Archive for the 'Igreja' Category
2009
Uma força em movimento

Como leitor compulsivo que sou, frequentemente estou mencionando livros e autores em minhas reflexões e, por este motivo, muitos me perguntam sobre livros que influenciaram minha visão da Igreja e, consequentemente, do Projeto 242. Justamente por ler tanto, fica difícil (senão impossível) destacar um texto apenas. Todavia, se eu tivesse que mencionar apenas um livro que nos últimos 10 anos tenha exercido maior influência sobre meu modo de ver a Igreja, possivelmente o texto An Unstoppable Force (algo como “uma força impossível de se parar”) de Erwin Raphael McManus tenha sido este livro.
Ganhei um exemplar em 2003 quando visitei uma comunidade emergente em Ventura, California, e devorei o livro quase que todo no vôo de volta para São Paulo. Como indica o título, Erwin apresenta a Igreja como uma força revolucionária impossível de ser parada. Ele nos faz lembrar aquilo que Jesus disse a Pedro em Mateus 16.18. Os ingredientes para a Igreja viver essa revolução estão todos ali. Basta colocar em prática…
Fico feliz em poder indicar sua leitura agora que finalmente foi publicado em português pela Garimpo Editorial. Espero que não fique somente neste, mas que outros livros de Erwin como Uprising e The Barbarian Way também sejam publicados aqui.
2009
Quando Deus parece não fazer sentido
A postagem abaixo é a tradução de algo que li ontem e gostaria de compartilhar com os leitores de meu blog. Foi escrita por Mark, aquele pai que perdeu o filho de 18 anos no mês passado (veja Perda Irreparável). Para quem já viveu o luto ou ao menos leu A Anatomia de Uma Dor de C.S. Lewis, sabe que é um processo extremamente doloroso. Algumas pessoas parecem sucumbir diante das perdas da vida, enquanto outras parecem encarnar o texto bíblico que diz: “da fraqueza tiraram forças.” Eu fico sempre pasmado diante da atitude de Jó que, ao ouvir de suas perdas, caiu de joelhos e adorou a Deus. Lutero disse: “Deixe Deus ser Deus!” Talvez seja somente assim que sejamos capazes de adorá-Lo mesmo quando Ele parece não fazer sentido.
****
O Mike morreu num sábado e no domingo quando entramos na igreja as pessoas ficaram muito surpresas ao nos verem. E nós ficamos muito surpresos com a surpresa delas. “Vocês são incríveis” é outro comentário que ouvimos frequentemente, mas não nos diz respeito. Me perguntam se eu estou irado com Deus? Nos meses e anos recentes aconteceram muitas situações confusas envolvendo pessoas que fizeram com que amigos ficassem desiludidos com a igreja e a abandonassem.
Eu não entendo isso! Por que a Kathy e eu não iríamos querer estar na igreja no dia seguinte e adorar a Deus que levou nosso filho para estar com Ele? Há uma dinâmica da presença de Deus quando o povo de Deus se reune que não existe quando eu adoro a Deus sozinho. Muitos de vocês conhecem minhas tendências não conformistas, então eu também tenho minhas lutas com a “igreja”, e acho outros cristãos um bando esquisito. Como fui capaz de ficar 30 anos com os navios da OM me faz sorrir, MAS apesar de que tanto eles como eu sejamos esquisitos, eu amo o povo de Deus e Ele usa Seu Corpo para me abençoar. Ira para com Deus não é uma emoção que eu tenha experimentado. Escolho louvar a Deus diariamente. Eu orei durante anos por meus filhos para que eles estivem bem. Que alegria é saber que o Mike está no céu. Mas também não tenho idéia do que Deus está fazendo ou do que Ele protegeu o Mike.
Não somos incríveis. Somos abençoados. Deus derrama sobre nós tantas bênçãos e fico tão triste que amigos sintam desiludidos pela humanidade revelada por cristãos. Vivemos num mundo caído e tanto cristãos quanto não cristãos irão se comportar de maneiras que não estão em sintonia com o ensino bíblico. Isso não é uma razão para que eu não adore a Deus na igreja com outros que fracassaram e continuam fracassando. Quem somos em nossa vida privada? Se todos confessássemos isso então penso que a igreja estaria vazia!
2009
Deus odeia slogans
Crentes adoram slogans. Basta olhar a enorme quantidade de adesivos e camisetas no mercado gospel. Ou as frases prontas que se tornam parte do vocabulário cristianês e são repetidas sem reflexão do que elas significam, se são bíblica e teologicamente coerentes ou não. Faz parte do show business.
Embalado nesta onda de slogans, há um que já ganhou camisetas, bonés, canecas, cadernos, etc. nos EUA: God Hates Religion. Até cuecas boxer e calcinhas fio-dental (foto abaixo) podem ser compradas com o famoso slogan.


Logo essa onda chega por aqui, uma vez que gostamos de importar tudo quanto é lixo norte-americano sem a menor reflexão.
Pessoalmente penso que o que Deus realmente odeia são slogans (ou melhor, uma religião feita de slogans, vazia, de muitas palavras e nenhuma ação). Acho que, em vez de focar o negativo, seria muito mais produtivo afirmar o positivo (principalmente por ações concretas) descrito por Tiago em sua epístola:
“A religião que Deus, o nosso Pai, aceita como pura e imaculada é esta: cuidar dos órfãos e das viúvas em suas dificuldades e não se deixar corromper pelo mundo.” (1.27)
2009
Onde temos falhado

“Temos escolhido pessoas [para liderar] mais por seu carisma do que por seu caráter. Temos as escolhido mais por sua imagem do que por sua integridade. Temos escolhido mais por seu estilo do que por sua substância.”
- Bill George, The Forum 2009
2009
Ainda sobre ir ou não à Igreja
Terminei há mais ou menos um mês a leitura do livro Por Que Você Não Quer Mais Ir À Igreja? publicado pela Sextante. Trata-se de uma obra de ficção bem escrita cujo propósito é chamar os cristãos à reflexão do significado de ser igreja em vez de apenas serem frequentadores de cultos e reuniões em locais conhecidos como igreja.
Isso é bom, apesar de não ser nada novo. Juan Carlos Ortiz fez um trabalho fantástico em O Discípulo, publicado pela Betânia logo no início da década de 1980. Uma das colocações hilárias que Ortiz fez naquele livro – e que eu me lembro até hoje mais de duas décadas depois de ter lido – foi sua denúncia de que os cristãos iam a igreja para encontrar Deus lá. Ortiz dizia que isso parecia indicar algo como se Deus ficasse pendurado no teto durante a semana inteira esperando os crentes se reunirem para Ele poder ser sentido por eles. Todavia, como dizia Ortiz, se você não trouxer Deus consigo quando se reunir como igreja, não haverá presença de Deus alguma no encontro/culto/reunião.
Um dos versos mais conhecidos do livro de Atos deixa claro que, sob a unção do Espírito Santo, os discípulos passam a ser testemunhas de Jesus onde quer que vão, partindo do local onde esta unção foi derramada até os lugares mais distantes da terra. A questão, no entanto, não me parece ser somente sobre o SER igreja, mas sobre a possibilidade de SER enquanto você se reúne sob estruturas maiores e institucionais. Novamente, uma questão amplamente debatida, porém que não faz muito sentido para quem aprender a ser onde quer que for/estiver. Quem é, pode ser no pequeno grupo de dois ou três ou na grande congregação de milhares. Pode ser na informalidade das pequenas reuniões tanto quanto no meio das concentrações maiores. Afinal de contas, a visão da Igreja em Apocalipse não é de pequenos grupos, mas de uma multidão incontável adorando a Jesus.
Como eu já escrevi aqui, acredito que o SER e o IR (do reunIR-se) são inseparáveis. E os autores do livro deixam isso claro também. O que eles dizem é que IR é consequência do SER (e não o contrário, você não É apenas por IR).
De qualquer maneira, o livro apresenta boas reflexões que valem a pena sempre serem feitas sobre este assunto, uma vez que é tão fácil deixar de ser e confundir o frequentar/assistir com o viver. Aliás, a reunião comunitária nunca deveria ser uma mera assistência, mas uma participação ativa. A história é testemunha de que a maior desgraça do Cristianismo é a dicotomia entre a adoração comunitária dominical e a vivência da fé fora dos contornos eclesiásticos nos demais dias da semana.
****
“Nenhum modelo de igreja irá produzir a vida de Deus em vocês. A coisa funciona exatamente ao contrário. Nossa vida em Deus, compartilhada, é que se expressa como Igreja. A Igreja nada mais é do que o fluxo da vida Dele transbordando em nós. Vocês podem ficar eternamente às voltas com os princípios da igreja e ainda assim nunca chegar a saber o que significa viver em profundidade no amor do Pai para poder partilhá-lo com o próximo.”
2009
N.T. Wright e o cisma pela ordenação de gays
N. T. Wright, o Bispo Anglicano de Durham, Inglaterra, é também considerado uma das maiores autoridades em Novo Testamento da atualidade. Tom Wright é autor de dezenas de livros (em um deles ele debate com o liberal John Dominic Crossan sobre a realidade da ressurreição), mas parece que seus escritos ainda são pouco conhecidos por aqui. A Editora Ultimato publicou dois de seus livros nos últimos dois anos (Simplismente Cristão e O Mal e a Justiça de Deus), tem um no prelo (Surpreendido pela Esperança) prometido ainda para este ano e espero que continue publicando outros textos de N.T. Wright. Eu já li vários de seus livros, ouvi algumas aulas e palestras proferidas por ele e, cada vez mais, tenho apreciado a clareza e simplicidade de suas colocações.
Por esta razão, ao ver o seu nome associado a um assunto que tem levantado tanta discórdia e discussão em nossos dias, fiquei tremendamente curioso em ler o que ele tem a dizer sobre o assunto. O artigo escrito por Tom Wright foi publicado no The Times em 15 de julho passado e diz respeito a ruptura que a ordenação de ministros que sejam homessexuais praticantes está causando na Igreja Anglicana (mais precisamente entre a Igreja Episcopal Anglicana dos EUA e os anglicanos no resto do mundo).
A posição de N.T. Wright não poderia ser mais clara quanto a este assunto:
Nossos supostamente genes egoístas desejam uma variedade de possibilidades sexuais. Mas os mestres Judeus, Cristãos e Muçulmanos tem sempre insistido que um casamento por toda a vida entre homem e mulher é o contexto apropriado para o relacionamento sexual. Isto não é (como frequentemente se tem sugerido) uma regra arbitrária, de tonalidades dualistas e com a intenção de se castrar a alegria. É um reflexo estrutural profundo da crença em um Deus criador que entrou em uma aliança tanto com sua criação como com seu povo (que leva adiante seus propósitos para esta criação).
O Paganismo antigo e moderno tem sempre visto esta ética e esta crença como sendo ridículas e inacreditável. Mas o testemunho bíblico não está nem um pouco confinada, como um líder estridente sugeriu ontem no The Times, a uns poucos versos de São Paulo. A denúncia severa de Jesus da imoralidade sexual certamente levava consigo, para os seus ouvintes, uma rejeição implícita clara de todo comportamento sexual fora da monogamia heterosexual. Isto não é uma questão de “resposta privada às Escrituras”, mas o ensino uniforme de toda a Bíblia, de Jesus e de toda a tradição cristã.
O apelo à justiça como uma forma de cortar o nó ético em favor de incluir homossexuais ativos no ministério cristão simplesmente clama pela pergunta. Ninguém tem um direito de ser ordenado: é sempre um dom da pura e imerecida graça. O apelo também deturpa seriamente a própria noção de justiça, não apenas na tradição cristã de Agostinho, Aquinas e outros, mas nas discussões filosóficas mais amplas desde Aristóteles a John Rawls. Justiça nunca significa “tratar a todos do mesmo modo”, mas “tratar as pessoas de maneira correta”, o que envolve fazer distinções entre diferentes pessoas e situações. Justiça nunca significou “o direito de dar expressão ativa a qualquer e todo desejo sexual.”
Devemos insistir, também, na distinção entre inclinação e desejo de um lado e a atividade de outro – uma distinção regularmente obscurecida por referências a “clero homossexual” e assim por diante. Todos nós temos de todos os tipos de inclinações e desejos profundamente enraízados. A questão é, o que devemos fazer com eles? Uma das orações no Livro Comum roga a Deus para que possamos “amar o que Tu ordenaste e desejar o que Tu prometeste.” Isto é sempre difícil, para todos nós. É mais fácil pedir a Deus para ordenar aquilo que nós já amamos e prometer aquilo que nós já desejamos. Mas muito menos como o desafio do Evangelho.
A questão não é apenas para os Episcopais, Anglicanos e Luteranos norte-americanos (que acabaram de fazer seu concílio em Minneapolis para tratar deste mesmo tema). Este assunto tem o potencial de se tornar num grande divisor para a Cristandade neste século. E como temos visto aqui no Brasil, à medida em que, de um lado, se apela para o Congresso buscando defender “seus direitos”, de outro, na comunidade cristã, começam a surgir expressões que nem sempre refletem o pensamento do Bispo de Durham sobre como a pureza sexual é apresentada nas Escrituras (não apenas em alguns versos isolados, mas em toda a Bíblia, de Gênesis a Apocalipse). Mesmo no seio da comunidade cristã, tem se tornado cada vez mais comum rotular qualquer pessoa que afirme o ensino bíblico da monogamia heterosexual como sendo fundamentalista, moralista, legalista, etc.
Isso me faz lembrar de duas músicas. A primeira é um côro pentecostal que ouvia em minha infância: “Os dias são de trevas, sem poder o crente cai…” A outra se tornou hino de uma geração quando Bob Dylan anunciou as palavras de Jesus ao cantar The times-they are a-changin’ (os tempos estão mudando). Resta saber onde estão os que afirmarão o restante do verso: “mas minhas palavras não passarão”?
2009
A intolerância dos tolerantes
Israel Belo fala sobre decisão que proíbe os psicólogos de tratarem homossexualidade como doença
Por: Israel Belo de Azevedo

Em 1999, o Conselho Federal de Psicologia baixou uma resolução proibindo os psicólogos de tratar as homossexualidades como patologias. Na época, o pastor Israel Belo de Azevedo publicou a reflexão abaixo, a qual se mantém atual em meio às novas polêmicas sobre o tema.
Será a psicologia uma ciência? A pergunta pode parecer tosca, não fosse uma resolução baixada pelo Conselho Federal dos psicólogos. Desde o dia 23 de março de 1999, portanto, ficamos todos sabendo, pelo Diário Oficial da União, que “a homossexualidade não constitui doença, nem distúrbio, nem perversão”. Não adianta discordar porque, como manda a praxe, ficaram revogadas todas as disposições em contrário.
Pela mesma instrução, os psicólogos estão terminantemente proibidos de colaborar “com eventos e serviços que proponham tratamento e cura das homossexualidades” ou de achar publicamente que os homossexuais são “portadores de qualquer desordem psíquica”. Assim, quem é psicólogo que trate de pensar igual ao Conselho Federal, a menos que queira acertar as contas com seus pares-representantes.
De igual modo, quem achava que o tema da homossexualidade fosse uma questão aberta e até pretendesse estudá-lo fique certo que não há mais o que debater. Uma penada o encerrou. Como é da natureza da ciência estar sempre aberta ao debate, especialmente quando o objeto é o ser humano, soa doloroso e anacrônico que a psicologia enquanto ciência tenha sido assassinada, logo ela que tem escolas, correntes e tendências tão fascinantemente múltiplas.
O que se quer discutir aqui, pois, não é a natureza, desviante ou não, do homossexualismo, mas a intolerância estampada em nome da tolerância. Por isso, o lamento seria o mesmo se a ordem fosse contrária. Decidisse o CFP que os homossexuais são portadores de desordem psíquica, estaria destilando a mesma intolerância.
Não tem um homossexual o direito de se achar psiquicamente desordenado e bater à porta de um consultório em busca de cura? Não tem o psicólogo o direito de entender que esse homossexual pode ser tratado?
A resposta, por decreto (como se ciência fosse feita por decreto), é um duplo “não”. Os homossexuais, que eventualmente queiram mudar, não precisam se preocupar: o Conselho não legisla sobre eles, pelo que não poderão ser alcançados. Aos psicólogos, que eventualmente queiram ajudá-los, só resta a indigna clandestinidade. Com licença para uma paráfrase, seu cuidado não pode ousar dizer o nome.
Nada haveria a opor se o órgão de classe apenas e contundentemente condenasse, como o faz, aquelas ações coercitivas que visem “orientar homossexuais para tratamentos não solicitados”. Ninguém deve ser coagido, nem mesmo pela melhor causa, porque é a liberdade que faz uma pessoa tornar-se humana.
A grandeza de Galileu Galilei foi precisamente a de resistir às bulas papais de que a terra não se movia. É àquela época que a resolução de agora nos faz retroceder. Não será, porém, um desvio desses que fará a ciência da psicologia resvalar do seu caminho.
Acesse o blog do autor: www.prazerdapalavra.com.br
Fonte: Mundo Cristão
2009
Hipocrisia e perseguição moral
Concordo com a Braulia que denominou a ação abaixo como “hipocrisia e perseguição moral”. Que país é este em que um psicólogo não pode ajudar alguém que, infeliz com sua homossexualidade, busque ajuda para mudar sua orientação sexual? It makes no sense at all.
Por unanimidade, o Conselho Federal de Psicologia (CFP) condenou nesta sexta-feira a psicóloga Rozângela Justino por tentar, por meio de terapia, ajudar gays e lésbicas que desejam ser heterossexuais. A terapeuta, que há 20 anos lida com o tema da homossexualidade, receberá uma censura pública por realizar consultas e não pode continuar atendendo homossexuais em seu consultório. O exercício da psicologia em outras situações, no entanto, está permitido.
“Haverá uma fiscalização do Conselho Regional do Rio para evitar que ela descumpra a decisão. Ela não pode em hipótese alguma fazer referência a qualquer tipo de tratamento ou de mudança de comportamento no sentido de atingir as pessoas com orientação homoafetiva”, explicou o presidente do Conselho Federal de Psicologia, Humberto Verona.
Pós-graduada com a tese “Uma possibilidade de resgate da heterossexualidade”, Rozângela Justino disse se sentir “amordaçada” após a condenação imposta pelo Conselho de Psicologia. De peruca, óculos escuros e máscara cirúrgica, ela confirmou que continuará promovendo tratamentos contra a homossexualidade e aconselhou que gays insatisfeitos com sua orientação sexual devem procurar um terapeuta.
Indagada se continuará ajudando os homossexuais, Justino responde:
“Com certeza, vou continuar. Vejo que as pessoas têm direito de procurar esse apoio. É a pessoa que define o quer dentro da psicoterapia. Não sinto vergonha e nunca sentirei de acolher pessoas que querem deixar voluntariamente o estado de homosseuxalidade [...] Estão me submetendo a uma mordaça. Mas quero dizer às pessoas que estão em estado de sofrimento psíquico e desejam deixar a homossexualidade que procurem profissionais nas suas cidades.”
O advogado Paulo Fernando, contratado pela psicóloga, anunciou que vai recorrer na Justiça Federal contra a decisão do CFP, que manteve condenação já imposta anteriormente pelo Conselho Regional de Medicina do Rio de Janeiro.
“A decisão fere a liberdade de expressão, fere a liberdade científica e principalmente ofende aquelas pessoas que voluntariamente desejam praticar determinados atos. O resultado foi de uma flagrante injustiça e vamos argui-lo”, ressaltou Fernando.
2009
Igreja: SER e IR
Nos últimos 2 anos tem crescido o número de postagens em blogs sobre a validade de se reunir como igreja (com “i” minúsculo mesmo para indicar a congregação de discípulos reunidos em nome de Cristo, para edificação, exortação e consolo). Parece que, à medida em que aumenta a ênfase no SER Igreja em vez de simplesmente IR à um local chamado igreja, num esforço nobre de recuperar a essência da fé e discipulado cristão, diminui consequentemente a motivação de se IR também. Para mim esse é um caso clássico do que acontece com todo movimento reacionário: vai de um extremo a outro. A razão simples porque creio assim é que SER Igreja é algo impossível de se acontecer na individualidade. Igreja é sempre plural, comunitário, sempre algo que eu não posso ser sozinho. Mas a galerinha lê livros questionando a validade da igreja e sai blogando e declarando: “Ufa! Agora posso SER sem IR. Uma libertação!” Será?
Tal coisa só faz sentido numa sociedade cada vez mais individualizada como a nossa (temos feito a lição de casa direitinho com os norte-americanos). Diz isso para quem está tentando seguir Cristo em regiões do mundo como o Norte da África, Oriente Médio e Ásia Central. Nestes lugares você encontra pessoas que anseiam por IR e se reunir com outros e compartilhar sua fé, suas lutas, orar juntos, aprender umas com as outras, etc. Mas não é só nos “países fechados” que você encontra esse entusiasmo pela igreja em sua forma congregacional. Na Europa pós-cristã, acontece o mesmo com os seguidores de Cristo que buscam viver a realidade de sua fé naquele continente frio. Pessoas viajam 1-2 horas na Autobahn para se reunirem como igreja em países como Alemanha, Suíça, França, etc.
Quando penso sobre isso me lembro do que um velho professor de teologia costumava dizer-me no seminário: “A teologia foi elaborada na Europa, está sendo deturpada nos Estados Unidos e testada no Brasil.” Cada dia que passa, mais cresce em mim a sensação de que ele estava certo. Pois essa nova descoberta de SER sem IR é um fenômeno não somente totalmente inédito na história da Igreja, mas arrisco dizer, algo puramente norte-americano. Somente numa sociedade que pratica o culto ao indivíduo (e à individualização) é que um conceito desses pode ser desenvolvido. E pior, vendido como se fosse verdade, grande revelação. E só quem não conhece bem nem as Escrituras nem a História pode embarcar nessa. Pois tanto as Escrituras quanto a História são claras quando o assunto é seguir Jesus: Não é algo que se faz sozinho. Seguir Jesus envolve um compromisso com a mutualidade: disposição a repartir a vida com outros para aprender a amar, perdoar, dar e receber, morrer para o eu, servir, etc.
Creio que Henri Nouwen expressou bem o que é SER Igreja:
“A Igreja é o povo de Deus. A palavra latina para “igreja”, ecclesia, origina-se do grego ek, que significa “fora”, e kaleo, “chamar”. A Igreja é o povo de Deus chamado a sair da escravidão para a liberdade, do pecado para a salvação, do desespero para a esperança, da escuridão para a luz, de uma existência centrada na morte para uma existência centrada na vida.
Quando pensamos na Igreja, devemos pensar num corpo de pessoas viajando juntas. Temos que imaginar as mulheres e os homens e as crianças de todas as idades, raças e sociedades apoiando-se um ao outro em suas longas e, muitas vezes, cansativas jornadas para a morada final.”
Note que Igreja é povo de Deus, não indivíduo de Deus. Igreja são pessoas, nunca uma pessoa só.
Muitos argumentam que não estão questionando a validade da comunhão, que praticam comunhão em casas onde compartilham sua fé enquanto comem e bebem alguma coisa. Essa é sua igreja. Eu não questiono sob hipótese alguma esse tipo de experiência. Com certeza posso cultuar com pessoas em reuniões nos lares. A maioria das igrejas em países fechados acontecem assim. Talvez mesmo vivendo num país onde há liberdade de culto, eu deva praticar o pequeno grupo. Mas, pessoalmente, eu sinto falta de certas coisas que uma reunião nos lares simplesmente torna impraticável.
Grupos pequenos geralmente se reunem por afinidade e/ou geografia. Por isso, raramente transpõem barreiras sociais. Dificilmente pessoas alheias ao grupo terão acesso às suas reuniões (qual foi a última vez que você teve um mendigo em seu grupo pequeno?). Nas reuniões congregacionais maiores encontro a oportunidade de me relacionar – ainda que superficialmente – com uma variedade maior de pessoas – as mulheres e os homens e as crianças de todas as idades, raças e sociedades, do texto de Nouwen. Tal encontro abre possibilidades incríveis de ministração do Espírito em minha vida.
Eu também gosto da vibração musical quando a banda toca e me convida a cantar junto canções que expressam meu amor e sentimentos por Jesus e Sua Causa. Difícil encontrar uma banda de rock tocando em grupos pequenos. E por mais que eu goste da informalidade do diálogo e das conversações sobre a fé, da troca de experiências e questionamentos que acontecem nos encontros informais, sinto que preciso também ouvir um bom sermão que me exorte, edifique e console. De um modo geral, sermões (ou pregações) não se encaixam bem em reuniões caseiras – o próprio ambiente pede algo mais conversacional. Além disso, eu reconheço a grande quantidade de dons e talentos distribuídos por Cristo à Sua Igreja e encontro muito mais oportunidades de ver esses dons sendo exercitados em reuniões congregacionais maiores do que nos pequenos grupos.
Bom, estes são alguns motivos que me levam a perseverar na igreja e crer como Rich Mullins que mesmo uma hora numa igreja ruim é melhor que não ir a nenhuma igreja.
Finalmente, eu acredito que SER Igreja é infinitamente mais importante do que simplesmente IR a uma igreja. Todavia, me pergunto seria possível, a longo prazo, SER sem nunca IR?
Isso tudo me faz lembrar a letra da música Acrobat do U2…
2009
Igrejas Evangelásticas
O Thiago Bomfim escreveu uma postagem essa semana chamada Photoshop na Celulite da Igreja, comentando sobre algo que eu tenho pensado com uma certa frequência nos últimos meses: a tentativa de fazer uma plástica na imagem da igreja para deixá-la bonitinha e atrativa. Na verdade, meus pensamentos têm sido mais específicos, direcionados para a criação dessa imagem na divulgação de igrejas e ministérios por meio da internet. Antes que qualquer pessoa pense que eu seja contra o uso da internet para divulgação da igreja/ministério, deixe-me afirmar que não sou. Muito pelo contrário, na Era Google, não há como fugir da presença na internet. Todavia, o que me preocupa (e um dos motivos que fez com que tirássemos nosso site do ar há meses para uma reformulação total) é como nós utilizamos desta ferramenta poderosa de comunicação.
No meio missionário, há anos que ouço o termo “números evangelásticos” para se referir aos exageros cometidos ao relatar o resultado de uma campanha evangelística. Tinha 100 pessoas, mas o relatório diz que tinha 250… 500 ou 1000! Convivendo com pastores, cansei de ouvir relatórios mentirosos de suas igrejas, exagerando o número de membros, freqüência de cultos, batismos, etc. Acabei de acessar o site de uma igreja, e um vídeo anunciando um evento tinha um narrador com uma voz “poderosa”, cheia de eco e efeitos, como se o recado viesse do além. Até mesmo um artigo sobre o relatório de estatísticas de acesso na internet denunciava como alguns marqueteiros mentem sobre o números de acesso/visitantes, divulgando, na verdade, o número de hits em seus sites (geralmente 10 vezes maior do que o número real de visitantes).
Recentemente estava ouvindo uma entrevista com Eugene Peterson e percebi que esse parece ser um fenômeno global. Ele falava sobre seu primeiro pastorado e sobre como os pastores mentiam em seus relatórios nas convenções. Há trinta anos George Verwer falava sobre a mentira do exagero, essa tendência de aumentar os números/estatísticas (ou simplesmente dizer que fez jejum, leu a Bíblia e orou, quando não fez nada disso), como um sinal de pseudodiscipulado. O que me parece é que a pressão para ser bem sucedido, relevante e atrativo pode se tornar uma armadilha, levando a tais exageros e mentiras. Ou fazer o que Bomfim apontou em sua postagem: usar um Photoshop para dar uma imagem cool na igreja/ministério, eliminando suas celulites.
Lendo Seth Godin (Tribes e The Dip), me deparei com o título de outro livro seu que foi um sinal de alerta para mim: All Marketers Are Liars (todos os marqueteiros são mentirosos). Não li esse livro e não sei o que Godin diz exatamente sobre os marqueteiros serem (ou não) mentirosos, mas de qualquer maneira fiquei pensando se, na ânsia de embelezar a igreja, transmitir algo e atrair pessoas para “nossa” causa, não escorregamos em alguma mentira (ou “mentirinha”) e acabamos criando igrejas e ministérios “evangelásticos”.
Em So Beautiful, Leonard Sweet fala sobre Cristianismo APC, referindo-se a um medicamento muito usado pelos militares nos EUA na década de 1950 que prometia o alívio para tudo. Tinha um problema porém, o APC causava dependência. E o pior, mais tarde descobriu-se que o uso prolongado desse medicamento levava à morte. Ou seja, o APC de fato funcionava, mas era uma armadilha mortal a longo prazo.
Creio que o marketing mal utilizado (mentiroso) pode ser um reflexo desse Cristianismo APC. Mente-se para atrair, crescer, ser bem sucedido. Mente-se porque se propaga algo que não é verdadeiro, algo ilusório, superficial. A imagem é bonita, mas não há substância por trás da mesma. Atrai pessoas, vira notícia, causa toda a impressão de ser um sucesso. E como o sucesso vicia, então é preciso continuar mentindo para mantê-lo a qualquer custo. Com o passar do tempo, os resultados geralmente são catastróficos.
Nas palavras de Leonard Sweet: “Algumas coisas podem fazer sua igreja crescer rápido e grandemente em meses e anos, entretanto, com o passar de décadas podem ter efeitos debilitantes no corpo de Cristo, e até mesmo matar você se não matar seu espírito.”
Que Deus nos ajude a nos livrar de toda e qualquer mentira sobre nós mesmos e nossas igrejas, a buscar a honestidade e realidade no modo como nos apresentamos aos outros (seja na internet ou de qualquer outro modo) e, acima de tudo, encontrar a liberdade para ser quem Deus nos chamou para ser, livres da necessidade de ficar nos comparando com esse ou aquele ministério ou igreja.
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