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A edição 21 da revista Cristianismo Hoje traz um artigo sobre os “evangélicos alternativos” que vale a pena conferir. Escrito por Brett McCraken, autor do livro Hipster Christianity, e adaptado para publicação na edição brasileira pelo jornalista Carlos Fernandes, o artigo incluiu o Projeto 242 e a Caverna de Adulão como expressões nacionais deste movimento de igrejas alternativas. Abaixo está a entrevista completa que concedi por e-mail para a revista e que foi parcialmente citada no artigo.

O Projeto 242 tem uma proposta alternativa em relação aos métodos convencionais de comunhão cristã e evangelismo. Como pode ser resumida sua atuação?
A proposta do Projeto 242 é viver a tensão de ser uma comunidade conservadora teologicamente e liberal culturalmente. Mantemos as crenças essenciais do Cristianismo, tais como na Trindade, Criação, Queda, Redenção, além dos cinco solas da Reforma, mas procuramos comunicar e viver estas crenças dentro do contexto cultural e urbano no qual estamos inseridos.

Você conhece o modelo de cristianismo hipster, atualmente em curso na América? Há algum ponto de interseção entre o trabalho de vocês e este modelo?
Conheço sim o que tem sido chamado de cristianismo hipster, comprei o livro do Brett McCraken sobre o assunto em novembro passado. No Projeto 242 não estamos tentando ser hipster, modernos ou descolados. Não é esta nossa motivação. Para ser sincero, tenho medo de que possamos nos tornar no “point cristão da hora”, na igreja do momento, na bola da vez. Não estamos atrás de um modismo, mas de um estilo de vida que têm atravessado 2 mil anos, às vezes se adaptando a cultura, outras contestando-a e subvertendo-a, mas sempre fundamentado na vida, obra e mensagem revolucionárias de Jesus Cristo. Portanto, creio que a única interseção entre nós e as igrejas hipsters é que, possivelmente, compartilhamos de uma linguagem cultural e artística parecida, contextualizada à cultura jovem global.

Os movimentos cristãos de perfil mais alternativo muitas vezes atuam de forma crítica em relaçao à Igreja chamada institucionalizada. Falando em termos gerais, de que maneira você enxerga esse processo? É possível uma vida cristã plena fora da Igreja? Por outro lado, não considera legítimo que pessoas que tenham sérias críticas ao modelo convencional (inclusive, gente que foi vítima de igrejas ou líderes centralizadores/abusadores) busquem esse tipo de vivência cristã?
A melhor crítica que tenho a oferecer em relação à igreja institucionalizada são os 13 anos de existência do Projeto 242. Minha crítica não são meros argumentos, mas a experiência de vida de uma comunidade que tem procurado reverter em sua prática aquilo que ela enxerga como errado no Cristianismo atual. Tanto eu como boa parte dos membros do Projeto 242 também já nos frustramos com certas experiências eclesiásticas, já cruzamos pelo caminho de lideranças manipuladoras e abusadoras da boa fé, mas não acreditamos que o isolamento seja a melhor resposta. Não existe o seguir Jesus sem comunidade, sem igreja. Isso vai contra a natureza do Deus que é Trino.

Como o seu ministério se relaciona com as outras iniciativas do mesmo gênero? Existe algum fórum de comunhão ou fraternidade, além de canais de colaboração?
O Projeto 242 é parte da associação de igrejas Steiger, uma organização missionária internacional dedicada a alcançar jovens secularizados, apontando-os para um relacionamento com Jesus Cristo e ajudando-os a cumprir com o chamado de Deus para suas vidas. Além disso buscamos manter amizades com outras comunidades que partilham dos mesmos interesses que nós para trocar experiências e aprender uns com os outros.

Que tipo de pessoa procura o Projeto 242? Quantas pessoas estão envolvidas diretamente no trabalho?
O Projeto 242 existe para pessoas que não se encaixam em certas estruturas eclesiásticas com tradicionalismo rígido e liturgias conservadoras ou pessoas que desejam conhecer mais sobre Deus e Jesus, mas fogem das igrejas tipo templo-teatro-mercado da fé. Somos uma comunidade de pouco mais de 100 pessoas que se reúnem para os cultos e se identificam como membros.

O movimento cristão hipster surgiu nos Estados Unidos na esteira de outros movimentos cristãos, como o Jesus Movement e o evangelismo dos anos 1980, e, de forma direta, é uma reação à moda das megaigrejas. Falando em termos de Brasil, de que modo você, particularmente, tem visto as últimas tendências evangélicas (teologia da prosperidade, movimento de louvor e adoração, evangelismo explosivo)?
Muitas das tendências evangélicas modernas no Brasil são frutos do pior que o evangelicalismo norte-americano já produziu. Vejo com tristeza o fato de que boa parte do Igreja Brasileira se parece muito com o que foi dito do Cristianismo Africano: tem 20km de extensão e 2 centímetros de profundidade. Minha esperança é que pequenas iniciativas de comunidades comprometidas mais com o Evangelho de Jesus do que com o sucesso ministerial a qualquer custo, possam ajudar a mudar este cenário.

O artigo abaixo foi escrito por Anthony Bradley na revista online WorldMag e diz respeito a um fenômeno que está sendo observado nos Estados Unidos da América. Decidi traduzi-lo para publicação em meu blog, pois creio que precisamos ficar atentos para este fenômeno, tendo em vista que já vislumbro sinais do mesmo em terras brasilis.

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É impressão minha ou parece que muitos jovens criados em comunidades evangélicas de classe média se tornam pessoas amarguradas em seus vinte e poucos anos? Recentemente tenho lido postagens em blogs e artigos escritos por jovens de vinte e poucos anos criados no evangelicalismo suburbano que parecem comprometidos a fazer uma coisa: atacar a própria comunidade onde cresceram e fazer isso de forma amargurada. Eu os chamo de “os Amargos”.

O modo como os Amargos se comunicam se encaixa na tese por Ronald Inglehart do início dos anos 1970 sobre jovens pós-materialistas. Inglehart escreveu que quando crianças crescem com abundância, como muitos jovens evangélicos suburbanos, ao alcançarem a maioridade, elas se preocupam mais com “auto-expressão” do que com trabalho duro e sobrevivência – as preocupações daqueles que crescem em meio a dificuldades e escassez.

Acrescente-se a isto o que Bill Bishop escreveu em The Big Sort: Why the Clustering of Like-Minded America Is Tearing Us Apart, que filhos da abundância tornam-se pós-materialistas jovens adultos que perdem o interesse em religião organizada e passam a ser cada vez mais focados em espiritualidade pessoal. O crescimento econômico e a segurança militar diminuem em importância política e são substituídos por assuntos como liberdade pessoal, direitos de aborto, justiça social e o meio ambiente. Estes jovens adultos são menos propensos a obedecer uma autoridade central e perdem a confiança em instituições hierárquicas. Finalmente, eles fomentam ressentimento pelas grandes organizações que criaram a sociedade industrial moderna norte-americana: grandes negócios, denominações tradicionais de igrejas, estruturas familiares tradicionais e assim por diante.

Os Amargos, que tendem a gravitar em direção a cultura cristã da moda, estão numa missão para expor a “conspiração conservadora” onde quer que a encontrem (ou inventem) sob a desculpa da “crítica saudável”. Os Amargos definem-se a si mesmos pelo que eles não são. Se seus pais forem Republicanos, eles se tornam Democratas obstinados. Se seus pais estão numa igreja conservadora, os Amargos buscam uma igreja mais liberal. Os Amargos escolhem “a esquerda” porque não é “de direita”. Não há pecado maior para os Amargos do que soar como se você fosse “conservador”.

Definir a identidade de alguém em termos de “não ser igual a eles” parece covardia. O anseio pela auto expressão que Inglehart discutiu em sua tese pode ser um anseio por ser ouvido e afirmado, uma vez que muitos filhos da classe média são ignorados em casa onde a participação significativa na vida familiar é comunicada como sendo opcional. Os Amargos geralmente sentem-se profundamente insignificantes, como se não tivessem importância. Eles provavelmente não eram “da hora” na escola. Suplicando por afirmação, os Amargos desejam que alguém preste atenção neles – finalmente. O modo mais fácil de ganhar atenção é protestando contra as coisas queridas dos mais velhos. “Você está me notando agora, não está?”, os Amargos declaram. A grande ironia é que os Amargos ainda desejam conexão as comunidades conservadoras que deixaram. Se você realmente “largou” algo, você não desperdiça tempo atacando aquilo; você apenas o ignora e deixa pra lá.

Posso estar errado sobre os Amargos. Espero que sim. Mas o que eu vejo é um grupo de vinte e poucos anos gastando seu tempo com uma busca que nunca irá dar-lhes a revolução prometida. Você é o que é, não aquilo contra o qual você se coloca.

(a versão original em inglês e os comentários encontra-se aqui)

Quando eu olho para o cenário das lideranças eclesiásticas no Brasil, sinto-me como se estivesse num deserto. De um lado, vejo a liderança pentecostal e neo-pentecostal cada vez mais distante do Evangelho de Cristo, pregando um “outro evangelho” da saúde e prosperidade, mergulhada em bizarrices doutrinárias e liturgicas, enamorada com o dinheiro e o poder, transformando a igreja em teatro de show da fé e mercado de bênçãos. Há muito que sinto-me divorciado deste contexto e, sinceramente, não vejo possibilidade de reconcilição com esta praxis de igreja.

Então procuro as “cabeças pensantes” da Igreja Brasileira e o que encontro é, de um lado, líderes (em número cada vez menor) comprometidos com uma visão ortodoxa da Bíblia, mas que ainda estão fechados em seu tradicionalismo eclesiástico, permanecendo tremendamente inflexíveis com relação a cultura, tentando preservar modelos e formas eclesiásticas datadas e que não correspondem ao contexto histórico e cultural no qual estamos vivendo. Aprecio o compromisso com a Bíblia como Palavra de Deus que este grupo preserva, mas sinto-me desconectado de seu formalismo e tradicionalismo eclesiástico.

Olho então para os que estão lutando por uma Igreja com relevância cultural e histórica, engajados com uma visão missionária que abarca o homem em sua totalidade e buscando o Reino e toda a sua justiça aqui e agora. Sinto-me atraído por este grupo. Há muito que minha vida tem sido gasta nesta busca também. Acredito na missão integral e tenho arriscado para ver a igreja onde sirvo comprometida com esta visão de Reino. Mas quando me aproximo para ouvir o que eles estão dizendo, o que ouço soa para mim como divagações de pessoas confusas com relação ao que creem (ou deixaram de crer) e que parecem não se importar se estão confundindo ainda mais os sedentos que, tendo desistido dos grupos acima, as buscam para ouvir algo novo. Percebo neste grupo uma tendência crítica cada vez maior para com uma visão ortodoxa da Bíblia. Parece-me que tais líderes estão abraçando o neo-liberalismo e perspectivas teológicas que são tão (quiçá mais) danosas que “o outro evangelho” dos neo-pentecostais. A Bíblia tornou-se para eles mais um livro com histórias capazes de inspirar boas ações, do que como autoridade nas questões de fé e prática de vida. Falam de Jesus, mas colocam em dúvida a historicidade das narrativas dos Evangelhos. Zombam de Paulo como se sua mensagem fosse divergente de Jesus e danosa para uma espiritualidade integral. Citam os profetas do VT como base para denunciar as injustiças sociais e defender os direitos dos oprimidos, mas questionam a realidade do pecado e da Queda. Buscam resgatar a Imago Dei contra qualquer forma de violação de direitos humanos, mas tratam aqueles que acreditam na historicidade do Gênesis como retrógrados fundamentalistas. Falam calorosamente sobre espiritualidade, mas suas palavras transmitem uma frieza polar. Pregam muito a Graça, mas quase sem Verdade.

Tozer recomendou: “Ouça o homem que ouve a Deus.” Tá difícil, viu…