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U2The Joshua Tree
Eu me lembro exatamente o dia em que o Haroldo, um aluno do seminário, me fez a seguinte pergunta: “Cara, você sabia que aquela banda de rock U2 é cristã?” Diante de minha expressão atônita, ele continuou: “Eu assisti um video deles e fala sobre um lugar onde as ruas não têm nome…  Cara, a música é sobre o céu!” Isto foi em março de 1988, um ano depois de The Joshua Tree ter sido lançado pela banda e se tornado um dos maiores discos de rock da história.

Com a curiosidade aguçada pelo comentário do Haroldo, comprei um cassete de The Joshua Tree na próxima vez que estive em São Paulo para visitar minha família. Naquela noite ouvi Where the Streets Have No Name, Still Haven’t Found What I’m Looking For e With or Without You pela primeira vez. Minha música favorita era o rock pesado e heavy metal, então a sonoridade do U2 não me cativou de imediato. Mas à medida em que escutava aquelas músicas, elas pareciam crescer em mim, mexiam com minhas emoções, expandiam meu horizonte musical e desafiavam meus conceitos sobre o que era “música cristã” (na época eu ainda separava a música entre cristã e não-cristã, sagrada e profana).

Afinal, eu poderia buscar vislumbres do céu em Where the Streets Have No Name (anos mais tarde eu entenderia que a frase fora inspirada na observação que Bono fez das ruas sem nome na Etiópia onde ele havia passado dois meses com sua esposa ajudando num campo de refugiados) ou interpretar With or Without You como se referindo a Deus (na verdade, era sobre o relacionamento entre Bono e sua esposa), mas francamente, não sabia o que fazer de Still Haven’t Found What I’m Looking For, uma letra que falava de dúvida (e não havia muito espaço para dúvida em minha teologia), ou outras faixas do disco que não tinham uma mensagem explicitamente “cristã”. Foi somente com o passar do tempo, ouvindo outros discos da banda e conhecendo um pouco mais de sua história que percebi o quanto das crenças cristãs abraçadas por Bono, Edge e Larry (Adam era o único “descrente” da banda) em sua adolescência encontravam ecos em suas músicas.

The Joshua Tree fez de mim um fã do U2. Comprei todos os discos anteriores e posteriores (e suas edições comemorativas remasterizadas quando saíram), os VHSs (e depois as edições em DVDs também), li uma dúzia de livros sobre a banda (dos quais considero Until the End of the World de Bill Flanagan como o melhor), assisti a banda ao vivo em 2005 e estou contando os dias para o show em São Paulo no próximo mês.

Hoje, 24 anos depois de ter sido lançado, The Joshua Tree é um dos meus discos favoritos. Graças a generosidade de uma amiga, ganhei o box da edição especial remasterizada em 2007. De vez em quando, pego-me voltando para suas melodias em busca de inspiração e para ser provocado novamente pelas idéias por trás de suas letras.

Para quem deseja conhecer mais sobre a fé expressa na música do U2, recomendo a leitura de Walk On – A Jornada Espiritual do U2 escrito por Steve Stockman.

john-lennon

Lembro-me do dia em que John Lennon morreu. A notícia chocou pessoas no mundo inteiro. No dia seguinte à sua morte, cancelaram as aulas na escola onde eu estudava. Eu via pessoas chorando e, sinceramente, não entendia como alguém podia chorar a morte de alguém tão distante. Não, eu não gostava dos Beatles, não estava interessado na sua música e, portanto, não via razões para chorar a morte de um de seus ex-integrantes. Evidentemente, o mundo não concordava comigo. E foi somente uma década após sua morte, que John Lennon começou a cativar minha atenção como artista.

Foi ouvindo um concerto do Midnight Oil em 1990, um show guerrilla (como eles mesmo definiram) num ato de protesto em frente ao prédio da Exxon em Manhattan, que prestei atenção pela primeira vez na música Instant Karma, cantada por eles em homenagem a Lennon que viveu e morreu em NY. A letra era perfeita para a ocasião. Uma declaração de consequências instantâneas para as ações impensadas dos magnatas do petróleo responsáveis pelo derramamento de óleo do Exxon Valdez no Alaska em 1989. Fez sentido também a frase cantada por Bono em God Part II: “Instant Karma’s gonna get him [Goldman], if I don’t get him first.”

A partir daí comecei a prestar atenção na música e arte, tanto dos Beatles, como de John Lennon. E descobri o artista em Lennon. Evidentemente que Lennon disse, fez e compôs coisas que não refletem o que creio, minha cosmovisão como cristão. Mas isso não diminui o fato de que ele era brilhante. Sua parceria com Paul McCartney nos Beatles rendeu algumas das canções mais memoráveis do quarteto de Liverpool.

Mas são as composições pós-Beatles que fizeram de Lennon um artista memorável, em minha opinião. Sua inquietação com o mundo, talvez fruto de uma infância marcada pela ausência do pai e, posteriormente da mãe, fez dele um rebelde que, aparentemente só com o passar dos anos, descobriria sua causa: a paz mundial. Essa rebeldia se tornou mais acentuada durante a guerra do Vietnam e os escândalos políticos norte-americanos no final da década de 1960 e início da década de 1970. Em meio a agitação dos movimentos estudantis, hippies drogados e desiludidos, Panteras Negras e ativistas religiosos, Lennon emergiu como uma voz clamando por uma chance para a paz e denunciando tudo e todos que ele acreditava estarem bloqueando o caminho.

Mas a paz que Lennon buscava não era apenas para o mundo ao seu redor. Sua vida revela que ele buscava paz interior, embora essa busca o tenha levado a lugares errantes. Durante a fase dos Beatles ele se envolveu com o misticismo oriental e as viagens das drogas e experimentalismo. O misticismo não satisfez sua alma e, mais tarde, ele passou a imaginar um mundo sem céu ou inferno e sem religião. Em God, Lennon confessou já não acreditar em nada (nem em Jesus, nem em Budha, nem em Mantra, nem em Gita, etc.) a não ser em si mesmo. Evidentemente ele havia se desiludido com a experiência religiosa anglicana de sua infância e das religiões orientais de seus anos com os Beatles.

Mas as drogas tampouco deram-lhe a paz que ele buscava. Sendo alguém que experimentou tudo quanto é tipo de drogas disponíveis em sua geração, Lennon sabia muito bem como era passar por um processo de desintoxicação. Cold Turkey narra essa experiência, denominada por ele como um verdadeiro inferno, de um viciado há 36 horas sem usar drogas.

Lennon compôs muitas canções amorosas sobre seu relacionamento com Yoko Ono. O relacionamento dos dois foi fruto de muita expeculação e controvérsia, mas evidentemente foi também uma fonte de inspiração para albums inteiros como John Lennon / Plastic Ono Band, Double Fantasy e Milk and Honey. Talvez uma das mais belas composições de Lennon foi para seu filho Sean, a singela música Beautiful Boy.

Tudo isto me mostrou Lennon como um artista, um ser humano caído com uma capacidade extraordinária de colocar em palavras e melodias suas próprias frustrações e sonhos. Ele cantou que só queria a verdade (Give Me Some Truth). Teria encontrado?

Em The Gospel According to the Beatles, Steve Turner (autor de Cristianismo Criativo?) narra sobre uma possível experiência de “novo nascimento” de Lennon. Mas não há como saber  se ele realmente teve um encontro com o Deus em quem dizia não crer e com Jesus Cristo, de quem pensou ser mais famoso. Só a eternidade revelará isso. E quando o Dia chegar,  o sonho de um mundo sem céu ou inferno também terá se acabado.

Mike Stand
Foi possivelmente em 1989 que eu comecei a enxergar a cor cinza nas realidades da vida. Até então meu mundo era feito somente de preto e branco (ou pelo menos era assim que eu pensava). Foi uma música do Mike Stand, guitarrista/vocalista da banda cristã de punk rock Altar Boys, em seu primeiro trabalho solo, que deu voz às minhas inquietações e me fez entender que tem preto e branco, mas muito cinza também. Mike canta:

I’ve been dreaming of a world
Tenho sonhado com um mundo
A world of black and white
Um mundo de preto e branco
A land of simple answers
Uma terra de respostas simples
Fair is fair and right is right
Justo é justo e certo é certo
It’s true a world like this will come someday
É verdade que um mundo assim virá algum dia
But for now things are not that way
Mas por enquanto as coisas não são assim
We live in world of confusion
Vivemos num mundo de confusão
Isn’t that the way it is today?
Não é assim que é hoje?
Unclear issues, unanswered questions
Assuntos confusos , questões não respondidas
Surround us everyday
Nos rodeiam todos os dias
Life’s mysteries come crashing in
Os mistérios da vida desabam
They make our mothers cry and the young man sing
Eles fazem nossas mães chorarem e o jovem cantar
I’ve seen grey – when a pure right or wrong
Tenho visto cinza – quando um puro certo ou errado
Was not clearly seen
Não foi claramente visto
I’ve seen grey
Tenho visto cinza

A realidade que muitos tem dificuldade em admitir é que a vida nos apresenta com situações onde não encontramos respostas simples (ou não encontramos nenhuma resposta), quando temos que admitir que não sabemos, não entendemos, não temos certeza. Eu já vivi o bastante para me deparar com muitas dessas situações. Já tive que engolir meu orgulho e voltar atrás, me humilhar e reconhecer que estava errado ao tentar dar respostas em preto e branco para situações claramente cinzas.

Hoje em dia, em meio a revolução do pensamento pós-moderno, encontro cada vez mais pessoas que enxergam o cinza. Até aí tudo bem. Afinal de contas, há muito cinza no mundo. Mike Stand coloca dessa maneira:

Is it grey when we can’t find answers?
É cinza quando não encontramos as respostas?
Is it grey when it’s not wrong or right?
É cinza quando não é certo ou errado?
And does that give us the go ahead to do anything we like?
E isso nos dá um sinal verde para fazer qualquer coisa que gostamos?
Is grey mis-used as a weak excuse?
O cinza é mal utilizado como uma desculpa fraca?
Can answers be found if we seek and look?
Podemos achar as respostas se procurarmos e buscarmos?
Still, I’ve seen grey
Ainda tenho visto cinza
When answers I needed
Quando as respostas que preciso
Seemed way beyond me
Parecem estar bem além de mim
I’ve seen grey – when I couldn’t explain
Tenho visto cinza – quando não podia explicar
Inconsistencies
Inconsistências
I’ve seen grey
Tenho visto cinza
And I try so hard
E eu realmente tento
To understand this life
Entender esta vida
I want to know what’s wrong
Quero saber o que é errado
I want to know what’s right
Quero saber o que é certo
Where can I draw the line?
Onde posso estabelecer o limite?

A questão agora parece não ser mais se há ou não cinza. Todo mundo já viu cinza e reconhece que a vida é mais complicada do que gostaríamos que fosse. A questão me parece ser a seguinte: existe preto e branco? Ou é tudo cinza? Apesar de ver muito cinza no mundo e nas complexidades da vida, creio que há sim situações onde o preto e branco são claramente discerníveis. Mike Stand me ajudou a admitir o cinza. Mas não cegou meus olhos para o preto e branco.

E parece que esta é uma das dificuldades do pensamento pós-moderno. Ao dar boas vindas à realidade do cinza, muitos passaram a ignorar completamente o preto e branco. Parece que viver no cinza é mais confortável.

Well I may not have all the answers
Bem, posso não ter todas as respostas
And this world is greyer than I like
E este mundo é mais cinza do que eu gosto
But the hope that lives inside of me
Mas a esperança que vive dentro de mim
Gives this grey a litlle light
Dá ao cinza um pouco de luz
It’s easy to get angry when lifes unfair
É fácil ficar irado quando a vida não é justa
But the challenge is to know a faithful God is there
Mas o desafio é saber que um Deus fiel existe
I’ve seen grey – when the dark of night was more like shade
Tenho visto cinza – quando a escuridão da noite era mais como uma sombra
I’ve seen grey – when a cloudly haze covered the light of day
Tenho visto cinza – quando um nevoeiro cobriu a luz do dia
I’ve seen grey
Tenho visto cinza