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Nesta última parte da série Minha Teoria Sobre Instituição (parte 1, parte 2), quero apresentar a perspectiva de alguns teólogos latinos sobre a Igreja e seu aspecto institucional.

Vamos começar com o conceito de Igreja Universal e Local. Leonardo Boff nos apresenta um bom resumo ao dizer que “a igreja local é a igreja universal concretizada; e sendo concretizada, faz-se carne; e fazendo-se carne, assume limites de local, tempo e cultura, e ainda de seres humanos.”

Em outras palavras, a Igreja (Corpo de Cristo) se manifesta por meio das igrejas locais, por isto, se uma pessoa me diz que faz parte da Igreja, eu pergunto à qual congregação local ela pertence. O cristão anti-instituicional deseja ser visto como alguém que se libertou das garras maquiavélicas da igreja local manchada por sua institucionalização e agora vive livre como um seguidor autônomo de Cristo. Mas isto, na definição de Boff, seria semelhante a querer viver como um fantasma, uma entidade desencarnada, sem corpo.

Jon Sobrino trata a relação igreja/instituição da seguinte forma: “A fé em Cristo vive-se comunitariamente, o que exigirá algum tipo de estrutura para expressar esse comunitarismo… A instituição concede um corpo ao carisma, até integrando a profecia, e no nível da ação oferece um corpo que torna mais marcadamente eficaz aquilo que os profetas expõem como linha de ação. A Igreja-instituição, embora um tanto ambígua, é uma necessidade histórica. Todo carisma que exista na Igreja e queira ser eficaz, deverá pagar o preço social representado pela instituição.”

Contrariando a analogia da borboleta no livro em que instituir é decretar a morte, Juan Antonio Estrada diz que “a oposição entre carisma e instituição é insustentável, pois a institucionalização do carisma é a única forma de garantir a sua sobrevivência.” Citando Karl Rahner, ele diz: “Toda comunidade confronta-se com o dilema: institucionalizar-se ou morrer.”

René Padilla, seguindo o grande missiólogo porto-riquenho Orlando E. Costas, também reconhece que a igreja como organismo precisa funcionar como uma estrutura organizada: “Tem a ver com o sistema de relações entre os membros: suas formas de governo, sua estrutura financeira, sua liderança, o tipo de atividades em que investe seu tempo e recursos, e sua celebração cultural. Como um organismo vital, a igreja não pode contentar-se com a mera reprodução de suas células.”

Rubens Muzio no livro “O DNA da Igreja” tratou da tensão igreja/instituição ao dizer que a igreja é um “híbrido de organismo e organização e representa tanto a instituição humana quanto divina, tanto a organização terrena como o organismo celestial. A igreja pertence tanto à terra quanto ao céu. É um organismo em contato com a eternidade e uma organização concreta no tempo. Está constantemente submetida à tensão de viver a sua vida entre as questões do Reino, família, adoração, discipulado, proclamação da Palavra, rituais e, por outro lado, as questões relacionadas à sua estrutura física, contabilidade, finanças, governo, organização, leis estaduais e federais, etc. A organização precisa servir e não determinar a natureza da igreja.”

Todos os teólogos acima reconhecem a igreja como um organismo vivo, um corpo, que precisa de estrutura para sua própria existência. E nenhum deles parece enxergar que a instituição seja um inimigo mortal deste organismo.

Finalizando (mas não esgotando o assunto) veja, por exemplo, o Exército de Salvação, considerado pelo grande guru da administração Peter Drucker, como a mais eficaz das organizações. Está aí uma organização fundada há quase 150 anos que atua em 124 países. Alguém ousa dizer (sem cometer suicídio intelectual) que, pelo simples fato de ser uma instituição, o Exército de Salvação não tem vitalidade e não está servindo aos propósitos do Reino de Deus?

Minha sugestão sincera: não perca tempo lutando contra o fantasma da instituição. Ele é tão somente isto: um fantasma. Em vez disso, use seu tempo para amar e servir a Deus e ao próximo, em relacionamentos de compromisso e mutualidade numa comunidade de fé, amor e esperança centrada em Jesus.

“Ainda que algumas instituições religiosas possam com freqüencia assemelhar-se mais a corporações seculares do que a comunidades voltadas para Deus (…) sempre há lugar nas igrejas para aquelas pessoas guiadas por um completo comprometimento espiritual.” – John Michael Talbot, monge franciscano

Um dos argumentos usados por aqueles que enxergam na instituição o grande inimigo da comunhão com Cristo é o conceito que instituir é uma tentativa de preservar e, consequentemente, resistir a mudanças. Evidentemente isto choca-se com a imagem orgânica da Igreja apresentada no NT. Mas será o instinto de preservar intrinsecamente mal? Será que instituir é resistir a mudanças, engessar o organismo?

O instinto de preservação é natural nos seres vivos. Se a igreja é um organismo vivo, não seria natural que ela tivesse este instinto? E quando pensamos em corpo e organismos vivos, preservar não significa resistir à mudanças. Pelo contrário, é justamente por seu instinto natural de preservação que muitos organismos passam por constantes mudanças.

O corpo na visão cristã é muito mais do que um simples invólucro da vida. Por mais que alguém se empenhe em preservá-lo, não permanece o mesmo, mas passa por mudanças desde o seu nascimento até a morte. Da mesma forma a igreja, corpo local de crentes, possui um instinto de preservação natural em seu espírito comunitário, mas é incapaz de impedir que mudanças aconteçam à medida em que o corpo cresce e amadurece.

O cientista político Hugh Heclo em seu livro On Thinking Institutionally diz algo interessante sobre a relação entre preservação e mudanças: “Quando pensamos institucionalmente, as decisões atuais são feitas com uma consciência contínua de que estamos desfrutando os frutos de algo que pertence a antecessores e sucessores. Portanto, ainda que mudanças sejam inevitáveis, o reconhecimento de suas implicações é integrado por um forte apreço pelo que passou antes que você estivesse aqui e o que virá depois que você se for.”

Ao insistirmos no conceito de que para ser igreja de verdade precisamos nos livrar da instituição que a cerca, o que estamos dizendo é que a vida é algo que pode (e não só pode, mas deve) ser vivida fora do corpo. A instituição é a matéria má que sufoca o espírito (o livro que mata a borboleta) e, por isto, precisamos nos livrar dela. Esta idéia é tão velha quanto o gnosticismo com sua visão dualista e maniqueísta da vida. E não condiz com as realidades da vidas.

O corpo humano é, de certa forma, uma instituição. Como destacou Bonhoeffer, o corpo possui articulações e ordem. Seus órgãos desempenham funções rotineiras, obedecem a regras próprias internas e dependem de horários externos estabelecidos para um viver saudável e equilibrado. Há até mesmo uma certa “hierarquia” entre os diversos sistemas e membros do corpo que permite sua funcionalidade e vitalidade.

Você pode viver sem um dedo, sem uma mão ou mesmo sem todo o braço (talvez até sem ambos os braços e pernas em casos extremos, apesar de ficar bastante limitado em suas funções e bastante dependente de ajuda). Mas não é possível viver sem a cabeça, sem o tórax e sem nenhum dos órgãos vitais, visto que a relação entre eles é de interdependência. Talvez seja por isto que o apóstolo Paulo tenha utilizado a imagem do corpo para expressar sobre o funcionamento da igreja, seus membros e a diversidade de dons e funções.

O teólogo dominicano francês Yves Congar diz: “A categoria Povo de Deus permite afirmar, de uma só vez, a igualdade de todos os fiéis na dignidade da existência cristã e a desigualdade orgânica ou funcional dos membros [...]. A esse respeito, a noção de corpo prestaria os mesmos serviços que a de povo. Temos sempre um conjunto de membros que vivem e atuam, que participam da vida do corpo, e uma estrutura de funções, tendo uma cabeça para assegurar a unidade do todo.”

O mesmo é sustentado por Juan Antonio Estrada: “A comunidade é um corpo coeso e articulado, que mantém a unidade nas diferenças, contra o individualismo que busca uma relação privativa com Deus. [...] Todos somos iguais em dignidade, a dignidade cristã, dada pelo batismo; todavia, nem todos temos a mesma função na Igreja, mas cada um tem seu ministério e seu carisma específico.”

Nas realidades da vida, a própria linguagem, ou seja, o meio pelo qual nos expressamos, é uma instituição. E, prova de que instituição não significa necessariamente algo engessado, a linguagem é viva e, portanto, passa por mudanças, assume novas regras e novas expressões.

Você quer se ver totalmente livre de instituições? Não basta abandonar a igreja, não se casar no civil, não ter conta bancária, CPF, RG, carteira de trabalho, título de eleitor ou qualquer forma de contrato social. Você não pode falar, escrever e se comunicar tampouco.

Livrar-se de instituição é, de certa forma, desencarnar, deixar de viver, de se comunicar, de servir, de se relacionar, pois todas estas coisas, de alguma forma, estão cercadas por instituições.

Continua na Parte 3.

Já escrevi bastante aqui sobre o relacionamento entre igreja e instituição. Creio que os principais textos são Minha Teoria Sobre Instituição e Fitafuso e o Cristianismo Pagão. Não considero a instituição como, por natureza, inimiga mortal da igreja. Mas desejo ir além nesta postagem e provocar um pouco mais de reflexão sobre este tema. Para evitar um texto longo, dividirei esta postagem em três partes.

Alguém disse que “institucionalizar é guardar a borboleta entre as páginas do livro com o intuito de preservar a sua perfeição: a beleza permanece por algum tempo, mas a vitalidade do que buscávamos defender se esvai imediatamente.”

Considere a frase acima no relacionamento de duas pessoas que se amam. Se ela for verdadeira, essas pessoas não devem se casar, formalizando seu compromisso de amor um pelo outro, pois no momento em que fizerem isso, a vitalidade de seu amor morrerá.

Mas se um amor não resiste a assinatura de um compromisso formal, que amor é este? Ou será o “maldito papel” tão poderoso assim, capaz de acabar com a beleza deste grande amor?

René Padilla define o casamento como “a relação conjugal em que um homem e uma mulher se unem permanentemente ‘até que a morte os separe’, por meio de um pacto de amor-entrega para conviver e servir a Deus e ao próximo.” E acrescenta que esta união é “selada pelo ato sexual, legalizada formalmente, reconhecida socialmente e nutrida comunitariamente na Igreja.” 

Note pelo menos dois aspectos “institucionais” do casamento reconhecidos por Padilla: legalização formal e reconhecimento social. Estes aspectos não destroem um casamento da mesma forma que o mero ato de instituir não significa, de modo algum, eliminar ou sequer ameaçar sua vitalidade.

Assim como o casamento é um relacionamento de amor entre um homem e uma mulher, igreja são pessoas em relacionamento de amor com Deus e com o próximo sob a luz do Evangelho. Quando essas pessoas se aproximam umas das outras para compartilhar a vida, em busca de encorajamento e edificação mútua no cumprimento da comissão de Jesus, uma comunidade emerge naturalmente. Somente isto já é o suficiente para que uma instituição (ainda que informal) comece também a surgir espontânea e simultâneamente. Porém, é no processo de se relacionar com a sociedade que esta comunidade assume, por força desta relação, contornos institucionais nítidos.

Será que estes movimentos, automaticamente, representam sua perda de vitalidade e morte? Uma comunidade não pode, por exemplo, resistir ao registro de um estatuto sem que isso signifique decretar sua morte (ou perda imediata de vitalidade)? Quão pequeno e débil deve ser o amor de seus membros – tanto por Deus como uns pelos outros – caso a analogia da borboleta no livro seja verdadeira.

Segundo Bonhoeffer, o que ameaça a vitalidade de uma igreja não é instituição, mas a desarticulação. Em Nachfolge (Discipulado), sua clássica exposição do que significa seguir a Cristo, ele escreveu: “A Igreja ou congregação é um organismo articulado. Ao falar da Igreja como Corpo de Cristo, incluímos sua articulação e ordem. Ambas são essenciais ao corpo e são uma designação divina. Um corpo desarticulado está fadado a perecer (…) A ordem na Igreja é divina tanto em origem como em caráter, embora, é claro, tenha o propósito de servir, não de dominar.”

O teólogo holandês Herman Bavinck não poderia ser mais direto. Em sua obra Reformed Dogmatics, Bavinck denuncia: “Dizer que Cristo fundou uma igreja destituída de qualquer organização, governo ou poder é uma declaração que surge de princípios característicos do misticismo filosófico, mas não leva em conta os ensinamentos das Escrituras nem as realidades da vida.” (grifo meu)

Ou seja, a analogia da borboleta no livro é bonita e poética, mas não é verdadeira para expressar as realidades da vida – seja familiar seja comunitária – em meio as instituições que nos cercam, pelo simples fato de existirmos em sociedade.

Continua na Parte 2.