Lembrai-vos dos presos

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“Você já viu um homem sem língua falando?”, perguntou-me Anderson, enquanto ele abria sua boca para me mostrar o que havia restado de sua língua após um tiro de carabina no rosto. De fato, suas faces estavam marcadas por enormes cicatrizes. “Você pode orar por mim?”, ele perguntou. Com minhas mãos sobre seus ombros, ergui minha voz ao Céu e pedi que Deus revelasse a ele seu amor e o mantivesse seguro naquele lugar. Quando terminei de orar, notei que uma pequena fila havia se formado atrás dele. Outros homens também queriam oração.

Foi minha terceira visita à Penitenciária Marrey, na grande São Paulo. Marrey ficou conhecida em 2003 quando dois homens, num helicóptero roubado, tentaram facilitar a fuga de alguns prisioneiros. A tentativa fracassou, mas desde então ficou a sensação de que Marrey mantinha presos ligados ao PCC, considerado a maior facção criminosa do Brasil. Na verdade, conforme descobri na primeira vez em que estive lá, do lado de dentro da prisão, o comando está nas mãos de prisioneiros. Também fui informado que Marrey mantém preso um dos maiores assassinos em série da história brasileira. Se há lugares onde o pecado e pecadores abundam, Marrey é um deles.

Como uma tremenda demonstração de que não há portas fechadas para Deus, os líderes da prisão permitiram que o David Pierce, fundador na missão Steiger, pregasse do pátio, em vez de ficar restrito ao pequeno salão de cultos.

Enquanto David se preparava para falar, Ícaro se aproximou para me cumprimentar. Nós nos conhecemos em minha primeira visita quando orei por ele. Demos a ele também Rock Priest, a biografia do David Pierce. Perguntei-lhe se ele estava lendo. Ele disse que sim e passou a me contar alguns trechos do livro que havia gostado. Então falou que estava lendo devagar, porque não queria terminar logo, uma vez que não teria mais nada para ler depois.

O David começou a pregar e eu fiz o melhor que pude para interpretá-lo e ser ouvido sem o uso de um microfone. Aproximadamente 300 homens estavam ouvindo ao nosso redor, no pátio e nos três níveis acima de nós. A chuva caía enquanto o David pregava, e eu sentia que Deus estava lá, de modo tão real quanto aquela chuva. O David disse que o orgulho é o que nos afasta de Deus e que precisamos estar dispostos a nos humilhar e nos render para conhecer seu amor por nós.

A mensagem alcançou corações frios e duros. Quando o David fez o convite àqueles que queriam render suas vidas a Jesus, houve um momento de tensão, depois uma após outra, vimos muitas mãos levantadas. Após a oração do David, um dos prisioneiros que se converteu na prisão e agora serve como um pastor local convidou aqueles que responderam para se unirem a nós no salão de cultos. O lugar ficou lotado de homens fazendo perguntas ao David sobre sua vida e sua fé em Deus.

Um jovem perguntou-lhe o que o levava a pensar que presos como aqueles pudessem mudar de vida. “Eu não posso mudar minha vida, nem você pode mudar a sua”, respondeu o David, “mas o Espírito Santo pode nos mudar a fim de que nos tornemos as pessoas que Deus deseja.” As perguntas continuaram por quase uma hora, até às 16h, hora em que os presos precisam entrar para suas celas e permanecer lá até às 8 da manhã do dia seguinte.

Meu filho Lucas, de seis anos, estava orando por mim enquanto me preparava para a visita ao presídio. Ele me olhou com uma expressão preocupada e perguntou: “Por que você tem que ir lá?” E respondi que desejo compartilhar o amor de Deus com os presos. “Mas é perigoso lá, pai!”, ele insistiu. “Sim, eu sei, filho. Por isso preciso de suas orações”, respondi.

Não há como ir a um lugar assim sem oração. Entrar num presídio onde, depois de passar pelos vários níveis de segurança, portas e portões de ferro, você se encontra sozinho com centenas de presos, não é algo para quem confia em si mesmo. Estou plenamente consciente do perigo e coloco minha confiança somente em Deus para proteger minha vida e meus amigos ao entrarmos lá.

Meses atrás, minha esposa e eu estávamos conversando sobre como seria bom voltarmos a fazer visitas aos presos. Então, num domingo logo após o culto na igreja, um homem se aproximou de mim e se apresentou, dando-me seu cartão. Frank, um aposentado de 74 anos, perguntou-me se ele poderia dar o endereço de nossa igreja para alguns presos que ele estava visitando na Penitenciária Marrey. Respondi que sim, e mencionei que gostaria de ir com ele em algumas dessas visitas.

Na primeira vez em que fui, um preso convertido (que, segundo me disseram, era do PCC) fez a leitura de um texto bíblico. A passagem que ele escolheu foi Mateus 25: “Estive preso e você não foi me visitar.”

A razão pela qual desejo continuar visitando presos é que a sociedade, de um modo geral, e até mesmo a Igreja, infelizmente, considera-os como uma causa perdida, como criminosos que merecem apodrecer na cadeia. Mas eu creio que se a graça de Deus é abundante, então ela deve ser mesmo numa cadeia. Também desejo encorajar aqueles que se converteram na cadeia a continuar firmes em sua fé e a se preparar para que do lado de fora, quando forem liberados, possam continuar vivendo a nova vida que encontraram lá dentro. Finalmente, desejo continuar visitando presos porque creio que quando os visito, é a Jesus que estou visitando.

“Lembrem-se dos que estão na prisão, como se aprisionados com eles.” Hebreus 13.3

2 Comments

  1. Tainá November 15, 2013

    Muito bom! Estou orando por essa causa. Que Deus continue a movê-los pelos lugares mais escuros… Luzes!

  2. beto June 26, 2014

    Amigo Sandro, obrigado por compartilhar suas experiências, tenho orado para que consiga estar onde Deus deseja.
    Aqui perto de nós, uma das beneficiadas do Plano b parou um dos nossos voluntários e perguntou: por quê vocês não desistem de mim? Meu pai, minha mãe, todos já desistiram.

    Estou orando para que Deus lhe proteja em seus caminhos e você sempre volte para casa.

    Estou esperando você aqui, abraço
    Beto

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