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A Bíblia e o casamento do mesmo sexo

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Seis reivindicações comuns, mas equivocadas
por Darrel L. Bock

Tenho ouvido muito na esfera pública sobre progressão (ver nota 1). Nessas conversas, a Palavra de Deus é usada para argumentar que a igreja precisa mudar a sua opinião sobre o casamento homossexual, embora a Bíblia parece ser uniformemente contrária a isso. Tal ideia não vem só de colunistas de jornais, como Steve Sopro no Dallas Morning News, mas também de comentaristas evangélicos que afirmam que a Bíblia os leva nessa direção. Compreendo este desejo de amar bem, tirado do grande mandamento (Mateus 22:39), e também vejo que fazer tais perguntas pode não ser um desejo de se rebelar, traçar um novo caminho ou estar em conformidade com a cultura, mas tão somente como expressão de sinceridade.

Perguntas sinceras merecem respostas sinceras. Esse artigo é projetado para envolver aqueles que dizem que o impulso real da Bíblia é adentrar com alegria em nosso admirável mundo novo com os braços e corações abertos. Discutirei várias reivindicações que argumentam que a Bíblia ou não aborda claramente a nossa situação contemporânea específica, ou que ela é aberta e inconsistente o bastante para permitir um espaço a uma categoria anteriormente rejeitada.

Reivindicação 1: Jesus não falou sobre o casamento do mesmo sexo, então ele é pelo menos neutro, se não for aberto a ele. O que Jesus não condena, não devemos condenar.

Este é um argumento do silêncio, mas o silêncio não acontece em um vácuo. Jesus trata sobre o casamento e o define em Mateus 19:4-6 e Marcos 10:6-9 utilizando tanto Gênesis 1:26-27 como Gênesis 2:24 para analisá-lo. Aqui Jesus define e confirma o casamento como entre um homem e uma mulher, um reflexo do fato de que Deus nos fez macho e fêmea para juntos cuidarmos da criação. Com esta definição, o casamento homossexual é excluído. Se Jesus desejava estender o direito de casamento para além desta definição, aqui estava a sua oportunidade de fazê-lo. Mas ele não fez isso.

Jesus nunca discutiu o casamento do mesmo sexo, porque a maneira como ele definiu o casamento já o excluía. Ele não foi tão silencioso sobre o tema como alguns afirmam.

[J.R. Daniel Kirk em Jesus Have I Loved, But Paul?, Baker Academic, 2011, diz que o “silêncio" de Jesus sobre o assunto deve-se principalmente ao fato de que Jesus ministrou primariamente num contexto judaico onde, para o judeu, a relação sexual entre pessoas do mesmo sexo inquestionavelmente era vista como pecado,  "uma perversão da ordem criada por Deus". De fato, se Jesus quisesse ter mudado tal visão, a melhor maneira não teria sido o silêncio. Kirk comenta: "Muito do que sabemos sobre Jesus e seus ensinamentos, sabemos porque suas ações e palavras o colocaram em conflito com seus contemporâneos. Ele comeu com as pessoas erradas, permitiu que pessoas erradas o tocassem, estendeu e/ou quebrou regras sobre o sábado por curar e permitir que seus discípulos colhessem espigas no sábado. Quando Jesus discordou das interpretações tradicionais da lei, ele provocativamente fez coisas que indicavam isso e diretamente ensinava de modo a chamar atenção para isso - e são tais desvios que movem o conflito que encontramos nos evangelhos e que ultimamente levaram Jesus a ser pendurado numa cruz. O silêncio de Jesus sobre o tema da homossexualidade é poderoso, porque se ele tivesse se oposto à lei judaica nesse assunto, nós certamente saberíamos disso.”
De uma maneira mais ampla, Kevin DeYoung em What the Bible Really Teaches About Homosexuality, CrossWay, 2015, aponta também para o fato de que a Bíblia fala relativamente muito pouco sobre a homossexualidade porque era um pecado sobre o qual "praticamente não havia controversas entre os judeus. Não há evidências de que nem o judaísmo antigo nem o cristianismo primitivo toleravam qualquer expressão de atividade homossexual".]

Reivindicação 2: O Velho Testamento (VT) permite todos os tipos de casamentos “proibidos”, incluindo a poligamia e o que hoje seria qualificado como incesto. Se aqueles eram permitidos, certamente relações monógamas do mesmo sexo devem ser permitidas.

Aqui é onde uma olhada na progressão [das Escrituras] nos ajuda. Se observarmos o que a Bíblia realmente ensina, vemos que (1) esses casamentos passados são consistentemente retratados como resultando em caos social e não são tanto uma prescrição, mas sim uma descrição (ver nota 2); e que (2) a progressão das Escrituras no Novo Testamento (NT) reduz o âmbito das opções para o padrão de uma união monogâmica entre um homem e uma mulher em que o leito matrimonial deve ser honrado, mas a infidelidade sexual (porneia) – em todas as suas manifestações – deve ser evitada (Hebreus 13:4). Além disso, os presbíteros devem servir de exemplo para mostrar à comunidade o que significa ser o marido de uma só mulher (1 Timóteo. 3:2, 12).

Então, abrir uma nova categoria para o casamento na verdade vai contra a progressão das Escrituras sobre o casamento.

Reivindicação 3: A proibição do reconhecimento do casamento homossexual é como a cegueira passada da Igreja sobre a escravidão, os direitos das mulheres e um universo geocêntrico – onde o que era “claramente” ensinado nas Escrituras é agora visto como equivocado.

É justo salientar que alguns pontos de vista que costumavam ser considerados claros nas Escrituras, na verdade acabaram não sendo tão claros e até mesmo errados. Humildade hermenêutica para com todos não é uma coisa ruim. Mas é uma faca de dois gumes. Enquanto que com a criação/escravidão/mulheres é possível apontar passagens onde havia contra-tensões com aquelas que pareciam claras (por exemplo, na forma como Paulo pede que Filemon trate a Onésimo, ou como Maria sentou-se como discípula de Jesus, ou como é dito que o Espírito habita nas mulheres), nenhum texto no VT ou NT é sequer neutro sobre as questões do mesmo sexo. Cada texto que menciona o tema, o faz de forma negativa.

Então, aqui também a progressão nos ajuda, pois com passagens que dizem respeito a relacionamentos do mesmo sexo não existe progressão. A leitura é consistente. Isso deve contar para alguma coisa.

[Segundo J.R. Daniel Kirk em Jesus Have I Loved, But Paul?, Baker Academic, 2011: "Outra diferença importante entre a homossexualidade e questões como a escravidão e as mulheres em posição de liderança no Novo Testamento é que a descrição da homossexualidade no NT se levanta como um voz que clama em oposição a cultura circundante. Nesses outros casos, ao contrário, as Escrituras parecem refletir os costumes culturais mais amplos, talvez irrefletidamente. A aceitação mais ampla da homossexualidade em nosso próprio tempo, por si só, não nos coloca em uma posição fundamentalmente diferente daquela do mundo mediterrâneo antigo no qual as restrições bíblicas contra a homossexualidade foram escritas. As igrejas que estão mudando para abraçar a homossexualidade frequentemente parecem indispostas a articular qualquer ética sexual que se oponha à cultura prevalecente. Mas a figura neo-testamentária de unidade e fidelidade heterossexual por toda a vida sempre se destacou como um contramovimento aos ventos dominantes de sua época.”]

Reivindicação 4: Não seguimos todos os tipos de leis do Velho Testamento hoje (como as leis sobre ter relações sexuais enquanto uma mulher está menstruada, ou comer certos tipos de alimentos), então por que devemos aceitar o que o VT diz sobre relacionamentos do mesmo sexo?

Já definimos a trajetória para esta resposta quando observamos que todos os textos bíblicos sobre a homossexualidade, tanto no VT como no NT, são negativos. No entanto, uma outra observação precisa ser feita. Algumas leis do VT lidam com a questão da impureza [cerimonial] ligada ao templo e culto, que não são categorias de pecado, mas de adequação ligadas a adoração. Estas não são leis morais, mas restrições que serviam para distinguir Israel das nações politeístas vizinhas que eram moralmente frouxas e sacrificavam certos tipos de animais (e, em alguns casos, crianças) como parte de sua adoração. Esta alegação não mostra sensibilidade para tais distinções bíblicas. Em alguns casos, acaba comparando maçãs com laranjas, uma vez que questões de impureza [cerimonial] foram deixadas de lado no NT, quando os gentios vieram para o rebanho (Atos 10:9-29; Efésios 2:11-22; Colossenses 2:13-15).

Não lemos a Bíblia como um texto plano. Ela progride, ao longo de determinadas trajetórias, de modo que com a chegada da promessa, certas partes da lei são deixadas de lado (Galátas 3; Hebreus 8-10).

[O teólogo Richard B. Hays em The Moral Vision of the New Testament (1996), diz: “O Velho Testamento contém muitas proibições e mandamentos que, desde o primeiro século, geralmente têm sido deixados de lado ou considerados como obsoletos pela igreja – notavelmente, regras concernentes à circuncisão e práticas alimentares… No entanto, não há uma distinção sistemática entre lei ritual e lei moral. A mesma sessão do código de santidade também contém, por exemplo, a proibição do incesto (Levítico 18.6-18). Essa é uma lei de purificação ou uma lei moral? Levítico não faz distinção. Em cada caso, cabe à igreja a tarefa de discernir se as normas tradicionais de Israel permanecem para a nova comunidade dos discípulos de Jesus.” Em Atos 15, no primeiro concílio da Igreja, algumas dessas questões foram debatidas pelos apóstolos. A conclusão que chegaram foi: “Pareceu bem ao Espírito Santo e a nós não impor a vocês nada além das seguintes exigências necessárias: Abster-se de comida sacrificada aos ídolos, do sangue, da carne de animais estrangulados e da imoralidade sexual [porneia]. Vocês farão bem em evitar essas coisas. Que tudo lhes vá bem.” (Atos 15:28, 29)].

Reivindicação 5: O casamento do mesmo sexo não prejudica ninguém, por isso é moralmente aceitável e as pessoas devem ter o direito de escolher o que fazer.

Este não é um argumento bíblico, mas sim lógico [filosófico]. Muitas vezes a resposta da Igreja tem sido de que o desenho humano revela a homossexualidade inapropriada por causa da gravidez. Um casal do mesmo sexo não pode gerar um filho. Mas o que isso diz sobre solteiros ou casais que não desejam ou não podem ter filhos? Essa refutação é justa. O casamento não é apenas para gerar filhos, nem é o sexo apenas para a procriação. O livro de Cantares de Salomão eleva o amor no casamento como tendo seu próprio mérito, assim como muitos salmos e provérbios.

Mas aqui está um outro lugar onde distinções na questão de gênero vêm à tona. Em Gênesis 1 e 2, a criação de Deus do masculino e feminino como um par complementário – ambos feitos à imagem de Deus – é visto como parte do plano de Deus. Essa imagem envolve tanto masculino como feminino. O casamento descreve sua cooperação mútua em uma diversidade projetada para cuidar da criação de Deus. Isto é visto como o pináculo da criação, uma vez que é o contexto em que Deus nos chama para gerirmos bem o mundo [criado]. Parte desse projeto criacional é o florescer de futuras pessoas, onde o respeito para cada sexo é decorrente e apreciado.

Faço agora sinceramente uma pergunta difícil: como o respeito por ambos os sexos é aprimorado, afirmado e modelados no casamento entre o mesmo sexo? Ele sequer tem o potencial para demonstrá-lo. Em um sentido um tanto irônico, dado o nosso desejo de ser politicamente corretos, o casamento homossexual é discriminatório, porque apenas um dos gêneros conta no relacionamento.

No entanto, as pessoas têm o direito de escolher com quem vivem e são moralmente responsáveis perante Deus por suas escolhas. No final, ele nos julgará – heterossexuais ou homossexuais – por como temos vivido nestas áreas, independentemente de nossas leis nacionais. O apelo da igreja [contra o reconhecimento do casamento do mesmo sexo] não foi motivado pelo ódio ou medo, mas à partir de uma crença genuína de que a forma como escolhemos viver na mais básica das relações afeta nossa sociedade para o bem ou para o mal. Assim, devemos escolher com sabedoria, tanto individualmente quanto como povo. Para aqueles que confiam na Bíblia, isso significa andar na linha com o design e os padrões que Deus diz que são melhores para o amor e o florescimento [humano].

[Richard B. Hays em The Moral Vision of the New Testament (1996), comentando sobre a passagem de Romanos 1, diz que Paulo 'destaca o relacionamento homossexual porque ele o considera uma imagem particularmente gráfica do modo como a humanidade caída distorce a ordem criada por Deus. O Criador fez homem e mulher, um para o outro, para que juntos sejam frutíferos e se multipliquem. Quando seres humanos ‘trocam' esses papéis da criação pelo relacionamento homossexual, eles incorporam a condição espiritual daqueles que ‘trocaram a verdade de Deus pela mentira’.” Hays também comenta sobre a posição cada vez mais mencionada por parte daqueles que defendem a prática homossexual como sendo aceitável perante Deus de que, nessa passagem, ‘Paulo condena somente atos homossexuais cometidos de maneira promíscua por pessoas heterossexuais - porque elas ‘trocaram o coito natural pelo não natural’. O julgamento negativo de Paulo, conforme tal argumento, não se aplica a pessoas com uma orientação homossexual ‘natural’.”Segundo Hays, "Essa interpretação, no entanto, é insustentável. A ‘troca' não é uma questão de decisão individual; pelo contrário, ela é a caracterização feita por Paulo da condição caída do mundo pagão. De qualquer modo, nem Paulo nem ninguém mais na antiguidade tinham um conceito de ‘orientação sexual’. Introduzir esse conceito na passagem (sugerindo que Paulo desaprova somente aqueles que agem de modo contrário à sua orientação sexual individual) é cair num anacronismo. O fato é que Paulo trata toda atividade homossexual como evidência prima facie da confusão trágica da humanidade e sua alienação do Deus Criador."]

Reivindicação 6: O mundo antigo não entendia o amor genuíno entre pessoas do mesmo sexo, por isso esta é uma nova categoria a se considerar.

Aparentemente, nem Jesus nem Paulo nem mesmo Deus – o Pai que inspirou as Escrituras – reconheceram esta categoria potencial. Mas essa afirmação ignora o quão generalizadas as relações do mesmo sexo eram no mundo antigo. Nem todas elas eram abusivas ou exercícios de poder social cru. Este é um exemplo clássico de “esnobismo cronológico”, que C.S. Lewis descreveu como “a aceitação acrítica do ambiente intelectual comum à nossa época e a suposição de que tudo aquilo que ficou desatualizado é por isso mesmo desprezível” (Surpreendido pela Alegria, Mundo Cristão, p. 213), e sobre o qual seu amigo Owen Barfield explicou como a crença de que, intelectualmente, a humanidade “definhou durante incontáveis gerações nos erros mais infantis em todos os tipos de assuntos cruciais, até que foi resgatada por algumas máximas científicas simples do século passado” (History In English Words, p. 154).

Tal afirmação subestima drasticamente as opções apresentadas pela vida antiga, e ignora o fato de que a cultura antiga de modo bastante uniforme rejeitou a idéia de casamento do mesmo sexo. Este ponto é importante para compreender a inclusão de Paulo das tais relações na categoria de porneia (Mateus 15:19). A infidelidade em vista não é apenas contra a outra pessoa, mas contra o desígnio divino de complementariedade do homem e da mulher [criados] à imagem de Deus.

Algo sagrado e profundo

Prestar atenção séria à progressão das Escrituras não abre a porta para afirmar o casamento do mesmo sexo – ainda que o mesmo pretenda ser monógamo e amável. Na verdade, faz o contrário.

A revelação divina nos dá todos os indícios de que há algo de sagrado no fato da imagem de Deus ser masculina e feminina, e algo profundo sobre o casamento entre um homem e uma mulher (Efésios 5:32) – algo que torna o casamento único dentre todas as relações humanas.

***

Darrel L. Bock é professor sênior de pesquisa do Novo Testamento e diretor executivo para o engajamento cultural no Seminário Teológico de Dallas. Ele é autor e editor mais de 30 livros.

Notas:
1. No original, Bock usa o termo trajectories, que no contexto da hermenêutica, significa qual a direção que as Escrituras apontam, não apenas dentro de suas páginas, mas além delas.
2. Robert Alter, professor de hebraico e literatura comparativa da Universidade da California apresenta isso em seu livro A Arte da Narrativa Bíblica, Companhia das Letras, 2007.

Publicado originalmente no site TGC-The Gospel Coalition em 27/07/2015.
Tradução, notas e adendos em colchetes [ ] por Sandro Baggio.

Derek Webb

derekwebb
Eu confesso que, na última década a música cristã, de um modo geral, não foi a maior porção em minha dieta musical. Com raras exceções, a maioria dos artistas cristãos se tornou repetitiva e superficial demais, sem criatividade capaz de fazer com que eu escutasse sua música mais que uma vez (ou, em muitos casos, só alguns minutos). Derek Webb é uma das exceções.

Conheci Derek Webb por acaso, num show em Orlando, em 1999. Fui ao show para ver as atrações principais: Third Day e Jars of Clay, esta última fazendo um show de pré-lançamento do álbum Since I Left the Zoo. O show tinha sido promovido pela indústria musical e, por este motivo, teve uma série de apresentações de outros artistas desconhecidos para mim: Bebo Norman, Andrew Peterson e Caedmon’s Call (a banda da qual Derek Webb fazia parte).

Nos anos seguintes, comprei os cds da banda Caedmon’s Call sempre que eram lançados e tentei acompanhar um pouco a carreira da banda. Desse modo, li que o Derek Webb havia gravado dois álbuns solo, mas somente em 2005 parei para escutar algo de sua carreira solo, no lançamento de Mockingbird, quando o disco foi distribuído gratuitamente na internet por uma semana. Esse foi um daqueles cds que escutei muitas vezes antes de dormir, prestando atenção em cada nota tocada e cada palavra cantada.

Fiquei tão impressionado que acabei voltando aos trabalhos solos anteriores do Derek: She Must And Shall Go Free (2003), I See Things Upside Down e The House Show (2004). Para minha surpresa, esses álbuns eram tão bons quanto Mockingbird. Virei fã definitivo do cara. Comprei cada trabalho seguinte lançado pelo Derek, no dia do lançamento na internet (geralmente semanas antes do lançamento “físico”), desfrutando cada um deles como um jorro de água fresca no deserto que se tornou grande parte do cenário da música cristã contemporânea.

Para os leitores fluentes em inglês, recomendo ouvir atentamente as letras do Derek. Elas são brutalmente sinceras, honestas, relevantes e retratam o estado da Igreja atual que, como a de Laodiceia, se gaba de ser rica e de não ter falta de nada, mas na realidade é desgraçada, miserável, pobre, cega e nua. Derek não faz esse retrato como alguém que está do lado de fora, mas como alguém que é membro da Igreja, que faz parte dessa confusão e que deseja ardentemente tanto falar a verdade (mesmo sabendo que “a verdade nunca é sexy” – Nobody Loves Me) como ser confrontado por ela (ainda que corte sua carne, como canta em Medication).

Web: derekwebb.com
Twitter: @derekwebb

Corpo

CorpoCristo
“Somos como as várias partes do corpo humano. Cada parte tem seu significado no corpo, visto como um todo, mas não o contrário. O corpo de que estamos falando é o corpo formado pelas pessoas escolhidas por Cristo. Cada um de nós encontra significado e função como parte desse corpo. Não podemos ser como um dedo decepado, que não tem valor. Então, desde que estejamos ligados às outras partes constituídas de maneira genial e funcionando maravilhosamente no corpo de Cristo, sejamos o que fomos feitos para ser, sem inveja ou sentimento de superioridade sobre os outros, sem tentar ser algo que não somos.
Se você prega, limite-se a pregar a Mensagem de Deus; se você ajuda, apenas ajude -, não tente assumir o comando; se você ensina, apegue-se ao ensino; se você tem a capacidade de encorajar, tome cuidado para não se tornar autoritário; se você recebeu alguma posição de responsabilidade, não manipule; se você foi chamado para ajudar gente em angústia, fique de olhos abertos e seja rápido em responder; se você trabalha com os desamparados, não se permita ficar irritado ou deprimido por causa deles. Mantenha o sorriso.”

(Paulo aos cristãos Romanos, capítulo 12 versos 4-8 – A Mensagem)

Entender esse texto é um libertação tremenda!
Me livra do pecado da inveja.
Me livra do erro da comparação.
Me livra da tentação do juízo alheio.
Me liberta do desejo de querer ser quem não fui feito para ser.
Me libera para ser e viver de acordo com o que Deus me fez.

A igreja é maior do que você pensa

(conversando com sacerdotes ortodoxos em Leningrado, 1990)

Nasci num lar cristão. A família de minha mãe havia tido uma experiência de conversão numa igreja evangélica, fazendo com que minhas lembranças mais antigas da casa de meus avós maternos estejam relacionadas a cultos domésticos e reuniões de oração. Lembro-me também de ir a cultos na igreja Assembléia de Deus onde meu avó era presbítero e, com cerca de quatro anos de idade, começar a ir com minha mãe e irmãos a uma igreja Adventista (da Promessa) que ela passou a frequentar durante aqueles anos.

A família de meu pai é de tradição católica, tipicamente nominal, como a maioria dos brasileiros descendentes de italianos. Meu pai, apesar de ter sido batizado na igreja evangélica para casar-se com minha mãe, nunca foi de frequentar nenhuma igreja.

Aos quatorze anos de idade, tive minha própria experiência de conversão numa igreja pentecostal. Naquele contexto, ainda que indiretamente, aprendi o seguinte sobre católicos: são todos idolátras e vão para o inferno, se não se converterem a Jesus em uma igreja evangélica (preferivelmente pentecostal, visto que os protestantes históricos são frios e, na melhor das hipóteses, crentes fracos); a igreja católica é a Babilônia e o papa é a Besta ou o Anticristo do Apocalipse.

Quando fui para o seminário teológico, minha visão estreita da fé cristã começou a ruir. Convivi com cristãos presbiterianos, metodistas, batistas, congregacionais, assim também com pentecostais como eu (embora meu pentecostalismo já começara a ficar abalado nessa época). Fiz estágio do curso de teologia numa cidade no sul de Minas, onde pretendíamos plantar uma igreja evangélica (as estatísticas diziam que não havia sequer um crente evangélico entre os cerca de seis mil habitantes daquela cidade). Durante esse tempo, conhecemos o padre da cidade, um sujeito muito mais amigável e humano do que a imagem do “inimigo” que, até então, eu trazia dos sacerdotes católicos. Esse padre nos surpreendeu, abrindo até mesmo as portas da igreja para que ensinássemos em algumas reuniões.

Após o seminário, me uni à Operação Mobilização (OM) e fui para a Europa servir no navio Logos II, que estava ancorado em Amsterdã, Holanda. Novamente, o ambiente na OM e à bordo do navio, além de internacional, colocando-me em convívio com pessoas de diversas culturas, era também diversificado em termos de tradição cristã. A essa altura, eu já não pensava mais que minha denominação ou experiência pentecostal era detentora exclusiva do poder de Deus para salvação. A Igreja começou a parecer muito maior do que, até então, eu pensava que era.

Em agosto de 1990, com a abertura do Leste Europeu, navegamos para a Alemanha Oriental, Polônia, Rússia e países balticos. Em Dresden, participei de um encontro de jovens da igreja Luterana e percebi que as igrejas luteranas, diferente do que eu havia pensado, tinham esculturas e vitrais com gravuras dos Evangelhos (o que seria condenado por minha igreja local no Brasil). Na Polônia, a maior parte dos visitantes (e voluntários) ao navio, era de católicos. Na Rússia, fiquei comovido com os cristãos ortodoxos e sua sede pela Bíblia, após um período de 70 anos de repressão comunista.

Após essas experiências, ficou difícil de eu enxergar a legitimidade da fé cristã como uma exclusividade dos evangélicos pentecostais, como eu havia sido ensinado.

Durante os anos 90, tive várias experiências que continuaram abrindo minha mente para catolicidade da Igreja. Descobri escritores (Henri Nouwen, Brennan Manning, Jean Vanier, Anselm Grün, etc.) e teólogos (Hans Küng, Oscar Romero, Hans Urs von Balthasar e outros) católicos e ortodoxos que cativaram minha mente e coração. Aprendi a respeitar pessoas como o papa João Paulo II (e seus sucessores), em vez de considerá-los como anticristos. Reconheci a grandeza do trabalho de Madre Teresa em Calcutá e de outros missionários católicos que trabalham entre os pobres e necessitados ao redor do mundo. Abri as portas da igreja para bandas católicas, formando parceria com elas na proclamação da mensagem do Evangelho. Reconheci, finalmente, que a Cristandade é maior do que suas tradições e que Jesus não foi católico, protestante, anglicano, evangélico, pentecostal… nem mesmo cristão!

Isso não significa, de maneira alguma, que eu concorde com tudo que é dito e feito em todas as tradições e igrejas cristãs. Não significa que eu não possua uma confissão de fé e convicções doutrinárias. Não significa que eu abri mão de conceitos como sã doutrina, ortodoxia e heresia, e que esteja disposto a abraçar acriticamente tudo que traga o rótulo de cristão.

O que isso significa é que eu aprendi que a Igreja de Cristo é maior do que minha experiência local ou denominacional, e que o Espírito Santo não é refém de minha (e de qualquer outra) tradição.

Sobre pastores e lobos


por Osmar Ludovico

Pastores e lobos têm algo em comum: ambos se interessam e gostam de ovelhas, e vivem perto delas. Assim, muitas vezes, pastores e lobos nos deixam confusos para saber quem é quem. Isso porque lobos desenvolveram uma astuta técnica de se disfarçar em ovelhas interessadas no cuidado de outras ovelhas. Parecem ovelhas, mas são lobos.

No entanto, não é difícil distinguir entre pastores e lobos. Urge a cada um de nós exercitar o discernimento para descobrir quem é quem.

Pastores buscam o bem das ovelhas, lobos buscam os bens das ovelhas.

Pastores gostam de convívio, lobos gostam de reuniões.

Pastores vivem à sombra da cruz, lobos vivem à sombra de holofotes.

Pastores choram pelas suas ovelhas, lobos fazem suas ovelhas chorar.

Pastores têm autoridade espiritual, lobos são autoritários e dominadores.

Pastores têm esposas, lobos têm coadjuvantes.

Pastores têm fraquezas, lobos são poderosos.

Pastores olham nos olhos, lobos contam cabeças.

Pastores apaziguam as ovelhas, lobos intrigam as ovelhas.

Pastores têm senso de humor, lobos se levam a sério.

Pastores são ensináveis, lobos são donos da verdade.

Pastores têm amigos, lobos têm admiradores.

Pastores se extasiam com o mistério, lobos aplicam técnicas religiosas.

Pastores vivem o que pregam, lobos pregam o que não vivem.

Pastores vivem de salários, lobos enriquecem.

Pastores ensinam com a vida, lobos pretendem ensinar com discursos.

Pastores sabem orar no secreto, lobos só oram em público.

Pastores vivem para suas ovelhas, lobos se abastecem das ovelhas.

Pastores são pessoas humanas reais, lobos são personagens religiosos caricatos.

Pastores vão para o púlpito, lobos vão para o palco.

Pastores são apascentadores, lobos são marqueteiros.

Pastores são servos humildes, lobos são chefes orgulhosos.

Pastores se interessam pelo crescimento das ovelhas, lobos se interessam pelo crescimento das ofertas.

Pastores apontam para Cristo, lobos apontam para si mesmos e para a instituição.

Pastores são usados por Deus, lobos usam as ovelhas em nome de Deus.

Pastores falam da vida cotidiana, lobos discutem o sexo dos anjos.

Pastores se deixam conhecer, lobos se distanciam e ninguém chega perto.

Pastores sujam os pés nas estradas, lobos vivem em palácios e templos.

Pastores alimentam as ovelhas, lobos se alimentam das ovelhas.

Pastores buscam a discrição, lobos se autopromovem.

Pastores conhecem, vivem e pregam a graça, lobos vivem sem a lei e pregam a lei.

Pastores usam as Escrituras como texto, lobos usam as Escrituras como pretexto.

Pastores se comprometem com o projeto do Reino, lobos têm projetos pessoais.

Pastores vivem uma fé encarnada, lobos vivem uma fé espiritualizada.

Pastores ajudam as ovelhas a se tornarem adultas, lobos perpetuam a infantilização das ovelhas.

Pastores lidam com a complexidade da vida sem respostas prontas, lobos lidam com técnicas pragmáticas com jargão religioso.

Pastores confessam seus pecados, lobos expõem o pecado dos outros.

Pastores pregam o Evangelho, lobos fazem propaganda do Evangelho.

Pastores são simples e comuns, lobos são vaidosos e especiais.

Pastores tem dons e talentos, lobos tem cargos e títulos.

Pastores são transparentes, lobos têm agendas secretas.

Pastores dirigem igrejas-comunidades, lobos dirigem igrejas-empresas.

Pastores pastoreiam as ovelhas, lobos seduzem as ovelhas.

Pastores trabalham em equipe, lobos são prima-donas.

Pastores ajudam as ovelhas a seguir livremente a Cristo, lobos geram ovelhas dependentes e seguidoras deles.

Pastores constroem vínculos de interdependência, lobos aprisionam em vínculos de co-dependência.

Os lobos estão entre nós e é oportuno lembrar-nos do aviso de Jesus Cristo: “Guardai-vos dos falsos profetas, que vêm a vós disfarçados em ovelhas, mas interiormente são devoradores (Mateus 7:15).

Oxigênio


O cenário religioso está deixando você com falta de ar?
Estão está na hora de respirar algo novo… Oxigênio 2012.
Ainda não sabe o que é?
Leia aqui o que escrevi sobre a conferência no ano passado.
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