Devagar É Melhor

Recentemente comprei um livro chamado Devagar, do jornalista canadense Carl Honore. Eu tenho flertado com um estilo de vida mais devagar por algum tempo. Cerca de 2-3 anos atrás comecei a perceber que estava indo rápido demais e tentando realizar muitas coisas ao mesmo tempo. Era como se eu fosse o personagem daquela canção do U2 “trying to throw your arms around the world” (tentado abraçar o mundo). Ao mesmo tempo, mudanças no escritório onde eu trabalhava aumentaram a pressão do trabalho a uma velocidade de quebrar o pescoço. Eu sabia que precisava fazer algo antes que terminasse louco ou perdesse minha vida ou minha família ou tudo isso ao mesmo tempo. A primeira coisa que decidi foi me rebelar contra os e-mails. Eu estava recebendo dezenas de e-mails todos os dias, então decidi que isso precisava mudar. Foi difícil a princípio (eu confesso, estava viciado) mas agora eu penso que aprendi como trabalhar melhor com e-mail, sem o sentimento de ser inundado por eles. Eu ainda tenho um longo caminho a seguir nessa e em outras áreas, mas estou perseverando. Comprar esse livro foi parte do desejo de fazer mudanças. Ao refletir sobre isso agora eu percebo como é fácil ser pego pela forte correnteza do mundo hoje que dita o modo como devemos viver nossas vidas, um estilo de vida que tem destruído tantas pessoas e inundado os consultórios psicológicos de pacientes. O fato é: mentiram para nós. A tecnologia prometeu melhorar nossas vidas mas acabou fazendo exatamente o contrário de sua promessa. Então em vez de re-avaliar nossas vidas para descobrir o que deu errado, nós continuamos em alta velocidade, projetando e criando nova tecnologia para consertar os problemas causados pela anterior. E não estou advogando o fim da tecnologia aqui, mas tentando refletir sobre como é fácil nos tornarmos escravos dela ao invés de governá-la. O desafio é esse: usar a tecnologia ao invés de ser usado por ela. Mas porque não queremos enfrentar o desafio e continuamos em alta velocidade, dirigindo a todo lugar que vamos e algumas vezes trabalhando e comendo no próprio carro, nós compramos esteiras elétricas para perder o peso e temos belas paisagens em nosso protetor de tela para nos lembrar de um mundo que estamos deixando de apreciar. Não seria mais fácil dar uma caminhada e apreciar a paisagem? “Smell the flowers while you can” (sinta o cheiro das flores enquanto você pode). Não é fácil nadar contra a correnteza. Sempre haverá forte resistência (seu pior inimigo é você mesmo). Mas bem-aventurados os que fazem isso. Eles terão uma vida melhor. Acredite em mim. Eu estou começando a encontrar minha vida novamente.

(publicado originalmente em 27/01/2006)

3 Comments

  1. Luiz Henrique February 27, 2014

    Anos atrás estive em uma palestra sobre estética musical e o preletor húngaro – que não consigo lembrar o nome – nos falou que há um bom tempo as pessoas têm confundido um estilo de vida mais devagar e moderado com “procrastinação”. Continuou dizendo que não devemos “empurrar a vida com a barriga”, mas questionou o porquê da nossa necessidade de fazer hoje, ou amanhã, o que se pode fazer depois de amanhã, no mês que vem, no ano que vem e assim por diante.

    Acho que Jesus questionou essa nossa postura imediatista, incentivando-nos a sentir o cheiro das flores; “Por que vocês se preocupam com roupas? Vejam como crescem os lírios do campo. Eles não trabalham nem tecem.” Mt 6:28

    Obrigado pela reflexão, estou precisando me reencontrar…

    Abraço!

  2. Theophilo March 14, 2014

    Recomendo o site http://mnmlist.com/ Grande abraço Amado!

  3. Leo Machado May 4, 2014

    Excelente artigo, caminho que eu tenho perseguido há uns 3 anos, requer muita disciplina, moderar uma mente ativa e que gosta de viver intensamente coma fome parecida com a de alguém que acha que todo estoque de comida do mundo vai acabar é muito difícil quando se é um empreendedor nato como eu. A pergunta pra você é, depois de todos esses anos, conseguiu desaceleração?

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