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Switchfoot, música, fé e vocação

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Gosto de Switchfoot e considero Jon Foreman um dos mais talentosos compositores dos últimos 20 anos. Curiosamente, essa foi uma banda que cheguei a ouvir pela primeira vez, não por causa da música, nem das letras, mas por um de seus músicos. Quando soube que Jerome Fontamillas (cuja carreira musical eu acompanhava desde Mortal e Fold Zandura) estava tocando na banda, decidi escutá-la e fiquei impressionado com o que encontrei. Virei fã. O álbum The Beautiful Letdown (2004) me ajudou num período difícil de minha vida. Tenho todos os cds originais e estou aguardando ansiosamente o lançamento de Fading West em janeiro de 2014.

O texto abaixo foi divulgado essa semana no FB por um artista que acompanho (link do original aqui). Trata-se da resposta dada por Jon Foreman para a pergunta feita a ele se sua banda Switchfoot é uma “banda cristã”. Vale a pena a leitura e reflexão.

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“Para ser honesto , esta questão me entristece, porque sinto que ela representa um problema muito maior do que simplesmente algumas músicas do Switchfoot. Na verdadeira forma socrática, deixe-me lhe fazer algumas perguntas: Lewis ou Tolkien mencionam Cristo em qualquer de suas séries de ficção? As sonatas de Bach são cristãs? O que é mais semelhante a Cristo, alimentar os pobres, fabricar móveis, limpar banheiros ou pintar um pôr do sol? Há um cisma entre o sagrado e o secular em todas as nossas mentes modernas.

A visão de que um pastor é mais “cristão” do que um treinador de um time de voleibol feminino é falha e herética. A posição que um líder de adoração é mais espiritual do que um zelador é condescendente e falha. Essas vocações e propósitos diferentes demonstram ainda mais a soberania de Deus.

Muitas canções são dignas de serem escritas. Switchfoot escreverá algumas; Keith Green, Bach e talvez você mesmo tenha escrito outras. Algumas dessas canções são sobre redenção, outras sobre o nascer do sol, outras sobre nada em particular: escritas pela simples alegria da música.

Nenhuma dessas músicas nasceu de novo, e nesse sentido, não existe tal coisa como música cristã. Não. Cristo não veio morrer por minhas músicas, ele veio por mim. Sim. Minhas músicas são uma parte da minha vida. Mas, julgando pelas Escrituras, só posso concluir que o nosso Deus está muito mais interessado em como trato os pobres, os quebrantados e os famintos, do que com os pronomes pessoais que eu uso quando canto. Sou crente. Muitas dessas músicas falam sobre essa crença. A obrigação de dizer isso ou fazer aquilo não soa como a gloriosa liberdade que Cristo morreu para me dar.

No entanto, tenho uma obrigação, uma dívida que não pode ser quitada por minhas decisões líricas. Minha vida será julgada por minha obediência, e não por minha capacidade de limitar as minhas letras nessa ou naquela caixa.

Todos temos vocações diferentes; Switchfoot está tentando obedecer ao que fomos chamados. Não estamos tentando ser Audio Adrenaline ou U2 ou POD ou Bach; estamos tentando ser Switchfoot. Uma canção que tem as palavras “Jesus Cristo” não é nem mais nem menos “cristã” do que uma instrumental (já ouvi muita gente dizer “Jesus Cristo” e não estavam falando sobre o seu redentor). Jesus não morreu por nenhuma de minhas músicas. Portanto, não há hierarquia de vida ou músicas ou ocupação, só há obediência. Temos um chamado para tomar a nossa cruz e seguir. Podemos ter certeza de que essas estradas serão diferentes para todos nós. Assim como você tem um corpo e cada parte tem uma função diferente, assim também, em Cristo nós, que somos muitos, formamos um só corpo e cada um de nós pertencemos uns aos outros. Por favor, seja lento em julgar “irmãos” que têm um chamado diferente.”

Foreman menciona a “caixa” cristã onde muitas pessoas querem ficar, e colocar os outros dentro. Concordo com Foreman que esta caixa é particularmente limitada quando se trata de arte. Então, saia e crie algo – algo belo, algo maravilhoso – e faça isso para a glória de Deus.

Derek Webb

derekwebb
Eu confesso que, na última década a música cristã, de um modo geral, não foi a maior porção em minha dieta musical. Com raras exceções, a maioria dos artistas cristãos se tornou repetitiva e superficial demais, sem criatividade capaz de fazer com que eu escutasse sua música mais que uma vez (ou, em muitos casos, só alguns minutos). Derek Webb é uma das exceções.

Conheci Derek Webb por acaso, num show em Orlando, em 1999. Fui ao show para ver as atrações principais: Third Day e Jars of Clay, esta última fazendo um show de pré-lançamento do álbum Since I Left the Zoo. O show tinha sido promovido pela indústria musical e, por este motivo, teve uma série de apresentações de outros artistas desconhecidos para mim: Bebo Norman, Andrew Peterson e Caedmon’s Call (a banda da qual Derek Webb fazia parte).

Nos anos seguintes, comprei os cds da banda Caedmon’s Call sempre que eram lançados e tentei acompanhar um pouco a carreira da banda. Desse modo, li que o Derek Webb havia gravado dois álbuns solo, mas somente em 2005 parei para escutar algo de sua carreira solo, no lançamento de Mockingbird, quando o disco foi distribuído gratuitamente na internet por uma semana. Esse foi um daqueles cds que escutei muitas vezes antes de dormir, prestando atenção em cada nota tocada e cada palavra cantada.

Fiquei tão impressionado que acabei voltando aos trabalhos solos anteriores do Derek: She Must And Shall Go Free (2003), I See Things Upside Down e The House Show (2004). Para minha surpresa, esses álbuns eram tão bons quanto Mockingbird. Virei fã definitivo do cara. Comprei cada trabalho seguinte lançado pelo Derek, no dia do lançamento na internet (geralmente semanas antes do lançamento “físico”), desfrutando cada um deles como um jorro de água fresca no deserto que se tornou grande parte do cenário da música cristã contemporânea.

Para os leitores fluentes em inglês, recomendo ouvir atentamente as letras do Derek. Elas são brutalmente sinceras, honestas, relevantes e retratam o estado da Igreja atual que, como a de Laodiceia, se gaba de ser rica e de não ter falta de nada, mas na realidade é desgraçada, miserável, pobre, cega e nua. Derek não faz esse retrato como alguém que está do lado de fora, mas como alguém que é membro da Igreja, que faz parte dessa confusão e que deseja ardentemente tanto falar a verdade (mesmo sabendo que “a verdade nunca é sexy” – Nobody Loves Me) como ser confrontado por ela (ainda que corte sua carne, como canta em Medication).

Web: derekwebb.com
Twitter: @derekwebb

Achtung Baby

Em novembro de 1991 eu havia acabado de deixar da OM, organização missionária com a qual eu havia trabalhado desde janeiro de 1989. Uma vez que unir-me à OM tinha sido meu alvo desde 1984, eu estava encerrando um ciclo em minha vida e não estava bem certo do faria a seguir.

Naquele mesmo ano eu li Resistência e Submissão de Dietrich Bonhoeffer pela primeira vez. A leitura das cartas que Bonhoeffer escreveu da prisão antes de ser enforcado pelo regime nazista causou um profundo impacto em minha vida. Comecei a enxergar o Cristianismo mais com os “pés no chão”, um pouco mais relacionado com a vida terrena – e não apenas o celeste porvir – do que eu havia percebido até então.

Musicalmente, aquele também foi o ano em que eu rompia de vez com a separação na arte do sagrado vs. profano e começava a escutar a música da época em que eu estava vivendo independente do rótulo de “cristã” ou “secular”. A “revolução” grunge estava a caminho e logo camisas xadrez de flanela amarradas na cintura seriam a moda da juventude em todos os lugares. Bandas como Nirvana, Pearl Jam, Soundgarden e Alice In Chains começavam a ganhar espaço nas rádios e na MTV. Guns ‘N Roses era a banda do momento. E os headbangers ainda estavam incertos se gostavam ou não do “black álbum” do Metallica.

Foi neste contexto que comprei Achtung Baby do U2, relançado esta semana em várias edições comemorativas de seu aniversário de 20 anos. Eu tinha “descoberto” o U2 há apenas quatro anos e a banda já estava se tornando a minha favorita. Comprei o LP e gravei uma fita cassete do mesmo para ouvir em meu walkman. Durante meses, este álbum foi meu companheiro muitas noites antes de dormir.

Confesso que à primeira ouvida, fiquei um pouco confuso. Aquela não parecia ser a mesma banda de The Unforgettable Fire (1984), The Joshua Tree (1987) e Rattle And Run (1988), os três álbuns do U2 com os quais eu tinha familiaridade até então. Se nestes álbuns o U2 expunha seu amor pela América, em Acthung Baby eles voltavam à realidade de seu continente natal, uma Europa em transição com a queda do Muro de Berlim e o colapso do comunismo. Achtung Baby é U2 abraçando definitivamente sua identidade européia.

Logo na primeira faixa, Zoo Station, a sonoridade já se mostrava completamente diferente. Um som mais sujo, distorcido, cheio de efeitos, a bateria soando como se fosse de lata e a voz do Bono como se ele estivesse cantando dentro do vagão de um trem. As coisas ficaram ainda mais confusas para mim com o ritmo dançante de Even Better Than The Real Thing. O que estava acontecendo com minha banda de rock? Electro techno e dance music eram tabús para meus ouvidos acostumados ao heavy metal. E a letra soava demais sensual. Onde estava aquela banda com consciência política e mensagens inspiradoras de esperança, paz e amor?

Foi somente na terceira faixa, One, que a banda soou um pouco mais “normal” para mim. Mas ainda assim, o clima era diferente, mais sombrio e melancólico. One reflete a tensão entre os membros da banda durante a transição sonora dos álbuns anteriores para Achtung Baby e também fala sobre o fracasso do casamento de The Edge e Aislinn. Apesar de seu título sugerir unidade, é uma música sobre diferenças e a complexidade dos relacionamentos humanos.

Quando alcancei a quarta faixa, percebi que estava diante de um álbum fenomenal. Until The End of The World foi a música de Acthung Baby que cativou minha atenção desde a primeira ouvida. A letra introspectiva sobre traição retrata um monólogo fictício de Judas para Jesus e foi inspirada pela leitura que Bono estava fazendo de Book of Judas do poeta irlandês Brendan Kennelly.

A partir daí Achtung Baby foi fazendo sentido como uma obra de arte. Semelhante à sua capa feita de colagens de fotos que parecem não terem conexão alguma umas com as outras, mas no final formam um todo, este é o conjunto mais coeso de canções que o U2 já produziu.

Stephan Catanzarite resume bem Achtung Baby ao dizer que “é um mergulho de cabeça na piscina do mistério (…), é um álbum que faz muito mais perguntas do que tenta respondê-las, uma obra de arte que é mais inspirada em suas meditações sobre as contradições, incertezas e confusão que florescem à sombra da Queda.”

Talvez seja esta sombra da Queda que faz com Achtung Baby tenha um elemento de confissão em seu conjuto. Confissão de fracasso, de confusão, de dúvida, de ceder à tentação e de hipocrisia. Bono começou a usar óculos escuros para cantar estas canções. Era como se ele precisasse se esconder por trás daqueles óculos para ser tão pessoal e aberto sobre sua humanidade caída. Em meio há tantas confissões, encontramos também confissão de dependência da Graça de Deus representada na Santa Ceia: “I’d break bread and wine if there was a church I could receive it, cause I need it now…” (eu partiria pão e vinho se houvesse uma igreja onde eu pudesse recebê-los, pois preciso disso agora).

As primeiras palavras de Achtung Baby são “I’m ready for the laughting gas, I’m ready for what’s next…” (estou pronto para o gás do riso, pronto para o que virá). Elas anunciam o clima de tumulto, manifestações, mudanças e incerteza com relação ao futuro. Este era o clima tanto da banda quando estava compondo estas canções, quanto do mundo naquele início da década de 1990. Era também o clima de minha vida naquele momento de transição.

Talvez seja por isto que me apaixonei por este disco. Ele funcionou para mim como um divã e através de suas canções eu conseguia expressar sentimentos secretos sem soar tão óbvio para as pessoas ao meu redor. Nesta época abracei o que Bonhoeffer havia dito em uma de suas cartas da prisão: “Ser cristão é ser homem. Não apenas um certo tipo de homem, mas o homem que Cristo cria em nós.” (18.07.1944)

Para ser este tipo de homem que reconhece-se pecador, mas não perde a esperança na Redenção, é preciso ser totalmente dependente da Graça de Deus. Em Mysterious Ways, onde a imagem do movimento misterioso feminino se funde ao mover misterioso do Espírito, Bono volta a falar sobre esta dependência: “If you wanna kiss the sky, better learn how to kneel” (se você quiser beijar o céu é melhor aprender a se ajoelhar).

Um álbum tão rico em imagens e sons, Achtung Baby não poderia deixar de ser considerado como o melhor trabalho do U2.

Milad – Retratos de Vida

Com esta postagem iniciarei uma série  semanal nos próximos meses sobre artistas cujas músicas influenciaram bastante minha jornada cristã até aqui. Algumas destas músicas são como porto-seguro para minha alma – um local onde eu posso retornar de quando em quando e lembrar de coisas boas que alimentam minha esperança, minhas convicções e meu senso de vocação e chamado. Alguns destes artistas são brasileiros, outros de outras nacionalidades. A maioria são cristãos confessos, alguns não declaram publicamente sua fé.

Quero começar com o MILAD (sigla para Ministério de Louvor e Adoração), um grupo musical formado na década de 1980 por músicos profissionais que se lançaram num projeto missionário através da arte.

Foi em 1986 que ouvi o MILAD pela primeira vez, numa apresentação ao vivo do seu LP de estréia Água Viva (1985). Confesso que a música não me atraiu tanto. Naquela época,  a única música que me atraia era rock (quando mais pesado, melhor!). Por este motivo, o ritmo andino da primeira música “Todos os Que Procuram” não causou-me boa impressão e quase desisti de ouvir o restante. Ao mesmo tempo, letras sempre foram importantes para mim e as letras apresentadas pelo MILAD eram diferentes das que eu estava acostumado a ouvir nas igrejas (algo que se tornaria ainda mais evidente nos discos Retratos de Vida e Pra Cima Brasil). O que me cativou mesmo naquela noite foi a interpretação de “Pai Nosso” por João Alexandre. Quando o ouvi cantar, soube imediatamente que estava diante de um artista singular.

O MILAD lançou outros discos: Milad 1 (1986), Retratos de Vida (1987), Milad 2 (1988), Pra Cima Brasil (1990) e Milad 3 (1995). Estes discos trouxeram cânticos que foram cantados nas igrejas brasileiras por muito tempo, tais como Não Tenhas Sobre Ti, Água Viva, Conheci um Grande Amigo e Time de Deus.

Uma das canções mais marcantes e, provavelmente, a mais tocada em rádios cristãs que começaram a surgir no cenário brasileiro seria “Brasil”, composição de João Alexandre que se tornou um hino de uma geração de crentes despertando para realidades políticas e sociais do nosso país. O tempo se passou e ainda hoje esta música me comove quando a ouço:

Como será o futuro do nosso país?
Surge a pergunta no olhar e na alma do povo
Cada vez mais cresce a fome nas ruas, nos morros
Cada vez menos dinheiro pra sobreviver
Onde andará a justiça outrora perdida?

Some a resposta na voz e na vez de quem manda
Homens com tanto poder e nenhum coração
Gente que compra e que vende a moral da nação
Brasil olha pra cima

Existe uma chance de ser novamente feliz
Brasil há uma esperança!
Volta teus olhos pra Deus, o Justo Juiz

Mas foi “Retratos de Vida” lançado em 1987 que se tornou um dos clássicos em minha biblicoteca musical. Ainda hoje, passadas mais de duas décadas, este disco continua uma obra à parte na música cristã brasileira. Primeiro porque se trata de um disco conceitual, usando as ruas e a vida noturna de São Paulo como pano de fundo para sua poesia e melodia. Não me lembro de muitos álbuns conceituais na música cristã brasileira (tirando evidentemente as “cantatas”), portanto, isto já coloca “Retratos de Vida” num patamar destacado. Fora isto, a música é de excelente qualidade e totalmente contextualizada com o cenário apresentado por suas letras e temática. E tinha um rock paulista a la Titãs (Virada Radical) que escutei “até furar o disco”:

Tudo se inicia de maneira displicente
Sigo na rotina de uma vida dependente
Coisas pra queimar, lances pra cheirar
Um mundo colorido, mil mutretas pra inventar
Palavras repetidas dizem tudo novamente
Evidentemente de uma forma diferente
Minas, heroínas, transas coisa e tal
Eu precisava tanto uma virada radical

Em “Pobres ricos sem Jesus” o cenário muda para aqueles que dedicam sua existência na busca por riqueza somente para perceberem sua profunda pobreza interior que nenhum dinheiro acumulado e gasto com luxos e prazeres pode preencher:

Subiu na vida de avião, comprou até o que não quis
Cumpriu seus sonhos, sua paixão, daria tudo só pra ser feliz
Foi no horizonte procurar a fonte e o brilho do prazer
Na esperança de encontrar melhores dias pra viver
Mas como ser feliz? Onde encontrar a paz?
Coisas que tanto quis e não sentiu jamais
No coração

A faixa “Meninos de rua” chamava a atenção da Igreja Brasileira para os menores em situação de risco que começavam a crescer em número nas ruas das grandes cidades brasileiras:

Sua rua sua casa, sem carinho, os pés no chão
Olhos fundos, peso raso, nenhum pai, muitos irmãos
Desencontros e trombadas, desesperos, fantasias
Pesadelos quase sonhos, vida pobre às escondidas
De tão pobre a sem-vergonha, de criança a rejeitado
O coitado vagabundo que nem cuida do nariz
Sem escola, só na cola, tem consigo seus heróis
Camburões, faróis, algemas, desta vida que não quis
Sempre cada um na sua, sua rua seus caminhos
A procura de algo novo, bons motivos pra viver…

“Esquinas Cruéis” retrata a vida das mulheres que vendem seus corpos nas esquinas da cidade. As palavras desta música me vieram à mente muitas vezes ao sair com os missionários do Projeto Toque para ministrar nos prostíbulos no centro da cidade:

De longe se vê sua imagem, sua tatuagem, seu jeito de andar
Olhar de menina, corpo de mulher
pros homens um vício qualquer
Sem eira nem beira, de qualquer maneira
Se esconde entre brincos, colares e anéis
Escrava da sorte, esquinas cruéis
Conhece os normais e os doentes
de tão diferentes parecem iguais
Pois pagam seu preço, desfrutam seu corpo
confundem prazer com amor
No seu dia a dia a mesma agonia
vender pra ganhar pra chorar pra sofrer
Contrariando a vida pra aos poucos morrer
Você tem o preço mais alto e Deus lá do alto um dia já pagou…

As fotografias da vida urbana apresentadas em “Retratos de Vida” continuam sendo uma triste realidade e desafio tanto para a sociedade como para a Igreja. Como diz a frase na música “Meninos de Rua”: “Pois se Deus assim te ama é preciso a gente crer, que o amor de Deus é justo é há muito o que fazer…” Sem dúvida, há muito mesmo que fazer, sempre no espírito da oração: “Venha o Teu Reino, seja feita a Tua vontade, na terra como no céu.”

 

U2 360º – São Paulo 09/04/11

Assistir a um show do U2 é uma experiência inesquecível. Não se trata apenas da música ao vivo, mas da energia contagiante de 90 mil pessoas que agitam, dançam e cantam em uníssono durante mais de 2 horas. Exatamente uma semana atrás, nesta hora, eu estava saindo do estádio Morumbi após mais uma dessas experiências, desta vez com minha esposa e filha (primeiro grande show assistido por ela).

Minha primeira impressão ao entrar no estádio naquela tarde foi a visão monumental de “A Garra” (apelido do palco criado para a turnê 360º). Eu esperava algo grande, mas não estava preparado para a monstruosidade do que vi. O topo da torre no centro do palco podia ser avistado até mesmo de fora do estádio. E, melhor ainda, os efeitos, a iluminação e o som não decepcionaram.

Muse, a banda de abertura, entrou pontualmente às 20h para um show rápido, debaixo de uma insistente garoa. Foi interessante ver a reação do público, a maioria não familiarizado com a banda, que parecia espantado com a qualidade musical e o peso apresentado por Matthew Bellamy, Christopher Wolstenholme e Dominic Howard. Como também sou fã de Muse, curti bastante o show.

Às 21:40 em ponto as luzes do estádio se apagaram, Space Oddity de David Bowie começou a tocar e mandou o recado para o público que entrava em delírio ao ver a imagem dos quatro músicos caminhando em direção ao palco sendo mostrada na gigante tela 360º (algo que eu podia ver de onde estava sem ter que olhar para a tela): “Check the ignition and may God’s love be with you.”

Com a banda no palco, a primeira música foi Even Better Than The Real Thing, segunda faixa daquele que eu considero o melhor álbum da banda, Achtung Baby. Em seguida vieram I Will Follow e Get On Your Boots, músicas para a galera dançar. What time is it in the world? foi pergunta que Bono fez (e repetiu muitas vezes durante o show) para introduzir Magnificent, possivelmente a faixa mais explicitamente cristã de todo repertório do U2. A galera cantou junto com Bono, que parecia estar, de fato, adorando Àquele a quem ele diz que nasceu para oferecer sua voz. Momento particularmente emocionante para mim.

Em seguida Mysterious Ways, outra faixa de Achtung Baby (ao todo foram quatro faixas deste disco) colocou a galera para dançar novamente e o clima continuou alto com Elevation, Until the End of the World e I Still Haven’t Found What I’m Looking For, oferecida a Julian Lennon, presente no Morumbi no dia de seu aniversário. Bono chegou até a conduzir o público a cantar Happy Birthday to You para Julian.

Stuck In A Moment, dedicada a Michael Hutchence, diminuiu o ritmo só por uns minutos, uma vez que Beautiful Day colocou todo mundo no alto de novo. Mesmo as canções mais lentas como In A Little While e Miss Sarajevo não diminuiram o ânimo do público que voltou a dançar com Vertigo, I Will Go Crazy e Sunday Blood Sunday (cuja introdução foi dedicada aos movimentos de revolução política contra ditaduras nos países do Norte da África e Oriente Médio).

Bono apresentou Walk On falando sobre a libertação de Aung San Suu Kyi e agradeceu aos fãs do U2 que junto com a Anistia Internacional desempenharam uma parte no processo de tornar a causa de Suu Kyi conhecida. Neste momento, lembrei que o U2 vem usando música com consciência política há quase 30 anos, colocando em seus encartes os endereços da Anistia Internacional e Greenpeace e incentivando seus fãs a se unirem a estas organizações. Ou seja, ninguém faz isso durante tanto tempo se não estiver convicto do que está fazendo. Não se trata meramente de estratégia de marketing para vender CDs, mas da consciência expressa por cada um dos membros da banda de que eles se sentem responsáveis pelo privilégio que sua arte lhes proporcionou. Prova desta consciência é a ONG ONE, fundada por Bono para combater a pobreza extrema.

One foi anunciada com o clip do Arcebispo Anglicano sul-africano Desmond Tutu, lembrando que juntos podemos fazer grandes coisas e, com amor, trabalharmos para construir um mundo Where the Streets Have No Name. Nada mais apropriado do que Bono ter cantado Help dos Beatles entre estas duas canções. Afinal, ajuda é o que ele mais tem pedido aos governantes das nações ricas na luta contra a pobreza endêmica, AIDs e malária nos países africanos. É impossível ouvir estas canções, apesar de tão conhecidas, e não ficar emocionado, sonhando com o Dia quando todos viverão como um onde as ruas não têm nome.

As músicas finais do show foram Hold Me Thrill Me Kiss Me Kill Me, With or Without You e Moment of Surrender, esta última sendo a canção escolhida para fechar todos os shows da turnê 360º até aqui. Curioso é que estas três últimas músicas falam sobre entrega. Que horas são no mundo? pergunta o Bono. Este é o momento da entrega, parece ser sua resposta.

Como disse, show do U2 é uma experiência inesquecível. O que não é tão legal é todo o esforço necessário para ver U2 ao vivo, desde o malabarismo para compra do ingresso, ao tempo dedicado para chegar cedo e conseguir um bom lugar, o assalto para estacionar o carro nas imediações do estádio, da demora para sair após o show e o trânsito caótico na volta. Tudo isso me faz pensar que talvez eu esteja ficando um pouco velho para este tipo de coisa. Mas para ver U2, vale a pena!

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The Joshua Tree

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Eu me lembro exatamente o dia em que o Haroldo, um aluno do seminário, me fez a seguinte pergunta: “Cara, você sabia que aquela banda de rock U2 é cristã?” Diante de minha expressão atônita, ele continuou: “Eu assisti um video deles e fala sobre um lugar onde as ruas não têm nome…  Cara, a música é sobre o céu!” Isto foi em março de 1988, um ano depois de The Joshua Tree ter sido lançado pela banda e se tornado um dos maiores discos de rock da história.

Com a curiosidade aguçada pelo comentário do Haroldo, comprei um cassete de The Joshua Tree na próxima vez que estive em São Paulo para visitar minha família. Naquela noite ouvi Where the Streets Have No Name, Still Haven’t Found What I’m Looking For e With or Without You pela primeira vez. Minha música favorita era o rock pesado e heavy metal, então a sonoridade do U2 não me cativou de imediato. Mas à medida em que escutava aquelas músicas, elas pareciam crescer em mim, mexiam com minhas emoções, expandiam meu horizonte musical e desafiavam meus conceitos sobre o que era “música cristã” (na época eu ainda separava a música entre cristã e não-cristã, sagrada e profana).

Afinal, eu poderia buscar vislumbres do céu em Where the Streets Have No Name (anos mais tarde eu entenderia que a frase fora inspirada na observação que Bono fez das ruas sem nome na Etiópia onde ele havia passado dois meses com sua esposa ajudando num campo de refugiados) ou interpretar With or Without You como se referindo a Deus (na verdade, era sobre o relacionamento entre Bono e sua esposa), mas francamente, não sabia o que fazer de Still Haven’t Found What I’m Looking For, uma letra que falava de dúvida (e não havia muito espaço para dúvida em minha teologia), ou outras faixas do disco que não tinham uma mensagem explicitamente “cristã”. Foi somente com o passar do tempo, ouvindo outros discos da banda e conhecendo um pouco mais de sua história que percebi o quanto das crenças cristãs abraçadas por Bono, Edge e Larry (Adam era o único “descrente” da banda) em sua adolescência encontravam ecos em suas músicas.

The Joshua Tree fez de mim um fã do U2. Comprei todos os discos anteriores e posteriores (e suas edições comemorativas remasterizadas quando saíram), os VHSs (e depois as edições em DVDs também), li uma dúzia de livros sobre a banda (dos quais considero Until the End of the World de Bill Flanagan como o melhor), assisti a banda ao vivo em 2005 e estou contando os dias para o show em São Paulo no próximo mês.

Hoje, 24 anos depois de ter sido lançado, The Joshua Tree é um dos meus discos favoritos. Graças a generosidade de uma amiga, ganhei o box da edição especial remasterizada em 2007. De vez em quando, pego-me voltando para suas melodias em busca de inspiração e para ser provocado novamente pelas idéias por trás de suas letras.

Para quem deseja conhecer mais sobre a fé expressa na música do U2, recomendo a leitura de Walk On – A Jornada Espiritual do U2 escrito por Steve Stockman.