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Após minha conversão à Cristo, parecia impossível conciliar minha paixão pela música rock com minha fé cristã. Eu cheguei até a envolver-me com um ministério que era uma verdadeira caça às bruxas da música (principalmente do rock), tentando descobrir sinais ocultos nas capas, letras e até mesmo nas faixas tocadas ao contrário, que evidenciassem algum pacto satânico feito pelos artistas para controlar as almas de seus fãs. Me disseram que o rock era do diabo e, como eu não queria nenhum vínculo com o capeta, havia decidido não apenas ficar longe deste estilo de música, mas alertar outros de seus perigos. Até que, numa manhã de sábado do início de 1986, numa passagem de rotina pela livraria Betânia, descobri uma banda que iria revolucionar minha visão com relação a música rock: Petra.

Formada em 1972, a banda Petra gravou 23 discos (sendo dois deles ao vivo) até sua “aposentadoria” em 2005. Das suas quatro décadas em atividade, a década de 1980 foi sem dúvida seu período de maior sucesso, quando lançaram seus álbuns mais conhecidos: Never Say Die (1981), More Power to Ya (1982), Not of this World (1983), Beat the System (1984), Captured in Time and Space (1985), Back to the Streets (1986), This Means War (1988), On Fire (1989) e Petra Praise: The Rock Cries Out (1989).

No ano passado, Petra ressurgiu com a “formação clássica” dos anos 1982-1985: Greg X. Volz (vocais), Bob Hartman (guitarra) Mark Kelly (baixo), Louie Weaver (bateria) e John Lawry (tecladista que substituiu John Slick após as gravações de More Power to Ya e Not of this World).

Há muitas músicas do Petra que se tornaram companheiras de viagem em minha jornada de fé e já postei algumas delas aqui no blog. Mas foi Not of this World, meu primeiro encontro com a banda e minha reconciliação com o rock, que ficará marcado para sempre em minha história. Quando ouvi este disco pela primeira vez, queria saltar de alegria. Apesar de não conhecer nada sobre a banda (demoraria dois anos para que eu tivesse qualquer informação sobre quem eles eram) estava ali um disco de rock cujas letras eram claramente enraizadas na Bíblia.  Apesar dos temores de minha mãe e de irmãos da igreja preocupados com minha fé, eu sabia que o Petra era, de fato, uma banda cristã. Não havia dúvidas de que quem escrevesse canções como aquelas tinha de ser crente de verdade. Resultado: memorizei todas as letras. Hoje, 25 anos depois, ainda recordo boa parte delas.

Três faixas deste disco continuam me perseguindo durante todos estes anos, como se o Espírito Santo me fizesse lembrar delas, em momentos em que preciso recordar ou reafirmar suas verdades:

A primeira é a faixa título Not of this World que me lembra que sou peregrino aqui (Povo de Deus: povo missionário, povo peregrino):

Somos peregrinos numa terra estranha
Estamos bem distantes de nossa terra natal
A cada dia que passa fica mais claro
Este mundo nunca irá querer-nos aqui
Não somos bem vindos neste mundo do erro
Somos estrangeiros que não lhe pertencem
Somos estranhos, somos diferentes
Não somos deste mundo

Outra faixa que ficou em minha memória e que, de tempos em tempos, sou lembrado de suas palavras marcantes é Godpleaser:

Tantas vozes me dizendo para onde ir
Tantas escolhas vem daqueles que pensar saber
Há um caminho que parece certo ao homem
Mas apenas o conduz à morte
Quero seguir o caminho que conduz à vida
Até meu último respirar
Não quero agradar homens – quero agradar a Deus
Desejo apenas ter a sabedoria para discernir entre os dois
Não quero agradar homens – quero agradar a Deus
Desejo apenas fazer as coisas que agradam o coração do Pai

Grave Robber me cativou desde o início. Mas após a morte prematura de meu irmão mais velho aos 20 anos de idade em 1987, esta música se tornou uma canção que me faz lembrar da esperança de um dia nos encontrarmos novamente:

Há um passo que todos temos que dar sozinhos
Um encontro que temos com o grande desconhecido
Como vapor esta vida está aguardando para passar
Como flores que murcham, como a grama que seca
Mas a vida parece tão longa e a morte tão completa
E a sepultura uma poção difícil de enganar
Mas há Um que esteve lá e ainda vive para contar
Há Um que esteve tanto no céu como no inferno
E a sepultura se revelará vazia no dia
Jesus virá e nos roubará
Muitos ainda estão em luto e muitos ainda choram
Por seus amados que caíram no sono
Mas temos esta esperança,
ainda que nossos corações possam doer

Apenas um brado do alto e todos irão acordar
E na reunião de alegria veremos
A morte será engolida na doce vitória
Onde está o aguilhão, diga-me onde está a picada?
Quando o ladrão de sepultura vier como um ladrão na noite
Onde está a vitória, onde está a recompensa?
Quando o ladrão de sepultura vier
E a morte finalmente morrer

Todas as letra em em inglês se encontram aqui.

Em dezembro de 2008 eu postei uma das letras do Petra como parte de músicas da banda que me influenciaram. Na letra da música Run for Cover, há um apelo para correr em busca de cobertura e colocar-se sob autoridade. Antes que algum leitor deste blog pense que eu esteja encorajando aqueles relacionamentos doentes que foram criados por líderes controladores e manipuladores, deixe-me dizer-lhes o que não acredito e o que acredito sobre cobertura espiritual.

Há alguns anos uma pessoa me procurou e disse-me que gostaria que eu fosse sua cobertura espiritual. Como eu não tinha certeza do que ela queria dizer com isso, perguntei-lhe qual era seu entendimento por cobertura espiritual, como isso deveria funcionar. Ela prontamente me disse que eu seria responsável por sua vida, deveria orar e interceder por ela todos os dias e proteger-lhe contra qualquer ataque o inimigo. Ela estaria dependendo totalmente de mim e insinuou que se algum mal lhe acontecesse, eu seria o culpado. Após ouvir isso eu lhe disse prontamente que não poderia ser sua cobertura espiritual. Não fiquei surpreso quando esta pessoa deixou de frequentar a igreja.

Num mundo onde muitas pessoas não querem assumir a responsabilidade pelas suas próprias vidas, esse conceito de cobertura espiritual parece uma boa saída para escapar da responsabilidade pessoal de oração, leitura bíblica, disciplina espiritual e discernimento. É muito mais fácil e confortável lançar sobre outros a responsabilidade de minha vida e deixar que eles tomem decisões por mim. Neste sentido, cobertura espiritual é um termo espiritualizado para encobrir a preguiça espiritual. Não acredito que seja uma posição saudável, pelo contrário, é bem prejudicial pois gera uma atitude de dependência doentia que facilita o controle e abuso, bloqueando o caminho para a maturidade cristã.

Por outro lado, pessoas emocionalmente doentes e inseguras que buscam em cargos e funções de liderança uma maneira de auto-compensação de seus problemas, aceitam prontamente (e até encorajam!) essa posição de controle sobre a vida dos outros em nome de uma cobertura espiritual que não tem fundamento algum nas Escrituras. Estas pessoas acabam se tornando verdadeiros dominadores da vida alheia, assumindo um  papel maior até que do Espírito Santo. O resultado é manipulação e abuso espiritual que invariavelmente leva à desilusão, frustração e muitos feridos com a Igreja.

Evidentemente não acredito no tipo de cobertura espiritual exposto acima. Mas acredito em submissão, acredito em autoridade e acredito que há sabedoria em buscar conselho de pessoas sábias e maduras.

Acredito que submissão é a condição de todo seguidor de Jesus que busca ter a atitude de Cristo no relacionamento com as outras pessoas. Para isto, a submissão deve ser mútua (Sujeitem-se uns aos outros, por temor a Cristo) e nunca imposta ou forçada, mas fruto de um relacionamento de confiança e amor. A submissão é sempre a Deus e Sua Palavra em primeiro lugar , portanto estou livre para desobedecer qualquer um que contrarie claramente a Palavra de Deus (É preciso obedecer antes a Deus do que aos homens!).

Acredito que a única autoridade relacional que existe é aquela que concedemos às pessoas em quem confiamos. Qualquer autoridade imposta deixa de ser autoridade e torna-se autoritarismo maquiavélico que usa e abusa das pessoas em vez de servi-las.

Acredito que devemos ser humildes para reconhecer que precisamos uns dos outros e procurarmos sempre ouvir de pessoas que já caminharam nesta jornada há mais tempo que nós. Precisamos fazer isso com o discernimento que vem por meio do conhecimento das Escrituras e da comunhão com Espírito Santo para reter apenas o que é bom.

Esta é a cobertura espiritual em que acredito. É a cobertura de Cristo sobre minha vida, que se manifesta na submissão à Sua Palavra e na comunhão com seu Corpo, livrando-me de uma fé individualista.

 

 

Dietrich Bonhoeffer
Quem sou eu? Freqüentemente me dizem
Que saí da confinação da minha cela
De modo calmo, alegre, firme,
Como um cavalheiro da sua mansão.

Quem sou eu? Freqüentemente me dizem
Que falava com meus guardas
De modo livre, amistoso e claro
Como se fossem meus para comandar.
Quem sou eu? Dizem-me também
Que suportei os dias de infortúnio
De modo calmo, sorridente e alegre
Como quem está acostumado a vencer.

Sou, então, realmente tudo aquilo que os outros me dizem?
Ou sou apenas aquilo que sei acerca de mim mesmo?
Inquieto e saudoso e doente, como ave na gaiola,
Lutando pelo fôlego, como se houvesse mãos apertando minha garganta,
Ansiando por cores, por flores, pelas vozes das aves,
Sedento por palavras de bondade, de boa vizinhança
Conturbado na expectativa de grandes eventos,
Tremendo, impotente, por amigos a uma distância infinita,
Cansado e vazio ao orar, ao pensar, ao agir,
Desmaiando, e pronto para dizer adeus a tudo isto?

Quem sou eu? Este, ou o outro?
Sou uma pessoa hoje, e outra amanhã?
Sou as duas ao mesmo tempo? Um hipócrita diante dos outros,
E diante de mim, um fraco, desprezivelmente angustiado?
Ou há alguma coisa ainda em mim como exército derrotado,
Fugindo em debanda da vitória já alcançada?

Quem sou eu? Estas minhas perguntas zombam de mim na solidão.
Seja quem for eu, Tu sabes, ó Deus, que sou Teu!

- Poema Wer Bin Ich? escrito por Dietrich Bonhoeffer (1906-1945) na prisão em 18 de Julho de 1944.