prósperos ao longo da história primitiva do cristianismo que recebem as igrejas em suas casas, fazem viagens de negócio e financiam ministros itinerantes (incluindo Jesus e sua trupe original). A comunidade de discípulos não divide os próprios recursos materiais entre si para todos serem igualmente pobres, mas para não haver nenhum necessitado entre eles (At 4.34). Até mesmo nos cenários mais difíceis, os luxos que podem levar à perdição e ao demoníaco (Ap 17-18) estarão disponíveis para o povo redimido de Deus em uma era muito material por vir (Ap 21-22). (BLOOMBERG, p. 243-244)

Em O Homem e o Dinheiro, Jacques Ellul trata da “face sombria”, apontando para o caráter sagrado que o dinheiro adquire para as pessoas. Ele diz:

A manifestação do caráter sagrado que o homem atribui a seu dinheiro é, ainda, a potência espiritual desse Mamon. Não se trata aqui do fato de que haja ídolos travestidos simbolizando o dinheiro, mas muito simplesmente que, para o homem moderno, o dinheiro faz parte de seu “sagrado”. As relações de dinheiro são, nós o sabemos bem, as “coisas sérias” para o homem moderno; todo o resto – o amor, a justiça, a sabedoria, a vida – são palavras. Da mesma forma, o homem evita falar de dinheiro. Fala-se de negócios, mas quando, em uma salão, fazemos uma pergunta sobre o dinheiro, cometemos uma indiscrição insuportável, e é exatamente esse embaraço que exprime, na realidade, o sentimento do sagrado. Isso, para a burguesia. Na classe operária, encontramos o mesmo sentimento, mas sob um outro aspecto: é a convicção generalizada de que, se a questão do dinheiro for resolvida, todos os problemas do operário e do homem em geral serão da mesma forma resolvidos. E vermos também uma convicção de que tudo o que não servir para resolver isso, é apenas bobagem ou perda de tempo. O fato é que esse sagrado atribuído ao dinheiro pode, além do mais, se exprimir de várias outras formas – todavia ele existe no fundo de cada homem. (ELLUL, p. 81)


A capacidade para ser tanto bênção como altamente sedutor. É assim que a Bíblia apresenta o dinheiro. Talvez precisamente por este motivo, os cristãos são chamados para uma relação com o dinheiro que vai na direção oposta ao apego pelo mesmo e a busca desenfreada por riqueza. Foster diz que, “se levarmos o que a Bíblia ensina a sério, parece que uma das melhores coisas que podemos fazer com o dinheiro é dá-lo. A razão é óbvia: dar é uma das principais armas de que dispomos para vencer o deus Mamon.” (FOSTER, p. 83) Jacques Ellul pensa de maneira semelhante: “Temos indicações muito claras de que, na vida cristã, o dinheiro é ganho a fim de ser dado.” E é esta a conclusão de Bloomberg em sua obra sobre riqueza e pobreza nas Escrituras:

No fim, a vida toda de uma pessoa deve ser dedicada a Deus, mas uma área que particularmente indica o compromisso religioso envolve as finanças. Os patriarcas e reis ricos, mas bons, do Antigo Testamento são relatados, sem exceção, como tendo compartilhado generosamente com o pobre e necessitado. As leis do Antigo Testamento ordenavam dízimos e impostos para sustentar “trabalhadores religiosos em tempo integral” além de ajudar aos destituídos. Um dos refrãos mais frequentes da Torá, dos Salmos e dos profetas é a preocupação de Deus pela “viúva, órfão, forasteiro e pobre”, uma preocupação que devia levar o povo a evitar qualquer forma de exploração e buscar formas de suprir as necessidades genuínas do marginalizado e tratar as causas de sua miséria. No Novo Testamento, Lucas e Paulo impõem a caridade generosa, enquanto Jesus simplesmente pressupõe tal prática, mais notavelmente no Sermão do Monte (Mt. 6.1-4). Tiago e João concordam que aquele que está ciente das necessidades dos irmãos em Cristo e tem condições de ajudar mas falha em fazer algo, não pode ser salvo (Tg 2.14-17; 1 Jo 3.17s). Pedro e Paulo são particularmente consistentes em desafiar o sistema-greco romano de reciprocidade na doação e recebimento de ofertas. Ambos constroem sobre o comando de Jesus enraizado na teologia jubilar de emprestar (ou dar) “sem esperar nenhuma paga” (Lc 6.35). (BLOOMBERG, p 244,245)

Diante disso, acredito que, como cristãos precisamos cada vez mais resistir a sedução do Evangelho da Prosperidade tanto quanto as propostas simplistas que algumas ideologias tidas como libertadoras dão ao problema da desigualdade social. Ricos e pobres foram seguidores de Jesus. Embora ele não tenha mandado todos venderem seus bens e doarem aos pobres como condição sine qua non para que o seguissem, ele disse a todos que sem a morte para si mesmo, ninguém poderia ser seu discípulo.

O grande avivalista e fundador do metodismo, João Wesley, costumava dizer algo que acredito que deve ser um incentivo para todo cristão vivendo nesta presente Era como um servo de Cristo e mordomo de Deus:

“Ganhe tudo o que puder, economize tudo o que puder, doe tudo o que puder.”

Jacques Ellul, O Homem e o Dinheiro, Editora Palavra, 2008
Richard Foster, Dinheiro, Sexo e Poder, Mundo Cristão, 1988
Tony Campolo, Following Jesus Without Embarrassing God, Word Publishing 1997
Craig L. Bloomberg, Nem Pobreza Nem Riqueza, Editora Esperança, 2009

2 Comments

  1. Theophilo October 29, 2013

    Amado!
    Sempre que me sobra tempo e lembro de ler coisas boas na internet, me deparo com seus textos precioso irmão! Estou extremamente inclinado ao seu modo de pensar, partilhamos, creio eu, de muitos aspectos e clareza da atualidade e da cristandade. Obrigado pelo(s) escritos. Te convido a ler um livro chamado A serious call to a holy and devout life por William Law, estou tentando traduzi-lo quando tenho tempo mas creio que voce saiba ler em ingles. Vai de encontro com muito do que voce comentou e um pouco mais. Tem sido meu devocional.

  2. Charles Fernando January 3, 2014

    Sandro, fica a dica de ler “The Virtues of Capitalism: A Moral Case for Free Markets”, de um autor da Biola, uma universidade bastante cristã-conservadora americana. Eu mesmo não pude botar olhos no livro, mas o Rae é alguém bastante equilibrado e moderado nesta causa.

    Abraços.

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