Archive for the 'Emergente' Category
2010
A entrevista

Há um ano foi publicada uma matéria na Revista da Folha falando sobre o Projeto 242, que provocou uma enxurrada de e-mails, comentários, pessoas elogiando, muitas criticando, etc. Tendo passado um ano, acho que posso publicar aqui no meu blog a entrevista original que eu dei para a revista por e-mail (a outra, foi um bate-papo informal com a jornalista e o fotógrafo junto com o Claudio Tiberius).
Passados um ano também, percebo que algumas coisas mudaram em relação a mim pessoalmente e ao Projeto 242. Creio que não nos encaixamos mais no rótulo de igreja emergente. O movimento emergente (principalmente o Emergent Village) tomou o rumo da teologia liberal e do evangelho social (e sendo sincero, eu respeito mais a “lógica espiritual” de um ateu do que a de um cristão liberal). O liberalismo teológico nunca produziu vida. Seus frutos podem ser observados na realidade espiritual do continente europeu. Então não me vejo mais carregando a bandeira da igreja emergente.
Quanto ao Projeto 242, talvez a principal mudança da época destas entrevistas e matéria é que o ministério Sexxxchurch, que começou entre nós, seguiu seu próprio caminho e não possui mais nenhum vínculo conosco.
Bom, de qualquer modo, segue a entrevista.
****
Existem igrejas parecidas com o projeto 242 pelo mundo? Qual foi a precursora e as principais atualmente? Vocês mantém contato com essas igrejas?
Há muitas igrejas parecidas com o P242 pelo mundo, a maioria delas dentro de um movimento chamado Igreja Emergente. É difícil precisar com exatidão qual foi a precursora, mas com certeza esse movimento nasceu de verdade na Inglaterra na década passada com igrejas que começaram a oferecer cultos alternativos para a juventude. Algumas das principais igrejas emergentes na Inglaterra e nos EUA são: Ikon, Moot (UK) Mosaic, Mars Hill, Solomon’s Porch, Ecclesia (EUA).
Vocês se consideram evangélicos?
Nós preferimos dizer que buscamos seguir Jesus. Ele não era nem Católico, nem Evangélico. Dentre nós há pessoas que tem um background católico e outras (talvez a maioria) vem de uma tradição evangélica.
Como o dízimo é tratado no projeto 242?
Tem uma postagem no meu blog sobre isso, talvez você queira ler.
Gostaria que você descrevesse o momento (onde, quando, em quais circunstâncias) que você decidiu criar a igreja. Por alto você me disse que foi na casa de um amigo, é isso mesmo?
Eu servia na equipe pastoral de uma igreja no bairro do Ipiranga e tinha começado um trabalho chamado Refúgio do Rock, onde bandas de hard rock e metal pesado se apresentavam todas as sextas-feiras (isso tudo de 1993-1997). No passagem de ano de 1996 para 1997, eu estava na sala do pastor senior daquela igreja quando ele perguntou-me se eu gostaria de abrir uma nova igreja em SP. Minha esposa e eu estávamos pensando seriamente em ir para os EUA onde eu planejava fazer um mestrado em Teologia. Portanto minha resposta foi: “Não, já existem igrejas demais em SP, não tenho interesse nenhum em abrir mais uma.” Mas aquela pergunta me perseguiu nos meses seguintes e acabou gerando em mim e em algumas pessoas o desejo de iniciar algo novo. Nossa idéia era que, se fôssemos fazer isso, não tinha sentido algum ser uma cópia daquela igreja ou de outras tantas que conhecíamos. Durante o segundo semestre de 1997 esse grupo se reuniu num apartamento no bairro do Ipiranga para sonhar com essa nova igreja. Iniciamos oficialmente em janeiro de 1998, nos reunindo num flat na Alameda Ribeirão Preto, na Bela Vista. Dois anos e meio depois alugamos uma casa na Vila Mariana onde nos reunimos até o mês de julho deste ano, quando mudamos para a Rua da Glória. Tem uma postagem no meu blog sobre isso.
Qual é a tua profissão? Você nasceu católico, evangélico?
Atualmente sou pastor-missionário em tempo integral. Nasci num lar com mãe protestante e pai católico nominal.
Como o homossexualismo é visto no projeto 242? E o uso de drogas?
Esse é um tema bem complexo para se tratar de modo superficial e em poucas linhas. Mas se eu tiver que responder em poucas linhas, a resposta é a seguinte: Buscamos encorajar as pessoas a viver uma sexualidade que esteja de acordo com o que entendemos ser apresentado na Bíblia. Isso significa que o sexo seja a relação entre um homem e uma mulher dentro da aliança (pacto) do casamento. Tem uma postagem no meu blog sobre isso.
Em relação as drogas, entendemos que qualquer coisa que rouba a razão e liberdade das pessoas é maléfico. Sendo assim, a lista de “drogas” poderia ser imensa e incluir até a religião quando ela faz isso. De qualquer modo, tendo visto bem de perto o estrago que o abuso do álcool e outras substâncias pode causar nas pessoas, eu definitivamente não aconselho ninguém a usar drogas e abusar das bebidas.
Jesus é visto como um revolucionário pela igreja?
Jesus é visto como muito mais que um revolucionário para nós. Ele é a imagem visível do Deus invisível. Ele veio nos mostrar Deus como ele é, e o homem, como ele deve ser. Agora, sem dúvida, isso é uma revolução total, uma revolução de amor, pois Jesus disse que as coisas mais importantes da vida são amar a Deus acima de todas as coisas e amar ao próximo como a si mesmo. Não é possível viver essa realidade sem revolução de vida, valores, conceitos, etc.
2009
Enfrentando o Relativismo
Na postagem anterior coloquei uma citação de Lesslie Newbigin citada por Tim Keller em seu magnífico livro A Fé na Era de Ceticismo. Depois de ter postado, decidi pegar minha empoeirada cópia do livro de Newbigin e verificar de onde veio a citação original. Abaixo está o parágrafo completo (a pequena diferença na tradução deve-se ao fato de que o anterior foi copiado do livro e este foi traduzido diretamente por mim).
>Não é fácil resistir a onda contemporânea de pensamento e sentimento que parece varrer-nos irresistivelmente na direção de uma aceitação do pluralismo religioso e longe de qualquer afirmação confiante da soberania absoluta de Jesus Cristo. Não é fácil desafiar a estrutura de plausabilidade dominante. É mais fácil se conformar. O domínio impressionante do relativismo na cultura contemporânea torna suspeita qualquer confissão firme de fé. Para a afirmação feita pelos cristãos sobre Jesus, a resposta é: “Sim, mas outros fazem afirmações semelhantes sobre os símbolos de sua fé; por que Jesus e não alguém ou algo mais?” Assim a relutância em acreditar em algo conduz a um estado mental no qual o Zeitgeist se torna a força dominante. A declaração verdadeira de que nenhum de nós pode captar toda a verdade torna-se uma desculpa para desqualificar qualquer afirmação de se ter uma pista válida para pelo menos o início do entendimento. Há uma aparência de humildade no protesto de que a verdade é muito maior do que qualquer um de nós possa captar, mas se isso for usado para invalidar toda afirmação de discernir a verdade, é de fato, uma reivindicação arrogante de um tipo de conhecimento que é superior ao conhecimento que está disponível a seres humanos falíveis. Temos que perguntar: “Como você sabe que a verdade sobre Deus é maior do que o que nos foi revelado em Jesus?” Quando Samartha ou outros nos perguntarem: “Que fundamento você pode mostrar para considerar a Bíblia como autoridade singular, uma vez que outras religiões também tem seus livros sagrados?”, temos que retornar com a pergunta: “Qual é o ponto de vantagem a partir do qual você reivindica a capacidade de relativizar todas as reivindicações absolutas que essas diferentes escrituras fazem?” Que verdade mais elevada você possui que o torna capaz de reconciliar declarações sobre Jesus diametralmente opostas na Bíblia e no Alcorão? Ou você está, de fato, nos aconselhando que é melhor não acreditar em nada?” Quando a resposta for: “Nós queremos unificar a humanidade para que possamos ser salvos de um desastre,” devemos dizer: “Nós também queremos essa unidade e, portanto, buscamos a única verdade pela qual a humanidade pode tornar-se uma.” Esta verdade não é uma doutrina ou cosmovisão, nem mesmo uma experiência religiosa; certamente não é achada por repitições abstratas de substantivos como justiça e amor; ela está no homem Jesus Cristo sobre quem Deus estava reconciliando o mundo. A verdade é pessoal, concreta, histórica.
(The Gospel in a Pluralist Society, pp. 169-170)
2009
Arrogância travestida de humildade
Há uma aparência de humildade na afirmação de que a verdade é muito maior do que a capacidade de qualquer um de nós de apreendê-la, mas quando usada para invalidar todas as reivindicações de conhecer a verdade, ela é, com efeito, uma arrogante reivindicação de um conhecimento superior a (todos os outros)… Precisamos indagar: “Qual é a perspectiva [absoluta] a partir da qual você reivindica ser capaz de relativizar todas as reivindicações absolutas que essas Escrituras distintas fazem?”
- Lesslie Newbigin em The Gospel in a Pluralist Society, citado por Tim Keller em A Fé na Era de Ceticismo, Campus 2009.
2009
A Verdade é Inevitável
Você não pode sair por aí “justificando” para sempre, pois vai acabar justificando a própria justificativa. Não é possível sair por aí “vendo através” de tudo para sempre. A idéia de ver através de alguma coisa é enxergar alguma coisa por trás. É bom que a janela seja transparente, pois a rua ou o jardim por trás dela não é. Como é possível ver através do jardim também?… Um mundo totalmente transparente é um mundo invisível. “Ver através” de tudo é o mesmo que não ver.
- C.S. Lewis em The Abolition of Man apontando o fato de como a verdade é algo inevitável e não apenas um coisa relativa.
2009
Emergente Modernidade?
Martin N. Dreher em seu livrete Fundamentalismo (Sinodal 2006) descreve um movimento na Igreja caracterizado pelos seguintes aspectos:
Ênfase no individualismo e na espiritualização da fé, procurando superar o confessionalismo de uma religião fossilizada, da “pura e reta doutrina”.
Destaque para a teologia da experiência da fé contra a teologia do mero conhecimento.
Luta pela regeneração pessoal contra a preocupação com o dogma correto, que leva a controvérsias nada edificantes.
Destaque para a internalização da fé, contra a exteriorização representada por pia batismal, púlpito, confessionário, altar.
Ênfase na separação entre a Igreja e o Estado.
Ênfase numa renovação ética com uma série de iniciativas para a renovação da sociedade.
Uso de frases de efeito como “vida é melhor do que doutrina”, “religião é questão de coração e não de cabeça”, “tornar-se e não ser”, etc.
Enxergando-se como continuação da Reforma religiosa do século XVI, uma vez que no século XVI somente a doutrina foi reformada, importando agora reformar a vida.
Estaria ele falando da Igreja Emergente? Leia novamente. Todos estes aspectos podem ser vistos no movimento de Igreja Emergente. E a maioria dos proponentes da Igreja Emergente gosta de enfatizar também o fato de que estamos vivendo no pós-modernismo e de acusar a Igreja de estar presa ao modernismo.
Acontece que os aspectos citados por Dreher acima não dizem respeito a Igreja Emergente, mas ao Pietismo dos séculos XVII ao XIX. A grande ironia disso é que, como aponta Dreher, importantes figuras da Modernidade se originaram no Pietismo. Em outras palavras, as características que formaram o terreno para o modernismo estão agora sendo propagadas por aqueles que buscam abraçar o pós-modernismo.
Mas… seria a Igreja Emergente uma revisão do Pietismo?
Como disse o Pregador: “Não existe nada novo debaixo do Sol…”
2009
Você é fundamentalista?
Se a pergunta fosse dirigida a nós, certamente responderíamos com um sonoro “não”. O conceito fundamentalismo tem sua origem na palavra fundamento. Não há casa que possa ser construída sem fundamento, não há argumento que possa ser formulado sem fundamentos, não há existência humana sem fundamento. Por esse último aspecto, somos todos fundamentalistas, pois todos necessitamos de fundamentos, de alicerces para a nossa existência, e quem desistir deles estará desistindo de si mesmo. Porém, o trágico das formulações de nossos dias é que “fundamentalistas” são sempre os outros, jamais nós próprios.
- Martin H. Dreher em Fundamentalismo (Sinodal 2006)
2009
Uma força em movimento

Como leitor compulsivo que sou, frequentemente estou mencionando livros e autores em minhas reflexões e, por este motivo, muitos me perguntam sobre livros que influenciaram minha visão da Igreja e, consequentemente, do Projeto 242. Justamente por ler tanto, fica difícil (senão impossível) destacar um texto apenas. Todavia, se eu tivesse que mencionar apenas um livro que nos últimos 10 anos tenha exercido maior influência sobre meu modo de ver a Igreja, possivelmente o texto An Unstoppable Force (algo como “uma força impossível de se parar”) de Erwin Raphael McManus tenha sido este livro.
Ganhei um exemplar em 2003 quando visitei uma comunidade emergente em Ventura, California, e devorei o livro quase que todo no vôo de volta para São Paulo. Como indica o título, Erwin apresenta a Igreja como uma força revolucionária impossível de ser parada. Ele nos faz lembrar aquilo que Jesus disse a Pedro em Mateus 16.18. Os ingredientes para a Igreja viver essa revolução estão todos ali. Basta colocar em prática…
Fico feliz em poder indicar sua leitura agora que finalmente foi publicado em português pela Garimpo Editorial. Espero que não fique somente neste, mas que outros livros de Erwin como Uprising e The Barbarian Way também sejam publicados aqui.
2009
Crente boca suja

No domingo passado, ao falar sobre o desequilíbrio entre a verdade sem graça (legalismo) e a graça sem verdade (libertinagem), eu mencionei a tendência crescente entre muitos cristãos pós-modernos de soltar o verbo e liberar os palavrões como se fosse a coisa mais natural do mundo. Algumas pessoas me perguntaram se eu não estava caindo novamente no legalismo simplesmente por questionar isso. Vejamos.
Em primeiro lugar é preciso reconhecer que esta é uma questão mais complexa do muitos gostariam que fosse. Já conversei com várias pessoas sobre isso nos últimos anos e tenho a impressão de que muitos pensam que basta citar alguns versículos das Escrituras e assunto encerrado. Mas não é bem assim. O difícil é determinar quando uma palavra é torpe ou obscena uma vez que a linguagem é algo vivo e as palavras e seus significados mudam com o tempo. Algo que era considerado um palavrão nos dias de Jesus ou Paulo pode nem sequer ser utilizado hoje.
Sendo assim temos que lidar com questões sobre contexto, cultura, significado e eu entendo isso, não sou leigo no assunto e não estou tentando desprezar tais considerações.
Por outro lado, será que o valor de nossas palavras deveria ser determinado pelo meio em que vivemos? Se todos à nossa volta estão usando certas palavras, será que isso significa que nós devemos usá-las também?
Algumas pessoas dizem que o uso de palavrão se tornou natural em nossa cultura e que os únicos que ficam ofendidos são os “legalistas religiosos”. Realmente parece que cada vez mais pessoas estão usando palavrão como parte de seu vocabulário. Mas isso não torna o palavrão menos palavrão. De fato, as pessoas usam certas palavras justamente porque elas querem dizer algo para chocar, dar ênfase, ofender, etc. Ou seja, mesmo com o uso cada vez mais corriqueiro, certas palavras continuam sendo torpes e obscenas em nossa cultura.
O comediante americano George Carlin em seu show “Sete palavras que você nunca deve dizer na TV” demonstrou (mesmo que a contragosto) que há certas palavras que são inapropriadas. Bono que o diga. Por usar uma destas palavras na entrega do Globo de Ouro em 2003, ele criou problemas para a rede de TV norte-americana Fox.
Eu gosto da idéia de que se você não usaria uma determinada palavra numa conversa com sua mãe, numa reunião como igreja, numa entrevista de emprego ou para alguém que você acabou de conhecer, então essa palavra parece não ser apropriada para seu uso corriqueiro. Novamente, parece uma idéia simplista (e talvez seja), mas creio que é um começo.
Seria válido falar palavrão para se identificar com as pessoas que estamos tentando alcançar?
Eu me lembro de quando fazia visitas na antiga Casa de Detenção Carandirú em São Paulo. Os presos tinham um código de respeito para com os “crentes” que os visitavam. Não se falava palavrão perto deles. Percebi o mesmo com relação as prostitutas em alguns prostíbulos onde estive com os missionários do Projeto Toque. Quando alguma delas que não nos conhecia começava a baixar o nível das palavras, era logo censurada pelas companheiras. Fico imaginando o que essas pessoas pensariam ao ouvir um discípulo de Cristo falando as mesmas palavras que elas, apesar de usarem, reprovam. Será que elas veriam evidências de uma nova vida no falar deste discípulo?
Como eu disse em minha reflexão, precisamos rever nosso conceito de liberdade cristã. Para muitos, a nova versão de liberdade que eles estão aderindo é apenas uma revisão da velha escravidão que eles pensam ter deixado para trás.
Liberdade cristã não é liberdade para fazer o que quer que eu desejo. Liberdade cristã é liberdade para servir a Cristo e fazer o que Ele deseja. É liberdade para agradar a Deus. É liberdade no Espírito Santo. E o fruto do Espírito é amor, paz, bondade… domínio próprio.
Lutero colocou da seguinte forma em seu clássico texto Da Liberdade Cristã (1520): “Um cristão é senhor livre sobre todas as coisas e não está sujeito a ninguém – pela fé. Um cristão é servidor de todas as coisas e sujeito a todos – pelo amor.”
Quando leio passagens como Efésios 2.1-5 e 4.22, 1 Pedro 4.3, Tito 3.3, dentre outras, há uma indicação clara de que nossa vida antes de Cristo era marcada por certas coisas que já não devem mais persistir uma vez que estamos ligados à Cristo. Os verbos usados – éramos, andávamos, vivíamos – indicam uma condição passada. Mas agora, diz a Bíblia, somos novas criaturas e devemos despir (despojar) a velha condição. Me parece estranho que seguidores de Cristo queiram continuar na condição passada, exibindo os mesmos maus hábitos e caindo nos mesmos erros.
É neste contexto do novo homem que Paulo fala aos Efésios (4.29): “Não saia de vossa boca nenhuma palavra torpe.” (ARA)
O dicionário Houaiss define TORPE como:
- que contraria ou fere os bons costumes, a decência, a moral; que revela caráter vil; ignóbil, indecoroso, infame
- que contém ou revela obscenidade; indecente
- que causa repulsa; asqueroso, nojento
- que apresenta mácula; sujo
Ou seja, mesmo considerando as mudanças do vocabulário com o decorrer dos tempos, uma palavra torpe hoje continua sendo torpe.
Algumas pessoas argumentam que xingar é ser transparente e honesto. Todavia, o próprio bom senso nos diz que não devemos ser transparentes em tudo exatamente. Ainda que não exista nada em nossa vida que esteja oculto aos olhos de Deus – não há áreas privadas diante de Deus – há todavia, áreas e coisas que fazemos que não deveriam se tornar públicas. Por exemplo, o exercício de nossas necessidades físicas. Ninguém que tenha um bom senso ira advogar que, em nome da transparência, deve-se abaixar as calças em público e se aliviar na frente de todos. Isso seria indecoroso na maioria das culturas e sociedades do nosso mundo hoje. Ou seja, a tal de transparência neste caso me parece mais uma desculpa para obscenidade do que algo sincero.
Todd Hunter, presidente do Curso Alpha certa vez disse: “Como um discípulo de Jesus usa sua linguagem? O amor deve ser o árbitro de todo o falar.”
Quando você manda alguém ir se f**** ou chama uma pessoa de filho da p***, você está demonstrando amor? Você consegue ver a atitude de Cristo nisso? Imagino que não. Não importa o quão transparente você diga que está sendo, a única coisa que sua atitude transparente está demonstrando é a ira e falta de domínio próprio.
Então ouço pessoas apontando outros pecados, dizendo que alguém não xinga, mas odeia de qualquer maneira. Ora, um pecado não justifica o outro. Deus nos chamou para uma nova vida, com novas atitudes e novos hábitos.
Creio que xingar é um mal hábito e como todo mal hábito deve ser desencorajado, procurando livrar-se dele em busca de novos hábitos. Gosto do Bono como artista. Lendo uma de suas entrevistas certa vez, achei curioso que ele mesmo considera o falar palavrão como um mal hábito que ele possui. Mesmo gostando de sua arte, não significa que eu deva gostar ou adquirir seus maus hábitos.
Jesus elevou os padrões para os seus seguidores, em vez de diminuí-los como muitos aderentes da graça barata parecem pensar que Ele tenha feito. Tiago nos chama para um viver comprometido com os pobres e oprimidos ao mesmo tempo em que nos mantemos incontaminados com o mundo – inclusive no falar (1.26-27). Uma simples leitura a carta de Tiago revela que ele tinha muito a dizer sobre o Cristianismo prático e o uso da língua.
Por tudo isso e mais um pouco, creio que os seguidores de Cristo devem evitar ao máximo o uso de linguagem torpe/obscena, especialmente em público.
Que Deus nos ajude a viver não no legalismo nem na libertinagem, mas na verdadeira liberdade no Espírito.
********
Arte: Svetlana Nikulina
2009
N.T. Wright e o cisma pela ordenação de gays
N. T. Wright, o Bispo Anglicano de Durham, Inglaterra, é também considerado uma das maiores autoridades em Novo Testamento da atualidade. Tom Wright é autor de dezenas de livros (em um deles ele debate com o liberal John Dominic Crossan sobre a realidade da ressurreição), mas parece que seus escritos ainda são pouco conhecidos por aqui. A Editora Ultimato publicou dois de seus livros nos últimos dois anos (Simplismente Cristão e O Mal e a Justiça de Deus), tem um no prelo (Surpreendido pela Esperança) prometido ainda para este ano e espero que continue publicando outros textos de N.T. Wright. Eu já li vários de seus livros, ouvi algumas aulas e palestras proferidas por ele e, cada vez mais, tenho apreciado a clareza e simplicidade de suas colocações.
Por esta razão, ao ver o seu nome associado a um assunto que tem levantado tanta discórdia e discussão em nossos dias, fiquei tremendamente curioso em ler o que ele tem a dizer sobre o assunto. O artigo escrito por Tom Wright foi publicado no The Times em 15 de julho passado e diz respeito a ruptura que a ordenação de ministros que sejam homessexuais praticantes está causando na Igreja Anglicana (mais precisamente entre a Igreja Episcopal Anglicana dos EUA e os anglicanos no resto do mundo).
A posição de N.T. Wright não poderia ser mais clara quanto a este assunto:
Nossos supostamente genes egoístas desejam uma variedade de possibilidades sexuais. Mas os mestres Judeus, Cristãos e Muçulmanos tem sempre insistido que um casamento por toda a vida entre homem e mulher é o contexto apropriado para o relacionamento sexual. Isto não é (como frequentemente se tem sugerido) uma regra arbitrária, de tonalidades dualistas e com a intenção de se castrar a alegria. É um reflexo estrutural profundo da crença em um Deus criador que entrou em uma aliança tanto com sua criação como com seu povo (que leva adiante seus propósitos para esta criação).
O Paganismo antigo e moderno tem sempre visto esta ética e esta crença como sendo ridículas e inacreditável. Mas o testemunho bíblico não está nem um pouco confinada, como um líder estridente sugeriu ontem no The Times, a uns poucos versos de São Paulo. A denúncia severa de Jesus da imoralidade sexual certamente levava consigo, para os seus ouvintes, uma rejeição implícita clara de todo comportamento sexual fora da monogamia heterosexual. Isto não é uma questão de “resposta privada às Escrituras”, mas o ensino uniforme de toda a Bíblia, de Jesus e de toda a tradição cristã.
O apelo à justiça como uma forma de cortar o nó ético em favor de incluir homossexuais ativos no ministério cristão simplesmente clama pela pergunta. Ninguém tem um direito de ser ordenado: é sempre um dom da pura e imerecida graça. O apelo também deturpa seriamente a própria noção de justiça, não apenas na tradição cristã de Agostinho, Aquinas e outros, mas nas discussões filosóficas mais amplas desde Aristóteles a John Rawls. Justiça nunca significa “tratar a todos do mesmo modo”, mas “tratar as pessoas de maneira correta”, o que envolve fazer distinções entre diferentes pessoas e situações. Justiça nunca significou “o direito de dar expressão ativa a qualquer e todo desejo sexual.”
Devemos insistir, também, na distinção entre inclinação e desejo de um lado e a atividade de outro – uma distinção regularmente obscurecida por referências a “clero homossexual” e assim por diante. Todos nós temos de todos os tipos de inclinações e desejos profundamente enraízados. A questão é, o que devemos fazer com eles? Uma das orações no Livro Comum roga a Deus para que possamos “amar o que Tu ordenaste e desejar o que Tu prometeste.” Isto é sempre difícil, para todos nós. É mais fácil pedir a Deus para ordenar aquilo que nós já amamos e prometer aquilo que nós já desejamos. Mas muito menos como o desafio do Evangelho.
A questão não é apenas para os Episcopais, Anglicanos e Luteranos norte-americanos (que acabaram de fazer seu concílio em Minneapolis para tratar deste mesmo tema). Este assunto tem o potencial de se tornar num grande divisor para a Cristandade neste século. E como temos visto aqui no Brasil, à medida em que, de um lado, se apela para o Congresso buscando defender “seus direitos”, de outro, na comunidade cristã, começam a surgir expressões que nem sempre refletem o pensamento do Bispo de Durham sobre como a pureza sexual é apresentada nas Escrituras (não apenas em alguns versos isolados, mas em toda a Bíblia, de Gênesis a Apocalipse). Mesmo no seio da comunidade cristã, tem se tornado cada vez mais comum rotular qualquer pessoa que afirme o ensino bíblico da monogamia heterosexual como sendo fundamentalista, moralista, legalista, etc.
Isso me faz lembrar de duas músicas. A primeira é um côro pentecostal que ouvia em minha infância: “Os dias são de trevas, sem poder o crente cai…” A outra se tornou hino de uma geração quando Bob Dylan anunciou as palavras de Jesus ao cantar The times-they are a-changin’ (os tempos estão mudando). Resta saber onde estão os que afirmarão o restante do verso: “mas minhas palavras não passarão”?
2009
Jesus quer salvar os cristãos
A editora Vida publicou o mais recente livro de Rob Bell, Jesus Quer Salvar os Cristãos. Este é o seu terceiro livro, sendo o primeiro Velvet Elvis (publicado no Brasil como Repintando a Igreja) e o segundo Sex God (que está no prelo pela própria editora Vida). Eu escutei o audiobook logo que o livro foi lançado e li a tradução em português essa semana. Este é, em minha opinião, o melhor livro de Rob Bell até agora (ele o escreveu em parceria com Don Golden, seu companheiro de ministério na igreja Mars Hill). Abaixo estão algumas frases sublinhadas por mim em minha leitura do livro:
Um cristão deveria sentir-se muito nervoso quando bandeira e Bíblia começam a se dar as mãos. Este não é um romance que queremos encorajar. (p. 21)
Os Dez Mandamentos são um novo modo de ser humano, um novo modo de viver e se mover no mundo, em aliança com o Deus que ouve o clamor dos oprimidos e os liberta. (p.40)
Deus não tem nada contra comer, beber e possuir coisas. Mas, quando essas coisas são adquiridas à custa da satisfação das necessidades básicas dos outros, aí sim, os discursos apaixonados dos profetas entram em ação. (p. 53)
Nossas lágrimas são sagradas. Regam o solo em torno dos nossos pés para que coisas novas possam brotar. (p. 61)
…é tão perigoso quando uma igreja se torna conhecida como contemporânea, descolada e moderna. O novo homem não é um modismo. (p 179)
Bom é participar de uma igreja que se reuniu e olhar à sua volta, pensando: “O que esse grupo de pessoas pode ter em comum?”. (p. 180)
A autoridade que a igreja exerce na cultura não procede do quanto está certa ou é legal ou barulhenta, nem do quanto está convencida de sua superioridade doutrinária. (p. 184)
Um ponto positivo é que este é o livro de Rob Bell que mais interage com as Escrituras, e isso é bom numa época que a Bíblia tem perdido centralidade nos diálogos emergentes. A interpretação que Bell faz da narrativa bíblica fica um pouco a desejar, no entanto, e, apesar de logo de início ele ter apresentado o livro como “um livro sobre um livro”, deixar Abraão de fora do plano de Deus para abençoar as nações é algo totalmente incompreensível para mim. Este não é um livro de panorama bíblico, muito embora, para quem não está familiarizado com a narrativa bíblica, servirá como uma introdução.
Seguindo a tendência pós-moderna de se esquivar do escândalo da cruz, ela não é vista em Jesus Quer Salvar Cristãos do ponto de vista da redenção por meio da morte substitutiva de Cristo, mas como demonstração de paz por meio do auto-sacrifício e não-violência (seria isso uma influência da teologia liberal de Crossan, dentre outros?).
Eu recomendo a leitura de Jesus Quer Salvar os Cristãos como um panorama sobre o coração de Deus com relação ao pobre e oprimido. Para quem quiser se aprofundar nesse tema recomendo a leitura de Cristãos Ricos Em Tempos de Fome de Ron Sider (Sinodal, 1984) e O Poder da Justiça de John Perkins (Editora Missão, 1990). Você vai ter que garimpar para encontrar estes livros, mas valerá a pena…
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