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“A maior causa do ateísmo hoje são cristãos, que reconhecem com seus lábios e negam com seu estilo de vida. Isso é algo que um mundo incrédulo simplesmente acha inacreditável.”

Brennan Manning morreu ontem. Seu legado continuará através dos muitos livros que ele escreveu, sendo o mais conhecido deles “O Evangelho Maltrapilho”.

Li Manning pela primeira vez em 1998. Eu estava viajando com o diretor de uma publicadora cristã, visitando editoras cristãs nos EUA, em busca de livros para publicar em português. Numa pequena cidade (aprox. 800 habitantes) no interior do estado do Oregon, chamada Sisters (por causa das lindas montanhas “irmãs” cobertas de neve), fomos à Multinomah, que havia publicado The Ragamuffin Gospel. O diretor brasileiro não estava interessado no livro (um pena), mas eu sim. Meu interesse por Manning e The Ragamuffin Gospel veio através da música. Artistas como Rich Mullins e Michael W. Smith estavam falando muito bem do livro. A frase acima havia sido usada na introdução de uma música do dcTalk no album Jesus Freak. Eu queria muito ler esse livro. Então, na cara-de-pau, pedi um exemplar para mim. Foi um dos livros que marcou minha jornada como cristão.

Em 2005 quase encontrei com o Manning numa conferência na Califórnia. Ele cancelou a participação na última hora porque sua cidade havia sido devastada pelo furacão Katrina.

Franciscano, Manning foi provavelmente um dos autores católicos mais lidos no meio evangélico nos últimos anos. Seu último livro foi sua autobiografia, All Is Grace: A Ragamuffin Memoir (publicado no Brasil com o título “Deus o ama do jeito que você é”, pela Mundo Cristão).

Alguns de meus amigos reformados não gostam muito de Manning. Acham seus escritos cheios de misticismo e cheirando a “graça barata”. Alguns cristãos pós-modernos, de fato, usam Manning para justificar seus desvios e viver, de fato, uma graça barata. Manning, com seu grande coração, acolheria a ambos para um diálogo amigo. E, provavelmente, rejeitaria a ideia de que seus escritos sobre a graça sejam uma justificativa para continuar pecando.

Espero conhecê-lo naquele Dia.


Há algum tempo tenho tentado alertar pessoas para o risco que o liberalismo teológico representa para a fé. Quando faço isso, muitos me acusam de conservador (na melhor das hipóteses) ou fundamentalista (caso queiram me ofender). Todavia, a história é um testemunho de como o liberalismo teológico tem minado a Igreja na Europa e na América do Norte. Não quero com isso dizer que este seja o objetivo dos liberais. Pelo contrário, o impulso inicial do liberalismo teológico foi um esforço para tornar a mensagem cristã mais aceitável para o homem moderno. Como disse C. S. Lewis, “os liberais são homens honestos e pregam sua versão de cristianismo, por acreditarem ser ela verdadeira.” Mas o resultado tem sido fatal (literalmente, gerando morte espiritual de pessoas e igrejas). O texto abaixo, de Michael Witmmer, aponta como o liberalismo teológico tem funcionado exatamente no sentido contrário àquele que se esperava:

Eis aqui o calcanhar de Aquiles do liberalismo teológico. A cultura pode inicialmente ficar atraída pelo evangelho liberal da razão humana e autonomia individual – finalmente temos um grupo de cristãos que entendem! – mas não demora muito para que as pessoas percebam que esta versão diluída do Cristianismo é simplesmente redundante. A maioria das pessoas pensa que elas são basicamente boas – certamente boas o bastante para merecer o céu, ainda que devam se esforçar um pouco mais para amarem o próximo. Esta é essencialmente a mensagem liberal, com um pouco de Jesus misturado para dar uma medida moralmente boa, mas não biblicamente sólida.
Eventualmente a cultura dominante percebe que as igrejas liberais não estão dizendo nada além do que já não tem sido dito centenas de vezes pela Oprah. Então por que sequer contar a “história de Jesus”? Elas logicamente perguntam, “Se Jesus não foi nada mais do que o modo como os cristãos falam sobre amor ao próximo, então porque não podemos simplesmente amar o próximo sem esse papo sobre Jesus?” É aí que as igrejas liberais começam a declinarem, porque as pessoas não irão fazer o esforço de sair de casa cedo para ir para igreja quando elas podem dormir até mais tarde e escutar a mesma mensagem moral e inspiradora na televisão [pela Oprah]. Como C. S. Lewis lembrou seu amigo, “Aliás, já conheceu alguém, ou ouviu falar de caso parecido, que tivesse se convertido do ceticismo para um cristianismo ‘liberal’ ou ‘demitologizado’? Acho que, quando os incrédulos se achegam, costumam ir muito mais além.”
(Michael Witmmer, Christ Alone, p. 59-60)


Discordo da posição “universalista” do Rob Bell em seu livro polêmico Love Wins. Acredito que Francis Chan & Preston Sprinkle responderam de forma bíblica e adequada a isso no livro Erasing Hell. Todavia, ele coloca algumas coisas de um modo bem interessante (já postei outro trecho do livro neste blog). Ainda que o faça, aparentemente, para salientar que o inferno pode ser uma experiência aqui e agora, não há como negar a força de suas palavras. Penso: se as experiências amargas da vida aqui podem se assemelhar a um inferno literal, quão terrível será a perpetuação irreversível de tais experiências, após a morte, para aqueles que rejeitarem a Graça Redentora de Jesus Cristo… Segue o que diz Rob Bell:

Eu recordo chegando a Kigali, Rwanda, em dezembro de 2002 e dirigindo do aeroporto para nosso hotel. Logo após deixar o aeroporto, vi um menino de provavelmente dez ou onze anos, sem uma das mãos, ao lado da estrada. Depois vi outro menino, na mesma rua, sem uma perna. Depois outro em uma cadeira de rodas. Mãos, braços, pernas – devo ter visto cinquenta ou mais adolescentes sem um dos membros somente naqueles primeiros quilômetros. Meu guia explicou que durante o genocídio, um dos modos de desmoralizar e humilhar o inimigo era remover, com um machado, um braço ou perna de crianças, para que anos mais tarde elas tivessem que viver com a lembrança do que foi feito a elas.

Se eu acredito em um inferno literal?
Claro.
Aqueles não eram braços e pernas desmembrados metaforicamente.

Você já sentou-se ao lado de uma mulher enquanto ela falava sobre como foi para ela ter sido estuprada? Como uma pessoa descreve o que significa ouvir um menino de cinco anos, cujo pai acabou de cometer suicídio, perguntar: “Quando o papai voltará para casa?” Como alguém descreve aquele olhar devastado, vazio, singular, que você encontra nos olhos de um viciado em cocaína?

Tenho visto o que acontece quando as pessoas abandonam tudo o que é bom e correto e afável e humano.

Certa vez, conduzi o funeral de um homem que eu nunca havia conhecido. Seus filhos me alertaram, quando me pediram para fazer o ofício, que eu estava entrando numa confusão e que, quanto mais próximo chegássemos do ofício em si, mais feio as coisas ficariam.

Este homem era cruel e mau. A todos ao seu redor. Ninguém tinha nada de bom para dizer sobre ele. A função do pastor, dentre outras coisas, é ajudar a família e amigos a honrar propriamente o falecido. Este homem tornou minha tarefa bem difícil.

Eventualmente percebi o que eles queriam dizer com “feio”. Quando percebeu que estava para morrer, ele reescreveu seu testamento. Ele propositadamente deixou fora familiares que esperavam receber algo e deu a riqueza para outros membros da família que ele sabia que eram desprezados. Ele mudou seu testamento para que em seu funeral houvesse dor e ira. Ele queria ter certeza de que estaria causando destruição nesta vida, mesmo depois de tê-la deixado.

Conto estas histórias porque é absolutamente vital que reconheçamos que amor, graça e humanidade podem ser rejeitados. Do mais sutil olhar de desprezo à mais violenta degradação de outro ser humano, somos terrivelmente livres para fazer o que nos agrada.

Deus nos dá o que queremos, e se isto for o inferno, podemos tê-lo.
Temos este tipo de liberdade, este tipo de escolha. Somo livres assim.

Podemos usar machados se quisermos.

Então quando as pessoas dizem que não acreditam no inferno e não gostam da palavra “pecado”, minha primeira resposta é perguntar: “Você já se sentou para conversar com uma família que acabou de descobrir que o filho foi molestado? Repetidamente? Durante anos? Por um parente?

Algumas palavras são fortes por uma razão. Precisamos que essas palavras sejam intensas assim, carregadas, complexas e ofensivas, porque elas precisam refletir as realidades que descrevem.

E é isso o que encontramos no ensinamento de Jesus sobre o inferno – uma mistura volátil de imagens, figuras e metáforas que descrevem as experiências e consequências bem reais de se rejeitar a bondade e humanidade dadas por Deus. Algo que todos temos liberdade para fazer, a qualquer tempo, em qualquer lugar, com qualquer um.

(extraído de Love Wins, páginas 70-73)